Quarta-feira, Outubro 31, 2007

Visões de Mel

recutiehoney


Mais visões da super-heroina mais sexy da anime, desta vez na visão da Gainax pelo mito de Cutie Honey, a OVA de 3 episódios Re: Cutie Honey. É estranho constatar que com o imenso culto de a Gainax goza, esta é uma das menos faladas e até mais mal amadas animações da produtora. Sendo uma 'valente' adaptação de uma história algo flat, Hideaki Anno e a restante staff retomam a delirante adaptação que fizeram no filme live action com a idol Eriko 'Densha Otoku' Kisaragi para subirem mais um graus da escala do descarado exploitation e entregam aqui uma das obras que traduz mais o espírito Gainax, se excluirmos os trabalhos de abordagem mais 'classica' (refiro-me em termos de animação), como a saga Evangelion.

Em três frenéticos episódios, existe um humor retorcido, super-vilãs imaginativamente camp, bizarras interações entre personagens (sobretudo a estranha química entre a detective Natsuko Aki, um add-in nesta versão, e Honey), muito (muito mesmo) fan service e sobretudo um delirante exercício gráfico animado que por vezes consegue roçar o impossível.

Possivelmente a melhor adaptação (e upgrade) da série original de sempre e aquela que mais vezes tem que ser vista e re-vista para alguma vez conseguir adaptar os olhos a tal delirante remake.

... e 3 Anos Depois...

Birthday_candles
(imagem: Wikipedia/Creative Commons rights)

... o Bitlogger continua por cá. Por vezes algo inregular e com muitos posts atrasados (mais de 150, alguns com mais de 1 ano), o BitL por cá irá andando, sempre que a preguiça e a falta de tempo forem deixando e tentando fazer um registo do que se vai vendo, lendo e ouvindo cá por casa. Mais uma vez agradeço aos poucos que por aqui passam. Já agora, Feliz Halloween!

Who is that Dame Wearin' the Kimono?

leff_dame_kimono
E agora que o infame Production Code (ou Hayes Code, como alguns ainda se referem) parece ser uma recordação tão distante, com tanto excesso e exploração flashy que tomou conta (até a insanidade) do cinema americano 'certificado', nada melhor do que rever a materia com o já de referência The Dame in the Kimono: Hollywood, Censorship and the Production Code (2a edição de 2001), de Leonard J. Leff e Jerold Simmons.

Partindo de uma frase dita pela personagem de Iva Archer (Gladys George) em Maltese Falcon, que acabou ter 'ido à tesoura' sem nunca ter sido dita na versão final do filme, Leff e Simmons contam de forma detalhada toda a história do célebre código que 'ajudou' a definir o periodo clássico do cinema americano, desde os seus bem intencionados começos, amplamente aplaudidos pelos major studios até ao declínio de um conjunto de regras que se tornaram demasiado ceródias para a revolução sexual dos anos 60, passando claro pelos filmes chave que ameaçaram, moldaram e finalmente destruiram o código e que originaram a actual classificação por idades.

Deixando os factores 'cinematográficos' e técnicos de lado, Leff e Simmons concentram-se no plano comercial e moral do cinema clássico americano e nos intervenientes nos bastidores, dando uma panorâmica espectacular do que está por detrás de algumas das obras-primas do cinema, sem n unca perder um centímetro de interesse e espanto. Essencial a qualquer verdadeiro amante do periodo clássico do Cinema Americano.

Domingo, Outubro 28, 2007

Casal no Automóvel (3)

Blue Gardenia

Uma peculiar história de Fritz Lang, onde a génese de uma das figuras centrais do film noir (a femme fatale) parece querer ser explicada, começa nesta viagem de carro. A femme indefesa tornada fatale (devido à rejeição do namorado-soldado que a trocou por uma enfermeira na Coreia) Norah Larkin (Anne Baxter), com muitos Polynesian Pearl Divers a mais no sangue segue para casa de Harry Prebble (Raymond Burr), ignorando os motivos predatórios do playboy, mais tarde aparentemente interrompidos (para sempre) através do assassínio.
(The Blue Gardenia, Fritz Lang, 1953)

O Sádico Percursor

sadist

Um documento algo percursor do que actualmente é um lugar comum, The Sadist (1963), embora não seja de forma alguma a primeira produção a filmar a história de um serial killer americano, colocou essa figura icónica da faceta mais negra da cultura popular americana, deixando cair o carácter quase romântico desse outlaw, para o tornar uma figura 'hiper-realista', que seria depois adoptada e retomada durante grande parte da segunda metade do do cinema do século XX.

