Quinta-feira, Fevereiro 28, 2008
A Maldição do Uniforme (3)
Megu (a jovem Shida Mirai), vai dividindo os seu part time num qualquer maid bar de Tóquio com os seus estudos na escola especial para detectives adolescentes, para alegria dos lolicons ou fetischistas maid que possam assistir à adaptação live action de 2006 da série Tantei Gakuen Q.
Mais uma daquelas recentes séries de dorama japonês que vai misturando um cast bastante jovem e infelizmente pouco convincente, que se vai arrastando (talvez por estilo, talvez por aborrecimento) neste vazio dorama, cheio de piadas parvas e maneirismos adultos que vão sendo disfarçados com algumas borbulhas adolescentes.
Confesso que nunca segui a inicial série de anime e talvez por isso me faltem algumas das referências deste live action, mas esta mistura pouco convincente de thriller, policial e comédia não consegue captivar nenhuma atenção, mesmo que a ideia inicial seja bastante prometedora. Mesmo com apenas o primeiro episódio na retina apenas ficam registadas a risqué prestação de Mirai e a de Kamiki Ryunosuke como Kyuu, os únicos a gerar algum interesse num deserto de ideias.
Possivelmente os seguidores do anime original de Tantei Gakuen Q poderão ter aqui um festim, mas o restante público poderá achar esta série chata.
Quarta-feira, Fevereiro 27, 2008
A Maldição do Uniforme (2)
Mais um dorama de uniforme e carinhas larocas, Ichi-Pondo no Fukuin (One Pond Gospel, 2008) é a adaptação do Manga com o mesmo nome, relatando a improvável e aparentemente interessante relação entre um pugilista peso pluma com problemas de glutonia e uma jovem freira católica que conta com a ajuda dos céus para ajudar a carreira deste.
Se esta descrição poderá gerar imagens hilariantes que misturam comida, boxe e paixões impossíveis, todos eles ingredientes perfeitos para comédia de qualidade (?), o facto é que é mais fácil acreditar na afirmação que o novo filme do Rambo é indiscutivelmente um filme de elevada qualidade artística do que no anoréxico Kamenashi Kazuya ser algum dia um pugilista. E nem mesmo a presença de sempre 'tão despida' Kuroki Meisa, agora vestida de cândida freira trás algum interesse a este flop de representação para TV.
Com um cast cheio daqueles sex symbols japonoses sem talento que se vão actual passeando em doramas de adolescentes e gags gastos e automaticamente condenados ao falhanço devido às sonâmbulas prestações, este é um daqueles doramas que prometia ser de algum interesse cá por casa e que logo nos primeiros 5 minutos fica condenado ao desprezo. Os Céus nos ajudem.
O Campeão da Vontade
Uma descoberta recente na memória dos doramas japoneses. Li Ito (1997) conta a bizarra história de um optimista e bondoso jovem campónio, Yuuji (o estranho actor Kusanagi Tsuyoshi) cuja maior ambição na vida é a de trabalhar nos escritórios da marca desportiva Lightex (!), com um logotipo tão semelhante a uma multinacional do 'sector', que faz querer ser esta uma séries mais ironicamente satánicas dos anos 90. Para conseguir o seu lugar na companhia, e para preocupação da 'idílica' namorada (Miho Kanno, uma das mais interessantes actrizes japonesas desde os 90, já por aqui referida), Yuuji fará todos os esforços possíveis, tornando-se um 'atleta da vontade' para enfrentar os maquivélicos salary men (e women) que governam o frenético e competitivo mercado de trabalho.
Mas não se entenda esta série como um dorama para Salary Men. este Li Ito (que se poderá traduzir algo toscamente como 'Homem Bom' ) é realmente a pessoa mais idealista e bem intencionada que há memória em TV, um campeão da bondade que é capaz de fazer as boas acções mais incríveis, daquelas que fariam inveja a santos, mesmo que tal acontença a caminho das várias entrevistas de trabalhos para a companhia com que sonha desde criança em trabalhar. Perdendo-se na gratidão daqueles que nunca esperariam encontrar tal angélica figura nas cínicas e indiferentes ruas de Tóquio, Yuuji vai conseguindo ainda ser o alvo favorito (e inevitável) dos sádicos futuros colegas da companhia, em situações tão masoquistas como hilariantes, provocando uma angústia crónica difícil de suportar a qualquer espectador, mesmo aqueles dados ao sadismo.
Com uma construcção de personagens e cenários bastante camp (evidenciada sobretudo nas 'cenas de campo', profundamente pirosas) e com uma narrativa artisticamente hilariante (oscilando entre o sentimento Kitsch e a ironia), Li Ito é um bizarro produto de televisão muito difícil de definir, não se entendendo se estará a tentar fazer uma leitura moral (a do herói da bondade que conquista tudo o que quer apenas pelo idealismo) ou se estamos no terreno do sarcásmo puro, a serviço da comédia de escritório. Qualquer que seja a leitura do espectador, o facto é que não me lembro de algo assim tão bizarramente kitsch desde que o fenómeno televisivo americano Pee Wee Herman se tornou a personagem principal de Pee-Wee's Big Adventure (nos velhos tempos em que Tim Burton ainda conseguia ser algo mais do que uma caricatura de si mesmo).
