É notável constatar que sempre que revisto, A Canção de Lisboa (1933) gera um espantoso frisson cinematográfico que faz lembrar que esta é uma das obras mais especiais do Cinema europeu dos anos 30. O primeiro filme sonoro da cinematografia portuguesa é estilisticamente brilhante, com uma narrativa para a altura inovadora (que serviu de molde ao que se convencionou chamar de ‘Comédia à Portuguesa’) e com interpretações inegualáveis (e nunca mais repetidas) por um cast de luxo.
A Canção de Lisboa enquadra-se de um certo Cinema de comédia que observa os ‘sentimentos’ urbanos da altura, tipo esse com uma expressão mais marcada no continente europeu mais no final da Segunda Grande Guerra, e que tem como apogeu o cinema britânico dos estúdios da Ealing. Este filme parece até ser o irmão mais velho de outro delicioso documento citadino, o já comentado Passport to Pimlico, que possui exactamente o mesmo tipo de sentido cómico (com um leve sarcasmo e simultaneamente sentimental) sobre uma Londres ‘bairrista’ do pós-guerra.
Um dos mais saudáveis documentos sobre a cidade de Lisboa, e por acrescento da Portugalidade (seja lá isso o que for), a obra prima (e único filme) de Cottinelli Telmo é um daqueles irresistíveis filmes que parece definir de forma plena a confusão essencial do que é ser Alfacinha e os seus paradoxos. Pelo filme dentro temos os mais significativos ‘atropelos cívicos e sociais’ (roubos, cenas de pancadaria, alcoolismo, abuso de poder, desrespeito pela autoridade a roçar a anarquia, brejeirice quase ordinária, burla, etc,etc) mas também uma poderosa amostra sentimental e humoristica da cidade nos seus anos 30, com as suas personagens bairristas irresistivelmente cómicas, desordeiras e de ‘pêlo na venta’ e por vezes interesseiras e ‘maldizentes’, mas sempre revelando um sentimento solidário e qualidades humanas válidas e equilibradas.
Mais do que um filme datado e marcado pelo idealismo do fresquinho Estado Novo, como seria claro e evidente no menor e tardio Pátio das Cantigas (1942) de Francisco Ribeiro, A Canção de Lisboa e um irresistível pedaço de cultura popular (e pop) portuguesa ainda activo, servindo-se como cenário a lindissima Cidade da Luz e usando as bairristas festas dos santos populares como o calendário onde toda a expressão dessa mesma cultura (também ela sentimentalmente acordada). De resto esta obra usa exactamente as mesmas características de manifestações do sentimento popular actual, na sua expressão ‘bairrista’ e ‘nacional’, em todo semelhantes aquelas recentes, aquando a chegada da Selecção Portuguesa de Futebol à Suiça para participar no actual Europeu.
Longe de tentar enquadrar-se com na recente ideologia do ‘Ser Portugues’ da época (como é explícito no já citado Pátio das Cantigas), e mesmo tendo presentes todos os elementos do que seriam os bastiões dessa mesma ideologia (família, a religião, os valores tradicionais, a ‘verdadeira cultura’ portuguesa), A Canção de Lisboa mostra muito mais um lado exagerado e subvertido desses mesmo elementos ideológicos, parecendo mesmo um filme sem quaisquer cortes censurantes, aproveitando uma altura de ainda 'consolidação' do regime. 75 anos passados, este filme consegue ainda hoje revelar o seu apelo popular talvez porque deixa de parte qualquer contrução artificial dos sentimentos (e de um patriotismo absurdo que viria a tornar-se cada vez mais agudo após os anos 30), revelando em vez disso (e de forma parodoxal) um sentimento popular muito mais legítimo e verdadeiro que poderá ser apontado como o puro bairrismo lisboeta. Simplesmente genial.
Quarta-feira, Junho 18, 2008
Lisboa, 1933
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Terça-feira, Junho 17, 2008
Transportes Públicos, Desejos Privados (2)
Durante uma tão esperada e merecida pausa na fuga feita no velhinho eléctrico 133 pela Cidade do Mexico, Juan 'Caireles' (Carlos navarro) cai numa vertigem ao ver a perna exposta da bela adormecida Lupita (a electrizante Lilia Prado), para depois ter um momento ‘castrador’ e cobrir a liga da eroticizada perna de Lupita, revelando o seu amor mais platónico que carnal e a sua cobardia amorosa.
Mesmo sendo um dos filmes menos apreciados pelos fans de Buñuel (sobretudo do seu ‘período mexicano’), a comédia La Ilusión Viaja en Transvia (1954) consegue mesmo assim ter subliminarmente alguns dos temas centrais do universo de um dos maiores realizadores de sempre. Relatando a estranha aventura de dois mecanicos dos carros electricos da cidade que, durante uma bebedeira, roubam o condenado eléctrico número 133 (destinado à sucata no dia seguinte) para lhe dar a sua ‘última viagem’, encontrando inúmeras personagens e situações inesperadas que os farão andar perdidos e em fuga das autoridades durante 24 horas, sempre sobre os carris do sistema de electricos da cidade.
Uma cómedia ‘sóbria’ com o marcado cariz social, La Ilusión Viaja en Transvia parece querer reflectir sobre os sentimentos humanos como a amizade e a solidariedade e fazer um statement sobre os desiquilíbrios da condição do ‘homem social’, muitas vezes subjugado por padrões sociais repressivos (e que Buñuel ‘exemplifica’ durante a catita sequência da performance do grupo de teatro amador). Mesmo dizendo isto, e sendo este um dos poucos momentos onde o simbolismo buñueliano emerge de uma forma inequívoca, La Ilusión Viaja en Transvia possui tambem ele uma metafora fetishista, com um objecto central (o eléctrico) que se metamorfosea de forma ilusória nos desejos e ilusões das personagens.
Poderá não ser uma obra forte de Buñuel (de facto é um dos filmes menores de um dos maiores realizadores europeus de sempre), e também não ser um exemplo forte do fetishismo (e Surrealismo) do autor de magnífico Tristana (o seu opus fetishista, curiosamente também ele ligado às questões freudianas das pernas da personagem central), mas La Ilusión Viaja en Transvia é um curioso filme deste realizador, onde o latente ganha uma importância central, ao contrário de quase todo o resto da sua obras, mais mais simbolistas, poderosas e até chocantes.
