Tentando fazer algum sentido do que disse antes sobre o actual estado deste blog, e tentanto responder (ou desculpar-me?) a feedback de alguns leitores, parece-me ser a hora de revelar que o BitL está neste momento num limbo de inactividade oficial.
Encaixado entre uma actividade profissional cada vez mais exigente, as actividades extra-profissionais (ou ultra-profissionais) e as (recentes) actividades académicas, que começam agora a pedir mais atenção e seriedade, não me resta outra solução senão interromper a actividade do BitL até que as condições de tempo sejam propícias.
Durante estes quatro anos este blog foi o bloco de notas onde tentei fazer sentido (?) de alguns dos apontamentos mentais do que fomos lendo, ouvindo e sobretudo vendo cá por casa. Como diário gráfico teve muitas falhas (sobretudo ausências) pois seria impossível registar todas as possíveis entradas em posts, deixando para trás centenas destes. Por vezes falhou também em conseguir traduzir de forma 'decente' algumas das mensagens sobre as 'pepitas' que foram por aqui expostas, muitas vezes em textos algo deficientes e inexactos.
Mas mais do que estas falhas ficam uns valentes mais de 1000 posts que se foram dividindo entre os gostos caseiros, desde o mau gosto e o trash até à alta cultura, da Anime ao Avant-garde, da nova e exuberante cultura pop e das relíquias esquecidas pelo tempo, dos pequenos cultos discretos aos valores absolutos. No fundo tratou-se aqui da nova cultura popular, uma hyper-misturada conduzida pela curiosidade e o hedonismo (sobretudo) visual, largada por aí (por aqui) on-line, aprofundada em (literalmente) milhares de horas de pesquisa, interacção com pessoas de todo o mundo e reflexões escritas que apenas capturaram uma minúscula parte do que fui aprendendo ao editar este blog.
A todos aqueles que foram lendo, comentando e divulgando o BitL, resta-me apenas agradecer a generosidade e deixar a certeza que, embora ainda sem qualquer data pensada, este blog voltará às (mesmas ou semelhantes) actividades, mesmo que com outro nome e em outro url. As novidades de tal serão por aqui registadas, e aconselho o sign in da feed de RSS do blog para saberem algumas actualizações.
Obrigado e até ao mais breve possível!
Quinta-feira, Março 19, 2009
Sexta-feira, Outubro 31, 2008
Quatro
Mais um ano passou, um daqueles com muitos projectos simultâneos, pouco tempo e muitas audições, leituras e sobretudos visões que não conseguiram ficar por aqui registadas. Desde o final do Verão que o BitL tem ficado algo negligente e negligenciado devido a outras esquizofrénicas actividades profissionais e pessoais.
De forma a celebrar esta forma de registo, e porque existe tanta coisa que deveria ter ficado aqui registada mas que foi esquecida na longa lista de drafts no back office deste blog, o BitL está de repouso até ao final deste ano.
Escrever sobre 'artefactos' de prazer, 'objectos' de culto e propriedades sensíveis, sobretudo daquelas que gostamos, é um dever. Mas também é interessante agarrar outras actividades que acontecem aqui à volta no momento, agora que outros meios escritos requisitam tanto tempo, sacrifício de horas de sono e massa cerebral.
Serão registados por aqui updates sobre o estado de saúde deste blog e sobretudo registos de mudanças, no formato ou na localização, caso se justifiquem. Prometida fica a volta em Janeiro de 2009, depois de um intervalo que se quer curto.
Desde já gostava de agradecer a atenção e entregar um abraço aos poucos (mas bons) regulares que aqui vêem bisbilhotar. Até à volta!
Domingo, Outubro 12, 2008
Causa Nossa
Emocional e revelador, o documentário independente A Walk Into the Sea (2007) tenta desenterrar a memória de Danny Williams, um cineasta independente que pertenceu brevemente ao gang artístico da Factory de Warhol e que foi o director técnico da digressão multimédia Exploding Plastic Inevitable, antes de ter sido ostracizado e afastado da Factory por alguns dos artistas mais influentes e próximos de Warhol.
Mais do que narrar a história desta figura obscura (como outras) e enquadra-la na nem sempre justa descrição histórica da Factory nos 60s, a realizadora Esther B. Robinson está claramente mais interessada em confrontar os entrevistados com a súbita hostilidade e 'apagamento' de alguns factos conhecidos (e não confirmados) e com o posterior misterioso desaparecimento de Williams.
Robinson torna este documentário um tributo emocionado sobre a memória de uma figura oculta, remetendo-a para um lado 'humano' e fazendo deste filme uma 'causa' que tenta perseguir a verdade sobre a obra e (sobretudo) os dias finais de Williams. Não escondendo de resto que é a sobrinha do mesmo Danny Williams retratado, a realizadora torna este exercício pessoal, mantendo-o numa certa esfera 'familiar', algo que por vezes transpareceu durantes as entrevistas documentadas durante o filme, algumas a membros proeminentes da clique de Warhol (Paul Morrisey, Billy Name, Brigit Berlin, John Cale, Gerard Malanga). Paul Morrisey, directamente envolvido num particular episódio conflituoso com Williams, parece de resto agastado na maior parte das filmagens mostradas, algo que poderá ser devido a algum remorso (como a realizadora parece querer afirmar) ou talvez mais pela frontalidade intimidatória com que por vezes a entrevista parece ser conduzida.
A esta 'afirmativa' abordagem documental, Robinson acrescenta também alguns dos factos factos mais íntimos sobre a vida em comum do Papa da Pop e o seu temporário discípulo fíel, tornando este documento algo telenovelesco e estridente, e por ventura mais interessante e picante, para algum do público já tão habituado aos inúmeros documentários e biopics sobre acontecimentos gravitantes à Factory que são constituidos por lugares comuns, homenagens comovidas e muito 'labeculismo' artístico-intelectual. Mas o sabor brejeiro que por vezes alguns entrevistados deixam no ar, torna alguns destes momentos mais inéditos algo superficiais, basta ver algumas das intervenções de Danny Fields ou Billy Name.
