Sexta-feira, Novembro 30, 2007
Frédéric Chichin
Com o desaparecimento no passado dia 28 de Novembro da parcela masculina dos Les Rita Mitsouko desaparece também uma das formas criativas da pop francesa dos anos 80. Com uma atitude bastante fresca em relação a um certo pop new wave com raizes retro, os Rita Mitsouko conseguiram vários singles perfeitos, vivendo de uma visão pós-moderna e bastante libertadora da pop, numa França ainda a ruminar um certo cançonetismo pop muitas vezes decadente (uma herança de um brilhantes anos 60) mas onde 'brechas' na indústria músical deixava já antever frutos de um pop rock de multiculturais inovativas.
Se a desbocada e polémica ex-actriz porno Catherine Ringer foi a front woman dos RM, fazendo frente a todos aqueles que mostravam algum rancor devido ao som gritante e o visual provocador do duo (incluindo o já decadente e doente Gainsbourg, que obteve uma resposta despudorada por Ringer ao vivo na TV para espanto de milhares de espectadores), foi Fred Chichin que construiu grande parte do som inovador da banda, que marcou uma época de turbulência social e pequenas revoltas culturais, cruzando pop dos anos 60 e um som 'sintético' em doses perfeitas e o principal autor e verdadeiro hinos pop excêntricos. Até sempre.
Frédéric Chichin 1 de Maio de 1954 - 28 de Novembro de 2007.
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Quarta-feira, Novembro 28, 2007
Be Generous, Mr. Spade
Sam Spade (Humphrey Bogart), define finalmente o pagamento do estranho caso da irmã desaparecida de Brigid O'Shaughnessy (Mary Astor), depois de jogar um estranho jogo de sedução com a sua cliente tornada cúmplice no caso do Falcão de Malta. Os ásperos e dúbios prazeres de um filme que ainda hoje espanta pela ousadia, mesmo depois de fortemente submetido à tesoura como mencionado aqui (The Maltese Falcon, 1941).
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Sábado, Novembro 24, 2007
Loucura Para a Sobremesa (3)
Oscilando entre um retrato quase 'clínico' da paranóia e o esplendor do melodrama clássico americano , Possessed (1947) apresenta uma Joan Crawford então já como uma actriz levada a sério devido ao merecido Oscar por Mildred Pierce (1945), com a sua figura de pin-up, (com que ficou marcada no início de carreira) já esquecida, a caminho de se tornar a figura de culto que ainda hoje venerada.
Se numa primeira análise, a primeira parte deste conto de Curtis Bernhardt fica marcado por uma certa interpretação algo rígida e demasiado estilizada (e com diálogos demasiado presos a padrões melodramáticos) é na gradual alienação de Louise (a personagem de Crawford) que se encontra uma prestação representativa que valeu a nomeação para o Oscar, a segunda depois de Humoresque (1946). Uma fabulosa visita à loucura marcada pela presença de um dos maiores icones dos 40s.
Se numa primeira análise, a primeira parte deste conto de Curtis Bernhardt fica marcado por uma certa interpretação algo rígida e demasiado estilizada (e com diálogos demasiado presos a padrões melodramáticos) é na gradual alienação de Louise (a personagem de Crawford) que se encontra uma prestação representativa que valeu a nomeação para o Oscar, a segunda depois de Humoresque (1946). Uma fabulosa visita à loucura marcada pela presença de um dos maiores icones dos 40s.
Cinema Culto
Este Contemporary Spanish Cinema (1998) de Barry Jordan (da Universidade de Monfort em Leicester), apresenta um completo panorama do cinema espanhol dos anos 80 e 90 e o seu contexto do periodo pós-franco que moldou durante décadas o cinema espanhol. Analisando não só os vários géneros prodominantes de uma cinemografia fascinante, ... apresenta também as várias nuances temáticas e estéticas, conseguindo não só analisar obras dos mais consagrados realizadores espanhóis (Saura, Luna, Almodóvar, Medem) como também descobre e analísa alguns tesouros obscuros (muito pouco ou quase nunca citados em outros estudos) que são actualmente imprecindíveis para entender a importância desta cinematografia, incluindo as várias variações regionais que tornaram o cinema da década de 90, mesmo marcada por uma normalização 'imposta' devido às politicas culturais do governo Aznar, um dos mais interessantes da Europa.