Relatando de forma algo livre os infames feitos do casal Charles Starkweather and Caril Fugate, The Sadist remete o espectador para um realismo quase documental (sobretudo se comparado com anteriores exemplos de Serial Killers no ecrã americano), com personagens assustadoramente reais (embora a prestação do camp star Arch Hall Jr. como o mentalmente limitado Charlie Tibbs parece exagerada por vezes) e sem os normais contornos de cautionary tale, onde o mal é apenas exposto aqueles que se arriscam a o encontrar. Com uma formula narrativa algo inovadora, onde é dado um enfâse maior à extrema interacção entre as personagens do que ao contar uma história linear (uma forma consolidada mais tarde no iconográfico e incontornável Texas Chainsaw Massacre), the Sadist parece ter inspirado produções mainstream como Badlands de Malik e de Natural Born Killers de Stone, ambas também inspiradas no mesmo duo.

Mais do que um exploitation indie, é sobretudo um excelente exercício de tensão onde as cenas de brutalidade com que o mentalmente limitado Charlie Tibbs submete um grupo de 'normais' cidadãos americanos (que têm a infelicidade de representar umas das figuras de autoridade mais odiadas pelo duo sádico, professores), remetem sempre para o eterno fascínio que a sociedade e a cultura pop americana, entre o abominável repelente e o interesse mais-do-que sociológico, têm pela figura do serial killer, figura essa sempre retratada como uma forma iconográficamente 'culpada' por gerar esse mesmo fascínio, sempre remetida para uma espécie de outlaw em último grau que é necessária ser suprimida, mas que estranhamente encontrou sempre um lugar de destaque nos media americanos.

Já com estatuto de Creative Commons, The Sadist passou à pouco tempo de um filme completamente desconhecido para uma obra com um culto crescente, e pode ser encontrado no fabuloso Internet Archive.

Parcialismos Ortopédicos (2)

fallenangel

Stella (Linda Darnell) esfrega os pés maçados pelos saltos altos, depois de mais uma fuga vádia a uma vida sem perspectivas de futuro (sobretudo material), enquanto Eric Stanton (Dana Andrews) antevê mais um golpe (que poderá ser de sorte), ao depositar em Stella o seu coração sem redenção.

Um acto fetichista normal sob o signo de Preminger, The Fallen Angel (1945) é um filme de 'geografias sentimentais' e análises morais (sem grandes moralizações) que entrega o seu conteúdo mais 'policial' para o background, afinal uma das marcas mais Noir, mais preocupado com o 'sentir' deste dois anjos caídos (e com a figura redentiva de June Mills, interpretada pela algo esquecida Alice Faye) do que com a narrativa.

Sexta-feira, Outubro 26, 2007

Hard Cop and Soft Dame

bigheat

A soft dame Debby Marsh (Gloria Grahame) tenta nos seus últimos minutos de vida sentir-se uma mulher "normal", depois de ter tentado acabar com a sua 'carreira' de femme fatale e cortar quaisquer laços com o passado, mesmo secretamente sabendo quais seriam as consequências. O hard cop Dave Bannion (Glenn Ford) tenta fazer destes últimos momentos fazê-la esquecer a cicatriz que lhe ocupa metade da cara (mais uma dualidade da personagem de Grahame) e convencer Debby (pouco convincentemente, parece-me) que no fundo todas as femmes fatales são também elas mulheres normais.

The Big Heat
(1953) é simultaneamente um excelente retrato da cidade americana do pós-guerra (é quem faz as cidades senão as suas personagens?) e uma viagem pela metafísica humana, mantendo todas as suas personagens numa constante oscilação entre o racional e emocional. Mesmo com Glenn Ford sendo claramente cast against type, Lang entrega aqui a obra-prima máxima do período americano, mascarado-a como um noir de apelo mainstream, moldando a sua realidade com uma mestria levada até ao último detalhe iconográfico.

