Terça-feira, Janeiro 29, 2008

Mel Já Sem Açucar

honeyclover

Num tempo cada vez mais remoto, existiu a certeza que Hachimitsu to Clover (conhecido 'convencionalmente' como Honey and Clover) seria uma daquelas obras quase incorruptíveis, relatando uma sentida e séria história de coming of age que gerou um modesto culto quando inicialmente foi lançada a série manga, depois largamente ampliado (sobretudo fora do Japão) com a primeira série de Anime. Desde então a obra original de Chika Umino originou uma sequela também em animação (onde a seriedade sentimental foi em parte substituida pelo melodrama, embora interessante) e o decente feature film Hachimitsu to Clover de Masahiro Takada, também já comentado por aqui.

Não é de espantar que agora dê à costa um dorama, tentando alongar as onda de culto e, infelizmente, estragar a festa que as sucessívas adaptações conseguiram manter. Honey and Clover (o dorama) é mais uma daquelas séries de TV que apenas causam desilusão aos fans, expectantes por um live action que conseguisse recriar, mesmo que parcialmente, a magia da história de um grupo de estudantes de arte a viverem os tempos mais decisivos das suas vidas.

Basta ver a primeira cena do primeiro episódio, um grande plano de uns Nike que nunca nenhum estudante de arte ousaria usar, para entender o que este H&C será: um mero veículo de product placement, com péssimas prestações de novos actores cast out of character, que parecem mais uma versão abandalhada de uma boys band do que estudantes de arte (alguns já consagrados neste tipo de séries de TV), talvez para aliciar os fans (masculinos e femininos) deste tipo de idols que tentam à força ser levados a sério e uma história retalhada de forma a tentar causar algumas emoções de pacotilha.

Fica a sobrar deste bando de actores incapazes de conseguir concretizar as personagens originais, as credíveis prestações de Harada Natsuki, Seto Asaka e Mukai Osamu (o trio amoroso Yamada, Rika e Mayama) e nada mais. Se tal não fosse suficiente a personagem central que une o bando, Hagumi, é interpretada de uma forma descabida (por Narumi Riko), parecendo mais uma fugida de um centro de desintoxicação que nunca viu um pincel à frente. Esperamos que a outra adaptação para dorama a estrear em Abril (made in Taiwan) seja melhor. Claramente dispensável.

Sábado, Janeiro 26, 2008

Internamento Compulsivo (1)

cyborg

É fácil afirmar que Chan-wook Park é (a par de Jae-young Kwak) o mais relevante realizador coreano dos últimos anos, e talvez um dos realizadores que despertou mais interesse no eternamente distraído Ocidente. É também fácil constatar que se a sua 'triologia de vingança' (Lady Vengeance, Sympathy for Mr. Vengeance e sobretudo o estrondoso êxito Oldboy) foi a que consolidou este interesse fora da cinematográfica zona oriental é com Saibogujiman Kwenchana (internacionalmente conhecido como I'm a Cyborg but that's OK de 2006) que Park atinge o seu fulgor gráfico.

Prestes a estreiar comercialmente aqui pelo Reino Unido (o IMDB indica Abril como a possível data), I'm a Cyborg but That's OK foi (injustamente) eclipsado dos olhos de muitos cinéficos deste lado do globo, talvez mais interessados em 'ruminar' longamente o delicioso choque que foi Oldboy (2003, estreiado na Europa apenas em 2005) do que a descobrirem esta preciosidade do cinema coreano, que foi conquistando um pequeno mas sólido culto por onde passou (sobretudo festivais).

Os primeiros 8 estranhos minutos deste singular documento dão o mote para a história que Park pretende contar. Young-goon (Su-jeong Lim), uma anoréxica trabalhadora de uma fábrica de rádios convencida desde sempre que é um cyborg, aparentemente tenta cometer suicídio seguindo as instrucções dos rádios que monotamente constrói na linha de montagem. Depois de internada num hospital psiquiátrico Young-goon tenta cumprir a sua missão de vida, a de matar todas as 'fardas brancas' do hospital e entregar a dentadura à avó, também ela internada algum tempo antes, por comer compulsivamente (e sem cessar) rabanetes. Mas para cumprir a missão Cha precisa da ajuda de Il-sun (Rain), outro estranho paciente, capaz de 'roubar' e 'transferir' qualidades humanas, para 'remover' essas mesma qualidades que ainda lhe sobram da convivência humana da 'cyborg', vistas como 'pecados mortais' no seu alienante mundo.