Mesmo já desactualizado (este estudo cobre só o cinema espanhol até ao ano de 1997), este é um livro essencial para qualquer estudante de cinema e entusiasta do actual cinema espanhol, com pistas preciosas para encontrar o que de actualmente vai saído do território espanhol e que tanta atenção tem tido simultaneamente quer pelo mainstream de Hollywood, quer pelos autores, produtores e espectadores do cinema independente ou de autor.
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Mondo Porco
via Gpod
Por vezes convenço-me que John Waters é o maior realizador independente americano vivo. Acho que o homem deve-se estar a borrifar para isso, mas o facto é que como nunca outra personagem (viva) do cinema americano das 'franjas', Waters conseguiu (e ainda hoje consegue) roubar toda a cultura pop americana (das elites até ao white trash) e dar de volta acertadas reflecções que são de grande influência para essa mesma cultura popular. E claro que ouvir este herói do indie falar muitas vezes é mais agradável do que ver a sua obra (sobretudo a mais remota), cheia de momentos verdadeiramente escatológicos.
E por que não ouvir Waters sem cansar durante uma generosa hora e meia em This Filthy World (2007), um registo de stand up (que aparentemente não era para ser de comédia), onde o realizador explica de uma forma informal e random as suas influências estéticas e principais obras-primas (prestando várias vezes homenagem à sua maior diva, Divine) e da a sua visão sarcástica da actual cultura pop americana, sem se esquecer de fazer uma pujante e divertida auto-crítica. Melhor que qualquer act cómico neste formato, este singelo registo de rir até às lágrimas é imperdível para qualquer fan deste realizador.
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Mais um Filme Adolescente
Mais um estranho objecto daqueles que o Cinema espanhol costuma originar, El Síndrome de Svensson (2007) é uma daquelas mix-órdias pós-modernas que parodía alguns dos mais recentes alcunhados teen movies, com comédia boçal e sexista, inúmeras referências pop cinematográficas, tintilação barata e personagens apenas imaginadas pelas mentes mais embrenhadas em tóxicos.
Conheça o troglodita basófe adepto do tunning, cuja a noiva fugiu durante o casamento (ainda com o vestido) para encontrar o real sentido do Amor, a banda pop-punk temperada com gel capilar, cujos gostos bizarros são combinados entre tocar como banda de baile ou visitar as maiores sex shops da europa. Conheça a banda labrega U3 (e o seu vocalista toxicodependente Abono), strippers de província, Karaoke bars onde os prémios são a morte e as betinhas urbanas perdidas na 'província' enquanto encontram o verdadeiro significado da vida.
Pelo caminho veja também a motoqueira desiludida com um qualquer pato bravo fan do Franco, um morto que não morreu, os camionistas obsecados com a metafisica do Senhor dos Anéis, a mais estúpida crew hip hop do planeta ... e claro, Ángel Mari Svensson, um doente sentimental que vai vagueando pelos cenários de uma espanha rural inventada por Kepa Sojo, um sórdido freak show em tom cómico, mas tão árido de ideias interessantes como as planícies de Cuenca, onde foi filmado.
Se os 'primos' americanos deste filme vão parodiando de forma estúpida e sem piada alguns dos filmes de culto recentes, este lá vai tentando ser um pouco mais 'erudito', fazendo chalaças com A Simple Story de Lynch ou Night of the Hunter de Laughton.
Mas com que fim? Exactamente o mesmo. Se todo o tom cómico do filme tenta ser 'esperto' na sua boçalidade vazia de conteúdo, é na cena mais estúpida e porca do filme que se consegue soltar uma gargalha, quando durante um concurso de pudim flan, um dos concorrentes perde a compostura 'gástrica' e vomita sobre a competição, deixando claros quaisquer equívocos cinematográficos.