Nem só de roupa suja este documentário é constituido, e Robinson revela vários minutos de imagens inéditas (sempre interessantes) sobre a clique em redor de Warhol, actualmente pertencentes ao espólio da familia do realizador, e exibe na quase integralidade um desaparecido filme de Williams, que rapidamente revela que os rasgados elogios que alguns dos companheiros de armas do realizador tecem são fundamentados. São de resto estes mesmos realizadores e técnicos, como os realizadores Chuck Wein ou Ron Nameth, que sugerem que talvez Danny Williams, se tivesse produzido mais trabalho visível para Warhol, teria decerto moldado muita da produção cinematográfica da Factory, que a partir de certo ponto caiu sobre controlo total nas mãos de Paul Morrisey.
Um documentário bem mais recomendado a 'iniciados' na obra cinematográfica de Warhol do que a desconhecedores da obra filmica deste periodo, A Walk Into the Sea possui momentos que particularmente dispenso, mas que consegue de repente ganhar um interesse vital devido à footage inédita que apresenta, decerto interessante para os fans da fase mais experiemental da produção cinematográfica ('pré-sonora') da Factory.
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Domingo, Setembro 28, 2008
Nostálgicos Objectos Identificados (1)
Mesmo sendo algo que alguns cinéfilos vêm com algum repúdio existir, alguns filmes de 'imitação' estética como La Antena (2007), realizado pelo argentino Esteban Sapir, parecem querer fazer lembrar que existiu uma altura na história do Cinema (sobretudo - mas não só - europeu) em que as poética estética cinematográfica não se resumia a imagens 'mastigadas' culturalmente para comodidade do espectador. Não quero com isto dizer que este impecável exercício estético seja impenetrável pelos seus potênciais espectadores, mas que a sua mensagem é perceptível universalmente, se para isso necessitar de alguns artifícios modulares do cinema moderno.
Apoiando a sua estética no cinema avantgarde europeu dos anos 30 (sobretudo Dada e Surrealista), La Antena é um magnifico exercício simbolista sobre a repressão da liberdade de expressão e dos modernos instrumentos de comformidade e escravidão social, e das consequências práticas da submissão cega e não questionada aos poderes instituidos. Sendo talvez um filme demasiado 'simbolista' e 'estético' em termos de significado, decerto que esta obra de Sapir poderá tornar-se pouco exposta ou até não levada muito a sério nos tempos cínicos que correm, embora seja já um objecto de culto, talvez porque pareça mais imitação do que réplica cinematográfica, tornando-se kitsch como todos os exercícios nostálgicos.
La Antena tem contudo um valor automático de ser uma bela 'reflexão gráfica' (ou plástica) de um tipo de cinema que, por distracção, desconhecimento ou simples negação, hoje está algo esquecido embora seja (parodoxalmente) uma influência plástica para muitos dos produtos visuais contemporâneos (lembro-me de alguns videoclips musicais) consumidos sem consequências.
Um magnífico objecto identificado com uma 'nostalgia visual' de vanguarda, que em parte constitui parte forte de uma certa cultura visual contemporânea, La Antena é decerto recomendado não só aqueles que poderão facilmente identificar as suas fontes visuais, mas também ao público algo saturado da parafernália dos efeitos especiais do actual Cinema mainstream.
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Sexta-feira, Setembro 26, 2008
Caspa na Tola (1)
Depois do anterior post sobre Santiago Segura era inevitável (se bem que evitável) um pequenino comentário às duas curtas metragens que abriram a hostilidade de mau gosto ibérico que é a carreira desta personalidade incontornável do pós-pós-modernismo pop espanhol. Anos antes de José Maria de El Dia de La Bestia ou José Torrente, o alter-ego de Segura era Evilio, uma tétrica e 'desgostante' personagem que se diverte a torturar até à morte colegiais enquanto vai debitando hilariantes mensagens moralistas.
Os cerca de 20 curtos minutos que compôem Evilio (1992) e Evilio Vuelve (1994) foram suficientes para tornar Segura uma das mais conhecidas e mediáticas figuras da Espanha contemporânea. Com a primeira curta o seu já reconhecível estilo cómico-choque-javardo tornou-o uma estrela do underground das tribos urbanas de Madrid, e se Perturbado (1993) lhe deu um Goya como 'melhor curta espanhola' desse ano, é com Evilio Vuelve que o mainstream começa a notar o sucesso do actor, consolidado com o jevi (heavy) José Maria em El Dia de la Bestia, um dos maiores sucessos cinematográficos espanhóis de sempre.
Muito mais virados para o universo slasher (no final de uma era de video nasties) com um ofensívo e hilariante humor (centrados nos monólogos incoerentes e moralistas de Evilio), ambas as curtas metragens são actualmente algo raras de serem vistas, talvez devido ao seu conteúdo 'desconcertante'. Tendo caído numa obscuridade de culto que se foi propagando não só com a popularidade de Segura (ainda hoje uma das celebridades mais reconhecíveis em Espanha!) mas também com o culto underground pelo cine casposo com que o realizador/produtor/actor/cómico fez a totalidade da sua carreira, Evilio e a sua sequela são pequenas obras de mau gosto que decerto serão apenas imprecindíveis aos fans de Segura, com um 'grão fílmico' underground algo distinto das suas actuais produções.
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Segunda-feira, Setembro 22, 2008
Duplicidades em Sessão Dupla (2)
Sendo um franchising europeu já incontornável, e seguindo este post antigo sobre o espécimen ibérico José Luís Torrente, seria inevitável uma sessão dupla para entender por que é que esta criação do bizarro Santiago Segura conseguiu ultrapassar recordes de bilheteira em Espanha e tornar este actor/produtor/realizador uma das figuras mais reconhecidas do star system ibérico. Nesta dupla sessão, uma visão de Torrente 2: Misión en Marbella (2001) seguindo de Torrente 3: El Protector (2005), consegue-se constatar que esta paródia javarda aos filmes do 007 com um macho ibérico como centro possui um carácter subversivo imperdível.
Se o quase insuportável mau gosto do primeiro filme parecia criar novos paradigmas do cinema de paródia, as duas sequelas seguintes vêem trazer mais brilho à jarvardeira cómica em que Segura normalmente chafurda, fazendo um upgrade do primeiro filme, um dos tesouros pós-moderno do Cinema espanhol, injectando um budget mais chorudo nos filmes para entregar de forma luxuriosa mais umas valentes descargas de mau gosto hilariantes.