Por mais disparatado que tudo isto possa soar, I'm a Cyborg but That´s OK é uma comovente e por vezes divertida fábula sobre o 'drama da existência' humana e não um sci-fi a plágiar a obra de James Cameron. E se algumas influências de alguns conhecidos êxitos de ficção científica sejam invocados (Terminator e Blade Runner incluidos) Park está claramente apenas interessado em mostrar os motivos que atraiçoaram a sanidade dos personagens que vagueiam pelo filme (e sobretudo o par Young-goon/Il-sun). Para tal, serve-se quase exclusivamente da visão da personagem Young-goon, que está para o espectador no 'outro lado do Real', construindo através de um grafismo de cores berrantes de videoclip (com várias influências neste 'género' a serem também assumidas, de Gondry a Cunningham, curiosamente nomes que 'ajudaram' a construir também universo paralelo semelhante, o de Bjork) e dos comportamentos e pensamentos bizarros da 'cyborg', que mostram uma visão tão completa do dia-a-dia que por vezes até o próprio espectador se esquece do 'Real' para entrar no mundo alienado (e alienante) de Young-goon.

Com tanto de visualmente espampanante como de profundamente humano, I'm a Cyborg but that´s OK é um filme inesquecível sobre a perda e redenção num mundo que pode ser terrivelmente injusto e hostil, onde a fantasia assume (muito mais do que parece) um papel fundamente nas relações humanas, escondendo a tristeza da existência. Uma fábula onde o faz-de-conta assume-se para encontrar o significado da vida, num longo arrepio na espinha, tão estridente e comovente como (infelizmente) poucas vezes se consegue encontrar actualmente no Cinema contemporâneo.

Terça-feira, Janeiro 22, 2008

Histórias da Biqueirada

botinada

É de louvar quando documentários como este dão à costa. Botinada: A História do Punk no Brasil é um interessante e 'absorvente' documento dos primeiros anos do movimento Punk em algumas áreas do Brasil (com o hub global que é São Paulo a ocupar a quase totalidade do documentário), dando uma leitura histórica linear desde meados dos anos 70 (revelando também alguns antecedentes) até aos inícios dos anos 80, quando as rivalidades entre gangs fizeram do Punk um alvo a abater pela classe média, bombardeada pelos exageros dos media, e que fizeram o inicial espírito metamorfosear-se em diferentes frentes.

Mesmo dizendo isto o documentário de Gastão Moreira não está livre de ambiguidades, que poderão até ser tornadas falhas aos olhos de alguns fans. Se o título parece ser algo 'abrangente' o facto é que Botinada se centra quase na sua globalidade em São Paulo, mesmo deixando entender a rivalidade com Brasília, para depois se centrar na feroz (e por vezes letal) rivalidade entre os punks do centro de São Paulo com os da períferia da cidade, largamente sediada no mítico reduto operário ABC, donde emergiu o forte movimento sindical dos 80s. Outros vêem neste documentário uma 'resposta brasileira' ao algo atribulado mas fundamental American Hardcore, algo que me parece forçado, mesmo constatando-se algumas similaridades gráficas.

Mas mesmo tendo tudo isto em consideração, este magnífico documento, produto de vários anos de produção e busca por fontes cada vez mais escassas, consegue (aparentemente) capturar plenamente o espírito da época, revelando alguns dos episódios mais interessantes e caricatos de um movimento que mesmo estruturado sem quaisquer recursos de forma simplista e inocente, conseguiu criar tudo o que hoje é considerado música independente (e não só) no Brasil.

Mesmo fazendo face aos restos aburguesados do Tropicalismo, a uma hóstil aversão de uma ditadura militar e dos gostos abomináveis de uma classe média mais interessada na alienação das telenovelas e o escapismo sonoro do Disco, bandas como Condutores de Cadáver, Restos de Nada, Garotos Podres, Olho Seco ou Ratos de Porão (estas 3 últimas com um culto forte junto da comunidade punk portuguesa nos anos 80, se bem me lembro) conseguiram escrever de forma real o seus nomes na história da rica música brasileira.

