Terça-feira, Dezembro 18, 2007
Ao Espelho (1)
4 de Julho 1961: Kelly (a poderosa Constance Towers, infelizmente desde sempre relegada para papéis secundários para TV), ajeita ao espelho a sua cabeleira loura por cima da cabeça completamente rapada, poucos segundos antes de o genérico inicial de Naked Kiss (1964) arrancar. Poucos minutos atrás agrediu violentamente o chulo que a explorou, deixando para trás o macho sem a sua dignidade masculina, não só devido à violência física, mas sobretudo devido à pujante agressão verbal, plena de verdade mundana.
Com um dos primeiros minutos mais violentos da história do Cinema dos anos 60 (e aqui não me refiro em termos gráficos, mas em termos de conteúdo moral), The Naked Kiss é uma das obras mais poderosas de Sam Fuller, e que talvez por isso nunca conseguiu chegar ao mainstream, devido ao seu conteúdo de choque. Sempre em parelha com a também chocante Shock Corridor, este filme foi rodando no circuito independente e exploitation (embora diga-se, não é atrás de 'tremendismo' que Fuller está atrás aqui), conseguindo criar um culto espantoso decisivo na história do Cinema pós-moderno, sobretudo em cineastas também eles de culto, sendo uma referência para John Waters ou Pedro Almodóvar entre outros.
Se Fuller desesperadamente mostra as suas personagens inquientantes e desesperadas por redenção num mundo onde a podridão moral parece ser regra, é com The Naked Kiss que o travo amargo do desespero existêncial chega à garganta, revelando na personagem de Kelly. A altivez de alguém que mesmo quando já bateu no fundo e consegue regressar violentamente à tona para encontrar a sua dignidade interior e tentar a redenção social, não porque necessária pessoalmente, mas porque socialmente terá que existir alguma forma de actividade redentora que permita a esta personagens sentirem-se de novo gente.
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Sábado, Dezembro 15, 2007
Guerra dos Sexos
Sendo um dos filmes britânicos de sci-fi dos anos 50 com mais culto, Devil Girl from Mars (1954) é também um dos mais singulares filmes B da Guerra Fria. Inserindo-se na 'resposta' aos numerosos produtos B americanos da altura, o filme de David MacDonald parece 'correr' exactamente na direcção oposta, não induzindo o medo do 'outro' através de uma ameaça bélica onde podemos rever o mal que aparentemente estaria do outro lado da 'cortina', mas parece mais preocupado no facto de que os costumes tradicionais do pós-guerra estariam a avançar para uma forma mais liberal de sociedade.
Aqui a figura demonizada não é um qualquer monstro verde de Marte, mas uma bela e enigmática marciana com tendências de domina S&M, vestida com um fato de vinil preto, e com uma generosamente pequena mini-saia, que fez a viagem ao planeta Terra para capturar especimens masculinos, em falta num planeta onde as mulheres ganharam a guerra dos sexos.
E é esse o termo ('Guerra dos Sexos') usado pela 'frígida' Nyah (a marciana, interpretada por Patricia Laffan) ao explicar as suas razões a um pequeno grupo de clientes de um modesto inn algures na landscape deserta da Escócia, enquanto exibe um tosco robot, que parece ser apenas mais um gadget para esconder as intenções conservadoras do filme.
Um pecúliar documento do sci-fi retro com contornos morais que o atiram para o mais irresistivel camp, Devil Girl From Mars mostra em todas as suas contradições temáticas e pequenos apontamentos de melodrama (algo desajustados do tema principal), a resistência conservadora a novos valores socias, demonizando-os de uma forma extremamante hilariante (parecendo um filme patrocinado por uma qualquer seita critã), e tornando-os ambiguamente fetichistas e apelativos.
Sendo quase o equivalente britânico de Plan 9, nem é preciso dizer que este é um filme a descobrir ou rever.