Talvez o mais comercial dos três, Torrente 2 é aquele onde as facetas mais asquerosas do character de Torrente são 'amaciadas', tornando-se um espectacular exercício de acção com comédia absurda. Mesmo com os 'habituais' abusos cómicos (traficantes de droga a trocarem com crianças doses de heroína por cromos do Pokemon, aparatosos acidentes poucas vezes vistos e muito sleaze porco e carne à mostra) a obscenidade fica-se mais pela situações do que pelos actos podres da personagem central.
Como não há duas sem três Torrente 3 vem repôr o inicial excesso a esse 'abrandamento' asqueroso, com um visceral ataque de mau gosto que tem tanto de inacreditavelmente estúpido como de hilariantemente cómico. Abrindo logo nos primeiros minutos as hostilidades, Segura coloca a personagem central a falar ao telemóvel dentro de um avião que de súbito é tomado por terroristas. Não contente com isto o suíno herói começa a disparar sobre os 'mouros' fazendo com que o avião se despenhe sobre as torres KIA em Madrid, replicando visualmente os tristes acontecimentos de 11 de Setembro. Sem dar quartel Torrente 3 é o mais extremo dos 3 filmes, reunindo o humor obsceno e politicamente incorrecto do primeiro filme com o aparato cinematográfico do segundo filme, sendo evidente o orçamento bem mais substancial, posto ao serviço de um humor estúpido e grosseiro, que ou se acha repelente ou provoca risos ao ponto do sufoco.
Não querendo repetir algumas das 'qualidades' já inumeradas neste post anterior, a triologia Torrente deverá ser o ponto alto de Santiago Segura, com uma obra reverente e de referência no cinema ibérico actual. Repetindo advertências já tantas vezes escritas aqui quando se fala de filmes de (ou com) esta figura, estas são obras simultaneamente desinteressantes para muitos mas que decerto são referências pop incontornáveis para aqueles interessados na actual cultura pós-moderna espanhola.
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O Fim do Verão Eterno
Seria injusto não referir neste blog a visão recente cá em casa de Endless Summer (1966), homenageando assim Bruce Brown (falecido no passado mês de Julho), um dos surfistas e realizadores que mais contribuiu para a divulgação do surf e que o resgatou dos delírios kitsch do cinema para teenagers dos lendários estúdios de exploitation AIP (e imitadores).
Descrevendo a suposta viagem à volta do mundo de dois surfistas para perseguir o Verão ao redor do mundo, este filme possui uma qualidade plástica inovadora para a época, inaugurando algumas das técnicas 'filmicas' que ainda hoje podem ser vistas em qualquer programa de desportos radicais. Transformando completamente a percepção do público sobre este estilo de vida, Brown criou o molde de apresentação tão imitado até aos dias de hoje, compondo nos seus filmes as sequências de planos que criam uma progressão na acção e tentando sempre que possível compor shots distantes com filmagens dentro de água, algo completamente inovador para um documentário deste género.
Não quer com isso dizer que este seja um filme perfeito ou até mesmo interessante para um público fora do fandom de culto que esta agora raridade fílmica mostra. Datado e com bastante 'basófia' e manipulação à mistura, Endless Summer vive um pouco de um certo sentimento naïf americano perante outras culturas e que gera alguns equívocos, ampliando um certo sentimento de ignorância (aqui sem nunca cair na arrogância) sobre o resto do mundo e interpretando claros equívocos filmados como verdades certas. Não ajudando a isto, Brown vai narrando os acontecimentos nem sempre com uma perspectiva distante, tentando fazer piadas sobre alguns dos 'nativos' dos locais por onde a dupla de surfistas vai passado, que são por vezes extremamente desagradáveis.
Mas para além destes grosseiros pormenores (pontuais), idênticos de resto a outros pormenores incluídos em tantos outros filmes (documentários ou não) de fontes menos independentes e mais 'conceituadas' (basta pensar nos podres filmes documentais britânicos dessa mesma década), Endless Summer torna-se uma pitoresca película vintage, que decerto agradará a adeptos não só do Surf como de obras documentais 'ultrapassadas'. Para lá do seu carácter mais técnico, este filme poderá também tornar-se uma interessante visão sobre uma certa cultura juvenil americana pré-globalização, fascínada com o que encontra nesta viagem mesmo deturpando a sua visão 'virgem' do mundo, que reveste este filme com uma 'cobertura' de culto, que poucos filmes (semelhantes) posteriores, devido à falta dessa inocência e visão 'subjectiva', nunca conseguiram captar.
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Bruce (Bud) Brown: 1 de Dezembro 1937 - 27 de Julho 2008
Ler obituario LA Times
Sábado, Setembro 20, 2008
A Maldição dos Amêndoins Expressionistas
É fácil julgar um comédia de animação como Gritos en el Pasillo (2007) mais através da sua técnica do que do seu conteúdo. De resto sendo (segundo o seu realizador) o primeiro filme feito exclusivamente com um cast composto de amêndoins pintados e animados (acredito ser verdade), este hilariante produto filmico espanhol gerou na sua curta carreira uma pequeno mas fiel culto, propagado sobretudo pela Internet.
Contando as atribulações de um amêndoim ilustrador de contos infantis, que é contratado para pintar as paredes de um hospício onde estão encerrados perigosissimos amêndoins doentes mentais, esta extravagância realizada por Juan José Ramírez Mascaró é mais do que uma disparatada produção low budget. Reciclando de forma interessante as influências do Cinema Expressionista para construir um conto de alienação, Gritos en el Pasillo consegue encontrar um certo rumo fílmico interessante que, mesmo sem nos fazer esquecer que estamos a ver um filme feito com amêndoins(!), vai conseguindo fazer-nos imaginar que mesmo com actores reais, esta poderia ser uma comédia de horror perfeitamente 'comestível'.