Sempre imediato e pujante, revelando muito pouco ou nada do escapismo que rodeava o punk britânico (mais preocupado com a fatiota do que com o conteúdo, perdoem-me os fans) o movimento Punk brasileiro (e sobretudo de São Paulo) tem neste documentário a prova inequívoca que a curta mas espantosa história desta 'primeira vaga' foi de importância vital, deixando claro um legado que dentro de poucos anos poderia estar irremediavelmente perdido. Um arrepio de espinha a ver sem cerimónias.

Sábado, Janeiro 19, 2008

A Última Dentada

vampira


É claro uma frase feita e poderá parecer um lugar comum, mas com o desaparecimento de Maila Nurmi, para sempre famosa pela sua sonânbula prestação em Plan 9 from Outer Space, desaparece também uma das mais curiosas personagens da cultura popular americana (e por acrescento, mundial) que durante tantas décadas foi fonte de veneração, inspiração, imitação e fanatísmo pop.

Inicialmente uma imitação de Morticia Adams, Vampira foi desde o final dos anos 50 o alter-ego de uma estranha pin-up obssecada com o oculto que conseguiu um job break a apresentar filmes de terror a tardia horas no canal de LA KABC-TV e que desde então nunca parou de namorar um tipo de fama que apenas as mais singulares estrelas conseguem ascender: a de ser reconhecível sem ser reconhecida.

Para lá de todas as imitações baratas, (talvez a mais lembranda será a de Cassandra 'Elvira' Peterson,) apenas Maila foi a verdadeira Vampira, aquela que nunca perseguiu a banalização da personagem (era conhecida a aversão que tinha a autorizar merchandising com a personagem) e que talvez por isso terá, para sempre, o respeito fanático de todos os fans de cinema B e do Camp. Até Sempre!

Maila Nurmi, 21 de Dezembro 1921 – 10 de Janeiro 2008

Xungadélico (3)

redlotus

Mais uma preciosidade capturada na 'loja dos trezentos' este obscuro Red Lotus Vs Lama (que não encontro nenhuma referência on-line, provavelmente perdida em algum AKA que me escapa agora) é mais um daqueles produtos de delírio do cinema do piolho made in Hong Kong próprio para uma TV Party animada. Mesmo com uma tranferência da DVD muito deficiente (com uma imagem muito muddy e um formato de ecrã bastante cortado) vai-se salvando uma dobragem estupidamente hilariante sempre tão bizarra que se torna irrealmente psicadélica, um pouco como este outro exemplo comprado na mesma loja, e a prestação da acrobática Chia Ling. A consumir com Pála Pála e umas Super Bock à mão.

Sexta-feira, Janeiro 18, 2008

Drumming the Blues Away

mangoldarm

Frankie Machine (Frank Sinatra) vai ensaindo a batida para a prometida entrevista de emprego como baterista de uma big band no seu refúgio de normalidade que é o apartamento barato de Molly (Kim Novak), sabendo que terá que lutar de forma brutal para conseguir escapar a rotina feita de empregos ilegais e do vício da heroína.

Um dos primeiros filmes (sem estar inserido no exploitation) a retratar a dependência de drogas duras sem qualquer pudor, The Man with the Golden Arm (1955) foi também um dos primeiros filmes de um grande estúdio (ou mesmo o primeiro a acreditar em Leonard J. Leff e Jerold Simmons) a ser lançado sem o 'obrigatório' selo de autorização do Production Code.

Otto Preminger no seu auge, a filmar de uma forma explícita e sem duplas leituras, num dos contos cinematográficos americanos mais desencantados dos 50s, que abriu a caixa de pandora aos 'socialmente' inovadores anos 60 e aos urbano-depressívos anos 70.

A Primeira Dentada

rosario

Já à procura da primeira aposta da nova season de Anime que começou no início do mês (e do ano), lá tropeço neste Rosario + Vampire, uma série Shounen que vai misturando terror e comédia com melodrama e muitos panty shots, tudo coladinho com um tipo de animação algo desinspirado e cheio de lugares comuns.

Um pouco inteligente adolescente tem o azar de apenas conseguir vaga numa escola 'especial' onde apenas monstros são aceites e logo no primeiro dia é atropelado por uma ninfeta corpolenta que por acaso se transforma numa temida vampira sempre que não usa um rosário ao peito. Como se não chegasse durante o encontro a vampira dá a sua primeira dentada na carreira de bloodsucker no pescoço do desgraçado estudante, gerando assim uma paixão (platónica) entre uma criatura do mal e um humano.