Aconselhado apenas a moradores da Cidade do México ou a fans incondicionais do realizador.
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Domingo, Junho 15, 2008
Transportes Públicos, Desejos Privados (1)
Chico (José Amaro) avança altivo para o início da corrida contra Luís (Óscar de Matos), ignorando que poderá por em risco as lavadeiras que normalmente transporta para fazer as suas entregas em Lisboa. Ao seu lado na carroça, Gracinda (a extraordinária Beatriz Costa) apenas deseja o amor de Chico, estando completamente desinteressada nas suas proesas machistas. Neste início de sequência magnifica, onde os cavalos das duas carroças serão conduzidos de forma desenfreada (usando técnicas de movimento soberbas, da ‘escola soviética’), revelando uma fúria descontrolada. O movimentos frenético desta drag racing de carroças cheias de trouchas de roupa e lavadeiras de Caneças é exactamente o oposto da expressão de Gracinda, que se mantém sempre composta na sua paixão, mesmo quando o faz transparecer ao distraído Chico.
Um dos marcos do Cinema português e (mesmo algo datado) um dos filmes mais interessante da produção nacional de sempre, A Aldeia da Roupa Branca (1939) é um das mais deliciosas visões da zona rural que rodeava a capital portuguesa, um documento ambíguo, simultaneamente usando os modos rudes dos campónios para fazer comédia (por vezes de forma paternal) e simultaneamente dando uma visão algo grotesca dos modos das ‘pessoas da cidade’, sofisticadas mas sem freio na forma como tentam agarrar uma vida ilusória e vaidosa.
Um filme de Chianca de Garcia com visíveis traços de concordância com a então política do Estado Novo, A Aldeia da Roupa Branca vai mostrando as ‘gentes portuguesas’ como simples (ou simplórias), com os seus defeitos mas também com amplas virtudes, que aceitam o seu destino mas que por vezes tem também que ‘inovar’, abraçando os ‘novos tempos’, como o final exemplifica sem equívocos. Mas para lá desta visão 'condicionada' pelo idealismo (e irónica por vezes) dos habitantes da zona Saloia dos arredores de Lisboa, que exemplificam um boa parte da população portuguesa da década de 30 (e com expressão ainda hoje activa, basta ver qualquer episódio da extraordinária Liga dos Últimos), fica também a ideia que este filme revela o desejo de legitímar uma portugalidade nostálgica (simpática é certo, mas imaginária e imaginada pela propaganda da altura).
Um magnífico relato cómico quase documental desta zona rural e pequenina (em vários sentidos), encostada á ‘metrópole’ central de um império ainda presente na altura, em pequenos pedaços espalhado por todo o globo.
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O Brilhante Sorriso Capitalista
Uma sarcástica reflexão da economia implacável do pós-guerra no Japão, Kyojin To Gangu (1958, conhecido internacionalmente como Giants and Toys) é talvez a mais a obra mais conhecida internacionalmente de Yasuzo Masumura, um dos realizadores da nouvelle vague japonesa, e um das mais ambíguas leituras de um Japão prestes a tornar-se uma superpotência mundial, devido a uma frenética actividade económica, de resto documentada de forma perversamente cómica, neste filme.
Apoiada em si mesma num gag visual extraordinariamente inventivo e inesperado, o das numerosas cáries que esburacam a boca de Kyoko (Hitomi Nozoe), uma adolescente tornada a nova face promocional de uma das três maiores companhias de doces, a narrativa deste precioso acto de subversão cinematográfica é pontuada por algumas das mais irónicas leitura de uma ambígua sociedade que, tal como durante a Segunda Grande Guerra, se entregava de forma fanática a uma vivência social (e económica) que destrói a individualidade, o sentido crítico e as relações humanas a favor de uma ganância sem margens para escrúpulos.
Esta estranha ambiguidade é realçada pelas três personagens centrais da narrativa, com a já referida modelo do 'bairro da lata' Kyoko, com a sua atitude 'whatever' marcadamente a definir a emergente classe média, o executivo da companhia que a 'criou' para o olhar do público (Yunosuke Itô, um actor que alguns reconhecerão em filmes reconhecidos como Samurai Assassin ou High and Low) e o seu sidekick Mishi (Hiroshi Kawagushi), o único que procura a redenção num mundo cão, onde os sentimentos são usados como recursos de espionagem.
Tal como uma das personagens reflecte durante o filme, olhando para os posters da desdentada Kyoko, que melhor maneira de descrever a ambiguidade da nova economia japonesa, senão vendendo caramelos mostrando as consequências ao público alvo? Masumura descreve essa ambiguidade de uma forma espectacular (por vezes a roçar os limites do hilariante, quase a fazer lembrar um dos maiores mestres do sarcásmo no Cinema, Billy Wilder), mostrando não só o recente capitalismo japonês moldado fortemente do 'exemplo' americano, como também explicando a exagerada dedicação dos salary men ao seu emprego, agora ao serviço de outros 'imperadores'.
Giants and Toys poderá não ser reconhecido como uma das obras primas da década, de resto marcada pela emergência de obras de realizadores bem mais 'visíveis' na década seguinte, que tornaria o Cinema japonês conhecido internacionalmente (Nagisa Oshima ou Shohei Imamura por exemplo), mas é uma daquelas obras de referência da nova vaga imperdíveis para qualquer cinéfilo, com um charme cómico inegável e com momentos inegualáveis de sarcásmo existencial.
Sábado, Junho 14, 2008
Livro das Férias (4)
Será irónico que esta compra apressada num aeroporto esteja em sintonia perfeita com os acontecimentos políticos Europeus da semana. Em dias de múltiplas greves por toda a Europa e da reorganização (finalmente) da Esquerda europeia, The Shock Doctrine (2007) da já prestigiada e reconhecida jornalista Naomi Klein é a perfeita leitura do começos de umas férias. Uma exacta aposta para acompanhar o desenrolar da situação económica actual, Klein faz uma muito mais profunda, séria e documentada leitura da 'actual crise' mundial, que inutiliza os já apressados e simplistas comentadores políticos, que vão olhando para um largo pinheiro sem se darem conta que estão já dentro de um denso pinhal que foi metodicamente plantado durante as últimas 4 décadas.
