Domingo, Março 30, 2008
A Moment of Anger (1)
A Mulher Escarlate (Marjorie Cameron) acende o cigarro na chama de Shiva (Sampson De Brier), iniciando a orgia divina. Um dos maiores e mais influentes filmes independentes de sempre, Inauguration of the Pleasure Dome (1954) é possivelmente também a mais completa obra de Kenneth Anger, aquela que nos seus curtos mas fundamentais quase 40 minutos consegue mostrar porque é que Anger é um dos nomes mais centrais do cinema americano dos anos 60, com as suas sobreposições de imagens, os seus 'feitiços' imagéticos e uma estrutura de composição que se rende ao simbolismo poucas vezes trabalhadas no cinema americano desta forma tão assumida e gloriosa.
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A convocation of magicians assume the identity of gods in a Dionysian revel. Lord Shiva, the magician, awakes. The Scarlet Woman, whore of heaven, smokes a big, fatjoint; Astarte of the moon brings the wing of snow; Pan bestows the grapes of Bacchus; Hecate offers the sacred mushroom, yage, wormwood brew...
The orgy ensues - a magick masquerade at which Pan is the prize. Lady Kali blesses the rites of the children of light as Lord Shiva invokes the godhead with the formula Force and Fire.
Kenneth Anger
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Maria Juana (2)
Burma 'Blondie' Roberts (Harley Wood) fuma o seu primeiro joint de Marijuana, com resultados hilariantes. Um dos momentos mais 'expressionistas' do cinema de Dwain Esper, o feiticeiro do inicial Exploitation e um dos maiores mestres de cerimónias do género, Marihuana (1936) poderá não ser um dos mais 'extremos' exercícios de choque cinematográfico do realizador mas é o seu filme mais 'simbolista'.
Recheado de momentos icónicos (o night swimming das mulheres presentes na festa do dealer, o estranho sotaque 'estrageiro' do cabecilha da organização criminosa, o melodrama do final...), elevando um género que era inicialmente uma excressência oportunista do cinema 'educativo' ao seu conceito de puro cinema, com todos os seus vícios e hilariantes consequências.
Quinta-feira, Março 27, 2008
Troglofitas (2)
via Internet Archive
Tal como o tesouro do post anterior mais uma raridade do Z é relembrada cá em casa ao serão devido à estreia do intragável 10,000 B.C. Eegah (1962) é uma daquelas obras de culto que sempre foi relegada ao desprezo pelo mainstream e que agora parece legitimada por este desesperado esforço cinematográfico em vender bilhetes.
Se juntarmos a todas as 'inexactidões' antropológicas e históricas (debitadas a uma velocidade generosa), os vários problemas estéticos e os vistosos buracos na continuidade narrativa à presença do gigante de culto Richard Kiel, à sexy e pouco activa Marilyn Manning e ao troglodita herói do cinema B de R'n'R Arch Hall Jr. (uma das maiores figuras de culto do B, actor no histórico Wild Guitar e do excelente The Sadist já aqui comentado onde Marilyn Manning também brilha) este torna-se uma dos filmes de culto mais bizarros de toda a década de 60 , com os seus Rock and Roll acts à beira da piscina, as suas pouco convincentes interpretações e sobretudo a algo controversa e simbólica cena de 'quase violação' da apaixonada Roxy Miller (Manning) pelo troglodita Eegah (Kiel).
Ao contrário da 'troglofita' do post anterior, assumidamente um exploitation cheesecake de contornos modestos, Eegah é mais um low budget de drive-in que remete para o universo da santíssima trindade dos teen-exploitation da década de 50 (hot rods, rock and roll e 'barbarismo' adolescente) e que com Frankenstein's Daughter, The Giant Gila Monster (ambos já comentados por aqui e aqui) ou muitas das posteriores produções da AIP (já tarde na década de 60) é um exemplo típico do fascinante canon do cinema para adolescentes dos anos 50, aqui condensado até ao ponto da exaustão e a gerar algumas imagens de culto mais frenéticas nessa mesma categoria.
Aos poucos redescoberto devido sobretudo à presença do grande vilão bond Richard Kiel, Eegah pertence já ao panteão do camp levado ao extremo, podendo ser actualmente adquirido on-line de forma mais acessível, devido ao seu estatuto actual de Criative Commons. Uma agradável redescoberta.
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Quarta-feira, Março 26, 2008
Troglofitas (1)
Perante a maior crise criativa (e umas das maiores em termos financeiros) de sempre, Hollywood vai poluindo os cinemas mainstream com algumas das piores descargas de mau gosto de sempre. Como se não bastasse o outsourcing criativo com a compra de várias cinematografias mundiais em peso para a produção de remakes de forma a tapar a crise de ideias, temos ainda que aturar a última palavra na nulidade com 10,000 B.C., uma javardeira pré-histórica recentemente estreada aqui no Reino Unido e que parece querer fazer lembrar que a Humanidade afinal não evoluiu assim tantos nos últimos milénios.
Perante tal panorama não resta mais nada senão rever alguns clássicos do Z para entender que existem algumas pérolas do camp que outrora foram relegadas para o limbo não-artístico do exploitation e que agora parecem encontrar alguma legitimidade artística (limitada é certo) perante tal nulidade de valores no actual cinema americano mainstream. Talvez um dos campeões do camp troglodita retro será este The Wild Women of Wongo (1958), considerado desde sempre como um dos piores filmes de sempre, figurando orgulhosamente no topo de várias listas do género. Não sendo uma recriação 'educativa' e histórica (como por exemplo Prehistoric Women ou One Million Years B.C., já comentados aqui e aqui) nem uma descrição de 'costumes diferentes' de algum canto escondido da planeta (como por exemplo She Gods of Shark Reef, também já comentado aqui) resta a The Wild Women of Wongo a definição de exploitation de teor cheesecake, descarado mas inofensivo.
Quando o 'Father Time' e a 'Mother Nature', como explica a voz 'didáctica' no início deste hilariante filme, decidem juntar homens 'normais' com trogloditas femininas na ilha de Goona e repetir a fórmula (deste vez de forma inversa) com bonitas amazonas descascadas de vergonha e parvos trogloditas na ilha vizinha de Wongo, começa uma das epopeias pré-históricas que nunca poderia ser escrita em qualquer livro, mas que teriam sempre (mais tarde ou mais cedo) que ser mostrada nos ecrãs independentes do circuito de exploitation americano da década de 50 e posteriores, adquirindo uma patine de culto que parece ser agora já espessa.