O que faz desta série algo especial em relação a outras séries estreadas nas últimas semanas? Não faço ideia, mas depois de aturar os primeiros episódios de séries tão más como Hatenkou Yugi, They are my noble Masters, Spice and Wolf, Persona: Trinity Soul ou Mushi-Uta, esta pelo menos consegue arrancar algumas gargalhadas a um cadáver que já entendeu que esta season será ainda pior que a anterior, de onde apenas 3 ou 4 séries conseguiram ultrapassar o mediano.

Domingo, Janeiro 13, 2008

O Momento Antes do Roubo Perfeito

rififi

Tony le Stéphanois (Jean Servais, que apenas em Bogart consegue encontrar rival à altura) à procura do veículo de fuga para o assalto perfeito no parque de estacionamento, vira a cara à passagem do gendarme.

É difícil entender nos dias cinematográficos que correm, tão marcados por boçalidades cheias de gadgets e piroletas narrativas disparatadas, que à algumas décadas atrás existiu um filme tão perfeito sobre um roubo como Du Rififi Chez les Hommes (1955). Tomando como ponto de partida outra obra prima, Rififi não é apenas um relato de um roubo elaborado por algumas figuras ilustres do submundo de Paris (que é mostrado numa sequência perfeita de meia hora sem qualquer banda sonora que não o som abafado feito pelos gangsters), mas todo um microcosmos de estética noir sem qualquer falha.

Será sempre útil lembrar que, para além da contribuição maior que o expressionismo alemão, também o cinema de gangsters francês teve uma influência profunda no film noir americano e Rififi parece retribuir a essa mesma 'escola' cinematográfica toda a sua essência, na pele de um dos anti-heróis mais trágicos e fascinantes do cinema criminal e de uma cidade (quase sempre retratada nas sombras da noite) que faz também parte da narrativa sentimental. E como parece, o espaço desta Paris é assombrada por personagens para quem os códigos de honra (reminiscências dos usados pela resistência francesa durante a Guerra) são uma forma de vivência social fora da sociedade establecida.

Jules Dassin filma os seus homens como anti-heróis e as suas mulheres como heroínas como se apenas um homem e uma mulher se tratassem, condensando o criminoso, o amante, o filho, o traidor e o justiceiro em diálogo directo com a amante, a mãe, a confidente e a piedosa, juntos sobrevivendo numa cidade que apenas durante a nouvelle vague, nascida anos antes, foi filmada de forma tão real e sincera, levando até às últimas consequências toda a sua definição de um estilo de vida marginal, que parece não fazer concessões ao mundo real.

Vale sempre a pena recordar Rififi como uma daquelas obras sem qualquer marca de imperfeição, onde todas as cenas ficam gravadas no cérebro dos cinéfilos para mais tarde recordar como fundamentais e de uma influência cinematográfica ímpar, de Kubrick a Tarantino.

Fantasias Amordaçadas

jamaicainn

Sir Humphrey Pengallan (o extraordinário Charles Laughton) amarra Mary Yellen (Maureen O'Hara, a primeira diva fetische de Hitch) com inegável prazer antes de a raptar, mostrando de forma bizarra que não só a sua condição social lhe permite tal acto, mas também revelando algumas das suas camadas fetishista, já anteriormente adivinhadas, pelos 'belos objectos' dos seus fixantes prazeres.

Mais uma das imagens 'duplas' de Hitch, mostrando em Jamaica Inn (1939) alguns dos seus fetiches presentes na década de 30 e que mais tarde seriam replicados até ao sadismo gráfico (permitam o exagero) durante o 'periodo americano'.

Xungadélico (2)

zacariah

Confesso que mesmo com um grande interesse pelo dito Cinema Psicadélico, nunca consegui entender como é que poderá existir alguém que considere Zachariah (1971) um filme decente. A desculpa da compra deste DVD é o seu preço absurdamente baixo (sim, no mesmo sítio de onde este outro veio), mas confesso que qualquer consumidor deste Western Psicadélico xunga deveria era ser pago para viver uma das experiências mais boçais do cinema dos anos 70.

Uma história sem sentido nem conteúdo, um final estupidamente vazio a fingir que possui alguma mensagem de paz e esperança para a humanidade, um humanismo hippie de pacote para quem tenha o conteúdo cerebral de uma planta, uma banda sonora horrenda, com os Country Joe and the Fish à cabeça, as constantes homages gráficas a figuras cinematográficas para o movimento hippie (talvez de forma a gerar algum interesse naqueles que toparam que daqui não levavam nada) e a presença do canastrão Don Johnson.

