Quarta-feira, Abril 30, 2008
Química Pop
Será quase impossível quantificar a gigantesca influência que a descoberta acidental que este homem fez à 70 anos trouxe para a cultura do século XX. E decerto que o pacato Albert Hofmann, quando no seu pequeno laboratório em Basel, na Suiça, tomou a primeira dose de lysergic acid diethylamide não esperaria nunca ser uma das figuras centrais da segunda metade do século passado, dando o 'alimento' psico-inibriante a uma geração que mudou o Mundo.
Albert Hofmann - 11 de January 1906 – 29 de Abril de 2008
Labels:
anos 60,
culto,
obituários,
personagens,
sociedade
Sábado, Abril 26, 2008
Perda e Perdição (3)
Marichka (Larisa Kadochnikova) e Ivan (Ivan Mikolajchuk) observam ao mesmo tempo a mesma estrela no mesmo tempo o céu dos Cárpatos, negando à distância física a solidão em que os dois se encontram, um sem o outro, tentando ignorar que existem maiores distâncias entre si que a espacial. Descrito tantas vezes como o Romeu e Julieta dos Cárpatos, Tini Zabutykh Predkiv (1964, conhecido internacionalmente como Shadows of Forgotten Ancestors), uma das poucas obras primas de um dos maiores (e talvez o mais ignorado e esquecido) cineastas do século XX a sobreviver até aos dias de hoje, Sergei Parajanov, é um pujante conto de perda amorosa, alienação e insuperável perdição pela dor da existência sem o 'objecto amado', poucas vezes expresso no Cinema desta forma magistral e sentida.
E como se não bastasse ser este um dos contos de amor mais belos do cinema, Shadows of Forgotten Ancestors é simultaneamente, de forma desconcertatemente esquizofrénica, um completo relato (de contorno assumidamente documental) de algumas das tradições folclóricas da Hutsul Ucraniana, onde a Europa e a Ásia se fundem nas suas manifestações milenares, que parecem ter chegado até à década de 60, quando Parajanov de forma magistral as captou para dar corpo a esta história tradicional de fatalidade e amor eterno.
***spoilers***
Narrando o amor precose e eterno entre Ivan e Marichka, impossível devido à rivalidade de morte entre as famílias de ambos, Parajanov envolve-nos de uma forma hipnótica numa relação que sabemos logo à partida condenada, mas que se torna tão alienante como a forma desamparada com que Ivan tenta 'voltar' à humanidade depois da perda de Marichka, para se deparar com a sua perdição e a queda no torpor da memória, de forma comovente e absoluta.
***Fim de spoilers***
Bem menos 'simbolista' que o magistral Sayat Nova, já comentado por aqui, Shadows of Forgotten Ancestors é uma daquelas obras obrigatórias a qualquer cinéfilo que é foi até à pouco tempo obscurecida no esquecimento e censura que Parajanov foi votado. Uma edição recente em DVD região 1 (EUA e Canadá) parece tentar culmatar esta omissão (mais vale tarde que nunca), estando também incluido na preciosa caixa de 4 filmes do realizador, esperando-se agora pela já à muito esperada edição europeia, inexistente em DVD a acreditar em alguma informação on-line.
Labels:
anos 60,
cinema,
culto,
personagens
Sexta-feira, Abril 25, 2008
Domestic Appliances (1)
Aquilo que parecia impossível aconteceu a Xar (Bob Cowan): A sua inteligência artificial de fleshapoid conseguiu aprender o que é o Amor, ao apaixonar-se por Melenka (Maren Thomas), para depois cometer o acto de pecado sempre negado a estes electrodomésticos ao servido dos seres humanos: o Sexo!
As pecúliares visões futuristas de um dos mais esquecidos realizadores underground americano. Com o seu irmão gémeo George, Mike Kuchar realizou algumas das obras mais bizarras que haverá memória no cinema americano dos 60s, inaugurando ousadias camp nunca vistas que foram só igualadas pelo universo trash de John Waters. The Sins of the Fleshapoids (1965), uma estranha e subversiva mistura cinematográfica com influências simultâneas no melodrama de contornos clássicos e o universo dos comics (que os irmãos Kuchar são fanáticos leitores), eleva ainda mais o estranho universo faz-de-conta dos Kuchar, para contar uma estranha história de um amor impossível entre dois electrodomésticos do futuro (servos robots que são réplicas perfeitas dos seres humanos), serventes de caprichosos humanos.
Simultaneamente influente e ignorada, a obra dos Kuchars (sobretudo centrada nas décadas de 60 e 70) é uma das percursoras do cinema independente pós-moderno e de new wave americana dos 80s, com as suas visões pop decadentes e as suas inventivas histórias existênciais.