Segunda-feira, Outubro 22, 2007

Erogrant (2)

catchth

Usando como engodo o fogo de artíficio ao largo da Rivieira francesa, a poor rich girl americana Frances Stevens (Grace Kelly), encurrala o engenhoso e metódico combatente da resistência francesa tornado o maior ladrão de jóias do continente europeu John Robie (Cary Grant), numa escaldante scene d'amour onde a atrevida americana coloca nas mãos do ladrão as jóias da família. A cena fecha com uma suspeita e erótica visão do verdadeiro fogo de artíficio que nenhum dos dois esteve desde sempre interessado em contemplar.
(To Catch a Thief, Alfred Hitchcock, 1955)

Parcialismos Ortopédicos (1)

ladyeve

O dócil herdeiro do multimilionario barão da cerveja Pike Charles Pike (Harry Fonda), calça o sensual pé da charlatona Jean Harrington (Barbara Stanwyck), ignorando que o salto quebrado durante a sua queda aparatosa no salão de jantar do cruzeiro tinha sido estrategicamente colocado no seu caminho para tal encontro. No universo screwball de Preston Sturges, cenas destas têm sempre um lugar especial, mostrando uma quase submissão masculina perante as aparentemente indefesas personagens femininas.

Se Fonda mais tarde no filme se vê no meio de algumas das mais hilariantes cenas de slapstick que Sturges se lembrou de filmar, tal é devido a esta perigosa cena de 'sapataria'.
(The Lady Eve, Preston Sturges, 1941)

Casal no Automóvel (2)

womanhat


Numa estranha viagem de táxi que insinua infidelidade, consolida-se a história da 'senhora do chapéu' (começada num qualquer bar de NY) que Scott Henderson (Alan Curtis) apresentará como alibi para o crime que não cometeu, alibi esse que misteriosamente é negado por todos os intervenientes (o taxista, o barman onde o casal se encontrou) e que o desaparecimento da 'senhora do chapéu' parece querer levar-nos a pensar se não estaremos também a alucinar como a personagem de Curtis.
Por entre a narrativa algo patchy e as representações algo limitadas, Siodmak parece mais interessado em reviver as antigas influências simbolistas europeias que ajudaram a formar o film noir, como se revela na célebre cena da banda de Jazz a tocar na cave (com o espectacular e infelizmente algo esquecido Elisha Cook Jr), que funde o expressionismo com o som americano.

(Phantom Lady, Robert Siodmak, 1944)

Bette Davis ao Serão (2)

allaboute

A balzaquiana estrela do teatro Margo Channing (Bette Davis) vai dividindo o copo e o cigarro com a amargura e o cinismo, ao ouvir o discurso de Eve Harrington (Anne Baxter), a estrela que ajudou na ascenção. Um filme construido mais através do que não é dito mas entendido no olhar redondo de Davis, esta cena inicial serve-se quase como um climax do flashback que está prestes a começar e que irá ocupar praticamente toda a extensão do filme.
(All About Eve, Joseph L. Mankiewicz, 1950)

Sábado, Outubro 20, 2007

O Microscópio Humano

Moyashimon


Mesmo correndo o risco de repetir algumas das ideias já descritas noutros posts, com o começo de mais uma season de Anime, começa mais umas semanas de escolhas do que se irá seguindo por aqui nos próximos meses, entre consultas nos costumeiros sites de fansubs, blogs da especialidade e outros veículos de informação que nos fazem tentar estar sempre com a informação actualizada para apanhar aquelas séries que poderão ser interessantes e aquelas absolutamente a evitar, por entre demoradas escolhas e debates sobre os primeiros episódios. E se os valores seguros estão já definidos, séries como Moyashimon acrescentam a certeza que durante esta season existem já surpresas que valem todos os desencantos gerados pela visão de série desinteressantes e boçais.

Sendo uma série cómica slice of life, um género que tem quase sempre satisfatórias séries durante todas as seasons (sobretudo no 'campo' dos relatos adolescentes dos liceus e universidades), Moyashimon não poderia ser mais invulgar na escolha de background narrativo: Tadayasu, um late teen vindo da zona rural que se muda para Toquio para começar o seu curso universitário em Agronomia, tem a qualidade no mínimo invulgar de conseguir visualizar todos os tipos de micro-organismos a planar numa dimensão invisivel ao olho humano desarmado, conseguindo distinguir e até interagir com todo o tipo de micróbios que estamos habituados a ver em fotografias captadas com microscópio (!). Mesmo esta disparatada e linear discrição não consegue de forma alguma revelar o que de hilariante o universo criado pelo manga de estreia de Masayuki Ishikawa que agora é adaptado (como de costume) para animação.