Se com No Logo: Taking Aim at the Brand Bullies Naomi Klein fez acontecer um quase 'movimento de consciência', mobilizando milhares de leitores a agirem contra a forma autoritária como as corporações regem os nossos gostos, o seu mais recente (já bestseller global) Shock Doctrine parece querer recuperar algum do sentido perdido pela esquerda europeia (e de certa forma mundial), através de mais um livro que tem todas as condições de se tornar um manifesto da 'jovem esquerda'. Klein descreve, nas suas mais de 500 viciantes e exactas páginas, como chegamos de forma plena à New World Order desenhada de forma impiedosa pelo Chicago Boys de Milton Friedman e como esta ordem, aliada a precisas formas de tortura (num sentido literal), testadas em doentes mentais nos EUA (também literalmente), nos deram a actual conjuntura mundial e a 'nova ordem' económica após invasão do Iraque.
De resto, como o título descreve de forma assustadoramente precisa, é sobre estes dois choques (o choque económico em pequenas economias desamparadas de forma a promover a supremacia do neo liberalismo selvagem e os choques eléctricos que percorreram e percorrem os corpos de milhões de seres humanos torturados em vários pontos do globo), que Klein nos dá um relato muitas vezes impiedoso, sem revisionismos nem figuras metafóricas, indicado de uma forma directa os actos maquievélicos da administração americana e da sua doctrina económica que foram acolhidos de forma por vezes entusiasmada por diversas figuras políticas de topo em vários pontos do mundo, dando origem ao actual 'Capitalismo de Catástrofe', que gera lucros indecentemente astronómicos usando as desgraças ambientais, de New Orleans à Tailandia, e os cenários de guerra provocados no Iraque.
Mesmo que este assunto tenha adquirido alguns contornos alucinados desde o 11 de Setembro, fomentados sobretudo por várias teorias de conspiração (algumas com algum fundamento), Klein dissipa desde logo quaisquer dúvidas sobre a abordagem ao tema, construindo um relato apenas estruturado (na maior parte das vezes) em fontes acessíveis a qualquer investigador. Com estas fontes Klein traça o caminho tomado pela clique económica neo-conservadora, que construiu para regimes ditatorias e democráticos de igual forma os seus programas de 'recuperação económica rápida' através de abrasivas medidas de destruição dos tecidos sociais e económicos locais para dar lugar a uma desenfreada onda de privatizações apressadas e vendas de patromónio a preços irrisórios e ao free trade sem consideração (literalmente) a quaisquer custos humanos.
Será ainda mais irónico quanto certo que Klein consegue provar com este seu novo relato que de facto o que aconteceu com o desaparecimento do muro e o desmatelamento apressado da União Soviética foi de facto o capitalismo, e não o socialismo (como de forma tão apressada e pouco exacta alguma Direita populisma indicou) tal como o conheciamos, dando origem a uma ordem económica e social sem qualquer consideração pela Sociedade e que eficazmente (e na maior parte dos casos violentamente) esmaga qualquer oposição democrática para o desmatelamento democrático a favor da pura Economia do mercado global.
De uma forma espantosa e metódita Klein faz-nos entender de forma global, não só a Nova Ordem metodicamente criada por Milton e anunciada por George Bush Sr. nos 90, como nos dá um relato sequencial dos seus testes em várias ditaduras mundiais nos anos 70 (Argentina, Chile, Brasil, Indonésia) e suas formas consolidadas (Rússia, Polónia, China, Coreia do Sul, Africa do Sul).
Uma leitura essêncial mesmo para aqueles mais atentos a algumas das realidades da actual ordem económica, Shock Doctrine é um exemplar relato dos 'tempos que correm', onde figuras do passado recente como Pinochet, Yeltsin, os 'eficazes' militares brasileiros ou Nelson Mandela rimam com o actual 'governo' do Iraque, com a administração Bush, os bilionários russos e o boom económico chinês e as suas lojas de 1 euro.
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Domingo, Maio 25, 2008
Perda e Perdição (5)
Uma das obras mais interessantes sobre o 'lado obscuro' de Tinseltown nos últimos anos, Hollywoodland (2006) insere-se na recente tendência cinematográfica do actual Cinema americano (dito) independente que vai recontando a história de algumas das personagens desconhecidas (ou esquecidas) da (por enquanto) maior indústria de entretenimento. Se obras como o magistral 'estudo ao negro' de Lynch Mulholland Drive (2001) ou o 'hyper-noir' (algo bacoco) Black Dahlia (2006) tinham já mostrando este fascínio pelo lado sórdido e obscuro do star system, que Hollywood Babylon de Kenneth Anger é de resto o molde, é nesta obra de Allen Coulter que este fascínio ganha uma leitura 'arqueológica', tentando recriar de forma tão histórica como simbólica as suas personagens, um pouco como outra semelhante 'reconstituição', Good Night and Good Luck (2005).
Começando pelo seu nome, a mensagem original que se podia ler na colina da cidade mais famosa de sempre (refiro-me claro ao outdoor de uma imobiliária que se tornou uma brand inconfundível de Tinseltown), Hollywoodland é fiel às origens de uma cidade que não se consegue definir apenas como um ponto geográfico no mapa, mas também uma marca vincada no inconsciente de praticamente todos os habitante do planeta Terra, na sua leitura (ou releitura) imagética da Realidade.
Contando alguns dos episódios que rodearam a investigação do suicído de um dos maiores ídolos infanto-juvenis da TV dos anos 60 (refiro-me a George Reeves, a primeira reencarnação 'humana' do Superman), este particularmente interessante 'pós-biopic' (conta a morte e não a vida) deste actor frustado que adquiriu um estatuto de ídolo americano junto dos pré-adolescentes (e suas famílias) dos 60s num meio cinematográfico 'menor', torna-se um estudo da personalidade psicológica de uma cidade e a sua influência nos seres humanos que interagem num espaço físico mas também mental, moldado pelo estrelato.