Alter Egos (3)
Meta Carson (a voluptuosa Rhonda Fleming) pergunta a Jeff (Robert Mitchum): "You always go around leaving fingerprints on girl's shoulders? ...Not that I mind, particularly...". Dentro de poucas horas Jeff terá que se fazer passar por primo de Meta de forma a ser apresentado a alguém que quando for assassinado, deverá servir para acusar de assassínio Jeff de forma a completar a vingança de Whit (Kirk Douglas).
A obra prima de Tourneur Out of the Past (1947) está repleta de Alter Egos e duplas personalidades - umas por culpa, outras por feitio, algumas usadas apenas por minutos, outras para sempre. Para lá da complexidade da pérfida femme fatale (dupla, no corpo de uma espectacular Jane Greer) e das várias personagens que tentam enganar-se umas às outras, gerando um labirinto de máscaras a que se perde a conta cedo no filme, Out of the Past torna-se ainda mais complicado devido ao longo flash back que revela que afinal Jeff não é afinal um simpático proprietário de uma qualquer bomba de gasolina perdida no meio do nada, mas sim um 'detective' com vidas descartáveis a cobrirem uma alma viciosa.
E num filme tão carregado de alter egos, não será de estranhar que certos espectadores sintam também que as suas impressões digitais estejam na mão da personagem de Mitchum, com o quente braço de Fleming a moldar-se com a pressão.
Labels:
cinema,
culto,
Film Noir,
Gallery of Cool,
personagens
Só p'ra Lembrar (2)
foto: linhadotua.net
Written by MCLT
Thursday, 27 March 2008:
A Petição pela Linha do Tua já conta mais de 3000 assinaturas.
O MCLT agradece a participação e a preocupação demonstrada quanto ao futuro e preservação deste património único, a Linha do Tua e o vale onde está inserida, em pleno Douro Vinhateiro, Trás-os-Montes.
Para que este assunto seja discutido em plenário na Assembleia da Republica, precisamos de obter um mínimo de 4000 assinaturas.
A Linha do Tua não pode desaparecer assim! Vamos exigir transporte em SEGURANÇA naquela que é considerada uma das mais belas linhas férreas de montanha da Europa! Assine e divulgue a Petição pela Linha do Tua VIVA!
Para que os dados sejam correctamente validados, lembramos que devem constar na petição: o nome completo (no mínimo, o primeiro e último nome), o número do bilhete de identidade, e, se assim o desejar, pode indicar o local de residência no campo "comentários".
Um MUITO OBRIGADO a todos!
ACEDA À PETIÇÃO em http://www.petitiononline.com/tuaviva/petition.html
Quinta-feira, Abril 24, 2008
Alter Egos (2)
O outro Eu da tímida professora Fumiyo (Takabe Ai) manifesta-se durante a noite, ao incarnar a urban legend chamada Guren Onna (a mulher queimada), que tanto assusta as suas adolescentes alunas durante o dia. Procurando a satisfação emocional que sempre lhe escapa na normalidade, Fumiyo vai fingindo que é (e subitamente convencendo-se que será) uma das assombrações urbanas que preenche o roteiro de fantasmas urbanos de Tokyo, encontrando outros 'seres' (alguns tão fingidos como ela, outros sobrenaturalmente reais) durante as suas investidas nocturnas.
Um refrescante, mas infelizmente nem sempre eficiente, dorama que mistura de comédia com terror, Guren Onna (2008) vai retratando as vivências urbanas de uma solitária e tímida professora de liceu, submetida aos comportamentos abusivos das alunas e dos seus colegas de trabalho, que se vinga das frustações de forma tão profissional quanto possível, usando disfarces e gadgets convincentes para assustar os transeuntes tardios de uma qualquer zona urbana de Tokyo.
Se esta ideia central num plot poderá parecer aliciante, o resultado é algo desapontante, com Takabe Ai a não conseguir ter uma prestação cómica sólida, oscilando entre uma caricatura sem sal da também caricatural Ueno Juri no espectacular dorama Nodame Cantabile e uma eficiente figura de slapstick mórbido que vai conseguindo arrancar gargalhadas sentidas. Mesmo que não possa ser levada muito a sério, Guren Onna parece querer denunciar certas maladies urbanas num Japão (urbano) onde o bullying e as pressões sociais levam a sociedade aos extremos, mesmo que sejam demonstrados de forma cómica e com consequências disparatadas.
Se será para ser seguida cá em casa, ainda não está decidido, mas decerto que Guren Onna conseguirá gerar algum interesse a todos os fans de dorama made in Japan que esperem algo um pouco diferente das já costumeiras e gastas histórias de adolescentes de liceu.