São já esperadas disparatadas aventuras (e desventuras) deste microscópio humano que encheram os serões de anime com um teor 'educativo' (há sempre uma pequena lição de germes depois dos créditos finais em cada episódio, com som a cargo dos Polysics), sendo uma daquelas séries recomendadas ao público em geral... e ja agora com algumas curiosidades reveladas aqui!

Mel Amargo

cutiehoney

Tentando talvez aproveitar o recente revivalismo Magic Girl, A TV Tokyo estreou este mês mais uma adaptação de Cutie Honey, que foi gerando bastantes espectativas quando a famosa body idol Mikie Hara foi anunciada como a 'presença corporal' de uma das heroinas mais 'descascadas' na anime. Mas com a fasquia já bastante alta devido ao filme live action da Gainax de 2004, o primeiro episódio deste Cutie Honey Live não consegue passar de mais uma tentativa de 'incarnar' o culto, percebendo-se logo que situações cómicas gastas, fan service modesto, entediante flow e uma quase robótica representação (e aqui não me refiro ao 'género' de Cutie Honey, mas à prestação de Hara), este é o dorama mais chato da season.

Claramente material otaku, este Cutie Honey Live é apenas uma boçal adaptação das várias (algumas bastante decentes) da original animação (e manga) e que apenas agradará a fans de Hara. Apenas recomendado a estes o a quem com problemas de insónia, não tenha melhor para fazer.

Quinta-feira, Outubro 18, 2007

Kerr

deborahkerr

Se existisse realeza no Cinema, Deborah Kerr seria a princesa mais esquecida (sobretudo pela Academia, que lhe negou o Oscar várias vezes), mas aquela que assim que notada geraria as maiores obssessões.

Deborah Jane Kerr-Trimmer
30 September 1921 – 16 October 2007

Terça-feira, Outubro 16, 2007

Casal no Automóvel (1)

schoolSc

Finalmente um vencedor e confiante lady killer Henry Palfrey (Ian Carmichael) conduz a bela April Smith (Janette Scott) a sua casa para fazer a 'jogada final', depois de aplicar todos os truques aprendidos numa peculiar escola, deixando o oportunista Raymond Delauney (Terry-Thomas) à beira do desespero.

Um dos clássicos do cinema britânico do inicio dos anos 60, School for Scoundrels (1959, com um infeliz remake de Hollywood o ano passado) é um dos mais belos pedaços de retro brit pop que continua mostra ainda hoje um certo espírito flamboyant (sem perder britishness, algo raro) que se vai mantendo na comédia da ilha. E a metamorfose do panhonha gentleman num sharp opportunist que consegue lidar com qualquer situação vivêncial com os truques aprendidos num crash curse em sacanagem continua ainda hoje, num actual mundo tão preenchido pelo cínismo e oportunismo, a revelar uma inocência fresca.

Sábado, Outubro 13, 2007

Blimey, I'm a Foreigner!

passport

É inegável e justo dizer que a Ealing é já algo tão tradicionalmente britânico como chá quente com uma pinga de leite frio. Seja-se um revivalista cinematográfico, um interessado num dos únicos periodos cinematográficos desta ilha ou um reacionário bulldog que apenas se revê no que era então normal e agora não passa de um sentimento saudosista (saudosismo esse tão semelhante às fascínantes comédias portuguesas dos 40s), os filmes da Ealing são uma das brands culturais mais fascinantes da tradição cómica britânica.

Sempre que comento o meu fascínio pelo 'universo Ealing' a algum britânico, a primeira reacção é a perguntar o que um estrangeiro acha de um filme como Passport to Pimlico (1949), esboçando-se logo a seguir um sorriso rebelde a exprimir identidade nacional. E desde que me fizeram essa pergunta pela primeira vez, fiquei com a sensação (correcta como comprovei depois) que este é um filme obrigatório a quem algum dia pise o solo desta ilha por mais tempo que umas férias em Londres.


**spoilers**


O background do filme é simples: no bairro londrino de Pimlico, logo após a Segunda Grande Guerra, um rebentamento de uma das bombas esquecidas revela um documento medieval que afirma que aquele pedaço de terra afinal não é Britânico, mas sim propriedade do Conde da Borgonha. Naturalmente, e aqui entra o verdadeiro espírito de rebeldia da classe trabalhadora britânica, os naturais deste bairro não conseguem evitar de defender os seus direitos e proclamam-se um estado independente da Coroa, gerando algumas das situações mais hilariantes que há memória no cinema pós-guerra britânico. Primeiro (claro) o pub local passa a não fechar às tradicionais 11pm, e quando a lei e ordem tentam por termo a tal rebeldia, começa uma 'batalha de direitos' que culmina a um cerco a este pequenino pedaço da Borgonha, plantado no meio da capital inglesa. O facto disto tudo acontecer é algo acidental mas assim que o espirito castiço britânico 'kicks in' não há maneira de evitar um estranho confronto cómico, que serve também de reflecção social e cultural ao que, mesmo à quase 60 anos, seria uma das cidades mais culturalmente diversificadas do mundo.