Mas essa não parece ser a ideia por detrás deste filme, e sempre que este filme ameaça entrar por um caminho mais 'sério' na narrativa ou na forma fílmica (como se tal fosse possível), Mascaró depressa nos lembra, através de inusitados disparates técnicos, que estamos perante um filme que não poderá ser levado demasiado a sério, embora ambiguamente feito de uma forma profissional.
Não sendo uma espécie de devaneio de fanboy ou um filme Z surreal, mas mantendo um certo espírito low budget e uma novidade na escolha do 'material dramático', Gritos en el Pasillo não se consegue deixar definir de forma clara, tornando-se um daqueles filmes que não cai para o lado do culto 'javardolas' do horror cómico obscuro, mas também não parecendo ser apenas um tontice fílmica sem consequências estéticas. Mas mesmo dizendo isto esta primeira obra de Mascaró, que mostra ter sido filmada com um empenho divertido e profissional, decerto que será perfeita para acompanhar o serão do público em geral, acompanhado com umas cervejas e um pratinho dos ditos protagonistas.
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Sexta-feira, Setembro 19, 2008
Cruzes! Credo! (3)
Mesmo sendo um brit horror flick bastante modesto, se tivermos em conta que foi produzindo no apogeu de uma das épocas mais interessantes do cinema britânico, Curse of the Crimson Altar (1968) parece ter adquirido uma certa patine de culto ao longo das décadas, sendo hoje uma obra que parece definir (para o bem e para o mal) um certo 'terror ambiental' que (tenta) mistura(r) um certo psicadelismo tétrico a algumas das tradições 'românticas' nativas desta ilha, e que resultam (como se sabe) em magníficos documentos de terror camp.
É de estranhar que mesmo com um cast fabuloso (aos gigantes Christopher Lee e Boris Karloff juntam-se Mark Eden e a rainha do terror britânico Barbara Steele) este filme possua um caracter tão ligeiro, provocando mais risos que sustos, por culpa de um argumento completamente coxo e alguns elementos de exploitation (ou até machismo) que fazem deste filme uma misturada sem nexo. Lembrando ainda que este é supostamente uma adaptação de um conto de H.P. Lovecraft (um dos autores mais 'adaptados' para o cinema do género, mas que tão poucas vezes conseguiu uma séria visão cinematográfica), este filme torna-se ainda mais pateta e absurdo.
Sendo um filme dedicado ao culto pelo rabudo, poucas são as cenas em que essa devoção é mostrada. Falta garra à narrativa, não existe qualquer ameaça satânica arrepiante e mesmo a psicadélica festa na mansão do agregado familiar do culto Mr. Morley (Lee) é tão hedonista como uma saída à noite na labregolândia na ilha britânica. Pelo meio ficam umas interpretações sonâmbulas dos veteranos, umas quantas cenas S&M graficamente titilantes (a maior parte com Steele, pois claro!), muitos cortes de pudor e pouco mais sobra desta obra.
Mas com o tempo esta mistura de tongue-in-cheek, pudor Brit e a presença de tão selectas 'monstrosidades' tornou Curse of the Crimson Altar um daqueles B britânicos obrigatórios em qualquer late night session televisiva. Poderá ser dispensável para muitos, mas este filme possui alguns elementos camp decerto imperdíveis para muitos dos fans do terror dos 60s. Adquirindo uma certa 'cândura terrorífica' este será um belo complemento camp à rainha das adaptações camp da obra de Lovecraft, o kitschambólico The Dunwich Horror de 1970.
Quinta-feira, Setembro 18, 2008
Revoluções do Quotidiano
(post escrito originalmente a 31-05-2008)
Via Ubuweb
Foi talvez o mais importante movimento artístico da segunda metade do século XX, devido à sua forte influência em toda a actual cultura ('erudita' e sobretudo popular) que actualmente nos rodeia, mas o Situacionismo Internacional será um dos poucos movimentos quase nunca mencionados em qualquer documento sobre essa mesma actual cultura.
Talvez devido ao seu 'estado incendiário' e conotações políticas, este foi um movimento nunca 'digerido' propriamente pelo mainstream. Basta ver dois dos exemplos mais gritantes do aproveitamento das ideias de intervenção do movimento, o Maio de 68 e o início do Punk Rock britânico, para entender esse mesmo poder de ideias, urgentes e contemporâneas, não assentes em convenções artísticas mas em atitudes políticas, muitas delas com uma patine de maldição desconcertante, mesmo já passadas várias décadas.
E se a já mencionada absorção nunca foi feita directamente, o certo é que, mesmo vivendo-se em tempos onde o cinismo, o Situacionismo mantêm-se ainda hoje completamente actual, não só em mash-ups culturais de conteúdo 'subversivo' (como os Adbusters ou Reclaim the Streets), mas também no 'outro lado das barricadas' com o aproveitamento (indirecto) de algumas das suas ideias (deturpadas) para vender discos de bandas de punk pop boçais e inofensivas ou para tácticas de propaganda e contra-propaganda governamentais.
Uma pequena colecção dos quase nunca vistos filmes deste movimento está disponível actualmente na Ubuweb para streaming ou download:
*Critique de la séparation (Guy Debord, 1961)
*Hurlements en faveur de Sade (Guy Debord, 1952)
*In Girum Imus Nocte Et Consumimur Igni (Guy Debord, 1978)
*Refutation of All Judgments (Guy Debord, 1975)
*Society of the Spectacle (Guy Debord, 1973)
*Can Dialectics Break Bricks? (René Viénet, 1973)
*The Girls of Kamare (René Viénet,1974)
*Chinois, encore un effort pour être révolutionnaires (René Viénet,1977)
*On the Passage of a few People through a Rather Brief Moment in Time: The Situationist International 1956-1972 (documentário)
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Da Cara a Metade (4)
Bowie (Farley Granger) oferece a Keechie (Cathy O'Donnell) um relógio, começando assim uma das uniões mais ternas do Cinema americano da década de 40. Mesmo sabendo que será dificil provar que é um ser humano normal, já que será tornado famoso e infame pelo sensacionalismo dos media, Bowie mantém ainda a sua inocência, mesmo depois de ter passados os seus últimos (e adolescentes) anos fechado numa prisão. A presença da também tímida Keechie revela-lhe uma esperança na redenção, tão justa e esperada como ameaçada pela corrosão e cinismo de uma sociedade atenta aos media.