Quarta-feira, Abril 23, 2008
Só p'ra Lembrar (1)
Aqui está o link para mais um pequeno video de uma série feita com muito coração e dedicação. É uma história de amor verdadeiro, redenção e músicos desempregados. Divulgar este LINK é participar activamente na divulgação d´"O Mundo Catita", e ajudar o pequeno Vieira a entrar no seu televisor. Agradecemos francamente o vosso apoio incondicional. Não deixem de visitar a nossa página para saber novidades.
Abraços,
Filipe Melo e João Leitão
http://www.youtube.com/watch?v=yNeJG1PBAfM
http://www.youtube.com/watch?v=62Uow-uOsqk
www.mundocatita.com
Labels:
bizarro,
Burlesque,
cinema,
cinema Português,
comédia,
culto,
internet,
música,
personagens
Domingo, Abril 20, 2008
Um Chico, Três Momentos
Chico Buarque De Hollanda (1966)
A estreia gravada que tornou Chico Buarque uma das vedetas da MPB, sobretudo com a inclusão do êxito 'A Banda' a abrir um dos albuns que trouxe de volta o espectacular legado do samba canção dos anos 30 e que parecia negar as influências da aburguesada Bossa Nova. Mesmo parecendo não conseguir convencer de forma assumida a left wing que apoiava incondicionalmente os rebeldes da Tropicália, este primeiro trabalho trás já, embora isto possa parecer paradoxal, um cheiro a rebeldia malandra em forma de um 'tradicionalismo' algo formal, que seria sentida de forma plena durante os registos dos anos 70.
Construção (1971)
O primeiro trabalho depois da volta do exílio em Italia, Construção parece querer contradiar aqueles que na Tropicália achavam que Chico Buarque era demasiado tradicionalista e brando nas suas críticas sociais. Canções como Deus lhe Pague, Construção ou Quotidiano (uma das maiores composições de sempre da música brasileira) marcaram para sempre a música de intervenção, com os seus relatos pujantes, colocaram este album como um dos mais importantes de toda a MPB e tiraram qualquer dúvida, aqueles que ainda a podessem ter, que Buarque é um dos maiores compositores da língua Portuguesa de sempre.
Chico Buarque & Maria Bethânia - Ao Vivo (1975)
Da primeira colaboração entre os dois gigantes ficou esta gravação ao vivo, fruto de uma tournée no Canecão (com lotação esgotada durante meses e local de reunião das principais figuras do Rio). Um dos albuns ao vivo mais emocionantes de sempre, Ao Vivo combina a genialidade das composições de Buarque com a exuberância de Bethânia, com uma voz poderosa a invocar trovões ou a sussurar carícias, sempre sem qualquer rede ou preparação, numa gravação tão honesta e crua que parece querer mostrar que é apenas um pálido reflexo do que terá sido assistir a estes concertos.
Where is My Mind? (2)
via Internet Archive
Num dos sci-fi britânicos dos 60s com mais culto de sempre, They Came From Beyond Space (1967), a mente de Lee Mason (Jennifer Jayne), possessa por um ser extraterrestre, é submetida a uma torturante lavagem cerebral, feita com bizarras máquinas caseiras produzidas pelos cientistas Curtis Temple (o canastrão Robert Hutton) e Farge (Zia Mohyeddin), de forma a conseguirem recuperar a verdadeira mente (e personalidade) da bela cientista.
A peculiaridade da estranha sucessão de cenas durante esta bizarra cura geram mistura de várias influências visuais, com trips psicadélicas misturadas com 'filtros' visuais de documentários científicos da época. Esta estranha mistura visual torna-se ainda mais surreal nesta 'recuperação' da mente de Lee será a de que estamos de facto a ver uma cena de tortura com nuances sexuais, onde cientístas terrestes torturam mentalmente uma criatura doutro planeta, aqui 'presa' no corpo da actriz Jennifer Jayne, algo que normalmente se passa de forma oposta (a experimentação e crueldade é sempre mostrada de forma oposta). Toda a sucessão é filmada parecendo uma amálgama de imagens de tortura e perversão masculina, sempre discretas, onde não existem de facto cenas 'fisicas' e estando toda a sugestão na expressão da magnifica face da actriz, mas onde tudo é mostrado de forma eficiente.
Where is My Mind? (1)
Janet (a expressiva Anabel Shaw) assiste aterrorizada da janela do seu quarto de hotel ao crime passional. Perto da janela do quarto ao lado o reconhecido psicólogo Dr. Richard Cross (Vincent Price) termina a briga com um candelabro de prata na cabeça da mulher. Caindo em choque, Janet terá que ser submetida a tratamento de forma a conseguir sair do turpor do trauma para conseguir encontrar de novo a sua sanidade mental. Seguindo o conselho do gerente do hotel, o marido de Janet decide por a saúde mental da sua mulher nas mãos do psicólogo assassíno do quarto ao lado, que já percebeu que a sua mais recente paciente é a única testemunha do crime.