Transformando no 'estrangeiro' os próprios 'nativos', Passport to Pimlico não pode deixar de ser visto como simultaneamente uma das melhores lições de teimosia british que um estrangeiro possa ter, mesmo que já muito desactualizada e, simultaneamente, uma das obras que revela o fascínio educado (e talvez até tolerância) que esta urbe tem pelo 'outro', sempre expressando a sua essência brit sempre presente, mesmo no final onde, depois da 'rendição' ao 'governo britânico', e durante uma tropical onda de calor pouco natural nestas paragens, começa a chover assim que Pimlico está de volta à Inglaterra.

Sexta-feira, Outubro 12, 2007

They Are Back! (again)

genshiken2

Por entre ligeiras diferenças gráficas na caracterização das personagens, uma ainda maior cumplicidade pelo universo que retrata (já não apenas descrevendo os hábitos otaku, mas embrenhando-se neles) e tentando adensar a complexidade das personagens, estreia agora a segunda série de Genshiken, de forma a satisfazer o vício criado pela primeira série e pela complementar OVA. Passa-se agora para um tipo de narrativa muito mais dependente dos que já acompanharam as 'fases anteriores' pelo que as personagens do clube universitário mais conhecido no universo anime passaram.

Com alguma surpresa, Genshiken 2 evolui para uma narrativa onde a interacção das personagens começa a ficar realmente mais séria, minimizando um pouco a forma algo caricatural com que essa mesma interacção era representada na primeira série deste slice of live imperdível. Com algumas surpresas reservadas para o final (fala-se já na inclusão de duas personagens ocidentais, uma tendência cada vez mais visível na actual anime), Genshiken 2 vem agora re-afirmar que ainda existe muito para mostrar, de forma válida, sobre o universo otaku.

E mesmo com uma abordagem algo mais séria do que a primeira série, o que para alguns fans parece ser desconfortável, uma das séries mais essenciais da actual anime começa agora a afirmar-se muito mais um conto de coming of age de várias personalidades divididas entre os universos sentimentais que habitam e a cruel realidade do 'mundo real' parecem querer negar, algo de certa forma semelhante ao já sentido em Honey and Clover. Para quando a (talvez oportunista) adaptação em live action?

Viagem ao um Certo Mundo Interior

assombroso

Novamente a presença de Santiago Segura num serão de cinema, agora no papel do iludido Borjami, um betinho de Madrid que acompanhado pelo seu irmão Pacholo, se recusa a crescer, vivendo num constante loop entre as eternas discussões sobre roupa de marca (num combate entre o crocodilo da Lacoste e o cavalo da Ralph Lauren quem ganharia?) e as idas à discoteca sábado à noite, usando as farpelas normais de um adolescente no inicio dos anos 80 e as ilusões parvas de sexo fácil (que nunca aconteceu), numa Madrid onde os 'meninos bem' preferem agora outros dress codes e outras ilusões.

El Asombroso Mundo de Borjami y Pacholo (2004) é portanto, aparentemente, uma daquelas comédias do recente cinema espanhol onde Segura (que também é produtor) pode exercer o seu normal gross out, compondo uma daquelas personagens profundamente irritantes e politicamente incorrectas a que sempre habituou os fans, e que pessoalmente me geram um fascínio cómico por um dos actores mais bizarros no actual cinema ibérico. Mas sendo um daqueles filmes profundamente 'ibéricos', que retratam os anos 80 urbanos (e durante todo o filme é notado que entre os 'betinhos' da movida madrilena e aqueles que habitavam o equivalente a tal movida em Lisboa, as diferenças são mesmo muito pequenas), este filme não consegue muito mais do que irritar alguns desses especimens, agora na casa dos 30-e-qualquer-coisa, que poderão aqui ver alguns dos seus momentos adolescentes serem dissecados da forma mais desagradável possível por um Segura que nunca se conseguiu conter em disparatar. E como se isto não bastasse, a banda sonora é composta por alguns dos hinos musicais da época (Duncan Dhu, Los Secretos e claro os Mecano) que são aqui usados para caricaturizar ainda mais as personagens de Borjami e Pacholo (Javier Gutiérrez), tornando a coisa realmente desagradável para tais especimens analisados, e para o comic relief daqueles que preferiam os bares mais manhosos do Bairro Alto aos templos da betada na 24 Julho ou na linha de Cascais.