Uma série que provoca sérios ataques de nervos, tais são as hilariantes acções de bondade do protagonista que vai remando contra todas as marés (sobretudo aquelas que o espectador tem como empiricamente correctas) sem qualquer quebrar do seu sorriso parvo, Li Ito é claramente recomendada aos sádicos ou masoquistas que encontram prazer nos pequenos detalhes do quotidiano.
Terça-feira, Fevereiro 26, 2008
Japão, Colheita de 2007 (2)
De fácil digestão ao paladar auditivo dos que já são fans, 569 dos Go!Go!7188 é um robusto registo que só mostra que há bandas japonesas, que mesmo ignoradas fora de fronteiras do Pacífico, que têm já uma linguagem sónica própria, fora das tendências currentes que muitas bandas nipónicas risivelmente insistem em seguir, onde o pedantismo e frases soltas sem nexo cantadas num arranhado inglês parecem fazer a regra (basta pensar nos já gastos Pillows ou nos boçais Abingdon Boys School).
A consumir com ajuizada moderação, e apreciação demorada no palato auditivo... a dependência é sempre uma coisa perigosa.
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Segunda-feira, Fevereiro 25, 2008
Japão, Colheita de 2007 (1)
Com mais uma tardia deglutinação auditiva, o terceiro longo duração das heroínas Chatmonchy, Seimeiryoku (lançado no Outubro passado) revela a consolidação daquilo já por aqui observado num post anterior, o de que depois do desaparecimento dos Supercar em 2005, este power trio feminino tornou-se a nova coqueluche da pop indie japonesa, com muito poucas bandas a conseguirem actualmente mostrar uma fluídez sonora como a revelada neste maduro Seimeiryoku (Vitalidade).
Honestamente nem todas as 13 faixas deste Seimeiryoku poderiam ser singles orelhudos, mas bastou ouvir os já conhecidos Shangri-la (o closing de Hataraki Man) ou Daidai (um dos closings da série de culto Naruto) para tornar este um daqueles CDs que vai rodando até fazer fumo. Agradando simultaneamente aqueles que esperavam ouvir umas Chatmonchy mais contemplativas de aqueles que ainda as apreciam pelas poderosas paredes sonoras, Seimeiryoku é um CD a consumir em qualquer ocasião, faça chuva ou faça sol.
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Domingo, Fevereiro 24, 2008
Rocket Science
Estranhamente, uma das melhores séries de Anime do ano passado não foi detectada pelos radares do BitL até a cerca de 2 meses, algo que parece ter também acontecido com inúmeros fansubs e comentadores da 'animelogia' até à pouco tempo. E esta falha agrava-se ainda mais sendo Oh! Edo Rocket (2007) uma produção da prestígiada Madhouse e com a realização de Seiji Mizushima, envolvido em projectos lendários como a OVA do Fullmetal Alchemist ou Neon Genesis Evangelion.
Inicialmente uma peça de teatro escrita pelo imaginativo 'mangaca frustado' Kazuki Nakashima (o escritor de Tengen Toppa Gurren Lagann) para o bizarro grupo de teatro 'agit pop' Gekidan Shinkansen (que o levou à cena de uma forma imaginativa, como pode ser visto aqui), Oh! Edo Rocket é uma daquelas séries que agarra qualquer espectador ao ecrã, mesmo aqueles pouco habituados a Anime, devido à estranha fusão dos cenários da Edo dos meados do século XIX (actual Tóquio), quando foi decretada a total abstinência de qualquer forma de exuberância, com uma storyline que mistura a vizinhança de um típico bairro onde um grupo de renegados artistas mora (as artes, sobretudo as de rua, eram também uma forma de exuberância) com seres caídos do satélite terreste, fogo de artifício, rocket science, estranhas invenções pré-Revolução Industrial e recursos cómicos mordazes.
Quando um dos melhores artesões de fogo de artifício de Edo, o brilhante (ou 'solar') Seikichi, recebe uma encomenda da lunar Sora para construir um engenho de fogo de artífico suficientemente poderoso para atingir a Lua, desencadeia-se uma das mais atribuladas aventuras num pequeno bairro povoado por estranhas personagens que incluem matemáticos, artistas de rua, inventores, carpinteiros e outros artesões que foram ficando sem trabalho devido à decretada frugalidade dentro da cidade.
Pelo meio da agitada actividade para terminar o Rocketo (como foi chamado o engenho) Seikichi e o residentes do bairro que participam no projecto têm ainda que fugir ao olhar inquisidor do chato polícia da zona, enfrentar os perigos que um estranho serial killer lança sobre os habitantes, tentar ignorar a actividade de um estranho grupo de agentes secretos que devem muito às séries tokusatsu e aturar as visitas de um magistrado do governo que costuma visitar o bairro 'disfarçado' de playboy à procura de aventuras.
Uma estranha mistura estética que vai misturando técnicas de narrativa teatral com elementos cómicos do Kabuki, as velhas séries de tokusatsu (da qual Ultraman será a mais sonante), varios tipos de animação e character design que se fundem de forma perfeita, um grafismo espectacular e imaginativo que vai 'colando' toda esta misturada, sempre de uma forma muito pop e 'acessível', com ritmo rápido o suficiente para as gargalhadas fluirem de forma contínua.