Um singelo mas altamente eficiente psycho thriller de contornos bizarros, Shock (1946) vive da prestação destas duas personagens (mais do que das outras metades, o marido de Janet e a amante do Dr. Cross, a actriz Lynn Bari, habituada a estranhas personagens duplas) para construir um interessante jogo de tensão mental, onde uma personagem dependente é submetida a 'tratamento' de forma a esquecer o crime o ser obliterada (mental ou fisicamente) pelo criminoso. Entretanto a obliviosa Janet vai tentando encontrar a ponta do fio que a levará à sanidade, reconhecendo o seu 'carrasco mental' e tentando convencer o restante pessoal médico que a mente que está a usar quando acusa o médico não está contaminada pelo choque.
Embora podesse ser bem mais carregado e labírintico na sua aproximação ao tema, Shock consegue ser credivelmente interessante, com Price a dar uma normal prestação arrepiante, sem nunca cair no excessos que por vezes este filme parecia querer.
Sexta-feira, Abril 18, 2008
Alter Egos (1)
O outro eu de Saki Shinohara (Mako Sakurai, actriz, actriz de voz e vocalista dos Bon Bon Blanco) é uma maid num qualquer maid bar de Akihabara, rodeada de otakus que lhe ensinam os requintes da profissão.
Depois do sucesso comercial do dorama Densha Otoko (2005) ter trazido para o mainstream a figura do anti-social otaku como uma 'personagem com caracter', a mini-série Maid in Akihabara (2005) pareceu querer rever a matéria dada, com as visões semelhantes sobre vários oddballs que frequentam o café Meido no Miyage, onde Saki se refugia de um gang de yakuza (depois de ter trabalhado como hostess num dúbio bar), para entrar num outro submundo, onde os fetiches são vividos de forma pecúliar. Pela curta narrativa de 6 episódios temos, tal como em Densha Otoko, uma iniciação no mundo otaku, alguns erros que culminam na aceitação de um outsider pelos Otakus, um conflito entre este novo membro e os outsiders, uma resolução do problema, quando todos juntos 'vencem o inimigo' o conquistam a felicidade.
Mas a diferença neste dorama parece ser o seu afirmativo espírito low budget, que faz desta uma hilariante experiência otaku 'auto-congratulatória' uma série aparentemente filmada para o formato web, sem qualquer contemplação comercial e com humor (e amor) muito dentro do espírito desta tribo urbana. parecendo-se querer assumir como um produto do 'outro lado da barricada' (feito por otakus para otakus?), Maid in Akihabara é uma experiência cómica interessante mas também inconsequente, sendo no entanto elementar como documento sobre a clique otaku, ainda tão obscura e (sobretudo) muito mal interpretada.
Particularmente recomendada aos interessados nestas nuances urbanas, fetichistas de Maids e viciados em séries cómicas bizarras.
Quarta-feira, Abril 16, 2008
Estéticodorama (1)
Mesmo aqueles habituados a uma certa estranheza de algumas das recentes série de TV do extremo oriente decerto que não previam que Before and After: Plastic Surgery Clinic (2008) fosse um dos doramas mais bizarros que há memória na televisão Coreana. Misturando comédia com imagens arrepiantes de cirurgia plástica (aparentemente reais), Before and After conta a história de um grupo de oddballs comandados por um entusiástico mas desastrado herdeiro de uma clínica do género, assombrada pelas dívidas à mafia local. E para ajudar este estilista do bisturi temos uma dupla bizarra de enfermeiras, uma com desordens alimentares (e outras) e a outra do uma estranha inclinação para a confusão vivêncial (que geram os melhores gags) e um cirurgião genial com inclinações de caridade que deixam o dono da clínica de nervos estilhaçados.
Pelo caminho ficam as histórias e circunstâncias pessoais de vários (ou várias) clientes, que por diversos motivos se submeteram a alguns dos tratamentos da clínica. Se as personagens centrais dão o tom cómico à série, que é eficiente, são os clientes quem geram o lado 'dramático', gerando debates entre as diversas personagens, e duelos de opinião sobre a verdadeira razão deste tipo de transformações corporais.
Balançando entre o hilariantemente estranho e o repelentemente gráfico (bastante educativo, diga-se), este Before and After: Plastic Surgery Clinic parece querer escudar-se numa bem intencionada visão sobre os prós e contras da cirurgia plástica, que depressa se torna um autêntico catálogo promocional desta prática.
Claramente para além de qualquer debate mental do espectador (e possível cliente) fica uma comédia de tons sarcásticos salpicada de gore de hospital. Se este tipo de imagens são já uma presença aceite em qualquer programa de TV em horário nobre, (o voyeurismo de celebridades e wannabes assim o obriga) seja em que parte do globo esteja a ser mostrado. Divertidamente sinistro.