Claramente o motivo da narrativa não é a recuperação de algum objecto sagrado de valor ou alguma 'tecnologia tribal' que poderia gerar mais um passo na evolução humana, mas a satisfação estética (e mais outras) das jovens mulheres de Wongo que poderão ser resolvidas pelos jovens homens da rival tribo, e que gera uma situação onde a caça, o rapto e tomadas de 'posse' dos jovens trogloditas por parte das atrevidas belezas primitivas são descritas, para satisfação masculina e algumas das gargalhadas mais merecidas em toda a história do camp no cinema.
Sem ser preciso dizer muito mais sobre Wild Women..., esta troglofita parece estar agora legitimada para ser vista até pelo público mais highbrow acostumado a mastigar com satisfação as suas pipocas inconsequentes no mainstream e o seu estatuto de Creative Commons (merecido, para o bem e para o mal) permite agora a muitos conseguirem passar as vistas neste magnífico documento cinematográfico.
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Vampiros Selectos (5): Lemora
Confesso que depois de tantos obcecado pelo que é definido como 'Cinema de Culto', só há muito poucos meses encontrei Lemora: A Child's Tale of the Supernatural (1973), um desses 'objectos de culto' que gerou alguma influência na 'tribo gótica' e com um pequeno mas fiel exército de fiéis fans. Mas confesso que depois de tanto ler histórias fabulosas sobre este low budget realizado por Richard Blackburn, a sensação que fica ao ver Lemora é a de um certo vazio sentido pelo desapontamento de ver tantas ideias interessante serem desperdiçadas por uma tosca forma visual de mostrar este estranho conto de vampirismo.
Inserindo-se numa 'tradição' de low budget de terror americano, muito activa na época e que viria depois a definir a nova vaga de terror do final da década de 70, Lemora tem alguns pontos em comum com quase todos os anteriores posts dos Vampiros Selectos, parecendo misturar influências 'atmosféricas' europeias, comuns a Jean Rollin e Jeromil Jires de Valerie and Her Week of Wonders (1970), com o cinema com atmosferas referentes a um certo estilo próximo do American Gothic (existem aqui pequeninos toques de Night of the Hunter ou Carnival of Souls), depois mastigado até à náusea (e de forma infantil) por Tim Burton.
Com um plot claramente polémico para o público americano da época, Lemora encontrou um público fiel numa Europa dominada na altura pelo Euro Sleaze no cinema de terror, onde a sua forma sigela (e algo pateta) de lidar com a relação de contornos lésbicos entre a adolescente Lila Lee (Cheryl Smith) e a vampira Lemora (Lesley Gilb) era vista como casta e inofensiva perante o erotismo violento de Jess Franco e Jean Rollin. Mas mesmo gerando algum culto, esta obra nunca conseguiu chegar a um nível de culto de muitos dos filmes deste género, talvez devido a sua algo cambaleante realização (que tanto possui momentos muito interessantes como incrivelmente amadores e patéticos) e a sua cadência narrativa, sem qualquer ritmo e cheia de buracos. Talvez por isso, apenas nos anos 90 esta obra tenha começado a gerar algum culto, tendo sido editada finalmente em video (onde parece ter sido banida até então), e tenha começado a emergir dentro deste sub-género de terror.
Mesmo não sendo uma clara obra-prima, e tendo várias falhas de realização que o baixo orçamento evidencia de forma quase 'cruel', Lemora: A Child's Tale of the Supernatural poderá gerar algum interesse 'histórico' naqueles interessados nos contemporâneos e semelhantes objectos de culto europeu. Decerto que poucos serão os que acham esta obra mais significativa que algumas das obras chaves dos já citados Franco ou Rollin (embora algumas fan pages on-line pareçam querer negar isto), mas a sua presença no 'universo do culto', que já deu modestos frutos na cultura pop americana (sentida quer no goth fandom, quer em algumas graphic novels), merece uma visão interessada.
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Terça-feira, Março 25, 2008
Wi(l)dmark
Um rápido post, tão curto quanto grandemente merecido, para tecer um elogio fúnebre a um dos actores que encarnou alguns dos anti-heróis mais espantosos do Film Noir.
Pessoalmente lembrar-me-ei sempre de Richard Widmark como o espectacularmente desiludido carteirista de Pickup on South Street de Fuller e o brutal e cínico vilão no seu role de estreia em Kiss of Death, que lhe deu um Oscar precoce e merecido. A sua forma de representar personagens, cépticas e violentamente desencantadas, ajudou a moldar alguns dos role models do Noir, marcando com a sua presença 'intelectualmente maligna' em clássicos como Night and the City de Dassin ou Panic in the Streets de Elia Kazan, encarnando facilmente algumas das características mais interessantes que definem esse tipo de personagens.
Com uma carreira bem mais longa e versátil que a que pessoalmente conheço, fico com a ideia que sem a presença de Widmark todas as obras citadas nos parágrafos anteriores nunca teriam conseguido atingir o completo estatuto de obras-primas que hoje têm.
Richard Widmark, 26 de Dezembro de 1914 - 24 de março de 2008
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Segunda-feira, Março 24, 2008
Masculino e Feminino (3)
A primeira aparição da personagem que dá título ao filme: O orgulhoso Ballin Mundson (George Macready) entra nos seus aposentos com Johnny (Glenn Ford) para apresentar a sua recente 'aquisição' através de um casamento rápido. Antes de passar para a 'câmara nupcial' Mr. Mundson pergunta a Mrs Mundson (Rita Hayworth) 'Are you decent?', originando os gestos de uma das cenas mais eróticas de sempre na história do Cinema Americano.
Charles Vidor em Gilda (1946) tenta camuflar o facto da sua personagem principal ser a mais 'masculina' do filme (e desculpem-me esta expressão, quase ofensiva quando atribuída a Hayworth) com a sua 'amoralidade', quase sempre ocultada durante o filme e exagerada propositadamente pela própria personagem durante a célebre cena músical da 'luva' (outro marco das imagens eróticas no Cinema). De facto Gilda (e até certo ponto, Hayworth) nunca se contenta ou resigna a ser o simples 'objecto de posse' (algo várias vezes referido durante o filme), uma 'condição feminina' socialmente aceite, mas quer ser 'livre' como um masculino individualista herói, perante o terror impotente do seu marido e da desorientação do sidekick Johnny , que para além de cuidar das posses do seu patrão (e volto aqui a frisar a ideia de posse, como se um objecto se tratasse, da personagem de Gilda), tem aqui também outras razões de 'posse' (ou de recuperar a 'posse', Gilda partilha o nome Farrell com Johnny) de um 'bem' indomável, castrador e volátil, que não soube nem sabe como controlar.