Esta é uma daquelas séries com fortes argumentos para ficar na memória, mesmo que tenha ficado algo esquecida nos best of do ano passado.
Sábado, Fevereiro 23, 2008
Lock and Loll (6)
Potentes descargas hardcore, universos contorcidos por guitarras distorcidas, bizarras paredes sonoras feitas de sintetizadores mastigados no prog rock dos 70s... Os relatos sónicos dos Coaltar from the Deepers, com um já fiel culto junto dos apreciadores do som shoe gaze desde os anos 90, finalmente comecam agora a chamar a atenção fora das comunas feitas de culto, com Yukari Telepath, editado em meados do ano passado.
Uma das melhores surpresas made in Japan que nos chegou recentemente aos ouvidos.
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Quarta-feira, Fevereiro 20, 2008
A Maldição do Uniforme (1)
A lindissima Ishihara Satomi a dar o corpo ao uniforme em Nurse Aoi (aka A's Aoi de 2006), uma adaptação de um manga com mesmo nome. Uma tendência ainda corrente nos doramas do extremo oriente, este é mais um 'dorama de hospital', onde uma bem intencionada enfermeira caída na desgraça profissional é despromovida para ir trabalhar no mais reles e desmotivante hospital de subúrbio, que é evitado até pelos serviços de emergência. E claro que assim que a peculiar enfermeira, orgulhosa do seu uniforme, chega ao local de trabalho vai salvando de forma eficiente todas as velhinhas e desgraçadinhos que têm o azar que cair naquele buraco sanitário, fazendo de cada episódio uma maratona profissional que fará parecer GH um pachorento exercício de contemplação narrativa.
Nurse Aoi é apenas mais uma série de hospitais, que vai aproveitando os clichés do costume, cruzando o cepticismo de House com a acção do já referido GH, com alguns snippets de drama pessoal e considerações morais sobre o papel deste profissionais. Chato e desinspirado, este dorama nem sequer é salvo ao descalabro pela 'carinha laroca' de Satomi, que vai exibindo a bata de enfermeira na esperança de convencer os fans.
Terça-feira, Fevereiro 19, 2008
A Família Feliz
Num quase propositado acidente de automóvel, um corrupto e maquievélico business man causa a morte ao chairman da companhia e a quase toda a família deste, conseguindo ocultar quase completamente a sua culpa num negócio sujo. Simultaneamente, o gangster Oh Dal Gun (Kim Myung Min), ao fugir do seu próprio gang, vai parar à mesma ambulância onde o único sobrevivente do mesmo acidente de automóvel, uma miúda de 9 anos que entretanto perdeu todas as suas memórias (e a fala); isto depois de, durante a fuga, ter desgraçado a vida da atrevida peixeira Kim (Nam Sang Mi), destruindo acidentalmente o seu único meio de subsistência, um pequeno barco de pesca.
Simultaneamente, um contabilista, uma pouco higiénica vendedora de bolos e a sua arqui-rival no mercado local, a 'shopholic' vendedora de café, o ultrapassado professor de dança latina e um adolescente que vai vivendo (aparentemente) de trabalhos ocasionais todos nas galhas dos pouco escrupulosos cobradores de dívidas, tentando mesmo assim manter a cabeça à tona de água.
E porque o Oh Dal Gun cai em desgraça e é expulso do gang com uma avultada dívida a pagar, é forçado a tentar também pagar a sua dívida, começando uma empresa de figurantes, também todos eles presos às dívidas, que servem para encher casamentos e funerais e qualquer outro acto social onde a figura central não tenha realmente uma família ou grupo de amigos que o possam felicitar ou chorar esses acontecimentos de vida. Quando o tio da criança sobrevivente, sabendo que o segredo do corrupto business man estará nas suas memórias entretanto esquecidas, oferece uma proposta de trabalho aliciante ao gangster de forma a 'produzir' uma família semelhante à da criança, este não tem outra opção senão juntar-se às outras 6 personagens individadas e fingir que são a família perfeita até que a memória da miúda consiga revelar o ambicionado segredo.
O dorama coreano Bul Ryang Ga Jok (2006, conhecido já no universo dos fansubs como Bad Family) é um daqueles produtos de TV mainstream que, embora isto pareça paradoxal, de forma fácil se revela viciantemente interessante. Feito de acções simultaneas e coincidências bizarras que se vão interlaçando para revelar várias personagens dentro do mesmo plot e dos diversos condicionalismos ao redor, esta comédia consegue retratar na tão disfuncional e falsa família, carregada tanto de vícios como de qualidades, o que é a actual Coreia do Sul.
Num país que até à pouco mais de uma década estava abaixo da linha dos países em via de desenvolvimento e que actualmente é visto como uma das economias fortes na região, os contrastes são tantos como aqueles retratados no luminoso e megalómano shopping center que vai fazendo sombra ao decadente mercado tradicional, ambos cenários que as várias personagens vão partilhando durante o dia, para depois se juntarem à noite na burguesa 'casa de família', um ficcional Big Brother coreano, onde as personalidades vão chocando e se atraindo, com o desgraçado gangster a tentar mediar os feitios.