Sexta-feira, Dezembro 14, 2007
Separados à Nascença (1)
Entre o moniker de Sascha Baron Cohen em Cannes no ano passado e esta capa do Elvis do Portugal profundo (pronto para aceitar o convite à casa da Jóquina algures nos idos anos 70) existe uma assustadora similariedade, que faz entender uma quase irmandade espiritual. Verdadeiramente perturbante.
imagem cortesia de LP Cover Lover.
Casal no Automóvel (5)
No meio do nada, Mike Hammer (Ralph Meeker) dá boleira a uma fugitiva da 'laugh house' (Cloris Leachman), fazendo-o ficar envolvido num caso onde um perturbante existêncialismo noir é levado até às últimas consequências.
O universo de Mickey Spillane, feito de sexismos vários, decadentes relações de conveniência, personagens do submundo das cidades americanas e muita atitude áspera, traduzido para o ecrã por um dos reis do tremendismo americano Robert Aldrich em Kiss Me Deadly (1955).
Antropologia de Vida
A ex-viúva e agora recém casada Haru Masuda (Sumiko Sakamoto) recebe a visita no hospício do filho mimado mas profundamente desnaturado (Masaomi Kondo), que a tenta convencer a deixar-lhe os parcos pertences em herança, de forma a sustentar o estilo de vida da (imaginária) vamp ao fundo do corredor, que entretanto se tornou a sua mulher.
Num filme com o bombástico título de Jinruigaku nyumon: Erogotshi yori (Os Pornógrafos: Introdução a Antropologia, conhecido internacionalmente como The Pornographers de 1966), esta será talvez a cena onde essa mesma exploração gráfica da carne se faz sentir com mais empenho. De resto, e embora o título faça adivinhar um estudo sobre a indústria pornográfica nipónica do pós-guerra, o realizador Shohei Imamura prefere mostrar de forma pujante o clima social (expresso entre um realismo e um simbolismo cómico), deixando de fora quaisquer conteúdos exploitativos relevantes, que quando acontecem estao contidos em delírios cómicos de pouca expressão pornográfica.
Shohei Imamura, um dos expoentes máximos da nouvelle vague japonesa, explora em the Pornographers a confusa e desesperada situação social e económica do Japão pós-guerra, no exemplo de Yoshimoto Ogata, o dono de uma pequena produtora de pink films que casa com a sua senhoria já viúva e que por isso herda também todas a complexas ambições e caprichos do restante agregado familiar (incluindo um filho, uma filha e o defunto marido, representado por uma robalo dentro de um aquário).
Crítica social mascarada com um cortante e mordaz humor negro (por vezes atirando para o drama mais pujante), a obra mais reconhecida de Imamura é um interessante exercício de 'novo cinema' (tão semelhante ao seu contemporâneo em França) onde uma actividade profissional tão invulgar é retratada de forma normal e cândida, quase como se trata-se de um padeiro ou carteiro, mesmo que com contornos clandestinos, servindo apenas como 'desculpa' para retratar como se vivia (ou sobrevivia) num Japão ainda em reconstrução na altura.
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Xungadélico (1)
As investidas às 'lojas dos 300' de Nottingham trazem sempre estranhas alegrias cinematográficas, que sejam elas a aquisição da siminal obra de Penelope Spheeris Suburbia (1984) por apenas 1 libra, quer sejam algumas das pérolas do cinema de kung-fu xunga, como este estranhamente psicadélico Matching Escort (1983). Se não bastasse ser um filme para-lá-do-bizarramente-imaginado, esta edição tem os fantásticos 'bonus' de ter uma das dobragens americanas mais estúpidas que há memória no cinema de Kung Fu dobrado e uma 'pós-montagem' que generosamente curtou algum do sentido (?) que ainda podesse existir nesta obscura obra.
Uma princesa obrigada a usar sapatos de chumbo (Ling Chang, uma das divas deste tipo de cinema nos idos 80 que também realiza esta obra-prima), torna-se uma perita em porrada acrobática, através dos dúbios ensinamentos de um mestre hermita, ao cair numa gruta bastante psicadélica. Depois de uma iniciação que inclui apanhar insectos com pausinhos e comer os mais repelentes reptéis de borracha, a princesa está então pronta para vingar a morte da família às mãos de um qualquer senhor do mal, com um estridente penteado e planos de dominação mundial.