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Domingo, Março 23, 2008
Masculino e Feminino (2)
"All of You?!", pergunta (ou afirma?) Dorothy (Jane Russell), esclarecendo logo a seguir que se refere à hora de recolher espartana aos quartos do 'hotel flutuante' a que todos os membros da equipa olímpica estão sujeitos, privando de companhia Dorothy e da sua vistosa amiga Lorelei Lee (Marylin Monroe) enquanto viajam até "Europa, França". Um eterno moldar das personagens femininas ao universo do desejo masculino na mais barroca, excessíva e sexista obra de Howard Hawks, Gentlemen Prefer Blondes (1953) é também um dos mais deliciosos retratos da nova classe média americana, emergente do popluxe dos subúrbios do pós-guerra. Mesmo claramente um filme 'masculino' (afinal esta é uma obra de Hawks), este é um entretenimento pós-moderno para o 'menino e p'rá menina' onde o desejo sexual masculino pelo luxo do convívio com as curvas da loura Monroe e da morena Russell se casam de forma harmoniosa com os novos comportamentos de 'sofisticação feminina' dos 'fáceis' 50s.
Quase seis décadas depois parece que a vulgaridade das duas desbocadas 'gold diggers' de Hawks tornaram-se já ultrapassadas personagens de um comportamento de virtude, se comparadas com as excessívamente tristes e (simultaneamente) hilariantes actuais cabeças de cartaz da sociedade das celebridades.
Mesmo quando algumas imagens deste filme invocam alguns dos comportamentos sociais actuais existe uma diferença fundamental entre a vulgaridade irónica de Hawks e o actual circo de wannabes celebridades. Usando como exemplo outra das mais estridentes cenas desta maratona cómica, aquela quando as duas personagens entram no restaurante perante o olhar de espanto (e luxúria) de todos os outros clientes (sem excepção), a diferença entre Dorothy e Lorelei será o gosto pelo 'verdadeiro' e exclusivo luxo (quer seja em jóias, vestidos ou outros artigos de luxo como maridos de carteira recheada), contrastante com a actual tendência de consumo, dominada por um consumismo que rima com sweat shops e com slogans onde a qualidade é minimizada.
Voltando ao tema deste post, depois de tantas décadas, podemos perceber que foram mavericks como Hawks que criaram os role models que servem (directa ou indirectamente) de 'moldes sociais' aos actuais comportamentos (aqui serão mais os femininos aqueles expostos), gerando uma ambiguidade sexista do fascínio pelo vulgar e exagerado que parece ser agora adoptada como sofisticação de elite.
Sábado, Março 22, 2008
Vive e Geisha Viver (3)
Miyoharu (Michiyo Kogure) promete a geisha novata Eiko (Ayako Wakao) tornar-se o seu 'patrono', de forma a evitar os possíveis abusos dos clientes, mesmo sabendo que para tal, terá que se submeter finalmente à exploração sexual que conseguiu evitar durante toda a sua carreira como Geisha.
Um dos momentos de cumplicidade mais comoventes de toda a obra de Kenji Mizoguchi, o final de Gion Bayashi (1953) parece querer emendar a crueldade do final de Gion No Shimai, descrito neste post anterior. Mais um conto que revela as tensões entre as atitudes contemporâneas do pós-guerra e as rígidas 'fórmulas sociais' da tradição japonesa, Gion Bayashi pega na mesma situação deste filme para fazer uma actualização pós-guerra.
Aqui a raiva e a resignação perante a exploração das Geisha (também aqui explorada de forma magistral por Mizoguchi) é resolvida finalmente, quase 20 anos depois de Gion No Shimai, para revelar o lado maternal e filial das personagens de Miyoharu e Eiko, ligadas pelo destino a cuidarem uma da outra.
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Quarta-feira, Março 19, 2008
Masculino e Feminino (1)
Glen (Edward D. Wood Jr., ou Daniel Davis como é creditado) encontra-se num impasse que poderá marcar a sua vida para sempre: revelar que só é feliz quando se veste de mulher ou tratar tal 'doença' de forma a poder casar e ter uma vida 'normal' com Barbara (Dolores Fuller)?
Um dos maiores documentos do camp (involuntário?) no cinema, Glen Or Glenda (1953) é a mais bizarra obra daquele que seria mais tarde alcunhado como o pior realizador da história do Cinema e aquele que foi um dos últimos verdadeiros exemplos do exploitation no Cinema americano (refiro-me aqui claramente às séries de 'documentários' que proliferaram por toda a 'paisagem marginal' do cinema entre as décadas de 10 e 40 do século passado).
Mas mesmo tentando ainda escudar-se num lado 'informativo', Glen Or Glenda possui já o core do que é de facto so sexploitation, um género que apenas se 'assumiu' nos 50s como cinema de 'autor' nos EUA, bem mais 'assanhado' e com motivos bem mais expostos. De resto, algumas das mais bizarras imagens deste filme, misturando o teor auto-biográfico de algumas das sequências com uma perspectiva 'documental' dúbia e mais ousada que os documentos exploitation anteriores, parece já anunciar um emergente género (o sexploitation), bem mais orientado para uma perpectiva de autor, que Wood aqui é um dos pioneiros.
Tentando explicar (explicar-se) a questão sexual com que mais pessoalmente se identificava, Wood mistura nesta comédia involuntária o filme científico e conteúdos com tendências 'educativas' e 'morais' da primeira vaga do exploitation (na altura já ultrapassado devido à já emergente e mais acessível indústria cheesecake e soft core) com alguns stag films a ilustrar outras 'perversões' socialmente mais condenáveis, possivelmente incluidos no filme pelo produtores (a Screen Classics, uma conhecida produtora exploitation da época), de forma a gerar mais interesse interesse nos patronos da bilheteira, pouco interessados em ver Wood de peruca louca e saltos altos a espreitar as montras.