El Síndrome de Svensson é um daqueles filmes boçais, chatos e desinspirados que se tenta mascarar de comédia off the wall, de culto pós-moderno, de forma a conseguir ser um 'amigo da digestão', algo que nunca resulta durante toda a duração do filme.
Os fans de Super Bad (nunca um título definiu tão bem o conteúdo) decerto que irão gostar disto, os outros podem-se abster.
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Loucura Para a Sobremesa (2)
Já no final do filme, Alma Borg (Liv Ullmann) interroga directamente o espectador, tentando intender se dois mundos de representação da 'realidade mental' distintos se poderão alguma vez fundir num só, deixando entender pelo seu olhar que já possui a resposta a tal perturbante pergunta.
No que é considerado o único filme de terror realizado por Bergman (uma categorização que pessoalmente acho descabida), o realizador contrói através do olhar de uma personagem de Liv Ullman os fantasmas mentais masculinos do consagrado artista Johan Borg (Max von Sydow), gerados devido aos arrependimentos de relações passadas e que geram uma paranóia que substitui a realidade vivida no refugio do casal Borg.
Um olhar inquietante pela personalidade e as suas multiplas vivências mentais (que Bergman traduziu como nenhum outro realizador) Vargstimmen (a Hora do Lobo, 1968) é a visualização levada aos extremos do ser humano que se torna o seu próprio condutor, mesmo que tal signifique a total alienação perante os outros, para viver as suas múltiplas realidades, mesmo aquelas que não passam de fantasmas do passado.
Loucura Para a Sobremesa (1)
Um retrato da Loucura num registo do primo inter pares Billy Wilder, aqui com uma substância simultaneamente algo estranha ao corpo da sua filmografia, substituindo o sarcásmo extremo pela ternura, mas dando também a redenção às suas personagens, algo sempre presente em qualquer obra deste realizador e a exploração (mais evidente e existêncialista) das 'influências plásticas' trazidas da Europa.
Lost Weekend (1945) é um poderoso e por vezes crú retrato do alcoolismo, retratando a descida ao inferno da loucura de um promissor escritor que se esconde por detrás do copo para evitar explicar a falta de auto-estima que um bloqueio criativo originou. Com a pujante interpretação de Ray Milland, que dá aqui um retrato pouco usual para a época e por vezes perturbante de um dependente à beira da loucura, este é um dos filmes que abriu as portas a um certo realismo sobre o assunto da loucura e dependência no cinema americano clássico, ainda condicionado pelo código nesta altura, e que tem talvez como referência principal The Man with the Golden Arm (Preminger, 1955), um dos filmes que ajudou a acabar com esse mesmo período clássico.
John Barrymore ao Serão
O estranho maestro Svengali (John Barrymore) hipnotisa Trilby O'Farrell (a bela e também já esquecida Marian Marsh, desaparecida no ano passado), de forma a ganhar mais uma marionete para os seus jogos. Um peculiar filme, tão esquecido como ignorado vem sendo o seu principal actor (um dos grandes vilões do cinema fantástico, que nem sempre é lembrado), Svengali (1931) apropria-se das ricas (e então ainda 'frescas') influências Expressionistas para entregar um estrnho conto onde o Vilão é a personagem principal e aquele que parece fazer viver todo o filme.
Simultaneamente monstroso e amigável, poderoso e impotente, controlador e eternamente perdido, a recriação de Barrymore desta personagem de George Du Maurier atira Svengali para um plano existêncialista que capta as estranhas ambiguidades expressadas pelo Expressionismo no cinema (e aqui é sobretudo o fantasma de Caligari que vem à memória), onde o vilão é também ele o herói (ou anti-herói para ser mais exacto). Um peculiar filme a descobrir.
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Quinta-feira, Novembro 15, 2007
A Bela e a Monstra
Talvez não seja a primeira obra que os cinéfilos do trash se lembram quando são invocadas as memórias saudáveis do período áureo dos drive-ins, mas Frankenstein's Daughter (1958, não confundir com La Figlia di Frankenstein, com Joseph Cotten, também visto cá em casa há pouco tempo) é decerto um dos documentos mais absurdos que os fans do camp de culto dos 50s alguma vez poderão pôr os olhos em cima.