Decerto uma das primeiras obras mais notáveis de sempre em todo o Cinema americano, They Live by Night (1948) é um espantoso retrato de uma 'America Interior', de pulsões estranhas pouco retratadas até então no Cinema. Sendo considerado um film noir, as personagens da primeira obra de Nicholas Ray não se refugiam nas sombras das grandes cidades, mas sim na quietude das pequenas cidades rurais, aspirando um dia conseguir andar debaixo da luz do sol como os outros, um dia em que consigam comprar a sua redenção.
Ray parece aqui obssecado com a questão da justiça das escolhas para atingir a redenção das duas personagens, colocando o principal par numa situação injusta e marcante. Com isto o realizador parece simultaneamente querer denúnciar algum desmazelo social pelos mais desprotegidos, mas também usa isto para para, primeiro, criar o mito do criminoso superstar (tão querido ao Cinema americano desde sempre, e que terá o seu fruto mais apetecível no anterior The Public Enemy de 1931), para depois desfazer o mito e revelar as fragilidades humanas do magnífico par de personagens Keechie e Bowie.
UUm dos filmes que parece querer abrir um novo capítulo no melodrama americano (o género rei de todo o cinema, e aquele a que todos os outros estão ligados, será necessário lembrar), They Live by Night mantém-se ainda hoje como uma das mais pujantes obras americanas da década de 40, anunciando já os adolescentes rebeldes sem causas (não será Granger o inicial avatar de Dean, Brando ou Newman?) e o realismo do método dominante nos 50s. Como se tal importância não fosse já um feito, a sua influência parece transpirar em obras contemporâneas, desde os delírios cinematográficos de Oliver Stone em Natural Born Killers até a objectos cinematográficos mais sérios como Wild at Heart. Simplesmente fundamental.
Quarta-feira, Setembro 17, 2008
Em Cima Como em Baixo (3)
Realizado depois das várias obras de 'época' que deram fama mundial e o tornaram conhecido como um dos maiores realizadores de sempre de toda a História do Cinema, Tengoku To Jigoku (1963, aka O Céu e o Inferno, High and Low) marcou a volta Akira Kurosawa ao Japão contemporâneo e aos policiais de contornos neo-realistas. Baseando-se inicialmente num pulp americano de autoria de Ed mcBain, Kurosawa moldou este filme até ao ponto da obra-prima (de facto uma das suas maiores obras de sempre), construíndo uma estrutura narrativa perfeita e trabalhando as personagens até aos limites do inacreditável.
Um policial com atento detalhe a todo o 'procedimento' criminal, tal como Stuart Galbraith nota na sua biografia de Kurosawa e Mifune, dando um lado credível à história tal como em filmes americanos do género como He Walk by Night ou The Naked City, Tengoku To Jigoku torna-se de repente uma crónica sobre a condição humana, tornando os seus personagens em figuras morais que desde logo necessitam de fazer escolhas de forma a conseguirem avançar nos obstáculos encontrados.
Baseando-se no dilema de Kingo Gondo (o inconfundível Toshiro Mifune), um poderoso, convencido e egoista self made man que terá que escolher entre a compra das restantes acções da companhia de que é accionista ou o pagamento do resgate de uma criança, o filme atravessa vários dos espectros humanos, enlaçando as suas personagens até ao ponto onde toda as ambiguidades morais (o cima e o baixo) são destruídas de forma a ganhar a mais nobre forma do ser humano, o ser consciente perante o outro.
Uma pujante visão sobre o ser humano em situações de escolhas-limite, Tengoku To Jigoku possui um frenético drive de suspense que se vai enlaçando com a visão realista da alienação humana (as cenas nocturnas numa Tóquio cheia de zombies dependentes de heroína são assustadoras, mesmo para os dias de hoje) e o policial de contornos quase documentais (salve o exagero), que tornam este filme uma das mais fundamentais obras de Kurosawa pós-Yojinbo.
Um policial com atento detalhe a todo o 'procedimento' criminal, tal como Stuart Galbraith nota na sua biografia de Kurosawa e Mifune, dando um lado credível à história tal como em filmes americanos do género como He Walk by Night ou The Naked City, Tengoku To Jigoku torna-se de repente uma crónica sobre a condição humana, tornando os seus personagens em figuras morais que desde logo necessitam de fazer escolhas de forma a conseguirem avançar nos obstáculos encontrados.
Baseando-se no dilema de Kingo Gondo (o inconfundível Toshiro Mifune), um poderoso, convencido e egoista self made man que terá que escolher entre a compra das restantes acções da companhia de que é accionista ou o pagamento do resgate de uma criança, o filme atravessa vários dos espectros humanos, enlaçando as suas personagens até ao ponto onde toda as ambiguidades morais (o cima e o baixo) são destruídas de forma a ganhar a mais nobre forma do ser humano, o ser consciente perante o outro.
Uma pujante visão sobre o ser humano em situações de escolhas-limite, Tengoku To Jigoku possui um frenético drive de suspense que se vai enlaçando com a visão realista da alienação humana (as cenas nocturnas numa Tóquio cheia de zombies dependentes de heroína são assustadoras, mesmo para os dias de hoje) e o policial de contornos quase documentais (salve o exagero), que tornam este filme uma das mais fundamentais obras de Kurosawa pós-Yojinbo.
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Segunda-feira, Setembro 15, 2008
Em Cima Como em Baixo (2)
Esta é uma época marcada por imagens 'hiper reais' no Cinema mainstream (ou mais reais que a própria Realidade) que tentam satisfazer um demente sentido voyeuristico de um público cada vez mais adormecido e iludido pelos media e insensível a qualquer sentido estético para lá ou dos ridículos devaneios escapistas de muito do actual Cinema americano (sim, o horrendo Mamma Mia está também incluído nesse lote) ou o actual fashionable revivalismo torture porn que parece ser constantemente confundido como verdadeiro cinema. Neste contexto uma obra realista como The Naked City (1948) entra na visão de uma forma completamente nova, mesmo quando se trata de um reencontro após tantos anos desta obra prima do grande Jules Dassin.