Mas, a favor do seu conteúdo cómico de entertenimento, estes tipos de reflecções são minimizadas para dar alguma predominância ao disparatado slapstick, originando algumas das situações mais divertidas do actual dorama dos diferentes países do extremo oriente. E é nas relações entre as personagens que está muito do interesse cómico, onde um grupo de oddballs de diferentes condições sociais se vão atraíndo e repelindo, revelando que talvez nesta série todas as personagens (incarnadas por um cast extremamente competente, com destaque para os já citados Kim Myung Min, para Nam Sang Mi e a 'Noona Noona Girl' Hyun Young, aqui como uma bem sucedida 'menina bem' com uma paixão desesperada pelo gangster, sempre descomfortável perto de tal espectacular presença feminina) são simultaneamente tão socialmente 'anormais' como 'normais' e tão caricaturais como humanas, envoltos numa trama espectacularmente construída. E estas disparidades, muitas vezes levadas ao disparate, que irão curar a criança, provando que mesmo esta falsa família é tão normal como uma família verdadeira.
Um singelo mas revelador retrato do actual cenário urbano de Seoul e das suas estruturas tradicionais sociais (e familiares), que vão sendo enfraquecida pelos condicionalismos económicos, Bad Family será decerto do interesse de todos aqueles que seguem dorama cómico de contornos mainstream, mas poderá também interessar aqueles que queiram começar a ver dorama, sendo uma série de 'fácil digestão' mas simultaneamente com uma história bem construída e poderosas interpretações cómicas.
Sábado, Fevereiro 16, 2008
Delírios Bestiais (3)
Mais um monstrosidade Made in Japan, Matango (1963) é um estranho Monster Film onde com o pretexto de mostrar um figurantes vestidos de cogumelos gigantes a aterrorizar um grupo pertencente ao 'novo Japão' dos anos 50, o lendário Ishirô Honda (não será preciso sequer lembrar que foi o realizador de um dos mais influentes filmes sci-fi de sempre), vai fazendo uma poderosa crítica social ao Japão que emergiu do pós-Guerra.
A corista, o professor e a sua aluna/amante, o bem sucedido escritor de thrillers, o magnata e o seu sidekick, todos eles orientados pelo marinheiro numa viagem de lazer num iate, naufraugam ao largo de uma ilha misteriosa que guarda um monstroso segredo, que reflecte o perigo do poder atómico (realmente sentido no Japão), uma marca do Sci-fi das décadas de 50/60, expresso através de hilariantes cogumelos gigantes que outrora foram seres humanos.
Por baixo desta camuflagem normal de um produto B de Sci-fi da época, Honda vai fazendo uma crítica à alienação individualista e a indiferença social, com o seu alter-ego (neste caso o professor) a concluir já no final do filme, de que entre uma selva cheia de hostís cogumelos gigantes e a moderna Tóquio, as diferenças serão muito poucas.
Honda, que sempre nos habituou a estranhas misturas de trashy sci-fi com algumas pitadas de terror clássico misturados com retratos sociais mais sério, mostra de forma completa (numa visao cinematográfica tão estranhamente camp como por vezes perturbante) como um grupo de pessoas aparentemente civilizadas que se transformam em primitivos humanos, mergulhando numa frenética loucura que tanto revela os mais vulgares extintos de sobrevivência, como também aqueles mais extremos comportamentais, ligados ao lado negro do comportamento humano.
Actualmente com estatuto de creative commons, Matango pode ser encontrado na sua versão Attack of the Mushroom People (a versão para a TV americana, infelizmente menor que o original cut) no Internet Archive.
Tesoura Power!
Com o universo do urban vinyl constantemente em evolução (também por culpa da certa carência de recursos materiais desta já grande indústria), alguns criadores menos comprometidos com com as fábricas de borracha começam a tentar encontrar novas soluções para os seus personagens.
Embora a ideia não seja de todo nova, o 'engenheiro do papel' Tetsuya Watabe começou a fundir as velhas técnicas de origami com o universo das personagens de vinyl para criar uma série de espectaculares personagens, criando um portfolio deslumbrante.
Desde o início do ano Watabe começou a disponibilizar algumas das suas personagens para download (gratuito) e vai já na quarta personagem que pode ser impressa, cortada e montada em casa. As ofertas são limitadas por dias e podem ser encontradas aqui!
Embora a ideia não seja de todo nova, o 'engenheiro do papel' Tetsuya Watabe começou a fundir as velhas técnicas de origami com o universo das personagens de vinyl para criar uma série de espectaculares personagens, criando um portfolio deslumbrante.
Desde o início do ano Watabe começou a disponibilizar algumas das suas personagens para download (gratuito) e vai já na quarta personagem que pode ser impressa, cortada e montada em casa. As ofertas são limitadas por dias e podem ser encontradas aqui!
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Quinta-feira, Fevereiro 14, 2008
O Homem que Ria
Uma das personagens mais estimadas e reconhecidas do monde francophone, Henri Salvador era dono de uma gargalhada contagiante, daquelas que saem a uma velocidade estonteante até baterem nas paredes do nonsense e se desfazerem no ritmo swing.