Mostruosas fêmeas em bikini a correrem pela rua abaixo, absurdas experiências científicas feitas na cave, um monstro masculino com um cérebro feminino (a 'filha' do título), ressuscitada pelo bisneto do mítico Frankestein de Mary Shelley, a já costumeira festa Rock and Roll à beira da piscina para ajudar a mais alguns momentos tímidos de sleaze, por vezes preenchidos com os já costumeiros maus efeitos especiais... o que se poderá pedir mais de um filme. Poderá não estar ao nível de culto de Giant Gilla Monster, mas esta obra-prima de Richard da Cunha, com um script e diálogos que parecem ter ser escritos para gente com idade mental de 2 anos, não poderia ser mais especial. Uma jóia imperdível.
Quarta-feira, Novembro 14, 2007
Visões Felinas (1)
A corista Josette Martel (Dolores del Rio), senta-se à mesa de um clube de cave em Istanbul a convite do espião americano Howard Graham (Joseph Cotten), sem sequer tirar o seu fato felino com que representou num estranho número de burlesco.
Um filme que mais do que contar uma história parece querer ser uma diferente experiência visual do normal filme americano da época, Journey Into Fear (1943) é um daqueles documentos onde o sarcasmo e a estética do feio simulado são conjugados para provocar a repulsa e o medo (e algumas gargalhadas também) do público, revelando uma divertida visão pessoal sobre o Film Noir por parte dos mentores deste pecúliar filme (Cotten e Orson Wells), com a ajuda do realizador Norman Foster, num dos spy flicks mais estranhos que há memória no Cinema Americano.
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Sterling Hayden ao Serão (2)
Johnny Clay (Sterling Hayden) leva a cabo a sua parte do golpe que aparentemente resolverá todos os problemas do gang que assalta o departamento de apostas do hypódromo. Um dos mais influentes gangster films do cinema moderno (e cujas cenas podem ser encontradas recreadas em numerosos filmes, de Scorsese a Tarantino) The Killing (1956) de Stanley Kubrick, tal como o já por aqui passado Alphalt Jungle, mostra como um tão bem preparado golpe criminal consegue ser o factor de união de um grupo de personagens que apenas têm em comum uma desesperada vontade de resolver de vez os problemas que os fazem viver de forma sufocante, mas que sabem inconscientemente de que nunca se poderão livrar, atirando-os para os braços do desespero existencialista criminal, que Scorsese e Coppola tão completamente traduziram décadas mais tarde.
Quinta-feira, Novembro 08, 2007
Obscuros Cinemas

Tendo também alguns estudos sobre os actuais gigantes cinematográficos que são a India, a Coreia do Sul e o Japão (algo limitados e já com alguns estudos mais interessantes no mercado, como por exemplo New Korean Cinema já por aqui mencionado), este precioso pequeno-grande livro é um dos mapas mais preciosos para a navegação de algumas das simultaneamente obscuras mas ricas obras recentes do Cinema oriental.
Contemporary Asian cinema : popular culture in a global frame / edited by Anne Tereska Ciecko. English ed. Oxford : Berg, 2006.
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O Cinema e o Paraíso
Mais uma vez Nagase Tomoya volta ao BitL, agora com Utahime, o seu mais recente dorama para a TBS, onde mantém o seu alter-ego no pequeno ecrã ao interpretar um amenésico piloto Zero que deu a costa na pequena vila de Kochi e que trabalha a 10 anos como projeccionista do modesto cinema local. Como se não bastasse, existe também uma estranha ligação entre esta personagem e um desengonçado habitante da Tóquio actual, filho da maior diva da canção japonesa (também Nagase Tomoya), que é enviado para uma soul searching por esta, com o pretexto de assistir à última exibição do tal modesto cinema onde o amenésico projeccionista trabalhou 50 anos antes.