Lixo Divino
Via G-pod
A real importância de John Waters no cinema na segunda metade do século passado (e da cultura pop americana, por arrasto) nunca será unanime. Afinal este realizador sempre foi alvo, por vezes simultaneamente, dos elogios mais entusiasmados e das críticas mais 'trucidantes' e depreciativas da sua bizarra, controversa e delirante obra. Mas, como o documentário Divine Trash (1998) tenta mostrar, Waters tem de facto uma importância central no cinema pós-anos 60, com a sua forma desprendida e entusiástica forma de filmar, uma quase blueprint para várias gerações de cineastas independentes que emergiram desde os finais dos anos 70, alguns dos quais (como Jim Jarmusch que participa neste documentário) chegaram ao confortável mainstream da 'clique Sundance', que premiou este documentário do comediante Steve Yeager, um antigo colaborador de Waters e figurante em Pink Flamingos (1972) e Polyester (1981).
Através de várias entrevistas de fans, intervenientes na carreira (para o 'bem' e para o 'mal'), apoiantes e críticos, familiares e amigos próximos de Waters, este documentário vai tentando, por vezes de forma algo vaga e pouco precisa, mostrando o percurso do criador de hilariantes e nunca-jamais-repetidos exercícios cinematográficos como Mondo Trasho (1969), o infame Multiple Maniacs (1970) ou o delírio melodramático asqueroso Pink Flamingos, três das maiores obras-primas do cinema independente americano de sempre, desde o 'berço', onde manifestou as primeiras obsessões repetidas depois durante a sua obra, até ao final dos anos 80, com a morte da sua maior diva e alter-ego criativo, Harris 'Divine' Milstead.
Estranhamente, ou talvez não, este documentário do final dos anos 90 deixa de parte a segunda parte da carreira de Waters (quando Hairspray, Cry Baby e Cecil B. Demented lhe deram alguma fama junto do público mainstream), concentrando-se mais na relação criativa entre Waters e Divine e os seus bizarros frutos. Será talvez algo acidentada a forma como o documentário se centra na relação entre estas duas personagens espantosas, mantendo-as sempre envoltas numa aura icónica, alimentada pelos inúmeros espantosos episódios que vão sendo revelados pelos entrevistados (algo até normal, afinal tratam-se de dois dos maiores ícones do underground americano da segunda metade do Século XX). Mas Yeager parece ser algo 'tímido' em de facto revelar a relação de amizade de Waters e Divine, caindo em alguns lugares comuns, como a emocionada entrevista à mãe de Divine.
Mesmo dizendo isto, Divine Trash revela algum espantoso material de arquivo raro (penso que nunca revelados até então) da produção de Multiple Maniacs e sobretudo de Pink Flamingos (que ocupa uma grande fatia da parte final do documentário), revelador da forma independente mas determinada como Waters e a sua entourage moldaram, sem querer, uma parte do Cinema das últimas 5 décadas. Completando este especialmente interessante in-site sobre Waters, o documentário vai dando um enquadramento histórico da obra do realizador com a então emergente e mais visivel cena underground, mais centrada em New York, , dando pistas preciosas sobre algumas das obras mais relevantes da altura e a comparação entre a sofisticada clique artística desta hub cultural com a arídez artística da suburbana e desolada Baltimore natal de Waters, que não conseguiu segurar o seu cidadão mais irreverente e (actualmente) notável.
Ficando para a história não só pela ousadia e excesso fílmica, mas também como um dos mais inovadores e 'desprendidos' criadores independentes de sempre (e um dos primeiros renovadores do melodrama pós-moderno), o John Waters (e Divine) retratado(s) neste Divine Trash poderá não ser o mais completo, mas basta para entender a genialidade do realizador e do seu 'alter ego', sendo este um documento imprecinsdível não só para os fans de Waters, como daqueles que tenham já interesse na espantosa história do cinema underground americano, revelando-se sobretudo útil aqueles ainda não iniciados neste estranho mas compensador pedaço do Cinema.
Labels:
anos 60,
anos 70,
avantgarde,
bizarro,
cinema,
comédia,
culto,
Documentários,
exploitation,
personagens,
trash
Segunda-feira, Abril 14, 2008
Caixa de Pandora
Um singelo mas competente thriller da nova vaga do cinema comercial espanhol, La Caja 507 (2002) de Enrique Urbizu (realizador de um dos maiores filmes de gangsters, pré-Reservoir Dogs, Tudo por La Pasta de 1991 ) é uma reciclagem dos clássicos do Cinema de crime (e de outros reminicentes, sobretudo do Film Noir e suas reflecções da década de 70 e 80) num contexto de um cenário ibérico vulgar e quotidiano, evitando muitos dos lugares comuns do actual do Crime Cinema, tão cheio de aparatosa acção como vazio de conteúdo cerebral.