Com encenações bem primárias e representação amadora e rígida (como ditava o canon deste fascinante género cinematográfico), Glen Or Glenda entrega uma visão pessoal do realizador sobre a questão, tentando exorcizar os seus fantasmas, e que culmina com a cena imortalizada no cinema mainstream no poster de Ed Wood de Burton a marcar o conteúdo moral do filme, afirmando que o amor conquista qualquer adversidade vivêncial, mesmo aquelas de Wood padecia e que o fez gerar, com um entusiasmo conhecido, um dos mais fascinantes (e influentes, diga-se) documentos cinematográficos dos anos 50.
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Ideionauta
Uma das maiores fontes de inspiração tecnológica do século XX, Arthur C. Clarke foi um mestre das ideias, aquele que de forma quase singela pensou (e imaginou) alguns dos mais importantes pormenores de um século onde os avanços tecnológicos foram estonteantemente poderosos e gigantescos. Tirando a Ficção Científica do seu limbo pouco credível aos olhos do público leigo no género, Clarke popularizou a forma de como (também) as ideias podem elas ser um poderoso veículo de invenção, tornando-se reais através da vontade.
Com quase todas as suas expectativas científicas resolvidas (uma das não realizadas terá sido a de provar a existência de vida extraterreste inteligente), Clarke deixou o planeta Terra no passado dia 19 de Março, deixando para trás uma contribuição vital para a evolução humana e uma marca vincada na forma como hoje entendemos não só o mundo que nos rodeia e aquele que nos é exterior, mas também na nossa concepção da Realidade.
Sir Arthur Charles Clarke, 16 de Dezembro de 1917 - 19 de Março de 2008
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Sir Arthur C. Clarke's The Three Laws of Prediction:
1.When a distinguished but elderly scientist states that something is possible, he is almost certainly right. When he states that something is impossible, he is very probably wrong.
2.The only way of discovering the limits of the possible is to venture a little way past them into the impossible.
3. Any sufficiently advanced technology is indistinguishable from magic.
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Terça-feira, Março 18, 2008
Curto Culto
Juntando algumas das mais conhecidas curtas metragens espanholas do género, o DVD Los Mejores Cortos Espanõles de Terror y Suspense de 2006 é uma interessante colecção de curtas que junta algumas das primeiras obras de alguns dos mais relevantes realizadores do género, sendo um importante meio de conseguir passar os olhos num formato (a curta metragem) que infelizmente é ainda discriminada em edições de DVD.
Com uma selecção algo desigual, oscilando entre o realmente interessante e o chato e pervisível, os pontos altos são a curta de Alex de la Iglésia (o hilariante Mirindas Asesinas de 1991) logo a abrir as hostilidades, o slasher Killing the Spot (2001) de Albert Pérez (com o sinistro Juan Márquez), o bucólico e sinistramente infantil Ya No Puede Caminar de Luiso Berdejo (uma surpresa absoluta) e o pastiche hilariante Amor de Madre (de 1999, na imagem) da dupla 'subversiva' Koldo Serra e Gorka Vázquez, pessoalmente o favorito, que revelou o realizador do sonante Bosque de Sombras (2006).
Mesmo com alguma 'palha' pelo meio, esta edição (se não me engano da FNAC espanhola), é uma interessante colecção de curtas espanholas recentes, que segundo parece tem já um segundo volume, onde está incluida a conhecida (dos frequentadores do Fantas) de I'll See You in my Dreams de Miguel Ángel Vivas. Recomendado sobretudo a interessados no recente cinema espanhol do género.
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Segunda-feira, Março 17, 2008
Maria Juana (1)
A musical short where the three-strip Technicolor process was used for the first time.
From IMDb: Senor Martinez, a famous theater owner, visits a local bar in Mexico because of its reputation for good food and to audition the famous dancer who performs there. Martinez tells the bar owner that if the dancer is as good as he has heard, he will offer him a contract to perform in his theater.
No tema principal da curta musical La Cucaracha (1934), Chatita (Steffi Duna) canta a versão original do conhecido tema da Cucaracha, onde o pobre insecto já não quer caminhar por não ter marijuana para fumar, numa altura em que esta substância ainda era vista como uma novidade no estilo de vida de alguns segmentos da sociedade boémia norte americana (e confinada sobretudo às minorias mexicanas e negras urbanas).
Mais um dos tesouros obscuros mas preciosos do tão louvado Internet Archive.
Sábado, Março 15, 2008
Start Trek (2)
Ao abrir a porta do quarto hexagonal com as paredes cobertas de portas espelhadas, Vince Grayson (DeForest Kelley) entende que afinal o pesadelo de algumas noites atrás poderá ser de facto real. Agora resta apenas perceber se a misteriosa chave que descansa no bolso do casaco cabe em alguma das fechaduras.
Mais uma obra inicial de um elemento da tripulação da Enterprise, este Fear in the Night (1947) foi o primeiro papel principal do então jovem DeForest Kelley, mais tarde reconhecido em qualquer parte do Mundo como o Doctor McCoy. Neste singelo, por vezes atrapalhado, mas interessante filme, Kelley vai revivendo um estranho pesadelo sonhado, envolvendo um crime de contornos obscuramente sem sentido, que cada vez se torna mais real devido ao constante aparecimento de evidências físicas do assustador acontecimento.
Um inocente thriller B de contornos Noir, por vezes pontuado de imagens interessantemente 'obscuras', Fear in the Night é um interessante documento para entender mais de um actor que, tal como o restante cast de Star Trek, ficou marcado pela personagem que incarnou nesta série.
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Start Trek (1)
De forma demagógica e ofensiva Adam Cramer (William Shatner) apela à insurreição da população branca da pequena cidade southern de Caxton perante as novas leis de integração raciais, que permitem estudantes negros estudar nas mesmas escolas actualmente frequentadas apenas pelos adolescentes brancos da cidade.
Um dos primeiros major role do que seria depois o Capitão Kirk da Starship Enterprise, Shame (aka The Intruder, de 1962) é um pujante retrato (poucas vezes mostrado desta forma tão crua) das pérfidas tácticas de propaganda racista nos estados sulistas durante a chamada Integração e de como facilmente uma aparentemente normal comunidade é transformada através da palavra (e na sua quase totalidade) numa lynch mob sem freio, revelando o lado assustador do 'ser social'.