Mesmo tentando manter uma relativamente fiel caracterização histórica do período pós-guerra numa zona rural japonesa, Utahime é mais um veículo cómico para Nagase Tomoya na sua personagem dividida entre o amor da jovem filha que o acolheu (e que vê como uma irmã) e o seu 'real' passado como participante de uma guerra que não se lembra mas que sabe que irá surgir a qualquer momento, desfazendo um presente mantido numa espécie de realidade edílica (quase paradisiaca na forma simplista como é por vezes propositadamente mostrada), onde a personagem vive mergulhada sem conseguir enfrentar qualquer mudança.
Por vezes parecendo invocar certos produtos 'tradicionalistas' e tendo um formato familiar apelativo (e mais comedido do que as anteriores séries onde Tomoya participou), Utahime conta, mesmo assim, com os tradicionais papéis familiares que vão mantendo a normalidade da pequena vila, mas também uma série de oddballs imaginativos (o rústico pescador, a ninfomaníaca dona da pensão local ou o Yakuza com o nome de um pão francês em forma de fezes, aka croissant), gerando um ritmo cómico rápido e repleto de inúmeras referências cinematográficas populares da época, sendo quase uma lição de cultura pop dos anos 50 numa qualquer vila rústica japonesa. Um recomendado entertenimento ligeiro onde o Cinema Paraíso encontra a Pleasantville japonesa.
Scott's Whisky
Mais uma incursão ao serão pelo periodo clássico do cinema britânico para encontrar uma das obras centrais da magnifica Ealing e um dos marcos do cinema Europeu pós-Guerra. Whisky Galore! (1949) conta a estranha história (baseada na novela de Compton MacKenzie, por sua vez baseada em factos verídicos) de uma pitoresca isolada ilha escocesa, durante o racionamento da guerra, onde uma desgraça pior que a Guerra, a Fome e a Peste condicionam a normalidade quotidiana: a falta de Whisky. Com a ilha em completo desespero, o Capitão da Home Guard (um Inglês, interpretado pelo 'impagável' Basil Radford, e portanto um outsider) tenta pôr alguma ordem na comunidade até a anarquia rebentar com qualquer normalidade quando um navio que carrega 50 mil caixas da 'água da vida' escocesa naufraga mesmo ao largo da ilha e à vista dos desesperados habitantes da vila, que já não se conseguem conter.
**** Spoilers****
Tal como outro marco da Ealing, Passport to Pimlico (que já passou por aqui) este é um produto cómico do pós-Guerra britânico onde o constante comedimento sofrido durante a Guerra é agora posto em causa, para servir o objectivo de comédia popular com consequências 'subversivas', onde as forças da ordem são desafiadas para salvaguardar o bem comum e apenas por teimosia (ou ambas juntas). Claro que como normal, este é um filme recheado das mais incríveis personagens típicas 'locais' que servem simultaneamente como uma referência da normalidade social (sempre desconfiadas com as forças da ordem, por exemplo) mas também como os elementos destabilizadores em toda a narrativa, deixando o pobre capitão desamparado contra toda as restantes personagens e que tenta a qualquer custo (mesmo quando é desencorajado pelos seus superiores) a teimosamente fazer cumprir a Lei.
Invocando paisagens (não só geográficas) algo semelhantes ao fabuloso e emocionante I Know Where I'm Going (1945) do duo Powell/Pressburger, Whisky Galore é um daqueles documentos cinematográficos de comédia, nos tempos que correm visto como algo conservadores (talvez porque algo datados), que é guardado na memória como um tesouro para ser revisto vários vezes na vida de qualquer cinéfilo, mesmo que com um final algo forçado (rematando a história de forma a justificar qual foi a 'punição' dos peculiares desobedientes da Lei), mais não seja pela incrível sequência que começa com um frenético Céilidh e que termina com uma comunidade inteira a tentar esconder os milhares de litros resgatados do navio naufragado, escondeu-os nos sítios mais incríveis para não ser confiscado pela Home Guard.