Com uma invejável, criativa e durável carreira, Salvador encheu as atmosferas jazzy da fumarenta França do pós guerra, gravou a primeira canção de Rock and Roll cantada em francês (curiosamente escrita pelo sátiro Vian) e inventou o formato do video clip musical décadas antes de ser um vulgar veículo de promoção da indústria musical, com as suas narrativas visuais hilariantes a roçar o demente, de que Zorro Est Arrivé (aqui em versão scopitone) será talvez o mais conhecido.
E mesmo sendo dono de um universo cómico muitas vezes desconcertante, Salvador costuma ser citado como um dos criadores da Bossa Nova brasileira (devido ao hino melancólico Dans Mon Île) e tornou-se em mais de 50 anos de carreira um dos maiores crooners europeus de sempre, adaptando-se às diferentes eras musicais por onde passou ganhando o estatuto pop ao ser influência para diferentes gerações, sempre por motivos diferentes.
Aos 90 anos, Henri Salvador preparava um disco a lançar este ano. Morreu ontem, dia 13 de Fevereiro, e atingiu a imortalidade.
Henri Salvador: Cayenne 19 Julho 1917, Paris 13 de Fevereiro 2008
Quarta-feira, Fevereiro 13, 2008
Lock and Loll! (5)
Será esta a melhor banda nipónica presente no Shojo Beat de 2008? O trio feminino Tokyo Pinsalocks está a virar a cabeça a toda a gente com a sua pop electrónica tão melódica como selvagem.
Será esta a revelação nipónica de 2008?... tantas perguntas!
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Delírios Bestiais (2)
Shigeru Mizuki nunca pensou que, quando criou o seu universo manga em torno da criança monstro Kitaro, num Japão ainda a recuperar das feridas do pós-guerra, este se tornaria uma das personagens de maior e longo culto da cultura popular japonesa. Tomando como ponto de partida as personagens de contos tradicionais nipónicos, Mizuki revelou através das personagens de GeGeGe no Kitaro, o último descendente da infernal yūrei zoku, o clima social e económico de um país em recuperação de um pesadelo, numa banda desenhada cómica desconcertante e de contornos mórbidos que gerou fascínio durante várias gerações japonesas.
Depois de várias adaptações para anime durante os anos 60 e 70, Kitaro volta novamente aos ecrãs televisivos japoneses (depois de um filme live action do ano passado, que reacendeu o culto) no já mítico Noitamina da Fuji TV, agora com o nome de Hakaba Kitaro (Kitaro dos Cemitérios), realizado por Kimitoshi Chioka e com o graficamente estimulante art director Takashi Kurahashi, responsável pelo genial anime Mononoke.
Hakaba Kitaro mantém o espírito pulp dos quadradinhos originais (mesmo a sua textura gráfica), incluindo mesmo algumas das piadas originais, que actualmente já não encontram contexto no actual Japão, e juntando a isto a sua original linguagem gráfica, fortemente influenciada pela pop art e comics dos 50s, trazendo 'de volta' a voz de Kitaro usada na primeira série de anime (dos anos 60), a carismática Masako Nozawa.
A mais interessante série de anime da actual season, Hakaba Kitaro é um poderoso produto que junta arqueologia pop e novas tendências gráficas, imperdível para os fans das currentes mais alternativas da actual animação japonesa.
Domingo, Fevereiro 10, 2008
O Clube do Desperdício
Assim de repente não me lembro de um filme que podesse ter uma ideia central tão interessante, talvez até para conseguir afirmar-se como uma obra de culto, e que tenha falhado tão disparatadamente em conseguir traduzir essa ideia, tornando-se algo penoso de ver. El Club de los Suicidas (2007) parece ser um daqueles casos perdidos do recente cinema comercial espanhol, onde os 'passos' da acção narrativa parecem querer levar o espectador para uma intrigante viagem pelo caminho de uma possível comédia 'incorrecta' sobre um clube de suicidas, mas que não consegue ir mais longe do que ao supermercado da esquina para comprar um rolo de papel higiénico.
Quando um grupo de suicidas falhados se conhece numa sessão de apoio social (com uma psiquiatra que necessita ainda de mais 'ajuda' que os seus pacientes), surge a inevitável ideia de formar um clube semanal (soa familiar?), onde através de um jogo de cartas, é decidido quem será o felizardo que irá morrer durante a semana e o desgraçado que tem que fazer o serviço. O problema surge quando o membro fundador do clube (David Luque) se apaixona por uma das candidatas à morte semanal (Lucía Jiménez), recuperando a vontade de viver, para desprazer do seu melhor amigo suicida (Luis Callejo). E se esta ideia soa cada vez mais familiar é porque, embora este clube seja (mesmo que de uma forma muito remota) baseado no best seller com o mesmo nome (de Robert Louis Steveson), todo o filme vive na imagética de Fight Club (1999), mesmo na relação entre os personagens, com recriações de algumas das cenas do filme de Fincher de forma quase copiada.