Roger Corman (aqui também ele a revelar-se para lá na sua faceta mais conhecida e que gerou mais culto) molda de forma competente um retrato sem redenção de uma qualquer pequena comunidade americana dos anos 50, assombrada pelos fantasmas sociais que se materializam quando a viciada 'ordem estabelecida' é ameaçada, e dos oportunismos políticos que normalmente aparecem nessa altura, de forma a obterem poder pessoal que esconda a sua pequena existência. Não traindo o seu estilo, considerado 'exploitativo', Corman faz deste intruso acabado de chegar à cidade para instigar o ódio, um pujante veículo que permite entender que existiam sempre por toda a América 'interior', ouvidos prontos a ouvir as mensagens de segregação racial, sempre gritadas de forma inracional e quase sempre com os mesmos resultados práticos.
Apontando de forma explícita todos os elementos básicos destas turbulências sociais, este low budget é uma oddity cinematográfica infelizmente algo esquecida mas que foi conseguindo geral algum culto ao longo dos anos. Shame lembra de forma inequívoca que Shatner é de facto um excelente actor, algo que nem sempre é reconhecido, talvez devido a ter feito a carreira a representar papéis limitados na sua 'profundidade' ou, sobretudo, por se ter tornado uma figura pop (e uma caricatura em si mesmo) devido à sua prestação na mais influente série de sci-fi de sempre.
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Vive e Geisha Viver (2)
Depois de todas as suas mentiras terem sido expostas, resta apenas o amargo lamento à jovem O-Mocha (Isuzu Yamada), condenando de forma raivosa um mundo masculino onde as Geisha têm de existir e onde inevitavelmente têm que se submeter à dependência de um 'protector'. Talvez um dos primeiros filmes a romper violentamente com a visão exótica (sobretudo ocidental) do papel da Geisha na sociedade nipónica, Gion No Shimai (As Irmãs Geisha de Gion, de 1936) de Kenji Mizoguchi é um poderoso conto sobre a moralidade através das aparências e para lá desta, expondo estes altamente treinados 'ornamentos femininos' como seres humanos reais que quase nunca se revêem na visão ilusória que lhes foi atríbuida.
Parecendo querer fazer inicialmente um 'conto moral' , Mizoguchi depressa surpreende-nos ao revelar que a história da vulnerável Geisha Umekichi (Yôko Umemura) e da sua esperta irmã mais nova O-Mocha não é mais do que uma condenação à exploração da Mulher (ou pelo menos destas mulheres), dependentes da atenção masculina para viverem (ou sobreviverem), num mundo onde os códigos morais que as protegiam parecem agora inexistentes.
A personagem de Yamada que sofre as consequências dos seus actos no final do filme, mostra-nos não a 'redenção através da punição' mas a redenção através da condenação da injustiça (que Mizoguchi parece querer justificar na personagem devido à sua condição dependente), redimindo a personagem com um curto mas pujante monólogo na cena final, que condena a passividade das Geisha perante esse mesmo injusto mundo (e que de certa forma justifica as acções da personagem), perante o pranto da irmã mais velha, já conformada com a sua condição.
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Sexta-feira, Março 14, 2008
Vive e Geisha Viver (1)
O descritivo documentário Maiko: Being an Apprentice Geisha (2005) produzido pela BBC é o retrato do quotidiano de uma aprendiz de Maiko (ou Geisha), que troca as vivências normais de uma adolescentepor uma forma de vida rigorosamente estilizada e vista quase sempre como antiquada pela actual sociedade japonesa.
Através de Maiko vamos entendendo o rigoroso e dispendioso treino a que cada vez menos jovens se submetem de forma a se transformarem no que até ao início do século XX era visto como um dos mais sublimes formas de arte japonesas, um ornamento humano conseguido através de anos de sacríficio e treino vigoroso, por vezes levado até à exaustão e com algumas marcas físicas.
Mesmo sendo um pouco profundo retrato das actuais Geisha no Japão, e sem se debruçar demasiado sobre algumas 'duplicidades' que ainda são atribuídas a esta forma cerimonial de serviço, Being an Apprentice Geisha é um singelo mas interessante olhar sobre uma vivência ainda hoje hermética e pouco visível ao exterior, mostrando as adaptações das Geisha à sociedade actual e alguns dos preconceitos sociais ainda hoje associados, muitas vezes criados devido a uma mal interpretação dos códigos de conduta pós-segunda guerra mundial.
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Orsonismos (1)
O que é e o que poderia ter sido: a obra que poderia ser a mestra do realizador, mas que foi criminosamente retalhada em cerca de 60 minutos pelos produtores, de forma a 'moldar' este filme aos gostos modestos do mainstream. A obra que foi tão comprometida por dificuldades várias (dos excessívos gastos para além do budget inicial às relações problemáticas entre alguns dos actores) que foi considerada perdida, mas também aquela que poderia ter consolidado a fama de um dos maiores visionários do Cinema americano do Século XX.
Em The Lady From Shanghai (1947) ficam marcadas na retina três das sequências de cenas que tornam Welles único. A primeira será a célebre sequência no Aquário, quando Elsa e Michael (Rita Hayworth e Welles) se encontram furtivamente para definirem toda a narrativa simbólica deste filme. Outra é a inovadora 'sequência dos espelhos', fortemente inebriante (e também fortemente amputada). A terceira, a cena final da morte de Elsa, tão minimalmente brutal como humanamente reveladora.
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Segunda-feira, Março 10, 2008
Cecilia Roth ao Serão
O flash de um strobe durante o concerto faz Sexilia (Cecilia Roth) reviver a situação traumática que a tornou na ninfomaníaca mais 'atlética' de Madrid (ou de uma Madrid marcada por uma movida artística que já não existe). O vocalista da banda é Riza Niro (Imanol Arias), recrutado à pressa no backstage depois de um acidente com o vocalista original. Revela-se neste momento que a figura central dessa situação traumática, vivida vários anos antes durante umas férias na Costa del Sol, é o mesmo cantor no placo, que agora canta 'Gran Ganga', uma dos temas mais hilariantes criados por Almodóvar e Fabio McNamara.
'Sexilia' Roth, uma Chica Almodóvar algo esquecida, e que apenas foi depois 'repescada' para Todo Sobre Mi Madre (1999), deixa em Laberinto de pasiones (1982) uma das marcas mais fixantes na obra de Almodóvar, re-incarnado a figura feminina principal numa das obras que é já hoje reconhecida como sendo a verdadeira (e sólida) génese do que se tornaria o Cinema do Mestre. Mesmo tendo atravessando duas décadas de alguma obscuridade perante os fans mais tardios (e apenas resgatada à alguns anos através do formato DVD), este é, possivelmente, o início estrutural (e moral) da obra-prima Mujeres al borde de un Ataque de Nervios (1988), que fecha o primeiro ciclo da obra de Almodóvar e que é em si mesmo o exercício final de toda as obras do realizador durante os 80s.