Anos depois da perda da sua única filha, Modesto Pardo (o excelente Antonio Resines) e Ángela (Miriam Montilla) tentam retomar à vida normal numa pacata vila na região da Andaluzia. Mas o dia-a-dia do casal Pardo é destruido quando Modesto, director do balcão bancário local, fica fechado durante o fim de semana no cofre forte, depois de um rápido e eficaz roubo. Tentando passar o tempo até ser resgatado do insonorizado cofre, Modesto passa os olhos por uns aparentemente vulgares documentos numa das caixas espalhadas pelo chão durante o assalto, a caixa 507 do título, relacionados com um terreno onde a sua filha morreu, durante um aparentemente normal incêndio florestal.
Simultaneamente, o ex-chefe da polícia local e 'peão' do submundo local, Rafael (José Coronado), dono dos mesmos documentos da caixa 507, encontra-se numa situação perigosa, pressionado pela máfia local a entregar os mesmos documentos que despoletaram o sentimento de vingança em Modesto. Daqui a história avança com ambas as personagens a freneticamente tentarem descobrir a verdade sobre os mesmos documentos, mesmo não entendendo as profundas raízes que todo o caso tem na região, envolvendo não só vários grupos mafiosos, com também algumas empresas, a comunicação social e vários dos detentores do poder local e regional, que não se poderão dar ao luxo de serem incomodados na sua aparentemente limpa forma de governo. A acção torna-se então fragmentada e simultaneamente frenética, dividida entre o 'cerebral' cidadão de classe média a desenterrar a verdade incómoda através de perguntas e consultas em arquivos, enquanto o polícia-tornado-gangster toda toda a acção de forma mais 'activa' usando as ferramentas do ofício para conseguem chegar à posse dos documentos, ambos sabendo que têm o tempo contado até conseguirem chegar aos diferentes finais.
Com uma eficaz e até credível forma de contar uma história sobre corrupção local, que poderia ser filmada em qualquer parte do sul de Espanha ou Portugal, Urbizu consegue ainda entregar um interessante filme de acção mainstream, sem nunca 'perder o pé' nas questões centrais e ainda tendo tempo de inserir algumas homages (sérias) a vários clássicos do género como Chinatown, Blade Runner ou Kiss Me Deadly. Poderá não ser a filme obra-prima de Urbizu, mas este Caja 507 é um dos 'valores seguros' do recente cinema mainstream (e comercial) espanhol, conseguindo simultaneamente geral bastante interesse naqueles interessados neste tipo de crime flicks europeus e despertar algum interesse num público mais geral.
Labels:
cinema,
Cinema espanhol,
Film Noir
Domingo, Abril 13, 2008
Nottingham06: Billy Childish
Parece-me estranho que um dos artistas britânicos mais influentes, honestos, criativos e realmente independente dos últimos anos apenas consiga encher meia sala no pequeno espaço de exposição da independent artsorganisation.org aqui em Nottingham. Mas foi isso que aconteceu ontem à noite quando o punk rocker/ artista plástico/ escritor e lenda do R'n'R Billy Childish, com a sua fatiota colonial e acompanhado pelos seus Musicians of the British Empire (a 'enfermeira' Julie no baixo e o 'beefeater' Wolf Howard na bateria) tocou perante pouco mais de 50 fans, usando como 'desculpa' uma exposição que apresenta muitos dos seus trabalhos e acompanhando a projecção do infame 'Watch de K Foundation Burning a Million Quid' dos KLF (K Foundation, perdão).
Para aqueles (poucos decerto) que nunca tropeçaram no nome de Childish em qualquer menção de algumas das bandas que actualmente compôem o bem sucedido rock de contornos 'independentes', tornado pela indústria num mainstream boçal que apenas serve para encher as páginas do New Musical Express e que fazem adolescentes sentirem-se rebeldes na comformidade em que vivem (desculpem a brutalidade longa deste parágrafo), este será um dos únicos 'valores seguros' realmente independentes e com alma, um artista multidisciplinar que fez a carreira contra a corrente, algo que sempre lhe valeu o desprezo das cliques artísticas e um culto aguerrido fora do mainstream. E talvez por isso não seja assim tão estranho estar uma sala tão vazia para ver Billy Childish, nesta pequena cidade inglesa (aqui a palavra não se refere só à escala geográfica) onde os Whitesnake conseguem ainda esgotar a maior sala das redondezas (mesmo quando o preço dos bilhetes foram os mais caros de sempre), e será também normal a ausência quase absoluta de espécimens de algumas das tribos urbanas que vêm o punk rock e rock garage revivalista como um mastigar de certos revivalismos vazios.