E mesmo com este núcleo de ideas a soar extremamente interessante como ponto de partida para uma comédia off the wall, o realizador Roberto Santiago prefere virar tudo isto numa comédia boçal, onde apenas pequeninos brilhos cómicos (muito pontuais) conseguem fazer o espectador aturar esta comédia moral e modestamente vazia sobre a vida e a morte voluntária. Um claro desperdício de recursos criativos.
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Delírios Bestiais (1)
A tartaruga interplanetária gigante tenta salvar dois rapazinho humanos, raptados do planeta azul por duas groovy extraterrestes canibais, tendo que derrotar um estranho híbrido monstro gigante que é mistura entre um tubarão e a faca do mato do Rambo com pernas e braços chamado Guiron tão cenicamente elaborados como um combate de wrestling.
Uma resposta dos estúdios nipónicos Daiei para tentar para a soberania da maior super-estrela japonesa de sempre, refiro-me claro a Gojira (aka Godzilla) dos estúdio Toho, Gamera tornou-se rapidamente um dos favoritos do género daikaiju, sendo actualmente a criatura com mais culto universal a seguir ao réptil gigante. Este Attack of the Monsters, embora não sendo mais do que uma dobragem para a televisão americana de Gamera tai daiakuju Giron (aka Gamera vs Guiron de 1969), será um sempre um interessante exemplo de um género que serviu de entertenimento à geração infantil americana (e japonesa) dos meados durante a décadas de 60 e 70, antes de existirem alternativas pedagógicas mais convencionais, como a Rua Sésamo.
Entertenimento trashy no seu melhor, Attack of the Monsters é um dos exemplares cinematográficos camp da hilariante série Gamera, com mais de 40 anos de filmes que fomentaram um culto rival a Gojira. Os animais são nossos amigos.
Uma resposta dos estúdios nipónicos Daiei para tentar para a soberania da maior super-estrela japonesa de sempre, refiro-me claro a Gojira (aka Godzilla) dos estúdio Toho, Gamera tornou-se rapidamente um dos favoritos do género daikaiju, sendo actualmente a criatura com mais culto universal a seguir ao réptil gigante. Este Attack of the Monsters, embora não sendo mais do que uma dobragem para a televisão americana de Gamera tai daiakuju Giron (aka Gamera vs Guiron de 1969), será um sempre um interessante exemplo de um género que serviu de entertenimento à geração infantil americana (e japonesa) dos meados durante a décadas de 60 e 70, antes de existirem alternativas pedagógicas mais convencionais, como a Rua Sésamo.
Entertenimento trashy no seu melhor, Attack of the Monsters é um dos exemplares cinematográficos camp da hilariante série Gamera, com mais de 40 anos de filmes que fomentaram um culto rival a Gojira. Os animais são nossos amigos.
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As Meninas Más Voam Por Toda a Parte
Ah Chu é uma orfã adolescente dos suburbio de Taipei, perita em Kung Fu, que trabalha na loja de conveniência do tio (um pacato meste na artes marciais) que a adoptou. Um dia salva um 'limitado' mas nobre campónio que se mudou para a cidade para estudar desporto de um grupo deliquentes adolescentes durante a sua primeira experiência urbana. Daqui nasce uma estranha relação de amor-ódio (tipo 'quem desdenha quer comprar') entre os dois adolescentes, que vai virar do avesso a vizinhança do bairro, ampliada quando o modesto e honesto rapaz é tornado uma superstar por um pouco escrupuloso caçador de talentos.
Um novo olhar sobre o recente dorama made in Taiwan, numa das séries cómicas mais disparatadas e divertidas dos últimos tempos. Fugindo deliberadamente da comédia de contornos do flick Kung Fu histórico que costumam ser uma regra nesta paragens geográficas, E Nu Ah Chu (que no mundo dos fansubs ganhou já o nome de Mean Girl Ah Chu) de 2007 é um crossover entre o slapstick disparatado, o kung fu praticado nos palcos mais inesperados (na loja de conveniência, por exemplo, por entre arremessos acrobáticos da mercadoria à venda) e as eternas love stories adolescentes onde o look parece ser mais importante, numa mistura difícil de explicar a 'leigos' (Marx Bros meets Morangos com Açucar meets Charlie Chan é uma descrição possível).
Com uma produção menos glossy que os já habituais doramas japoneses que passam aqui pelo BitL, este Mean Girl Ah Chu é um produto cómico contagiante pela sua quase destreza raw de conseguir encontrar slapstick acrobático nas situações mais quotidianas do mundo adolescente, mostrando um grupo de teenage oddballs a viverem os tempos mais bizarros da sua vida. Mais disparatado e divertido é quase impossível.
Um novo olhar sobre o recente dorama made in Taiwan, numa das séries cómicas mais disparatadas e divertidas dos últimos tempos. Fugindo deliberadamente da comédia de contornos do flick Kung Fu histórico que costumam ser uma regra nesta paragens geográficas, E Nu Ah Chu (que no mundo dos fansubs ganhou já o nome de Mean Girl Ah Chu) de 2007 é um crossover entre o slapstick disparatado, o kung fu praticado nos palcos mais inesperados (na loja de conveniência, por exemplo, por entre arremessos acrobáticos da mercadoria à venda) e as eternas love stories adolescentes onde o look parece ser mais importante, numa mistura difícil de explicar a 'leigos' (Marx Bros meets Morangos com Açucar meets Charlie Chan é uma descrição possível).