Mesmo algo datado, Laberinto de pasiones é um dos filmes centrais na produção cinematográfica espanhola dos anos 80, definindo através das suas personagens e situações o que foi a Madrid durante e depois do Franquismo, tentando exorcizar essa herança pesada através de figuras de estilo exuberantes e excessívas, relembrando que esta mesma cidade tornou-se, depois de ter sido a última capital do fascismo europeu, a mais livre e criativa cidade europeia dos anos 80. Um magnífico re-encontro agora em DVD.
Domingo, Março 09, 2008
Carmen Maura ao Serão (3)
*post inicialmente escrito em 30 Janeiro 2008
A segunda aparição do 'fantasma' de Irene (Carmen Maura) à sua filha Sole (Lola Dueñas) desencadeia a aceitação da figura materna (seja ela uma 'aparição' física ou sobrenatural), redimindo a sua ausência, como em quase todas as obras de Pedro Almodóvar.
Cá em casa finalmente fazem-se as pazes com a obra do realizador. É sabido que após Tacones Lejanos, Almodóvar se tornou um cineasta mais 'global', mergulhando nas vertigens da indústria americana e afastando-se dos seus contos pós-modernos de que Mujeres al Borde... (1988) é a sua obra prima absoluta. Mas voltando, depois de tantos anos, a assistir a um filme do mestre é com surpresa que se reencontram alguma da 'estética moral' da primeira parte da obra do realizador, filmados sem o 'pudor' cinematográfico que se pode encontrar em obras mais comerciais e 'sérias' como Carne Trémula (1997) ou Todo sobre mi Madre (1999) .
Mesmo apoiando-se no estrelato de Penelope Cruz (que pessoalmente me parece tão falsa como as pestanas que usou num certo anúncio), é Maura (a maior Chica Almodóvar de sempre) quem assombra Volver com a sua presença, rematando quaisquer dúvidas que podessem existir, que esta actriz possui a maior presença do universo sentimental (ou melodramático, para ser mais correcto) que o realizador formulou de forma magistral na sua fase entre Entre Tinieblas (1983) e Tacones Lejanos (1991) e que agora faz renascer em Volver.
Não re-acendendo a chama de fascínio que pessoalmente sinto pela primeira parte da sua obra (o último que pessoalmente me conseguiu realmente satisfazer foi o já citado 'Tacones', no distante ano de 1992), Volver faz-me, no entanto, acreditar que Almodóvar é actualmente o maior mestre de cinema europeu vivo, um dos únicos que consegue novamente por o 'sangue' (ou herança) a falar alto, como apenas os maiores conseguem.
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Sábado, Março 08, 2008
Born in Kisarazu
Confesso que é com prazer que finalmente me passou pela retina o primeiro filme de um dos dorama que mais culto gerou cá por casa. Poucas foram as séries japonesas que conseguiam criar uma adicção (culpa de um argumento bem talhado e personagens completas, algo pouco frequente em doramas cómicos) como Kisarazu Cat's Eye (já referido aqui).
Aproveitando o grande sucesso e o culto crescente na série inicial, os produtores da série resolveram seguir a história de Bussan, Bambi, Ucchie, Master, Ani e Co Ltd, suspendendo (mais uma vez) a iminente morte da personagem principal (Bussan, representado por Junichi Okada) para encherem quase duas horas de filme, para o deleite dos fans. Kisarazu Cat's Eye: Nihon Series (2003) é uma agradável continuação da história dos delinquentes suburbanos de Kisarazu, cujas as actividades principais são o baseball, beber umas canecas e adoração por velhos filmes de Yakuzas, com consequências hilariantes.
Desta vez o pouco inteligente bando vê-se envolvido com uma rede de falsificação de dinheiro (de aparência pouco credível, mas que toda a gente parece aceitar), Bussan apaixona-se por uma imigrante coreana que aprendeu a falar japonês a ver filmes de Yakuza e acabam por parar uma catástrofe ambiental na baía de Tóquio, depois de voltarem à pressa de uma ilha deserta no meio do nada, onde apenas vivem uma late teen pré-históricas que apenas comem caranguejos. Claro que nem só de disparates o filme se vai mantendo e, tal como na série, existem pequenas incursões pelos dilemas vivênciais de Bussan, mesmo que algo minimizados pela surreal narrativa principal.
Mesmo ampliando a já numerosa colecção de oddballs residentes da cidade suburbana e abrindo algumas brechas na história principal (talvez para dar continuação à narrativa que se seguiu no filme realizado logo a seguir em 2006), este Nippon Series é difícil de seguir para quem não tenha visto a série inicial, seguindo a história interrompida no final deste dorama e com várias piadolas a remeterem para os antigos episódios. Mesmo assim aumenta-se ainda mais o disparate cómico das personagens, com as habituais brincadeiras a imitar a Missão Impossível, uma com pouco séria incursão pelo universo dos filmes daikaiju (com uma mensagem ecológica pelo meio) e uma hilariante paródia que parece anteceder as premissas de Lost.
Mesmo aconselhado para não iniciados do universo Kisarazu Cat's Eye, este será muito mais apropriados aos fans, já habituados ao excelente mas disparatado universo cómico.
Quarta-feira, Março 05, 2008
Alucina Génio (2)
Mesmo aqueles já habituados aos delírios visuais de Katsuhito Ishii decerto que acharão Naisu no Mori: The First Contact (2005, conhecido como Funky Forest: The Final Contact) um produto muito difícil de definir. Usando muitos dos elementos já invocados em Cha no aji (The Taste of Tea, já por aqui comentado), e 'reciclando' a presença de parte do cast também usado nesse filme (Tadanobu Asano, a jovem Maya Banno e até mesmo o animador Hideaki Anno, aqui com um papel mais 'visível'), Funky Forest é um alucinante conjunto de episódios interligados e que podem ser vistos como programas televisivos, que vão contando pequenos apontamentos narrativos e visuais, na maior parte das vezes a ultrapassar o delírio neo-surrealista.