E tal como os rumores on-line vão revelando Billy Childish é tão carismaticamente modesto, hilariantemente divertido e caloroso e fogosamente left wing ao vivo, conseguindo conquistar público desde o primeiro minuto com o seu jeito improvisado de tocar, rematado no intervalos das músicas com conversas sarcásticas a provocar o público (o relato das aventuras de Childish a abrir um concerto dos Cramps foi hilariante). Debitantando clássicos de uma longa carreira e algumas novidades (que pessoalmente achei redundantes), os Musicians of the British Empire arrasaram a sala com um punk rock old school inflamado por diabólico rockabilly e surf, mostrando que afinal ainda existem verdadeiros concertos de rock and roll, sem qualquer masturbação de ego e com conteúdo.
A fechar, já com o final do filme dos KLF acabado e esquecido (um mestre de cerimónias como Childish não permite a atenção divagar fora do palco), entrega-se uma energética versão de 'Fire', para aquecer o regresso a casa numa noite de primavera ainda tão fria como a neve que ainda na semana passada caiu em Nottingham.
Labels:
artes gráficas,
culto,
música,
Nottingham,
personagens
Domingo, Abril 06, 2008
Alucina Génio (3)
Tantos anos depois de ter visto o trailer que me despertou a atenção, finalmente consegui fixar na retina à poucas semanas na orgia kitsch que é Fah Talai Jone (2000), que teve uma modesta distribuição pela Europa (devido sobretudo à sua popular recepção em vários festivais) com o título The Tears of the Black Tiger. Um dos poucos títulos do interessante boom cinematográfico tailandês dos finais dos 90s a terem saído daquela particular zona geográfica, The Tears of the Black Tiger é um estranho híbrido camp que mistura Western (sobretudo os ícones do Spaghetti), o melodrama piroso e exagerado do cinema romântico popular tailandeses dos 50s, comédia, acção e musical, mimicando de certa forma alguns dos formatos gerados por Bollywood (bastante populares na Tailândia). Elevando o camp pop até a uma hilariante saturação quase insuportável, o realizador Wisit Sasanatieng, conjunga um estranho pastiche 'colado' com um Technicolor ultra-violento, representações levadas ao exagero cénico e cenários surrealmente 'emocionais', onde o poderoso uso da cor chega a ferir os olhos, fazendo deste filme um crossover que tanto parece apelar para os mesmos universos das mais recentes obras de Tarantino e o universo bizarramente barroco de Baz Luhrmann, por vezes com laivos melodramáticos que lembram as obras kitsch de Pierre e Gilles.
Acompanhando de forma nostálgica e melancólica a história de Dum 'Black Tiger' (Chartchai Ngamsan) o mais extraordinário pistoleiro de sempre, dividido entre o seu amor eterno por Rumpoey (Stella Malucchi) e a sua vida de temido bandido (a que aderiu devido à injustiça social da sua aldeia natal), o plot de The Tears of the Black Tiger vai-se compondo através dos desencontros e histórias paralelas (dentro do establishment e fora da lei) entre camponês-tornado-jagunço Dum e da 'betinha' Rumpoey, sempre com adversidades geradas pelo companheiro de armas de Dum, Mahesuan (o hilariante actor Supakorn Kitsuwon, que posteriormente teve alguns papéis secundários em filmes ocidentais) e sobretudo o establishment, pouco complacente com um herói bandido, mesmo que com um coração justo.
Com as suas múltiplas homages a vários filmes westerns e filmes de acção americanos (e indianos segundo parece) para entregar um história relativamente comum ao género melodramático (boy meets girl com contornos trágicos, muitos desencontros e adversidades...) e muitas gargalhadas devido ao excessivo camp, não se consegue entender se The Tears of the Black Tiger será uma divertida leitura pós-moderna, tentando fazer uma leitura social crítica (algo que acho pouco provável), ou se este filme é apenas uma celebração do kitsch de alguns dos géneros do Cinema popular na Tailândia, algo mais provável.
Não tendo sido uma obra muito popular na Tailândia, mesmo mimicando géneros populares e parecendo ser quase uma resposta local a um género teen pós-moderno popularizado pelo pavoroso Baz Luhrmann (lembre-se que Romeu+Juliet tinha sido realizado 3 ou 4 anos antes), The Tears of the Black Tiger fez a 'costumeira' tour dos festivais de Cinema europeus e americanos, uma forma de muitos independentes orientais de conseguirem distribuição no ocidente, tendo tido uma recepção calorosa (sobretudo do público) e com a Miramax a distribuir o filme para toda a Europa e EUA.
The Tears of the Black Tiger é uma daquelas oddities sempre recomendadas a qualquer curioso por cinematografias não mainstream e território cinematográfico oriental ainda 'virgem' e não sujeito à actual maníaca doença de remakes americanos.