Um estilo visual, que poderá ser facilmente ser alcunhado de neo-noir, na sua forma mais honesta e não-forçada, salienta ainda mais um já de si fatal sentimento de queda e de perdição constante, onde todas as vidas são moldadas por uma volátil vontade de vencer (ou perder), como de resto o livro já citado de Anger é o exemplo máximo. Hollywoodland torna-se assim mais do que um 'filme sobre sobre os filmes', ultrapassando o 'estatuto descritivo' de alguns mais modestos biopics, para se tornar um estudo 'chiaroscuro' sobre as particulares condições do estrelato. Dizendo isto, este filme não será de forma alguma uma obra-prima do 'neo-noir' (seja lá isso o que for), reservado que está esse estatuto para o extraordinário Mulholland Drive, tendo algumas 'espinhas' narrativas que ainda puxam para um certo melodrama meloso, que vai tentando minimizando a perdição tanto da personagem de Reeves, como a do private eye contratado para investigar o dúbio suicídio.
Hollywoodland poderá não ser uma obra cinematográfica exemplar, mas o seu interesse será decerto intenso para aqueles que gostam de cinema sobre o lado oculto de Hollywood de forma linearmente descritiva. Pessoalmente, e depois do exemplar Gods and Monsters (que infelizmente nunca teve por aqui destaque, devido à falta de tempo para limpar o volumoso backlog deste blog) e da antiga (e bizarra) adaptação do já várias vezes referido Hollywood Babylon (1972) este foi o filme com tais características que mais me parece aproximar o espectador de tal universo, conseguindo baloiçar o seu interesse mais para o teor 'histórico' do que para o 'suculento' mas dúbio segredo escabroso.
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Sexta-feira, Maio 23, 2008
As Irmãs Catita (5): Kiiiiiii
Já por aqui invocada anteriormente, a loucura das Kiiiiiii tem um sample perfeito no primeiro DVD duo. Gold and Silver (2006) é um showcase bem catita da loucura das prestações ao vivo de Reiko Tada e Utako Tayama, do seu universo infantil distorcido e do fascínio pelo trash, glitter e kitsch dos anos 80.
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The "crazy little thing called Kiiiiiii" has released their first DVD - an action-packed half-hour of original songs, skits, live performances, promotional videos, movie parodies, special effects, set pieces, stuffed animals,and hand puppets. Follow Gold & Silver, the coolest two-girl band in their high school, battle with their rivals, u.t. and Lakin' from Kiiiiiii. The DVD also comes with a huge load of extras - outtakes, videos, secret scenes, and a musical exhibition of Kiiiiii's original illustrations. Bring the legendary Kiiiiiii experience into your home - today!
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Golden and Silver esta disponível para venda internacional, region free, através de pagamento por Paypal aqui e o trailer pode ser visto aqui.
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Gummy bear no chão, algures nos jardins do Royal Pavilion em Brighton, Maio de 2008. Post gémeo deste no Pipo69.
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Segunda-feira, Maio 19, 2008
Masculino e Feminino (7)
O mais recente filme de um dos actuais mestres do actual cinema espanhol ( refiro-me a Julio Medem) começa com uma poderosa metáfora: uma pomba branca em pleno vôo larga 'lastro' no olho de um implacável falcão, poisado na mão do tratador. Uma metáfora tão poderosa como, segundo me parece, falsa já que os pombos pertencem ao grupo de pássaros que não conseguem fazer tais descargas da tripa em pleno vôo. A ser verdade este facto, esta primeira cena de Caótica Ana (2007) poderá também servir para definir este filme de Medem, um realizador que, mesmo que não seja de agrado de muitos cinéfilos (sobretudo às dúbias 'bifurcações' nas suas obras, oscilando entre o estranho melodrama 'fantástico' com um simbolísmo gritante de forma desconcertante), conseguiu provar já que o seu cult following é justificado.
Tal como esta poderosa cena, rica simbolicamente e filmada de forma exemplar mas quase de certeza inexacta (sublinho novamente, segundo me parece), o restante filme parece avançar por terrenos particularmente interessantes, simbolicamente ricos, para descambar na confusão de já não conseguir traduzir a sua ideia base - a da importância primordial da Mulher como baluastre histórico, social e metafísico, num planeta completamente destruido pelo Ser Humano, com particular destaque sobre o seu 'elemento activo', o destruidor género masculino.
O que Medem tenta traduzir com a estranha história de Ana, uma estudante de Arte que, através de hipnose, revela várias vivências/reencarnações de personagens histórias que foram sujeitas ao martírio e à morte violenta às mãos de sádicos carrascos (masculinos), é de resto a base de algumas teorías de 'sustentabilidade social' actuais, que de forma inteligente, afirmam que as actuais sociedades de países em vias de desenvolvimento necessitam de forma vital de dar liberdade, poderes iguais e educação às mulheres, de forma a conseguirem um desenvolvimento mais rápido. E se Medem consegue facilmente traduzir essa ideia até ao meio do filme, misturando esta visão com um misticismo por vezes algo forçado, todo o filme se torna no cáos invocado no título, quando descamba para a uma mistura visual entre um videoclip New Age e um dúbio anúncio de TV, onde nem o produto a comprar não está claro.
Embora o core ideológico do filme esteja intacto (por vezes até demasiado explícito), servindo de um poderoso elogio do 'elemento feminino' no planeta Terra, o facto é que as mutações narrativas do filme, extremas entre uma abstracção entre o simbolismo feroz e o realismo crú (também erótico, uma marca de Medem) tornam esta obra um exercício filmico facilmente irritante e que atira o espectador para uma confusão cínica, que o torna um esforço vão e camuflado de masturbação do ego.
Podendo estar a ser algo injusto com esta obra de Medem (que de resto é um dos meus realizadores favoritos, para o bem e para o mal), parece-me que Caótica Ana será muito mais um 'remoer' de fantasmas do realizador devido à perda da irmã, a artísta plástica Ana Medem, justificados de qualquer forma pela sua visão (algo dúbia, mas legítima) da Mulher. Mas as suas deambulações narrativas e visuais, erráticas, pouco credíveis e com uma metafísica 'coxa' de sentido, tornam este filme uma experiência simultaneamente inesquecível e irritante.
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Domingo, Maio 18, 2008
Speed Metal (2)
Depois de encontrar o homem que o atropelou (Tomorowo Taguchi), o fetishista de metal (Shinya Tsukamoto) convoca-o para o combate final. Ambos foram simultaneamente amaldiçoados e abençoados com uma bizarra metamorfose que tornou os seus corpos uma amalgama de metal e carne e agora confrontam-se até à fusão máxima.