Vai-se assistindo às histórias interligadas do Guitar Brother e dos seus celibatários irmãos e a forma como lidam com a carência de seres do sexo feminino, os sonhos de Notti e Takefumi que vão revelando a sua estranha relação entre o namoro e a amizade, ao duo cómico com uma rotina nonsense que descamba invariavelmente para o abuso verbal e físico, o estranho quotidiano escolar (de contornos bizarros) que vai sendo revelado em Homeroom, a produção de um anime que tem como realizador um cão (!) e as místicas DJs da floresta que vão capturando e 'mixando' os sons secretos emitidos pela floresta do título, tudo isto sem qualquer narrativa linear e com raras ligações entre si, e sem qualquer ordem cronológica forçada.
Aparentemente uma colecção de sonhos e delírios visuais do realizador, este filme contém simultaneamente momentos espectacularmente hipnóticos e outros algo aborrecidos, parecendo quase pequenas 'piadas privadas' entre o criador e o cast envolvido neste estranho projecto. Algumas das 'transformações' corporais simbólicas 'cronenbergianas' e diálogos poderão invocar também algumas das 'artimanhas' estéticas exploradas no anime Trava: Fist Planet (aka Grasshoppa!, um dos mais antigos favoritos OVAs cá em casa, que infelizmente nunca foi comentado aqui no BitL).
Decerto que para muitos este filme será muito interessante em termos visuais, mas Funky Forest torna-se rapidamente um filme algo fastidioso de ver, talvez porque é acima de tudo o materializar visualmente de algumas ideias oníricas de um possível 'bloco de apontamentos' do realizador que poderão não ser facilmente apreendidas pelos seus espectadores. Um filme que poderá revelar muitos dos elementos do novo cinema de uma geração já alcunhada como do 'youtube' , Funky Forest, é um filme mais interessante se for visto em modo random e de forma faseada, que poderá ser visto e revisto em pequenas sessões ou na íntegra como uma alucinante sessão de video jam.
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Domingo, Março 02, 2008
Dada Siegt!
via ubuweb
Realizado em 1969 por Helmut Herbst, Deutschland Dada: an Alphabet of the German Dada continua ainda hoje a ser um agúdo e entusiasmado documentário sobre as origens do ambíguo movimento artístico (também com nuances políticas) que abriu a caixa de pandora da arte do Século XX.
Não documentando propositadamente as acções deste movimento em Paris, uma época muito mais frequentemente documentada e muitas vezes mostrada num tom romântico pouco interessante, este documentário está estruturado como um dicionário (de Z a A), revelando como poucas vezes foram mostrados, os princípais momentos e os seus intervenientes no movimento centrado no Cabaret Voltaire e nas suas ramificações activas.
Pouco preocupado em agradar às sensibilidades mainstream, como actualmente parece ser norma nos documentários sobre este movimento, Deutschland Dada apoia-se numa linguagem directa, quase 'brutista' para entregar toda a atmosfera num movimento com pouca duração temporal activa, mas que arrassou completamente as convenções da Arte ocidental e que deu origem a muitos dos elementos das artes gráficas que hoje são consideradas como garantidos.
Actualmente sem qualquer edição em DVD (que pessoalmente conheça), este documentário vai vivendo on-line, fazendo parte do extraordinário acervo da Ubu Web, e o seu download pode ser feito aqui.
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Life After Death (2)
via Internet Archive
Sendo uma notória, mas por vezes esquecida, personagem do cinema low budget americano de meados do século XX, Lon Chaney Jr. sempre foi o centro de algumas interessantes oddities cinematográficas e televisivas, como este The Devil's Messenger (1961), um episódio da série 13 Demon Street que nunca foi exibido e que adquiriu posteriormente o estatuto de creative commons.
Com a narrativa dividida em 3 partes distintas, The Devil's Messenger conta a história da suicida Satanya(!) (Karen Kadler), que ao chegar às portas do Inferno decide aceitar a oferta do Man in Charge (Chaney) de forma a 'amaciar' a pena eterna, voltando ao 'mundo dos vivos' para 'dar um empurrão' em três situações distintas, que levarão 3 homens à danação eterna.
Mesmo marcado por muitos momentos de 'humor involuntário' típico deste tipo de produções B, sobretudo na segunda história (sobre um grupo de arqueólogos que encontram uma mulher pré-histórica dentro num glaciar (!), originando diabólicos sentimentos de posse sobre a 'descoberta'), a impressão que fica deste episódio agora descoberto é o uso de imagens que provocam o culto. Singelos mas eficazes truques do cinema de terror (sobretudo na primeira história, a da fotografia da vítima que vem assombrar o fotógrafo assassino), o sci-fi (com pequeninos snippets fetichistas) e do policial mais pulp na história final, sobre uma vidente que prevê a morte do seu cliente.
Devil's Messenger poderá não ser um filme de referência, mas decerto que gerará algum interesse nos fans do género. Disponível para download no Internet Archive.
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Life After Death (1)
Correndo o risco de tornar os post sobre recentes doramas japoneses algo repetitivos, o live action de Shinigami no Ballad (conhecido internacionalmente como Momo the Girl God of Death) parece querer seguir a aparentemente fórmula adoptada pela maioria dos dorama para adolescentes das últimas seasons (como este, este e este): jovens actores ainda com pouca garra representativa, narrativas algo patchy e acção mais assente em imagens soltas do que em ideias sólidas. Mas mesmo dizendo isto existe qualquer coisa de diferente que transparece em mais esta adaptação, talvez por ser uma série mais 'fantástica' e que por isso ligada a produtos low budget do género que costumam gerar culto cá por casa.
Sendo semelhante a Jigoku Shōjo (já comentada aqui, e que pessoalmente acho repetitivamente aborrecida) esta adaptação de Momo consegue nos seus efeitos especiais baratos e na presença da Shinigami Momo (a juvenil ShokoHamada) e a sua foiçe da morte visivelmente feita de plástico e o seu sidekick Daniel (o ainda mais jovem Yoshida Riko ) gerar um interesse, moldado pelo culto trashy (reconheço), que faz parecer esta série ser diferente da chata Jigoku Shōjo, não monopolizando tanto o lado pop do estilo gótico-lolita e conseguindo concretizar de forma mais convincente o 'Universo Momo', incluindo algum do humor negro inerente na actividade da deusa da morte e do seu assistente, que vêm recolher as almas dos que morrem para as levar para um purgatório que parece ser baseado num qualquer sistema burocrático terrestre.