Sábado, Abril 05, 2008
No Drama Queen
Com um dos mais reconhecíveis olhares do século XX, quase sempre vagamente incobertos pelo fumo do cigarro, Bette Davis foi o Drama feito carne. Com as suas personagens cruas e reais, Davis foi (e é) uma das maiores incarnações daquilo que em Cinema é frenéticamente procurado mas poucas vezes alcançado, o Mito do (e no) Real.
Davis faria hoje 100 anos no Mundo dos Homens.
Labels:
cinema,
culto,
Gallery of Cool,
personagens,
retro
Love, Hate, Action!
Durante uma boçal festa burguesa, Ferdinand 'Pierrot' Griffon ( Jean Paul Belmondo) interroga o realizador americano (Samuel Fuller, ou Samuel Fou... Foulaire, aqui em 'Cameo Mode' a representar o 'verdadeiro Cinema'), provocando-o com uma pergunta sobre o que é realmente o Cinema. Num diálogo a três, com uma interprete a mediar o diálogo entre o françês e o inglês e a traduzir de forma 'errada' a pergunta de Ferdinand, Fuller explica de uma forma algo indiferente o seu mais recente filme, que está a tentar filmar em Paris, revelando depois toda a essência do verdadeiro cinema, limitando a sua definição ao mais elementar tema, destilando-o (aqui de forma quase alquimica) através de uma singela definição: O Amor, o Ódio e a Acção, a Violência e a Morte... In one word, Emotions!
Provavelmente um dos filmes mais significativos para todo o entendimento das bases teóricas da Nouvelle Vague, Pierrot Le Fou (1965) é em si mesmo um código para decifrar todo o Cinema, onde todos os mais infímos detalhes são revelações e todas as personagens, mesmo aquelas que possam passar despercebidas, são simbolos cinematográficos em si mesmas.
Labels:
anos 60,
avantgarde,
cinema,
culto,
personagens
Quinta-feira, Abril 03, 2008
Perda e Perdição (2)
Num flashback que explica futuras 'perdas' maternais provocadas pela luta de poder, Isenstein coloca o jovem Ivan (Erik Pyryev) a assistir impotente ao arrastar do corpo da mãe pelos conspiradores boiardos, depois de ter aparado o seu corpo moribundo nos últimos momentos de vida. Uma das cenas chaves na leitura da segunda parte de Ivan Grozny (1958), esta acção parece querer simultaneamente querer 'desculpar' o profundo calculismo do futuro Czar, que gerará a sua perdição moral e simultaneamente apontar para a origem de todos os actos de excesso de poder, colocando novamente esta cena (no sentido inverso, com Efrosinia Staritskaya a aparar o seu filho Vladimir) já no final do filme.
Labels:
cinema,
culto,
personagens
Quarta-feira, Abril 02, 2008
Noir Dassin
Bastará pensar em três dos maiores marcos do cinema noir de sempre (Du Rififi Chez les Hommes, Night and the City, com também outra recente ausência do 'mundo dos vivos' - Richard Widmark, e claro The Naked City) para perceber que com o desaparecimento de Jules Dassin desaparece também uma das mais influentes e inovadoras figuras do Cinema do século XX, mesmo que pouco notada pela maior parte dos blogs cinéfilos. Não será preciso conhecer de forma exaustiva a história do noir para entender a importância vital deste realizador não só na formulação do género como na sua reformulação (por muito ambíguo que isto pareça) e na criação de algumas das 'normas' que ainda hoje são exaustivamente usadas, algo que parece provar a sua genialidade. Fica aqui uma singela homenagem a um dos realizadores que pessoalmente me deu algumas das horas mais espantosas de cinema que me lembro.
Julius (Jules) Dassin - 18 de Dezembro 1911, 31 de Março de 2008
Labels:
cinema,
culto,
Film Noir,
obituários
Terça-feira, Abril 01, 2008
Masculino e Feminino (4)
A Princesa Yuki (Misa Uehara), chora a morte da sua criada e doppleganger, executada pelo clã Yamana, olhando para lá dos montes onde se encontra a cidade de Akizuki. Criada como um rapaz pelo clã, Yuki despreza o sacrifício da sua criada e irmã de Rokurota Makabe (Toshiro Mifune), reprendendo o esforço dos seus vassalos de uma forma furiosamente masculina, para depois se afastar para a falésia e revelar a sua natureza, a de uma adolescente desamparada que chora a perda de uma amiga da mesma idade.
Kakushi-toride no San-Akunin (Akira Kurosawa, 1958)
Labels:
anos 50,
cinema,
cinema nipónico,
culto,
DVD,
personagens
Subscrever:
Mensagens (Atom)





