Domingo, Novembro 04, 2007
A Arte do Carteirista (1)
O segundo filme de Mifune no fim de semana (ver post anterior), Nora inu (1949, conhecido internacionalmente como Stray Dog) parece também ser um discurso do então jovem Kurosawa sobre o seu cinema e sobre o rumo que o deveria levar, e que quando encontrado o levaria a ser aclamado como um dos mestres do Cinema do século passado. Talvez isso seja devido à presença dos dois alter-egos contantes do realizador, o novo (Toshirô Mifune) e o velho vivido (o grande Takashi Shimura), que viria a adquirir o seu estatuto de presença de Kurosawa em filmes após os 50s.
É claramente na figura de Murakami (Mifune), um simples detective vítima de um carteirista que lhe rouba não só a arma como quase toda a vida, que revemos o realizador, e que entre uma corrida frenética para recuperar a sua normalidade profissional e pessoal (simbolizada pela arma, aqui o fruto do roubo) vai questionando toda a sua vida e as reais intenções dos seus adversários, caindo num torpor de vítima (ajudado pelo forte calor numa Tóquio devastada pela guerra), que quase encontra descanço a desculpar os seus opositores.
O balanço aqui é dado pelo detective sénior Sato (Shimura, que pessoalmente considero o maior actor japonês de sempre), que tenta desviar os constantes devaneios do jovem Murakami para o lembrar que num mundo 'normal' todos nós temos que representar o papel (seja de polícia ou de ladrão) de forma fiel. O monocórdico Shimura, um dos únicos actores que não precisa de ter diálogos para expressar o que de mais profundo, essencial, assustador e comovente o ser Humano é composto no Cinema de Kurosawa, é também no que Kurosawa se tornaria, ao assinar as suas obras pós-50s de uma forma madura, tornando então Mifune um alter-ego do que o realizador foi e Shimura o que o realizador se tornou, aquele que entrega das mais humanamente bem conseguidas imagens da Existência.
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Toshirô Mifune ao Serão
A espera à chuva das quatro estranhas personagens que compõem uma também estranha história. E não é menos estranho que sendo um dos filmes de Kurosawa que menos é mencionado como 'definitivo', Kakushi-Toride no San-Akunin (1958, conhecido internacionalmente como The Hidden Fortress) é talvez o ensaio do que viria a ser considerada uma das mais fundamentais obras primas do maestro, Yojimbo (1961) e um dos filmes que serviu de base à história de Star Wars.
Com as suas personagens a lutarem (cada uma de sua maneira) para conseguirem chegar ao seus objectivos últimos, mesmo usando as suas fraquezas humanas contra o grupo onde estão enlaçados (e de que estão irremediavelmente dependentes), as 4 personagens fazem da suspeição o veículo para conseguirem chegar ao final. A personagem do General Rokurota Makabe (Mifune) apresenta-se aqui como o 'enganoso' mas fiel guarda-costas da princesa tornada plebe Yuki (a magnética Misa Uehara), que auxiliados por dois ladrões (Minoru Chiaki e Kamatari Fujiwara, que vão servido de comic relief e de quem facilmente se encontra um paralelo com outras duas personagens da obra de Lucas) tentam escapar ao senhor feudal que está interessado no tesouro que carregam.
Um dos mais fascinantes filmes de Kurosawa, onde toda a sua perspectiva da existência humana está presente de forma quase materializada nas personagens e situações, The Hidden Fortress possui um ritmo narrativo quase frenético (se comparado com a maior parte das obras de Kurosawa), parecendo iludir à canção folclórica cantada durante a festa dos camponeses, que serve de motto para todo o filme. Talvez por isso este filme seja uma obra de 'excepção' até certo ponto, sendo um daqueles documentos obrigatórios do Cinema Nipónico.
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Fora do Corpo
São festejados da melhor forma os 20 anos da Production I.D. com o projecto Ghost Hound, a série de celebração da solene data para uma das mais inovadores e interessantes produtoras de Anime actuais. Um adolescente com uma peculiar desordem gerada por stress pós-traumático, vive num plano existencial bastante diferente dos restantes alunos do liceu de Suiten, na isolada ilha japonesa de Kyushu, conhecida pela produção de sake. Um rapto para pedido de resgate deste adolescente e da sua irmã (que morreu durante o captiveiro) possui contornos estranhos que o adolescente recalcou, mas que vai recolhendo em pequenos fragmentos nos inúmeros sonhos que costuma registar em inúmeras cassetes audio, que parecem guardar algo mais do que o simples crime a que os dois adolescentes foram submetidos.