Mais palavras para quê? Um clássico do cinema xunga, curiosamente semelhante ao plot de Star Wars, para consumir numa animada TV party durante o fim de semana.
Sexta-feira, Dezembro 07, 2007
Joan Crawford ao Serão
A cena pré-revelação do motivo do assassinio de Monte Beragon (Zachary Scott), onde Mildred 'Beragon' Pierce (Joan Crawford) consegue uma das prestações mais plásticas (e influentes) dos 40s. Entre o melodrama o cinema de crime, Mildred Pierce (1945) é em si mesmo um pequeno universo cinematográfico, uma jóia na coroa do melodrama americano que tornou Crawford uma das suas figuras mais inesquecíveis e dona de um culto de imagem que ainda perdura.
A Arte do Carteirista (2)
Todo o esplendor de Sam Fuller está concentrado em Pickup on South Street (1953), a obras-prima de um realizador que parodoxalmente se encontra actualmente 'atirado' para as franjas do cinema americano e que vem sido cada vez menos citado como fundamental, mas que sempre gozou de um saudável culto, sobretudo junto de outros posteriores realizadores, e portanto com uma influência primal no actual dito 'cinema de autor'.
Todas ambiguidades deste mestre esquecido se encontram concentradas nesta obra perfeita: a violência excessiva e a ternura que liga as personagens (mesmo as antagónicas), o existêncialismo mascarado de patriotismo, puro erotismo e indiferença carnal que roça o pornográfico, sublimação realista para entregar puro simbolismo através desse mesmo realismo... existiriam muito a descrever num filme onde cada frame é um tratado da existência humana e da sua subjugação aos deuses e demónio (por vezes simultaneamente e de forma dúbia).
Neste estranho conto onde um 'pombo correio' chamado Candy (Jean Peters, aqui em soberana presença), que sem saber trabalha para uma conspiração Comunista numa Nova Iorque que também ela é uma personagem central, vê o seu destino interlaçado ao carteirista que lhe 'assalta' a mala onde está escondido um microfilme. E é particularmente esta cena quase no início do filme que começa o ambiente ambíguo que Fuller trabalha de forma sublime. O roubo é tratado como um acto sexual (em sequências de close ups que tanto mostram a cara de Candy, do Carteirista e da mão deste numa 'vaginal' bolsa onde está o microfilme).
Um filme perverso e viciosamente gráfico, Pickup on South Street é uma das obras mais intemporais do Cinema Americano, um daqueles neo-clássicos esquecidos que parece ter aberto a caixa de pandora do que viria a ser o Novo Cinema Americano dos anos 70 em diante.
Quarta-feira, Dezembro 05, 2007
Casal no Automóvel (4)
Thelma Jordon (Barbara Stanwyck) e Cleve Marshall (Wendell Corey) mantêm uma 'conversa de automóvel' num qualquer lover's lane onde são trocados segredos aparentemente sinceros, e que revelarão depois uma das histórias de crime mais estranhas dos anos 50.
Um dos mais explícitos casos de adultério no Noir, The File on Thelma Jordon (1950) é uma daquelas obras normalmente esquecidas no compêndio do Film Noir, mas que conta de forma sofisticada uma narrativa aparentemente 'vulgar' e carregada de desejos assumidos do público (e reprimidos pelo censurante Code of Production).
Um carrocel moral de Robert Siodmak em todo idêntico a Double Indemnity (1944, que consagrou Stanwyck como umas das mais 'fatais femeas' do Cinema), onde todas as personagens parecem culpadas dos seus impulsos mais negros, nem sempre escondidos.