Mais de 15 anos depois de ter visto Tetsuo (1989, aka Tetsuo the Iron Man) não consigo esconder o 'espanto de ficar ainda espantado' por rever umas das obras mais significativas do cinema japonês dos anos 80. A obra de estreia de Shinya Tsukamoto é simultaneamente algo datada, tendo em consideração sobetudo a obra do mestre Sogo Ishii (de que Tsukamoto parecer ser o principal e mais aplicado discípulo), mas impressivamente influente como poucas, uma daquelas viagens cinematográficas frenéticas que definem quase um estilo de forma global.
Como todas as obras mais dentro de um 'estilo' que o próprio 'estilo', Tetsuo define muito do que foi a imagem alternativa dos anos 80, uma estética visual oculta que não arrastou multidões mastigadoras de pipocas às salas de cinema convencional e cujos sons distorcidos não figuraram nos top ten, ocupados na altura com a sempre boçais bandas mais preocupadas em manter os penteados alinhados debaixo de espessas camadas de laca e a fatiota de lantejoulas a brilhar com o glam barato, mas que mesmo assim definiu (ou ajudou a definir) algumas das 'metamorfoses' da cultura pop na década seguinte. De resto Tetsuo está no mesmo patamar de influência estética de 'fenómenos sónicos' tão próximos como os sons dos Einstürzende Neubauten, Young Gods ou dos Throbbing Gristle geraram, ou (mais oportuno ainda) as metamorfoses do corpo na cultura pop que as iniciais obras de Cronenberg definiram como regra.
Tsukamoto parecerá menos preocupado no aprofundamento desta temática do corpo, fazendo mais uma leitura cyberpunk apocalíptica do cinema Kaiju (cinema de monstros japoneses), mas tudo nesta obra apela para, simultaneamente, o desvelar as metamorfoses corporais que têm o seu apogeu com o já tardio Crash (1996) de Cronenberg, e das metamorfoses mentais, também surreais, que Lynch explora em algumas das suas obras, de uma forma 'impressionista', algo que parece também interessar a Tsukamoto, que vai revelando esse interesse em obras posteriores, já mais afastadas de um entusiamo low budget que marca esta obra.
Um já clássico do cinema japonês, Tetsuo the Iron Man é uma obra a descobrir ou a revisitar, celebrando um dos filmes mais inovadores e intensos do cinema independente que fechou a década de 80 e que, mesmo que marcado por uma certa impulsiva energia crúa, abriu as portas a outras explorações mais reflectidas.
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António Marialva, Homem da Bica
É vergonha por levar mais de 7 anos para ver isto, mas um presente recente e acabadinho de ser visto revela-me um dos melhores filmes europeus da década, uma obra em espasmos de vertigem cinemática difíceis de ultrapassar na sua criativa e inovadora forma de contar uma história clássica, isto quando actualmente o Cinema vive simultaneamente (e paradoxalmente) uma das mais radicais mudanças técnicas,com o digital a substituir o celuloide, mas simultaneamente uma das mais visíveis falta de creatividade, devida sobretudo pelo desmoronamento do Cinema mainstream.
Isto não quer dizer que A Janela (2001, na sua espantosa versão Maryalva Mix) de Edgar Pêra seja uma completa inovação visual na obra de um realizador que desde sempre foi de uma inovação criativa perturbante, infelizmente sem edições em formatos 'convencionais' (quer on-line ou em DVD) e cujo reconhecimento passou sempre ao lado, em Portugal e no restante globo, ficando confinada numa pequena clique de culto. Pêra sempre foi um dos mais excitantes realizadores portugueses contemporâneos, usando o seu conhecimento profundo sobre as raízes do Cinema para desconstruir (sobretudo usando o formato video) as imagens e sobrecarregar os seus filmes com significados gráficos simultaneamente múltiplos e amalgamados numa unidade assustadoramente única, como todos os frutos dos voyeurismos cinematográficos.
A Janela é a sua obra prima mais 'formal', aquela que devido ao formato e edição (nas salas de cinema e posteriormente em DVD) aproximou o realizador do público mainstream, mas também (do que conheço) o seu filme mais completo e complexo, aquele que facilmente poderá ser visto como uma obra prima completa e absoluta, onde qualquer frame dos seus mais de 100 minutos é perfeita.
Filmado no bairro típico lisboeta da Bica, A Janela é uma obra voyeuristica que tentando contar os motivos de um aparentemente crime passional, vai em vez desfiando as vidas de várias personagens feministas do bairro, 7 (?) ao todo (todas elas interpretadas de forma espantosa por Lúcia Sigalho), todas elas ligadas simultaneamente de paixão e pelo matrimónio a Antónyo, o leviano 'coração da Bica', que é visto pelas personagens femininas de forma e com características completamente diferentes, também interpretado por 6 actores diferentes.
Gera-se com esta multifacetada fragmentação das personagens femininas e masculinas (e dos vários actores e actriz) um caleidoscópio cinematográfico impar e viciante, revelando de forma simultânea influências no cinema de comédia português dos anos 40 (também este 'bairrista' e popular) e num certo camp melodramático, muito usado por certas tendências indie americanas (sobretudo aquelas exploradas pelos Kuchar e por Waters), que descamba numa hilariante batalha visual, onde uma montagem e banda sonora freneticamente 'impressionista' encaixa a quase multidão dual das várias personagens.
Como se não bastasse, tudo isto é composto visualmente através de 'partições' no ecrã, úteis para revelar diferenças perspectivas ou para quebrar vários tempos narrativos de forma comparativa, mostrando de forma espectacular os varios túneis de realidade destas personagens. O uso de terminologia 'Wilsoniana' não é de alguma forma gratuita, já que Pêra sempre mostrou particular fascínio por Robert Anton Wilson, dando a esta espantosa misturada estética uma composição formal de contornos 'neuro-punk'.