Preferindo ser filmada nas (verdadeiras) ruas de Nova Iorque em vez de se manter nas paredes ilusórias dos estúdios, a acção deste então inovador filme mistura as marcantes imagens a preto e branco do favorito fotógrafo da Nova Iorque pré-70s, Weegee com um enredo policial da investigação do assassinio de uma modelo, onde o comentário social e cultura de um dos hubs mundiais é feito de forma visual e os procedimentos políciais são mostrados de forma realista e convincente.
Tal não significa que este filme tenham o mesmo teor de actuais séries de TV que se debruçam sobre investigações políciais com a mesma atitude hiper-realista já citada. Naked City, também originalmente uma série de TV com algum culto, tem um outro sentido narrativo, tentando muito mais mostrar uma história que se vai compondo de pequenos momentos realistas para chegar ao um todo de contornos muito mais humanos e elaboradamente globais. Em vez de se centrar em 'descritivismos' em tudo aparentes (tal como numa recente edição deste podcast alguém dizia) a acção de um qualquer filme pornográfico (que todas estas séries parecem imitar na cadência narrativa), onde o voyerismo está sempre patente, The Naked City apresenta o realismo de forma 'crua' (ou nua, aludindo ao título), mantendo o rigor fotográfico e cinematográfico.
Um pouco como o aqui já referido He Walked by Night (também de 1948), The Naked City possui uma qualidade documental que faz deste filme um misto entre uma (aparentemente) vulgar história policial com um documentário sobre a cidade e os seus habitantes, desde o extracto superior da normalidade diária até ao submundo escondido nas sombras das zonas mais baixas (também metafóricamente), mostradas de forma tão realista como desconcertantemente poética.
Alguns dos contornos que fazem muitos encaixar este filme na categoria de film noir prendem-se também com esta sua ambiguidade, que sobrepõe 'realidade' com um simbolismo poético, que agudiza os dilemas humanos, não só das personagens em background (os habitantes da cidade) como os principais intervenientes na história, os agentes investigadores e os suspeitos investigados. Aparentemente tal originalidade deveu-se ao script de Albert Maltz, que faleceu durante as filmagens e que foi substituido por Malvin Wald para a sua conclusão. Poderá tal facto explicar porque é que existem aqui momentos particularmente 'apressados', sobretudo no final do filme (onde existem alguns elementos narrativos sem sentido), que contradiam todo o ritmo descrítivo e até contemplativo do filme até então.
Mas mesmo revelando de certa forma um produto 'não acabado' da forma inicialmente proposta (algo de resto comum, para o bem e para o mal, em toda a história do Cinema), The Naked City é um soberbo relato de uma Nova Iorque que já não existe e que depressa se tornou um dos mais interessantes e importantes documentos sobre esta cidade, filmando os seus 'altos e baixos' como nunca antes foram filmados e como possivelmente nunca mais se repetirá.
Sábado, Setembro 13, 2008
Pequenas Visões de Grandes Heróis em Collants (3)
Mais um super herói de fato coleante (neste caso super-vilão) a ser mencionado neste blog, que decerto aqueles com particular interesse neste submundo pérfido e vasto do Cinema de Culto já devem conhecer. Uma das príncipais atracções do cinema xunga da Turquia, Kilink Istanbulda (1967) é um dos mais delírantes filmes algumas vez revistos neste blog, mostrando as aventuras de um super-vilão vestido com um fato de esqueleto apostado em dominar o Mundo (claro!), que não perde uma oportunidade para torturar mulheres e que é auxiliado por uns capangas com uns bigodes e chapéus iguais ao grande Quim Barreiros.
A primeira parte de 3 filmes que desafiam qualquer descrição, este filme é uma bizarra mistura de uma série de super-vilões de banda desenhada para adultos, de que o original francês Kriminal, do italiano Killing e de Diabolik (que também mereceu uma adaptação pela mesma altura) serão os mais conhecidos, e que rouba (sem quaisquer preocupações com copyright) várias bandas sonoras de filmes de acção da altura, incluindo uns music scores de John Barry para 007. De resto esta série de filmes poderá até ser considerada em tudo semelhante ao super espião mais fascizóide de sempre, misturando gadgets absurdos, muito machismo grosseiro e alguns recalcamentos sociais algo suspeitos. E se tal não bastasse, o super herói apostado em combater o mal chama-se Uçan Adam (Super homem!) e exibe também uma fatiota coleante em tudo semelhante ao do superherói com alergia a criptonite!
A acreditar no que Nathaniel Thompson escreve no seu imprescindível guia DVD Delirium, este filme saiu da sua obscuridade com uma edição grega em DVD algo recente que rapidamente se propagou pela Internet para delírio dos fans de cinema obscuro e mesmo a fraca qualidade do registo existente (completamente podre) não tira de forma alguma qualquer explendor trash a esta obra-prima do mau gosto.
Colocando a Turquia no mapa do cinema trash, este tesouro do pulp é de um inacreditável e delicioso low budget, que consegue ombrear com clássicos como o imperdível Ninja das Caldas (1998) ou 'pérolas baratas' da produção nacional turca, como 3 Dev Adam, que brevemente terá por aqui destaque. Para os apreciadores, a ver sem reservas.
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Sexta-feira, Setembro 12, 2008
Duplicidades em Sessão Dupla
Talvez devido à audição de um velhinho episódio do podcast The Greatest Movie Ever! sobre John Carpenter, resolvi rever ontem à noite (em sessão dupla) os dois Escape From..., de forma a tentar perceber o que pessoalmente acho ser um exagero na importância do posterior Escape From L.A. (1996) e do magnífico e tantas vezes minimizado Escape from New York (1981), talvez a mais coerente obra de um realizador que se dispersou de forma fácil em certas obras.
Consigo entender por um lado o fascínio que a mais recente (destas duas) possa parecer mais apelativa e conhecida, e que a mais antiga possa ser ainda hoje tão minimizada e desconhecida. É que proporcionalmente e em sentidos opostos, o que uma obra têm em pirotécnia, acção e referências sociais e políticas óbvias até ao boçal a outra tem de focus na narrativa e contenção de acção (também devido a um budget mais pequeno) e subtileza dos mesmo temas. E claro que Escape From New York ser muito menos acessível e menos recente ajudou a despoletar o culto pela obra mais recente, criando uma ideia (errada) que estamos perante um filme de conteúdo obviamente idênticos.