Mas sendo um 'Produto Segura', e tal como a série Torrente, este filme tem uma bipolaridade declarada, entre um produto cómico com alguma piada, como os diálogos sobre o que os protagonistas chamam de 'Mundo Interior', uma forma hilariante de debitar algumas das frases mais estúpidas que há memória no Cinema espanhol, espelhando o delírios de gente com um cérebro 'pouco cheio' e com limitadas transferências entre neurónios ocupados com a superficialidade de algumas formas 'sociais do ser', e o quase inexistente slapstick (onde Segura é mestre) que decerto tornaria este filme um magnífico veículo cómico, mas que por nunca acontecer em pleno, torna 'El Asombroso Mundo...' num filme algo chato e com pouco conteúdo.

Confesso também que, visto logo a seguir ao biopic (excelente, mas um downer) do Ian Curtis (falo claro de Control acabadinho de estrear por aqui, ver o post anterior), El Asombroso Mundo... perde claramente alguma da piada, não se conseguindo um estado de espírito concordante com esta desbunda. Mas mesmo nestas condições este documento dos 80s deixa mesmo muito a desejar em termos cómicos, servindo apenas como uma espécie de burlesca dissecação do que em parte foram os anos juvenis de uma década cheia de lixo pop e muita superficialidade pós-moderna.

Recomendado aos fans do recente Cinema cómico espanhol, dispensável aqueles que não têm qualquer interesse no que Santiago Segura tem andado a fazer.

Canção a Preto e Branco

Controlfilm
E pronto o já por aqui mencionado Control (2007) lá estreiou nas salas de cinema aqui da Ilha, com os já esperados elogios da crítica e uma certa indiferença do público. Um magnífico biopic de Curtis (e a melhor representação do front man dos Joy Division), o filme de Anton Corbijn (um dos maiores conhecedores da estética da banda) consegue trilhar o seu caminho pela cultolândia, apresentando um retrado quotidiano de uma mitológica personagem musical sem ceder aos costumeiros excessos dos rock biopics.

Com muito poucas falhas (alguma parecendo propositadas de forma a revelar uma essência de verdadeiro biopic) este downer consegue como nunca antes captar a vivência da Manchester dos 80s (ironicamente filmados a minutos aqui de casa, em Nottingham), com os seus pequenos e decadentes pubs locais (onde a banda é filmada a actuar, algo impensável em qualquer filme sobre rock) e os seus personagens a viverem do sistema de segurança social.

E num filme que debruça desta forma tão terrestre sobre o mito, existe (e isto poderá parecer algo contraditório) fica uma das visões mais esteticamente perfeitas sobre os Joy Division, dando-nos simultaneamente o real (incluindo um 'histórico' da já lenda), mas também de certa forma o mito, sem nunca trilhar o caminho da mitomania, realçando o trabalho magnífico de Sam Riley como Curtis como ponto alto de todo o filme.

Domingo, Outubro 07, 2007

Santiago Segura (novamente) ao Serão

diabestia

O Padre (Álex Angulo) procura na prateleira de Heavy Metal alguma mensagem satánica escondida que lhe possa levar à presença do Anticristo que nasce dentro de momentos em Madrid, enquanto o metálico José María (o fabuloso Segura) vai fazendo as suas recomendações sonoras, sempre tentando fazer claras distinções entre os vários sub-géneros, na obra prima de Alex de la Iglésia, El Dia de la Bestia (1995)

Santiago Segura ao Serão

actionmutante

Ezequiel (Santiago Segura) e Abraão (David Gil) anunciam com espanto que está uma mulher à porta da sua casa, no árido planeta Asturias, onde à mais de 15 anos não existe um ser humano do sexo feminino em Accion Mutante (1993), a fantástica premiere de Alex de la Iglésia, já um clássico do gross out ibérico.