Pêra contrói o seu bairro da Bica de forma emocional (ou 'impressionista' como já dito), revelando-se na multiplicidade das várias personagens (como o seu alter ego, Sr. Ego revela) e simultaneamente (e de forma bipolar, não existissem já partições suficientes) tornando-se o narrador, aquele voyer que vai observando de forma obssessíva através da janela os comportamentos apaixonados das suas personagens, revelado também como o outro alter-ego de Pêra, aquele que estrutura o filme visualmente, o Sr. Câmara. E esta Bica emocional, como visualmente se revela, é o palco da vivência das mulheres que Antónyo ama de igual forma e sem complexos (e que não consegue definir de forma coerente) e onde essas mesmas mulheres procuram de forma rival, fazer viver o seu Antónyo idealizado (que vêm de forma contrastante e sem sentido), tentando destruir a competição e até o próprio objecto amado, se tal for necessário.
Pelo caminho já nada do aparentemente macguffin inicial (o crime passional) interessa, apenas interessa a metamorfose que o 'Eu' (ou 'Eus') de Antónyo vão sofrendo aos olhos dos espectadores, através de uma hilariante e confusa mistura cinematográfica que, tal como os boatos de bairro debitados pelas linguarudas alcoviteiras, tanto revelam a verdade absoluta como o engano distorcido, disparado pelas percepções pessoais de cada uma das personagens, sobretudo as femininas. E quem é Antónyo e as suas várias 'Marias' (ou Maryas) afinal senão a própria expressão do que é a Lisboa emocional que qualquer um dos seus habitantes (passados, presentes ou futuros) vive, o paradoxal estado emocional, que tanto é animal como choramingas, tanto pretende ser santo como é mentiroso e que através da soberba e do secretismo consegue encontrar uma forma de vida destilada pela alquimia da Cidade. Afinal, como este filme mostra, em Lisboa o real da Realidade não interessa, apenas o seu real sentimental, um pouco como Antónyo Santynho (o inegualável Manuel João Vieira) afirma, quando fala do Fado ser Vida, dizendo-o de forma disparatada mas acertada.
Numa altura que certos realizadores 'alternativos' conseguem finalmente furar a ignorância sobre a sua obra através de várias networks sociais on-line (um exemplo recente mas já clássico será o do espantoso Guy Maddin, 'formalmente' idêntico a Pêra, mas que se tornou em 8 anos uma vedeta do novo cinema alternativo devido à sua presença no youtube), é talvez agora altura de descobrir um dos maiores realizadores 'lusoh-galathycos' de sempre. A corrente edição de A Janela (Maryalva Mix), infelizmente sem venda on-line visivel, esta carregada de extras que complementam um já de si perfeito exercício cinematográfico, poderá ajudar tanto aqueles que desconhecem completamente a obra de Edgar Pêra, como aqueles que ao longo dos anos foram tentando acompanhar a obra do realizador, com uma escassa edição. Imperdível.
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Sábado, Maio 17, 2008
Sexy Prelinger
Nunca é demais louvar a soberba biblioteca video que Rick Prelinger foi disponibilizando ao longo dos anos na secção de Moving Images do Internet Archive, que adquiriu já um peso brutal de obras arquivadas que podem vistas ou guardadas no disco de forma livre e legal, respeitando os canons educativos do Creative Commons.
Num arquivo tão extenso é natural que também algumas bobines de velhinhos stag films ou rotinas de burlesco dos anos 50 e 60 estejam também representadas, já que também estas obras vintage são também uma importante fatia do chamado 'cinema efémero' que o Prelinger archive se especializou, que com um estatuto de objectos quase proibidos na altura, se tornam agora objectos de culto de um fascínio claro devido à sua raridade e candura, quando comparados à actual pornografia.
King of Vintage Collection
Stag Films
Burlesque and Strippers
Recomendado sobretudo aqueles à procura de tintilações vintage on-line. Já agora, para os mais distraidos, fica aqui uma explicação, também em video, sobre o Archive.
Speed Metal (1)
Enquanto o irmão Ta Chi vai levando uma coça dos indestructíveis (e algo apalermados) robóticos homens de bronze, o irmão Wan (Carter Wong) confronta o ultra rápido 18º guerreiro de bronze que, se derrotado, lhe dará o estatuto de verdadeiro guerreiro de Shaolin. Se conseguir, Wan poderá finalmente vingar a família que à 18 anos atrás foi chacinada às mãos dos invasores da Manchúria. Fixe!
Um clássico do cinema de Kung Fu de Hong Kong, este The 18 Bronze Men (1976, aka 18 Bronzemen) é talvez, acreditando em alguns comentários no IMDB, a obra prima de Joseph Kuo, um dos realizadores fora dos estúdios dos irmão Shaw mais conhecidos, sobretudo devido a Ninja Checkmate (1979), por causa da personagem Ghost Face Killer.
Produzido pela Hong Hwa International e filmado em 'hohwascope', (imitando os créditos do 'shawscope' tão universalmente reconhecidos devido a Kill Bill), esta cópia em DVD, resgatada ao pó de uma one pound shop, é a versão dobrada (e cortada) e com um crop de imagem que rouba alguma das espantosas e rápidas coreografias que ajudaram a criar o culto pelos filmes de Kuo, sobretudo nos EUA. Mesmo com alguma comédia involuntária à mistura e um chato crop da imagem, esta é a versão mais conhecida pelos fans do género e consegue transmitir porque é ainda hoje umas das obras essênciais para qualquer fan do cinema de acção de Hong Kong, imitada e com diversas sequelas para capitalizar o êxito deste objecto de culto.
Sexta-feira, Maio 16, 2008
Canção a Preto e Branco (2)
Parece que com a ascenção comercial de uma certa clique neo-new wave, tão enbasbacada numa nostalgia não vivida e que parece ser agora mais um produto que um estado de espírito tem vindo a picar a actividade de muita gente para repôr o culto algo gasto dos Joy Division, mantindo até agora pela geração dos 80s e ignorado por uma geração mais interessada até agora em mastigar imitações chatas ou em idolatrar vazios universos de plástico de falso negro pintado. E se Control (já por aqui e aqui comentado) veio trazer a luz a algumas cabeçinhas distraídas, um documentário acabadinho de estreia aqui no Reino Unido traz de volta todo o esplendor de uma das bandas britânicas mais relevantes de sempre.
Será decerto tão desconcertante como objectivo que o novo documentário de Grant Gee tenha o simples título de Joy Division (2008), quase que a anunciar os seus objectivos de manter as coisas objectivas e simples, deixando cair a paspalheira mitológica (e 'mitográfica') para tentar provar apenas pelo recontar da banda e da análise do que mais interessa sobre esta (a música, pois claro!) é possível chegar a resultados muito mais arrepiantemente reveladores que a costumeira propaganda que compõe os actuais documentários e biopics musicais.