Juntando-se a este encontramos um estranho orfão delinquente (filho e neto de mediums) com forte tensão anti-social, o 'colas' da turma (um insuportável aluno transferido de Tóquio que parece saber mais do que diz sobre o rapto) e a estranha filha de um sacerdote shintoista do templo local, que parece agregar todos os personagens com a sua presença física e sobretudo 'astral'.
Claramente no terreno do anime sobrenatural, Ghost Hound é uma quase revisitação aos caminhos já trilhados por David Lynch em Twin Peaks (e de certa forma presentes em toda a obra do mestre americano), onde a realidade ganha distorções assustadoramente simbólicas, moldadas não só pela personalidade das personagens, mas também por uma outra realidade escondida (e que vai sendo revelada de forma cadêncial ao longo da série) que acorda os medos mais terríveis sentidos na infância. Juntando a isto existe um claro pendor para juntar um sobrenatural mundo fantasmagórico (onde os personagens acidentalmente parecem ter conseguido entrar saindo dos seus corpos) e que vai revelar a assustadora realidade por de trás do trauma da personagem principal.
Como se as 'estranhas' parecenças ambientais entre a obra de Lynch e esta série não fossem suficientes, muita da estética criada (e tantas vezes imitada) deste realizador estão deliciosamente presentes nesta série com distorções sonoras que revelam o caracter 'mental' e 'sobrenatural' das personagens (um excelente sound design e um tema de abertura da misteriosa Swing Queen japonesa Mayumi Kojima levam isso ao quase divino), que parecem apenas viver num plano alternativo e as constantes misturas visuais oníricas (nem sempre agradáveis) em abruptos cortes de montagem e estranhos planos de observação, ajudam a criar uma inquientante atmosfera numa das séries mais interessantes da season. A não perder num qualquer fansub perto de si.
Juntando-se a este encontramos um estranho orfão delinquente (filho e neto de mediums) com forte tensão anti-social, o 'colas' da turma (um insuportável aluno transferido de Tóquio que parece saber mais do que diz sobre o rapto) e a estranha filha de um sacerdote shintoista do templo local, que parece agregar todos os personagens com a sua presença física e sobretudo 'astral'.
Claramente no terreno do anime sobrenatural, Ghost Hound é uma quase revisitação aos caminhos já trilhados por David Lynch em Twin Peaks (e de certa forma presentes em toda a obra do mestre americano), onde a realidade ganha distorções assustadoramente simbólicas, moldadas não só pela personalidade das personagens, mas também por uma outra realidade escondida (e que vai sendo revelada de forma cadêncial ao longo da série) que acorda os medos mais terríveis sentidos na infância. Juntando a isto existe um claro pendor para juntar um sobrenatural mundo fantasmagórico (onde os personagens acidentalmente parecem ter conseguido entrar saindo dos seus corpos) e que vai revelar a assustadora realidade por de trás do trauma da personagem principal.
Como se as 'estranhas' parecenças ambientais entre a obra de Lynch e esta série não fossem suficientes, muita da estética criada (e tantas vezes imitada) deste realizador estão deliciosamente presentes nesta série com distorções sonoras que revelam o caracter 'mental' e 'sobrenatural' das personagens (um excelente sound design e um tema de abertura da misteriosa Swing Queen japonesa Mayumi Kojima levam isso ao quase divino), que parecem apenas viver num plano alternativo e as constantes misturas visuais oníricas (nem sempre agradáveis) em abruptos cortes de montagem e estranhos planos de observação, ajudam a criar uma inquientante atmosfera numa das séries mais interessantes da season. A não perder num qualquer fansub perto de si.
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Consumismo de Sábado à Tarde (6)
Um golpe de sorte:
Red Canti 12" limitado a 400 exp. (a acreditar na info no myplasticheart.com), na Travelling Man.
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