Com uma produção menos glossy que os já habituais doramas japoneses que passam aqui pelo BitL, este Mean Girl Ah Chu é um produto cómico contagiante pela sua quase destreza raw de conseguir encontrar slapstick acrobático nas situações mais quotidianas do mundo adolescente, mostrando um grupo de teenage oddballs a viverem os tempos mais bizarros da sua vida. Mais disparatado e divertido é quase impossível.
Quarta-feira, Fevereiro 06, 2008
As Meninas Más Voam Para Toda a Parte
Ueto Aya está de volta ao BitL, agora na forma da mal-educada punk rocker Yoko Misaki, que tenta encontrar a sua vocação profissional como uma requintada hospedeira da JAL. Uma maria-rapaz que nunca conseguiu sequer mastigar os seus noodles sem fazer barulho, Yoko entra num mundo onde a politeness extrema vai gerar situações cómicas hilariantes.
Provando que Ueto está fadada a ser uma excelente actriz de dorama (e que é evitável de ser vista em pastiches cinematográficos como este), o dorama Attention Please! (2006) é um olhar sobre as convenções sociais e profissionais do rigoroso emprego de cabin attendant, onde as diferenças têm que ser 'alisadas' para o serviço completo dos clientes da companhia aérea japonesa, num treino rigoroso onde todos os detalhes de etiqueta são minuciosamente aprendidos.
Aqueles com um especial fetish por fardas femininas vão adorar.
Provando que Ueto está fadada a ser uma excelente actriz de dorama (e que é evitável de ser vista em pastiches cinematográficos como este), o dorama Attention Please! (2006) é um olhar sobre as convenções sociais e profissionais do rigoroso emprego de cabin attendant, onde as diferenças têm que ser 'alisadas' para o serviço completo dos clientes da companhia aérea japonesa, num treino rigoroso onde todos os detalhes de etiqueta são minuciosamente aprendidos.
Aqueles com um especial fetish por fardas femininas vão adorar.
Terça-feira, Fevereiro 05, 2008
Perda e Perdição (1)
O avião pilotado por Otto (Fele Martínez) sobrevoa o lago onde Ana(Najwa Nimri) se banha, esperando pelo amante. O reflexo do avião coloca-se entre as pernas de Ana para desaparecer no seu ventre, anunciando a tão ânsiada chegada do amante perrdido, que depois culminará na tragédia da perda, de formas diferentes, de ambos os protagonistas.
Um dos mais belos filmes do cinema contemporâneo espanhol, Los Amantes del Círculo Polar (1998) é um espectacular relato emocional e simultaneamente voyeuristico de uma história de amor impossível de dois adolescentes devido ao enlaces matrimoniais. Sendo um dos mais consistentes realizadores espanhóis dos anos 90, Julio Medem depressa entrega no seu estilo obsecado mas observador - Medem é de resto um realizador que tanto se 'emociona' com a história que vai relatando, mas fá-lo de forma observadora, estando simultaneamente 'dentro' e 'fora' da mesma - para criar um conto de perda e perdição, onde as várias personagens se encontram isoladas de forma gelada (muitas vezes sentida de forma real por estas) que não lhes permite encontrarem-se de forma plena.
***Spoilers***
Tal como no posterior Lucía y el Sexo (2001), Medem apoia-se numa uma teia de flashbacks para criar uma estética narrativa carregada de simbolismos, pontuados pela nostalgia e pelas distorções emocionais na realidade das personagens. Mas ao contrário da ilha dourada pelo Sol onde as várias personagens de Lucia y el Sexo se encontram para resolverem (e se resolverem) de forma determinada as suas tribulações emocionais, nas paragens geladas dos Amantes do Círculo Polar, as personagens recusam teimosamente enfrentar os seus fantasmas de forma pronta, para depois de maneira arrependida encontrarem a redenção, mesmo que marcada pela perdição e a ausência física súbita, intransponível e eterna.
***Fim de spoilers***
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Lucía Jiménez ao Serão
O princípio e o fim de uma sequência. Silvia (Lucía Jiménez) atende o telemóvel no duche, para apenas ouvir 'Gloomy Sunday' de Billy Holiday a tocar do outro lado. A cena com mais de 6 minutos sem qualquer corte na sequência, termina com Silvia no chão de uma qualquer rua de Maiorca, depois de ter saltado da janela do apartamento, aparentemente sem se ter apercebido de nada.
The Kovak Box (aka, La Caja Kovak, de 2006), de Daniel Monzón (revelado com o já de culto El Corazón del Guerrero e realizador deste espectacular pastiche cómico) poderá não ser eficientemente convincente, tendo várias falhas que o colocam longe de um sci-fi perfeito, mas consegue ser suficiente competente em alguns momentos chave.