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Domingo, Dezembro 02, 2007
Visões Felinas (2)
O Paparazzi Marcello Rubini (Marcello Mastroianni) entra no clube acompanhado do pai, que está de visita a Roma, mesmo a tempo de assistir a um hilariante número burlesco: várias coristas vestidas de felinos dançam uma bizarra coreagrafia ao som do chicote de um estranho domador. Uma das 'visões interiores' na Roma que Fellini traduziu para definir o vazio cada vez mais desesperado do seu alter ego em La Dolce Vita (1960).
Sábado, Dezembro 01, 2007
Nem Só da Garganta
Como dizia John Waters no documentário de um passado post, muito do cinema avantgarde americano dos anos 70 foi apenas uma desculpa para mostrar sexo, algo que ele mesmo usou como desculpa para se tornar o venerável autor que hoje é. Tal é suficiente óbvio quando Waters é um dos primeiros convidados a ter o seu dizer no recente Inside Deep Throat (2005), um documentário que junta numa preciosa hora e meia algumas das figuras mais reconhecíveis da cultura americana a comentar a importância vital do influente e infame Deep Throat (1972), juntando a estes mesmo comentadores alguns dos intervenientes directos da equipa que produziu o mais lucrativo filme de sempre na história do cinema.
A desculpa de Fenton Bailey e Randy Barbato ao realizarem este valioso pedaço de história é a de contarem como o filme que começou toda a indústria pornográfica (como a conhecemos actualmente) foi inocentemente produzido e os acontecimentos fora de controlo que originou, levando a reacções negativas espantosas de alguns intervenientes políticos e da sociedade civil dos anos 70 americanos, que indirectamente ajudaram a compor o mito e o lançaram para o centro da cultura pop da altura.
Inside Deep Throat consegue relatar não só a história bizarra imaginada pelo então cabeleireiro swinger Gerard Damiano, a forma como conseguiu juntar uma estranha equipa de produção e de como tornou uma rapariga de província chamada Linda Boreman, com invulgares 'dotes representativos' um dos maiores símbolos sexuais dos anos 70, como também se debruça de forma global sobre tudo o resto que envolveu este filme em actos judiciais durante mais de 10 anos e moldou alguns dos actos moralistas de 2 presidentes durante os 70s e 80s.
Se este documentário consegue mostrar ambos os 'lados das barricadas' de uma forma equilibrada (refiro-me aos 'acusadores' e 'condenados à partida' por terem tomado parte num dos maiores actos de vandalismo cultural que descompôs a hipócrita moralidade da época), é também mostrado a forma como toda a indústria cinematográfica mudou, quando a maior parte dos grande estúdios estavam na corda bamba com uma das maiores crises financeiras desde os anos 30, e das confiantes perspectivas de muitos produtores de pornografia tinham ao fazer o género quase chegar ao mainstream.
E se talvez este documentário tente não entrar pelo caminho da exploração humana que a indústria tinha (e tem) inerente às suas práticas, existem também curiosas pistas de como alguns dos intervenientes se tentaram afastar e até ajudar a combater a indústria pornográfica (como claramente fez Linda 'Lovelance' Boreman) e ainda um desvelar (com algum pudor) do outfit criminal que financiou o filme e que obteve a esmagadora fatia do lucro, apenas para concluir que com o evoluir do género, algo que uma vez foi considerado uma actividade artística (e a palavra artist é frequente pronunciada neste documentário) e que é agora apenas uma indústria interessada em ter o máximo de lucro possível por muito pouco a oferecer.
Se actualmente o DVD de Deep Throat aparece não na 'prateleira do fundo' de qualquer sex shop, mas nas prateleiras de cinema mainstream de qualquer megastore (pelo aqui pelo Reino Unido) é porque actualmente esta relíquia do camp dos anos 70 ganhou o seu merecido estatuto e este magnífico documentário consegue, apenas com algumas falhas revisitar (talvez até pelo tipo de formato, já que esta história poderia ser tão longa como uma telenovela) , explicar e validar porque é que este é um dos mais influentes filmes da história do Cinema.
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