Gee afasta desde logo os detritos próprios dos documentários rock, evitando sempre que possível aquele pitch de culto que normalmente tolda a visão objectiva e que alimenta o mito, dando em vez disso voz aos principais intervenientes, que talvez sentido o teor sóbrio e objectivo de Gee, avançam sem as balelas costumeiras e explicam de forma interessante (e vital) o percurso de uma simples banda, que formada numa das cidades mais pobres e províncianas da Inglaterra dos anos 80, se tornou um dos símbolos máximos da verdadeiro teenage angst. Gee vai focando-se sobretudo no que rodeava realmente o som da banda, as suas nuances emocionais, as suas patterns sónicas, a sua composição humana. E até mesmo a eloquência reconhecida a Tony Wilson, que afirma que este documentário é realmente sobre uma cidade que em menos de uma década passou de um estado semelhante a um cenário de um desastre industrial para uma das relevantes cidades do Reino Unido (em todos os aspectos), parece acertar em cheio no alvo da objectividade com que o realizador compôs esta obra.
O resultado é o melhor filme (documental ou não) sobre ou com os Joy Division de sempre, um trabalho composto simultaneamente (e paradoxalmente) com o amor íntegro e comovente de um fan e um despojamento emocional quase desconcertante, deixando o público (seja ele friend or foe dos Joy Division) convencido com a relevância da banda e comovido com um dos relatos pequeno mas mais extraordinário , desvelando o verdadeiro valor mitológico (sentido várias vezes durante o documentário) de uma das bandas mais interessantes e influentes das últimas 3 décadas, sem recorrer a clichés e manifestações de megalomania.
Essencial para os fans, revelador para os indiferentes.
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A Prenda das Férias Curtas
Segunda edição, especial e numerada, de Wanya: Escala em Orongo (1973).
Obra seminal da Banda Desenhada portuguesa, autoria de Nelson Dias (desenho) e Augusto Mota (texto), Wanya (ou Vania) é agora resgatada ao esquecimento para um público mais numeroso devido a esta edição da Gradiva e o esforço de Sara Franco, que organizou a edição.
Uma obra espectacular, com tanto de datado como de emergentemente recente, Wanya será decerto um objecto de desejo de todos aqueles pertencentes à clique da banda desenhada, sendo de certeza uma obra interessante de ser traduzida para outras línguas, de forma a tornar-se uma referência global.
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Título seminal da Banda Desenhada portuguesa da década de 70 do Século XX e uma das raras incursões nacionais pela BD de ficção científica, “Wanya, Escala em Orongo” acaba de ser reeditado pela Gradiva numa edição especial numerada, lançada 35 anos depois da primeira edição e 15 anos após a morte de Nelson Dias, o desenhador.
Publicada originalmente em 1973, em plena “Primavera Marcelista”, “Wanya” é claramente filha do seu tempo, tanto em termos estéticos, como literários. Filiada numa corrente de ficção científica da Banda Desenhada francesa, em que o erotismo se alia ao comentário social, lançada pelo editor Eric Losfeld, de que “Saga de Xam”, de Nicolas Devil, é o exemplo mais importante e influência directamente assumida pelo desenhador, “Wanya” demonstra que o impacto desta obra, e de outras como a “Barbarella” de Jean-Claude Forrest, também editada por Losfeld, se fez sentir em Portugal, apesar da censura que dificultava o acesso a este tipo de BD mais adulta e “engagé”.
João Miguel Lameiras, Dr Kartoon | Ler o resto
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Comprar Wanya on-line aqui.
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Quinta-feira, Maio 15, 2008
A Compra das Férias Curtas
Colecção de 3 réplicas de Hi Panda, do artísta chinês Ji Ji, da exposição China Design Now no Victoria & Albert, Londres, até meados de Julho.
Disponível também on-line na V&A Shop.
Nota: Sendo uma exposição ambígua, entre a propaganda descarada e a divulgação bem intencionada, o interesse pessoal que tenho por esta exposição está sobretudo no núcleo sobre Shenzhen, uma cidade de fronteira a norte de Hong Kong, que foi o epicentro das artes gráficas do continente chinês, misturando as influências da vizinha Hong Kong com o grafismo conservador e milenar. Sendo o centro da indústria de impressão, Shenzhen tornou-se um local de encontro de uma nova geração de designers, cujo alguns trabalhos estão patentes na exposição (embora de forma expositiva algo mal pensada, diga-se) e a que Ji Ji pertence.
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Domingo, Maio 11, 2008
Masculino e Feminino (6)
Entre mystère et juvénilité, cruauté et compassion, quelle place la représentation de la femme asiastique occupe-t-elle dans l'imaginaire érotique occidental ?
Fascinante e revelador, o documentário Femmes Asiatiques, Femmes Fantasmes (2008), obra da realizadora Sophie Bredier para o canal franco-alemão Arte, é uma interessante visão sobre as concepções simbólicas, fantasias e idealizações estéticas e o fascínio corporal que a civilização ocidental foi construindo à volta das mulheres do extremo oriente, desde a época pré-colonial marcada pela descoberta exótica até às manifestações da cultura contemporânea, marcadas por uma exploração idealizada do corpo feminino asiático e por expressões pop ligadas às artes gráficas japonesas.
Também ela uma 'mulher asiática' (nascida na Coreia e adoptada quase à nascença por uma família francesa), Bredier vai entrevistando vários criadores e artístas gráficos de forma simultaneamente discreta mas de pontaria aguda, acertando nos fetishes masculinos, para revelar um conceito feminino inexistente e inexacto, um tipo de mulher que não existe nem nunca existiu.
De forma por vezes desconcertante, Bredier 'desvela' este conceito de um 'tipo' particular de feminino idealizado por visões e desejos masculinos, que parece ser tão aceite globalmente como correcta mas que se revela tão inexacto e por vezes até bizarramente ofensivo, mostrando neste documentário como os fetishes ocidentais moldaram a visão da mulher do extremo oriente.