Mas como tudo não pode ser assim tão mau, existem dois factos positivos em Zachariah. O primeiro será a curta mas interessante cena no saloon que serve de sede ao gang de Job Cain (Elvin Jones, um nome que decerto não será desconhecido aos fans de Coltrane, Davis ou Mingus), com o seu ambiente que parece ter inspirado as festas no deserto do movimento stoner rock e o segundo é a forma como se entende finalmente, através da personagem de Don 'Miami Vice' Johnson como é que os Hippies se metamorfosearam em Yuppies.

Sexta-feira, Janeiro 11, 2008

Croissant Dame

nodame


A Europa, a comida, as ruas de Paris (e de Praga), uma relação que continua mal resolvida, a tradição clássica, Mozart e a loucura infantil. Talvez para amaciar a fome por uma das séries de dorama que mais fanatismo gerou em 2006, Nodame Cantabile esteve de volta às televisões japonesas (e por toda a Internet) para um especial de dois episódios, em mais de 4 horas de pura loucura de Noda Megumi (dividida entre o eterno amor pelo seu sempai Chiaki Shinichi e as delícias da culinária ocidental), com comportamentos ainda mais excessivos fisicamente interpretados por Ueno Juri.

Se a adição das personagens da pirosa femme fatale russa Tanya e do otaku francês Frank (Wentz Eiji e Becky) parece algo negligente e a forçar um slapstick algo gasto neste formato, tudo o resto está no sítio certo, levando este tipo de especiais de dorama de culto a um nível de produção e entertenimento nunca antes alcançado.

Mesmo algo díficil de seguir para 'não-iniciados' (sobretudo porque aqui a história já vai avançada, servindo de sequela à série), estes dois episódios especiais são imaculados e poderão servir como introdução ao universo da série, com suficientes flashbacks para despertar a curiosidade. A ver num fansub perto de si!

Quarta-feira, Janeiro 09, 2008

A Família Montoro foi de Férias...

atasco

... E encontrou as filas de trânsito para a costa do Mediterrâneo, os problemas em arranjar alojamento familiar, as birras dos miúdos, as estranhas companhias. Somaram-se as desilusões físicas da vida adulta, o charme dos trabalhadores estrangeiros do turismo local, os acidentais transgressões liquidas do pai, o novo riquismo da mãe e as festas adolescentes na casa de férias na curta ausência destes.

Atasco en la Nacional (2007), aparentemente um dos blockbusters espanhóis do Verão passado, parece querer fazer comédia com as normais situações da época balnear da classe média espanhola, tentando mostrar o lado bizarro do êxodo temporário da estação favorita. O problema é que o retrato sexista, racista, acomodado e resignado de uma qualquer 'normal' família espanhola não parece querer fazer rir ninguém, mesmo quando os números de espectadores nas salas de cinema espanhóis pareçam querer negar esta afirmação.

Parece-me que este filme nunca deveria ter durado mais do que os 10 minutos iniciais, aqueles onde a família Montoro está presa na brutal fila de trânsito a caminho de Valência. A evitar.

A Testerona e a Falta Dela

hatarakiman

Uma adaptação para dorama causada pelo interesse despertado pela série de Anime de 2006 (infelizmente vista cá por casa, mas nunca comentada no BitL, estando ainda no volumoso backlog deste blog), Hataraki Man lança para principal role a actriz Miho Kanno (uma das mais consistentes actrizes de dorama, já com grande cult following) no papel de uma workoholic jornalista, desesperada para ser levada a sério como mulher numa revista generalista com pouco conteúdo e muita tiragem dominada por Working Men.

Este dorama tenta trilhar os mesmo caminhos da série de animação, tentando manter até os elementos mais 'animados', por vezes com resultados algo insatisfatórios. Se o cast é convincente para os vários papéis, com as fisionomias e atitudes são brilhantemente tratadas de forma completa, fica no ar uma certa insatisfação pelo resultado geral revelado pelo primeiro episódio, parecendo mais do mesmo e sem qualquer acrescento.

Talvez o tempo (e os restantes episódios) tragam outras impressões, mas esta parece ser uma daquelas séries que, embora com um cast absolutamente imaculado, parece ter falta de alguma da testerona workolic sentida na Anime original.

Já Foi...