Como qualquer low budget fantástico, este Shinigami no Ballad live action tanto poder-se-á tornar um objecto de culto captivante como um desinteressante produto camp para televisão, dependendo das susceptibilidades dos espectadores. Dando benefício à dúvida, esta poderá tornar-se muito mais interessante com o avançar dos episódios.
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A Vida Conservada
Via DoReMii fansubs
Xiao Jie, uma aspirante escritora de cinema que vai fazendo a vida num mal pago emprego num bar, desde criança teve uma relação especial com frigoríficos, vendo-os não como apenas 'preservantes de alimentos' mas também como espaços que poderiam também conservar as suas vivências. Agora, vivendo numa grande cidade, Xiao Jie encontra algumas cumplicidades no seu broken hearted e imaginativo vizinho, um mágico frustado que parece não estar destinado para ser um salary man.
Os dois, habitantes do mesmo andar num debilitado e barato bloco de apartamentos, têm que lidar com as circunstâncias de uma vida carente e pelo facto de ambos não terem um frigorífico. Um velhinho mas kooky frigorífico, comprado por um e com custos pagos pelo outro vai servindo de 'desculpa' para ambos os vizinhos se tornarem cada vez mais um casal, partilhando (e 'partilhando-se') o pequeno frigorífico como se fosse um rebento da relação.
Uma reflecção sobre o início da vida adulta e as relações amorosas pós-adolescentes em Taiwan, usando como eixo narrativo um frigorífico comprado em segunda-mão, o único episódio de Xing Fu Pai Dian Bing Xiang (Lucky Brand Refrigerator de 2006) é um daqueles estranhos híbridos que se situa entre o universo dorama feito no extremo oriente e o cinema independente low budget. Este filme para TV usa de forma eficiente as linguagem e narrativas do melodrama televisivo, combinando-o com a técnica do cinema low budget filmado em video, conseguindo ser, simultaneamente, um 'produto' indie como também ter potencial mainstream, através de uma linear mas eficaz narrativa e construcção das personagens.
Mesmo descontando alguma frescura adolescente que poderá facilmente ser lida como 'dorama camp', Lucky Brand Refrigerator é um interessante produto que, poderá apontar possíveis novas correntes de drama para televisão, especialmente para um público adolescente, mesmo tendo um feel que remete para a produção independente video dos anos 90. Refrescantemente interessante.
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Alucina Génio (1)
*post inicialmente escrito em 18 Fevereiro 2008
Parecendo tentar contradiar algumas das críticas sobre a obra que lhe deu notariedade, que o retratavam como um realizador escapista e pop, Tetsuya Nakashima entrega em Kiraware Matsuko no isshô (Memories of Matsuko, 2006) a sua visão completa sobre como um filme pode visualmente retratar um dos mais pujantes dramas de existência dos últimos anos no cinema japonês, re-utilizando a linguagem barroca com que ficou rotulado em Shimotsuma Monogatari (2004, conhecido internacionalmente com o algo parvo título de Kamikaze Girls).
Aqueles que são atraídos para este filme, tentando procurar mais da frescura narrativa semelhante ao entregue pelo duo do filme anterior de Nakashima, depressa se vêm confrontados com, simultaneamente, uma linguagem visual ainda mais barroca e com um pujante e deprimente retrato vivêncial da personagem principal, que está muito longe do entertenimento ligeiro e pop que marca Kamikaze Girls. Pessoalmente também vi este filme para tentar re-encontrar uma obra ligeira e depressa fui surpreendido como o pujante retrato de Matsuko (Miki Nakatani, aqui numa performance extraordinaria), uma jovem e idealista professora que depressa entende que a miséria não pode ser camuflada com campos cheios de flores e passarinhos a cantar.
(****spoilers)
Ao contrário de Kamikaze Girls, onde o relato na primeira pessoa marca a narrativa, a história aqui é revelada através do deprimido sobrinho de Matsuko, Shou (Eita, o excêntrico violinista no live action de Nodame Cantabile, revelando aqui um lado representativo mais 'concreto'), que se afasta da família para ir viver em Tóquio e que recebe uma visita surpresa do pai, que já não via à dois anos, que lhe revela a existência de uma tia que nunca soube existir.
Sendo incubido da tarefa de limpar o deprivado apartamento desta tão recentemente revelação familiar, assassinada de forma brutal à poucos dias, Shou começa a descobrir, através das recordações de várias personagens que conheceram a sua tia Matsuko (o vizinho, a melhor amiga, o antigo amante, o detective que investiga o crime) a fantástica história de uma personagem familiar que morreu à procura da redenção e que poderá ser também a fonte da sua própria redenção.
Neste filme Nakashima usa um tipo de linguagem que estava já presente em Kamikaze Girls, agora de forma radical, com momentos barrocos que decerto seriam do agrado de Baz Luhrmann, faseando estes momentos (onde até mesmo o musical é usado) consoante os estados de espírito da personagem principal. Mas ao contrário do insuportável e escapista Luhrmann, estes delírios barrocos são aqui usados como uma forma de mostrar as ilusões (ou alucinações) da personagem, que vai tentando amaciar as suas duras realidades vivênciais, um pouco como o que pode assistir também no espantoso I'm a Cyborg but That's OK revisto aqui.
Com o avançar da história, esta exuberância barroca vai gradualmente tornando-se num pujante neo-realismo que choca o espectador, acompanhando a 'carreira existêncial' de uma inocente e 'lírica' professora que vive os seus últimos dias como uma indigente miserável, depois de se submeter a algumas das formas mais horríveis de degradação humana.
Facilmente comparável a Requiem For a Dream (2000), a obra prima de Darren Aronofsky, este alucinante Memories of Matsuko consegue no entanto redimir as suas personagens, encontrando um caminho de esperança vivêncial que cada vez se torna mais raro de assistir no cinema contemporâneo, marcado por um profundo cínismo e onde a esperança poucas vezes espreita. Mas mesmo dizendo isto, aqueles que procuram aqui um prolongamento de Kamikaze Girls encontrarão um dos relatos mais amargos da actual desilusão vivêncial, mesmo que no início camuflado por excelentes momentos kitsch, que depressa se entende que não são mais do que uma 'armadilha' visual do realizador, de forma a alcançar o centro do retrato da sua personagem.
Um dos mais recentes filmes nipónicos que parece ser uma recomendação urgente.


