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Masculino e Feminino (5)
Eva (Najwa Nimri) usa as suas skills profissionais de detective privado para perseguir o próprio marido, de quem desconfia ser-lhe infiel. O caricato da cena, que poderá ter até uma leitura quase cómica se isolada do restante filme, torna-se simultaneamente vergonhosa (devido à frieza profissional de Eva) e paradoxal, com a curiosidade da personagem feminina a conter traços de personagem normalmente associados a personagens cinematográficas masculinas.
Uma alegoria sobre a meia idade feminina, simultaneamente moralista e sentimentalmente 'positiva', Mataharis (2007) é a mais recente obra da realizadora Icíar Bollaín, conhecida pelo seu 'femininismo perspicaz', que através dos olhos de 3 detectives privados de Madrid (todas elas mulheres) vai relatando as diferenças sentimentais entre os dois sexos, colocando as mulheres num nível profissional 'igualitário', possivelmente para pôr de lado quaisquer questões sociais de parte e concentrar-se nos sentimentos das personagens.
O resultado é um filme humano que tenta encontrar alguma ternura na desilusão existêncial, com Bollaín a olhar de forma feminina para as questões das três personagens de forma idealista, mas sem cair num femininismo militante, uma muleta fácil neste tipo de cinema de 'género'.
Segundo parece este Mataharis será um filme mais singelo que Te doy mis ojos (2003), o filme que revelou esta também actriz como uma realizadora a ter em atenção, mas o resultado final, embora algo idealista, é satisfatoriamente interessante mas sem nunca ulttrapassar a fasquía da obra de referência.
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Sábado, Maio 10, 2008
Perda e Perdição (4)
Numa das mais silenciosas cenas de heist de sempre, Nishi ('Beat' Takeshi Kitano) entrega o saco a encher enquanto empunha a arma. A empregada do banco parece não tanto estar espantada com o inesperado da situação, mas com a sólida face de Nishi, imóvel mas reveladora de uma indiferença quase sobrenatural sobre a sua futura perda (já anunciada) e da perdição a que se deu para conseguir agarrar os seus últimos momentos de vida.
A obra-prima de um (ou talvez o) maior realizador japonês contemporâneo (vivo), Hana Bi (1997) é um dos filmes mais intensos e poderosos da década a que pertence, com uma poesia visual existêncialista ainda mais reforçada pelo carácter contemplativo que toda a formalidade fílmica de Kitano, marcado por um desprendimento narrativo que captam momentos-chave (afinal os que realmente interessam), despidos de alguma sequência 'formal', quase sketches cómicos offbeat (afinal o background de Kitano desde os anos 60).
A personagem de Nishi, representada pelo realizador, junta a sua futura perda (a da mulher, devido ao cancro anunciado como fatal) e à da filha alguns anos antes, a sua própria perdição, deixando o seu emprego como polícia para enfrentar os últimos momentos do que resta da sua família. E embora a leitura normal de Hana Bi seja a da resignação da personagem pela sua perda o facto é que, para Nishi, o assalto que permitirá compensar aquelas à sua volta e viver os últimos dias da companheira como umas verdadeiras férias de família é apenas o início da verdadeira vida da personagem, aquela livre de qualquer comprometimento social ou profissional, que pertence a todos mas que tão poucas vezes é alcançada.
Kitano entrega assim a sua personagem ao fulfillment máximo, aquele que é simultaneamente trágico e verdadeiro, captado como muito poucas vezes anteriormente no cinema, sem qualquer indício de melodrama e de uma forma tão despida que se torna desconcertante.
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Domingo, Maio 04, 2008
Simpatia pelo Diabo (3)
Mesmo que algo datado, o low budget mexicano Alucarda, la Hija de las Tiniebras (1978, aka Sisters of Satan), obra seminal do realizador mexicano Juan Lopéz Moctezuma, mantém ainda hoje um fascínio hipnótico que apenas algumas obras eleitas do género conseguem ter. Mesmo que muitas vezes citado como uma forte influência gráfica e temática (não só para outras obras cinematográficas, como também musicalmente e nas artes gráficas), esta brutal mistura de ensurdecedores gritos demoníacos, nun exploitation e lesbianismo (esta é afinal uma adaptação da novela de Sheridan Le Fanu), libertinagem sádica e gore é um igualmente repelente e fascinante objecto de culto, onde surreais imagens, filmadas de uma forma teatral e com um guarda roupa bizarro, dão a este filme um look and feel assustadoramente sedutivo.
Por vezes comparado, pessoalmente acho que injustamente, com o Exorcista (1973), Alucarda é um dos poucos filmes da nova vaga de realizadores mexicanos dos anos 70 que se pode incluir no género de terror, tornando Moctezuma um dos 'pais' do género (e influência estética) para o excessívo gore mexicano de fama mundial que despoletou nos anos 80. De resto Alucarda é muito mais semelhante a um outro marco do 'cinema de possessão demoniaca', o seminal, fundamental e graficamente excessívo Anticristo (de 1974, realizado por Alberto de Martino e com uma cena em tudo semelhante acima), do que a uma obra abertamente mainstream e com um certo pendor para o choque voluntário sem grande consequências sérias.
Esta obra prima de Moctezuma, embora com imagens algo chocantes, parece estar mais interessada em explorar a repressão sexual e o fascínio pelo proíbido e o oculto, frequentemente invocado pelas duas adolescentes 'irmãs do diabo', aproximando-se mais a filmes como Carrie (1976), que de resto faz uma homage interessante quase no final. Aqui o gore é mostrado, tal como em Carrie, através da simbologia do sangue 'divino', quer através de chagas 'místicas' ou da presença do sangue mestrual, que parece 'ornamentar' os estranhos (e surrealmente gráficos) hábitos brancos das religiosas do convento, evitando Moctezuma qualquer outro uso do sangue que não o 'simbólico', mesmo que abundantemente usado.
Mesmo descontando os efeitos especiais low budget e alguns pedaços de diálogo com pouco sentido, que poderão gerar alguns sorrisos nos mais desprevenidos, Alucarda é uma estridente mas honesta obra sobre a histeria religiosa, com um pendor claramente anti-religioso que lhe valeu muitas vezes o rótulo de propaganda satánica no católico México. Poucas vezes vista, devido ao seu polémico conteúdo e poucas edições em DVD, Alucarda é uma obra a ser re-descoberta, agora que faz 30 anos.
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