Não será necessário entrar em muitos detalhes para entender esta oposição de ambos os filmes (o último uma sequela do primeiro), que parece reflectir uma mudança na forma como Carpenter vê os EUA e a sua relação com o mundo, e que está claramente patente na personagem principal, o lendário Snake Plissken (Kurt Russell). Em Escape from New York Plissken apresenta-se como um niilista que, desencantado consigo mesmo e os seus antigos superiores, segue durante todo o filme a sua linha de neutralidade, embora seja o principal fomentador da narrativa directa, algo interessante.
Na qualidade oposta, a mesma personagem (ou diriamos, a mais recente leitura da personagem) deixa a sua neutralidade cool em certas cenas de Escape From LA, para fazer juízos de valor e, pior ainda, reflectir de forma aberta a leitura do realizador sobre o Mundo dos anos 90. E acreditando nessa mesma visão, os lados que entalam Snake Plissken são uma emergente aliança 'comunista' dos países do terceiro mundo que ameaçam o American way of life de um país liderado por um fanático religioso, algo que poderia reflectir de certa forma a realidade de então, se não estivessemos em plena era Clinton e se não fossem os EUA o principal fomentador (através da CIA) de praticamente todos os regimes 'absolutistas' a sul da fronteira.
Entendo no entanto porque é que alguns acham Escape From LA uma obra 'clarividente' na forma como apresenta um possível futuro dos EUA, de resto praticamente a acontecer em certos aspectos, e onde personagens secundárias no filme parecem adquirir uma importância vital para tal opinião. Mas mais chocante parece ser a atitude desta 're-edição' de Plissken, que é a verdadeira causa da rapture no final do filme, apagando milénios de civilização de forma abrupta que nega qualquer justiça mundial, uma atitude de resto em tudo semelhante aos actuais republicanos no poder e que tudo indica que se repetirá no tão esperado messiânico papel do senhor que se segue, bem mais perfído do que muitos julgam.
Se não bastasse, não será Escape From LA um dos mais conservadores filmes na década passada? Um pastiche cyber punk ultrapassado, veículo de product placement para as corporações discográficas, que entupiram a péssima banda sonora de 'rebeldes instantanêos' e das suas personagens de cardboard, que parecem mais saídas de um banal e vazio videoclip da MTV do que de uma reflecção séria, já para não falar de dois dos menos eficientes vilões dos anos 90, Cuervo 'Che Guevarra' Jones, uma caricatura que parece definir a idea ignorante que muita gente ainda hoje tem em relação à esquerda e do básico Presidente americano, outra caricatura disparatada dos fanáticos religiosos americanos que agora rondam o poder presidencial.
Com tal perspectiva em relação a Escape from LA, as qualidades do seu antecendente, Escape from NY, tornam-se ainda mais apuradas. Este é de facto o exacto oposto (como ambas as cidades, em costas opostas), uma obra clarividente, influente e certeira que antecede em décadas muitas das análises sociais e políticas de um país ainda traumatizado pelo 11 de Setembro. De resto, nos minutos iniciais de Escape from NY, temos até uma futurologia desse evento dramático, que com esta revisão tantos anos depois, ganha um arrepiante valor.
Uma sempre aconselhável double bill de culto, estes dois filmes são no entanto recomendados de forma diferente: um devido ao seu espantoso valor de análise do futuro de uma nação, ou outro como exemplo do que o espalhafato intelectual contaminado pelas multinacionais de forma a fazer revoluções inofensívas que não perturbem a digestão da fast food ingerida e as banalidades confundidas como rebeldia debitadas de uns estridentes headphones.
Quarta-feira, Setembro 10, 2008
Em Cima Como em Baixo (1)
No seu primeiro 'combate verbal' durante o filme, o duro detective Mark Dixon (Dana Andrews) tenta interrogar com os seus métodos particulares o seu eterno inimigo Tommy Scalise (Gary Merrill), recebendo de volta as linhas de diálogo que dão nome a Where the Sidewalks Ends (1950). Este curto e brusco diálogo é de resto acabado perto do final do filme, criando uma 'suspensão', durante a qual a narrativa desvela que entre as alturas morais das forças policiais e da law enforcement e o submundo perfído de Scalise, sempre nas sombras, a diferença será apenas na 'iluminação social' e não na moralidade.
Poderá não ser o momento da carreira mais conhecido de Preminger, ainda na 'ressaca' do sucesso da sua primeira obra-prima (Laura de 1944), mas Where the Sidewalks Ends é um dos filmes contidos num período entre 1945 (ano do 'fetichista' Fallen Angel) e 1952 (com Angel Face, com Robert Mitchum), onde o realizador definiu de forma definitiva os canons do Film Noir, reformulando as anteriores influências para criar um género realmente americano, se tal poderá ser afirmado. Relativamente esquecido (e antecedido do grande Whirpool, também com Gene Tierney), Where the Sidewalks Ends é no entanto um dos filmes centrais de Preminger, sendo uma ponte entre o êxito do estranho conto necrofílico de Laura e o noir de rigeur do já citado Angel Face.
Revolvendo, como em quase todas as obras do realizador nesse período, na sensação de confusão (e culpa) que as suas personagens sentem devido à não separação entre o 'dever profissional' ou moral e a obsessão mais primária e obscura (não será em vão o uso novamente da palavra fetichismo para descrever alguns dos comportamentos de Dana Andrews neste filme), Where the Sidewalks Ends torna-se no entanto simplista na forma em como são conduzidas as personagens durante o filme, para depois 'explicar' a sua estranha linearidade com uma falhada carga de redenção que Mark Dixon tenta carregar, negando o seu 'baptismo de rua'. E são mais esses momentos finais e não tanto um denso jogo de investigação, que 'reabilitam' o filme, fazendo entender as complexidades das personagens.