LPacheco

“Já foi”, é o que dizem quando alguém morre. Agora já sei o que vão dizer quando eu morrer.
Luiz Pacheco, entrevistado por João Pedro George em 4 de Maio, 2005

Luiz Pacheco fez o seu último mangito ao mundo no dia 5 de Janeiro de 2008, aos 82 anos. O pequeno e tacanho mundo literário português decerto não sentirá a sua falta. A avaliar pelo número de inimigos que fez ao longo da vida, entre escritores, aspirantes e outros, decerto até haverá que louve esta condição da Natureza. Mas os seus admiradores sentem já a falta, poucos dias passados, de quem durante mais de 50 anos editou e escreveu algumas das obras mais significativas e interessantes (e por atrito renegadas para uma certa clandestinidade) da literatura portuguesa da segunda metade do século XX.

Decerto que a vida à margem que levou, repleta de actos tão surreais (no verdadeiro uso da palavra) e escabrosos, fez tintilar muitos daqueles que queriam mais do que um escritor e crítico um iconoclasta herói literário que optou por viver à parte, cuspido na sopa do bem pensante mundo burguês de um Portugal entre a ditadura e os anos democráticos. Mas é o seu valor como crítico letal (usando por vezes de uma sarcásmo pujantemente violento, como nunca visto no meio literário português), a sua corajosa perserverança editorial e a sua pouco volumosa obra, tão rara como única, que marcam o seu desaparecimento nos primeiros dias do ano.

Uma das personagens mais influentes para muitos dos escritores pós-80s (e não me estou a referir a nenhum que tenham escrito algum best sellers), Luiz Pacheco deixa uma bonita nódoa, discreta de popularidade mas orgulhosamente incómoda, feita de uma vontade soberba de denunciar a desonestidade intelectual e boçalidade de alguns dos 'talentos' da cultura portuguesa, sendo talvez um dos nomes menos reconhecidos da literatura portuguesa, mas uma das mais centrais personagens do século XX português.

Luís José Gomes Machado Guerreiro Pacheco, Lisboa, 7 de Maio de 1925 — Montijo, 5 de Janeiro de 2008

Sábado, Janeiro 05, 2008

Eastern Spaghetti

tampopo


Tampopo (Nobuko Miyamoto, a musa do realizador Juzo Itami) espera nervosa a reacção do 'juri' que avaliará a sua elaborada receita de ramen, feita depois de longos meses de treino atlético, espionagem industrial à concorrência e exigentes escolhas de métodos. A vida e a comida, a comida como vida, num dos mais belos filmes japoneses dos anos 80, realizado pelo excêntrico Juzo Itami.

Em Tampopo (1985) o centro narrativo do filme, a iniciação na dura e precisa arte de cozinha ramen (normalmente confinada aos homens) de uma simples dona de uma tasca, vai sendo interrompido para contar pequenos episódios de como o ser humano se relaciona com a comida, dando uma perspectiva humana (e humanista) ao principal e um dos mais belos actos de prazer, o comer. Tampopo é também em si mesmo um emocionante, tintilante, existencialista e por vezes comovente estudo sobre como a comida e o acto de comer (seja como subsistência, como acto social ou como acto de prazer) é tão fundamental como o ar e tão forte como o erotismo ou a morte.

Quinta-feira, Janeiro 03, 2008

O Rapaz, o Albergue e as Raparigas

lovehina

Quando está prestes a estrear no Japão uma das séries cómicas de otaexploitation mais bizarra de sempre (refiro-me ao ambivalentemente cómico e perigosamente pervertido Koharu Biyori), nada melhor que rever um dos já clássicos do anime shounen, Love Hina (2000), carregado de fantasias adolescentes otaku e que obteve culto facilmente em alguns círculos de animação. O plot é claramente carregado dos simbolismos desta clique anti-social: depois de ter perdido contacto com uma namoradinha de infância (a quem jurou que voltaria a ver quando entrasse para a Universidade de Tóquio), o agora já pré-adulto campónio Keitaro vê-se (sabe-se lá como) encarregue de fazer a administração de um pecúliar albergue às portas da capital japonesa, onde estão alojadas apenas pré-estudantes femininas à espera da entrada para a mesma universidade.

Aproveitando os delírios mentais do pobre rapaz as hóspedes (todas elas correspondendo a uma certa tipologia que se refere aos fetisches adolescentes) vão-lhe fazendo a vida negra, carregando-o de monumentais tareias devido as acidentais indiscrições que acontecem entre os 2 géneros humanos, realizando de certa forma as fantasias (masoquistas) da personagem e, claro, do público.