Uma co-produção espanhola e britânica, com um guião do genial Jorge Guerricaechevarría (talvez alguns pontos abaixo do que frequentemente acontece com o que este guionista habituou o seu público fiel), The Kovak Box é um interessante olhar (ficcional espero) sobre a manipulação humana por organizações (apoiadas pela ciência) de forma a dominar a sociedade de forma perfeita, promovendo a 'auto-destruição' dos 'specimens' que não interessem. Particularmente interessante para adepto de teorias de conspiração.
The Kovak Box (aka, La Caja Kovak, de 2006), de Daniel Monzón (revelado com o já de culto El Corazón del Guerrero e realizador deste espectacular pastiche cómico) poderá não ser eficientemente convincente, tendo várias falhas que o colocam longe de um sci-fi perfeito, mas consegue ser suficiente competente em alguns momentos chave.
Uma co-produção espanhola e britânica, com um guião do genial Jorge Guerricaechevarría (talvez alguns pontos abaixo do que frequentemente acontece com o que este guionista habituou o seu público fiel), The Kovak Box é um interessante olhar (ficcional espero) sobre a manipulação humana por organizações (apoiadas pela ciência) de forma a dominar a sociedade de forma perfeita, promovendo a 'auto-destruição' dos 'specimens' que não interessem. Particularmente interessante para adepto de teorias de conspiração.
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Segunda-feira, Fevereiro 04, 2008
Geografias Femininas
Construido em aparentemente singelos mas poderosos Haikus visuais Strawberry Shortcakes (2006) é um dos mais poderosos retratos sobre a condição da Mulher numa sociedade tão complexa como a Japonesa. Mas longe de mostrar uma faceta mais 'social', criticando abertamente os ainda rígidos papéis sociais desta tecno-cultura, o realizador Hitoshi Yazaki prefere mostrar um lado mais sentimental da questão, deixando de parte qualquer tipo de crítica aberta e debruçando-se sobre as rotinas quotidianas de quatro personagens femininas, tão opostas entre si como convergentes nas suas 'procuras interiores'.
Uma adaptação do Manga 'Sweet Cream and Red Strawberries' de Kiriko Nananan (a criadora do manga de culto Blue, também já adaptado para Cinema), Strawberry Shortcakes vive o quotidiano de dois pares de personagens que convivem no cenário urbano da megapólis de Tóquio, partilhando as mesmas preocupações em relação ao amor, à vida espiritual, ao respeito (ou falta dele) pela sua individualidade, ao sentido (ou falta dele) numa vida cheia de experiências traumáticas que parecem estar misturadas de forma repetida no quotidiano.
A bulímica e rejeitada ilustradora Toko (a estreia da mesma Nananan como actriz) divide um apartamento com a 'básica' espectante pelo amor verdadeiro office lady Chihiro (Nakagoshi Noriko) , partilhando também uma relação de ódio e distanciamento profundo entre si, sempre mascarados (e raras vezes saliente) devido às convenções sociais e, sobretudo, às suas particulares condições femininas. No outro ponto do mapa sentimental acompanhamos as vidas da call girl Akiyo (Nakamura Yuko), que dorme num caixão. Uma falhada arquitecta que mantém uma paixão platónica pelo outro colega falhado de curso, Akiyo aparentemente não consegue vislumbrar algo mais na vida senão o de juntar dinheiro suficiente para comprar um pequeno apartamento num andar elevado o suficiente para conseguir um suicídio bem sucedido.
O quarto ponto nesta geografia feminina, e o mais importante ponto de referência que unirá todas as personagens no final é Satoko (Chizuru Ikewaki), a infantil recepcionista do 'call centre' onde Akiyo trabalha, suficientemente 'feia' para não se colocar no mercado de carne onde a colega (também sentimental) tem já reputação, e que procura esperança de encontrar alguém que a ame realmente, através de repetidos pedidos a um deus cuja presença se parece 'reflectir' em objectos banais. A única personagem que parece não ter cedido ao crescente nihilismo de que as outras personagens se alimentam, mesmo quando a máquina de tabaco não tem 'Esperança', a marca de tabaco que costuma fumar.
Feito de ausências e procuras, de afastamentos (forçados ou propositados) e reciprocidades o quotidianos das quatro personagens desenrola-se em cenários profundamente 'funcionais', despidos de qualquer calor humano que não o gerado pela falta de amor próprio e de alguém mais que o possa gerar, de equívocos e enganos, até a um auge onde aparentemente todas as expectativas têm que ser destruídas para que algo mais relevante que os sonhos possa aparecer, o de viver de forma harmoniosa consigo mesmas, unindo-se em si mesmas como se todas as quatro personagens fossem uma só. desistindo de todo o nihilismo da vida.
Um filme que parece viver das 'geografias sentimentais' de já alcunhado Nouvelle Manga, Strawberry Shortcakes é um dos mais emocionamente fortes relatos interiores que o Cinema japonês conseguiu mostrar nos últimos anos, mesmo filmado com uma calma aparente, que se vai tornando cada vez mais inquietante. Votado quase unanimenente pelos colaboradores da Midnight Eye como o melhor filme nipónico do ano passado (o filme teve uma modesta estreia comercial nos EUA apenas no ano de 2007), este é sem dúvida um daqueles filmes que facilmente se junta a uma lista reservada apenas a recentes obras especiais.
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