Mostrando de forma inequívoca o génio creativo de um dos maiores realizadores americanos de sempre, que sempre soube aproveitar os poucos recursos (tal como muitos dos seus 'irmãos' no film noir) para fazer algumas das maiores obras dos 40s e 50s, este será um daqueles noir que, mesmo parecendo superficial e sendo talvez o mais 'temperamental' das obras do realizador neste período, deverá ser redescoberto na excelente obra de Preminger.
A Ilusão (3)
A cena é nos mostrada de uma forma púdica e simbólica, mostrando apenas os seus intervenientes no reflexo da água da piscina. Lydia (Mary McLeod) confessa ao namorado Paul (Jimmy Lydon) que o seu futuro padrasto a assediou sexualmente na mesma piscina, confirmando assim todas as suspeitas que este tinha sobre o aproveitador e psicótico Don Juan que está prestes a casar com a sua mãe, viúva e 'acessível'. Sem nunca olhar para Paul durante a frase que revela o abuso, o reflexo de Lydia na água (um símbolo para o sexo?) parece querer também mostrar a vergonha e o sentido de culpa, nunca mostradas de forma directa.
Um dos mais 'repudiados', mas também um dos mais especiais filmes do mestre Edgar G. Ulmer, Strange Illusion (1945) parece pouco interessado a fazer-se passar por um noir decente, com algumas precipitações de argumento e actuações algo apressadas, para ser muito mais um pequeno mas perfeito compêndio sobre Psicanálise, mascarando as cruas realidades freudianas com uma espectacular símbologia psicoanalítica. Jogando com as próprias 'ilusões' das personagens, Ulmer desvela as realidades psicológicas através de uma forma espelhada, mas clara, para construir um puro exercício simbolísta.
Se outras aclamadas obras (sobretudo de Hitchcock) foram ao longo dos tempos catalogadas como sólidas obras sobre a presença da psicanálise no Cinema, esta singela mas ímpar obra de Ulmer, completamente esquecida e já 'caída' no estatuto de creative commons, merece uma menção honrosa pela sua assumida e desconcertante construção psicológica, sendo um perfeito catálogo de 'anómalias' psicanalíticas, cada uma representada por cada uma das personagens, tornando-se num dos mais definidos universos simbolistas da rica década de 40.
Terça-feira, Setembro 09, 2008
A Ilusão (2)
****Spoilers*****
O agradável serão de Nokichi (Tatsuya Nakadai) é de repente transformado em pesadelo quando a luz da candeia transforma o rosto calmo e harmonioso da sua jovem esposa Yuki (Keiko Kishi) no rosto da bela e terrível 'fantasma das neves' que roubou a vida ao seu colega lenhador à 10 anos atrás e que o poupou à morte certa na condição de este nunca revelar o sobrenatural encontro. Tentando-se convencer que tudo isto não passa de uma ilusão, Nokichi evita cair no terror absoluto, contando à sua prendada mulher tal história encerrada para sempre na promessa.
****Fim de spoilers*****
O clímax da segunda história da adaptação para o cinema de Masaki Kobayashi (em 1964) do 'compêndio' de fantasmas japoneses Kwaidan.
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Segunda-feira, Agosto 25, 2008
Bonita Troglodita (1)
Sendo um dos filmes mais disparatados e involuntariamente maus vistos cá em casa nos últimos tempos (anos?, décadas?) La Mujer Murciélago (1968) é também um dos mais hilariantes e divertidos sci-fi que qualquer cinéfilo que goste deste tipo de produtos de refugo poderá pôr as vistas em cima. Um sci-fi polícial mexicano, tentando rentabilizar a popularidade de Batman (e sobretudo da série de TV Batgirl), este Mulher Morcego é também um exploitation de lucha livre (essa forte instituição de culto mexicana) com contorno cheesecake, aproveitando os dotes 'melodramáticos' da sex kitten italiana Maura Monti.
Quando uma investigação policial sobre a estranha morte de alguns conhecidos wrestlers mexicanos ganha uma importância de segurança mundial (?) uma bela milionária, desportista e wrestler de luta livre mexicana conhecida apenas como Mulher Morcego (pois...) decide ajudar a investigação, exigindo apenas que a sua identidade seja escondida por detrás de uma máscara idêntica à de Batman e de um pequeno bikini a condizer. E se as belas formas de Monti vão sendo mostradas em algumas das cenas de diálogo mais estúpidas do celluloid ou quando usa os seus bizarros gadgets anti-vilanagem, quando esta entra em acção no ringue de luta livre é prontamente substituida por uma body double (aqui a palavra double é usada também duplamente), completamente coberta com um fato macaco azul, o que torna este filme absolutamente garrido de gargalhadas.
Como se tal não bastasse, a presença de um estúpido e ineficiente homem-peixe, criação de um pouco convincente génio louco que quer dominar o mundo (pois!) as sequências de luta livre feminina (!), perseguições de automóveis hilariantemente más (e perigosas para alguma da assistência canina junto à estrada onde estas foram filmadas) e algum melodrama sexista e disparatado, em tudo semelhante ao que se pode ainda hoje encontrar em qualquer telenovela mexicana, tornam este filme uma pérola kitsch imperdível.
Sendo um bizarro produto mexicano com todos os ingredientes base para se tornar um daqueles títulos de cult flick que fica sempre bem atirar em conversas especializadas, La Mujer Murcielago sempre teve um culto esmagador mesmo sendo completamente desconhecido até ao aparecimento do DVD. Um daqueles filmes raros mas absolutamente imperdíveis para aqueles interessados em cinema trash de culto.
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A Ilusão (1)
****Spoilers*****
Refugiada num quarto de um hotel barato de Memphis onde tudo parece ser possível, a estrangeira Luisa (Nicoletta Braschi) afronta a mais poderosa ilusão de toda a sua atribulada (e forçada) viagem pela estranha cidade. À sua frente o fantasma de Elvis pede desculpa pela intrusão no quarto, enquanto uma conflituosa 'pendura' dorme, adormecendo também o seu coração, no calor dos lençóis baratos do hotel.
****Fim de spoilers*****
O clímax da segunda história desse 'compêndio' das ilusões e mitos que é Mystery Train (1989), de Jim Jarmusch.
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