Embora estejamos em território cómico de certa forma vulgar, Love Hina foi acendendo o culto das personagens femininas da série, que quase ganharam estatuto real para muitos fans, através das hilariantes situações cheias de fan service e gags sexuais que oscilam entre o sentimentalmente adolescente e o disparatadamente cómico.

Talvez uma das séries que deu 'mau nome' fora de portas, à animação japonesa, devido a um certo fetischismo adolescente que nem sempre é entendido a 'não-iniciados', Love Hina é mesmo assim uma engraçada e interessante série de anime, que merece ser vista ou revista por todos os que tenham interesse na recente animação de teor cómico made in Japan.

A Rapariga, A Escola e os Rapazes

schoolrumble

Mesmo usando um tema extraordinariamente usado e renovado na anime e dorama japoneses (o do delinquente que se apaixona pela normal colegial), School Rumble (2004) consegue ser uma das séries de anime do passado recente que mais bem monopolizou o tema para efeitos cómicos. Tenma é uma normal adolescente com uma paixão desmesurada por um 'levitante' e distraído rapaz, que aparentemente não se apercebe dos seus cândidos avanços românticos. Para destablizar esta (aparentemente) história de amor adolescente, um terrível vândalo e aluno repetente da mesma escola está apaixonado por Tenma de uma forma quase transcendente, que o faz levar os seus actos ao delírio heróico, absurdamente cómico.

Monopolizando um universo shoujo colegial e adolescente (com bastante fans não só no público feminino como também em algum público masculino mais curioso), School Rumble vai inumerando os problemas normais de qualquer rapariga adolescente no sistema de ensino secundário japonês, para depois restituir essas mesmas 'questões da idade' para o universo cómico da anime, por vezes com uma candura já pouco usada nas séries mais recentes.

Mais do que uma série cómica, School Rumble leva a comédia na anime (mainstream) até ao ponto da perfeição, equilibrando os fantásticos gags visuais com a história principal, numa contagiante forma de comédia impossível de deixar alguém indiferente e que o actual culto já originou mais algumas sequelas recentes.

Pela Chaminé Abaixo (3)

dvddelirium

Combinando os mais obscuros lançamentos em DVD com algumas (desnessárias) inclusões do novo weird cinema comercial de Hollywood, este DVD Delirium Volume 3: The International Guide to Weird and Wonderful Films on DVD, editado por Nathaniel Thompson para a FAB Press, é um guia imprescidível para os film buffs, com entradas sobre algumas reliquias do exploitation, horror, trash e géneros de crossover que nem sempre se encontram nas lojas convencionais. Uma agradável surpresa que depressa se tornará útil cá por casa.

Pela Chaminé Abaixo (2)

aliceDVD

Uma fantástica prenda já à muito ambicionada, a edição especial da Lusomundo de Alice (2005) de Marco Martins é quase perfeita, com cenas cortadas e um relativamente interessante Making Of que permite traçar o trabalho da equipa do filme que voltou a trazer alguma 'redenção' ao Cinema português, combinando os gostos das audiências com uma plena 'visão de autor'. Ficam apenas a criticar a inclusão do 'tesourinho deprimente' que são os Globos de Ouro da SIC no disco de extras e os mal produzidos conteúdos interactivos, que não funcionam no iMac (algo indesculpável em pleno século XXI).

Pela Chaminé Abaixo (1)

eva00proto

EVA-00 Prototype de Rei Ayanami com corpo laranja e espectaculares decalques, uma descoberta inesperada durante as curtas férias em Lisboa, na Jikai, no Centro Comercial do Lumiar. Talvez a melhor loja de merchandise de anime e manga em Lisboa e uma vista imprescidivel.

De Volta Depois de um Pequeno Intervalo

De volta depois de umas curtas férias por Lisboa, e ainda tentando apanhar o ritmo rigoroso da edição do BitL, desejo aos poucos habituais e outros de passagem um Feliz Ano Novo.

Por cá este ano decerto que terá algumas novidades e até talvez algumas mudanças de formato, de forma a actualizar este blog para os temas que parecem ter possuido as entradas deste último ano que agora acaba e para minimizar a manutenção de tantos post sobre o que se vê, lê e ouve.

A todos obrigado pelas visitas. O espectáculo segue dentro de momentos