Sexta-feira, Outubro 05, 2007

Perfeito Filme Inferpeito

crimeferpectoo


Sendo o único filme de Alex de Iglésia que nunca tinha visto até agora, tinha por Crimen Ferpecto (2004) um misto de antecipação que me fazia prever ser talvez esta a comédia negra perfeita deste realizador. Mas, mesmo conseguindo belissimos momentos de loucura cómica mórbida (a visão icónica de Mónica '20 cm' Cervera a cortar um corpo humano vestido com equipamento para a neve numa pose profissional, aprendida num antigo emprego num talho, é preciosamente hilariante), esta antecipação deu lugar a uma calma desilusão e veio afirmar a certeza de que El Dia de la Bestia é a obra máxima de Iglésia até à data.

Os fans deste realizador decerto que notaram já que Iglésia (e o seu escritor de eleição, o genial Jorge Guerricaechevarría) está sempre mais preocupado com o 'durante' do filme, gerando algumas das situações mais interessantes do cinema de comédia espanhol, tentando salientar o seu fascínio absoluto por imagens cinematográficas icónicas, do que propriamente tentar levar uma história até a um final descansado. De resto as mais recentes obras de Iglésia parecem mesmo querer apressadamente concluir a narrativa de forma a dar mais espaço ao que se vai passado no background e na mensagem cinematográfica (quase sempre a de que o misfit está de alguma forma certo).

Mesmo afirmando isto, é certo notar que este filme algo imperfeito (ou inferpeito bricando com a gaffe que julga o crime que se conta no filme e que a personagem de Guillermo Toledo julgou perfeito) é um verdadeiro produto 'Iglésia'. Existem aqui todos os normais elementos de comédia negra, apontamentos de 'mau gosto' hilariantes, personagens inimagináveis (a sequência de cenas de família de Lourdes, a personagem de Cervera, são imprescindíveis momentos para qualquer fan do realizador), as inúmeras referências ao 'Cinema de Culto' e claro a mensagem 'moral' sempre constante na obra do realizador desde a sua longa metragem de estreia, mostrando que entre o que é considerado normal e aquilo que é abjecto e anormal existe por vezes uma tenúe linha que por vezes se quebra para gerar momentos cómicos poucas vezes alcançados.

Poderá não ser o mais interessante filme de Iglésia, mas Crimen Ferpecto é um 'puro Iglésia' e por isso não poderá ser ignorado pelos fans do recente cinema espanhol.

Sterling Hayden ao Serão (1)

asphaltJ

Gus Minissi (James Whitmore) aconselha o rústico Dix Handley (Sterling Hayden) a tentar voltar ao cenário edílico que deixou no Kentucky natal, para onde este sabe que nunca poderá voltar (devido à Depressão) mas com que constantemente sonha. Uma das visões mais desesperadas da cidade no Film Noir, The Asphalt Jungle (1950) construida por John Huston é uma dos filmes mais fascínantes sobre a decadência em que todos os inadaptados que à selva de asfalto estão presos e a que apenas conseguem escapar através da lembrança.

Nesta obra prima do Noir cada personagem, na maior parte imigrantes ou descendentes de algumas das paragens que colonizaram a cidade americana, está sempre à espera que algum deslize do seu já marcado destino permita o encontro com a felicidade eterna, mesmo que através das acções ilegais do submundo da cidade.

Bette Davis ao Serão (1)

babyjane

Baby Jane Hudson (Bette Davis), numa existência já de si presa nos tempos idos, regride ao seus tempos de infância, quando era a menina prodígio que sustentava toda a família Hudson, numa das cenas mais intensas e decadentes que à memória no cinema dos anos 60, lembrada mais tarde na figura da fada do radiador de Lynch.

What Ever Happened to Baby Jane? (1962), com prestações de duas das maiores rivais de sempre no estrelato de Hollywood (a 'sádica' Davis e uma das maiores masoquistas de sempre, Joan Crawford) entrega uma das viagens mais brutais ao às patologias inerentes universo das estrelas esquecidas, algo que Wilder entregou de forma intensamente perfeita em Sunset Blv, e que aqui Robert Aldrich leva até ao extremo do insuportável.

Com interpretações a oscilar entre o magnífico e o decadente exploitation (com que Aldrich nos 'deleita' de forma por vezes gratuita), What Ever Happened to Baby Jane? antecede o cinema de choque que tomou conta do mainstream americano dos anos 70 e que culmina com os video nasties no início dos 80s.

Ana Torrent e Fele Martinez ao Serão

tesis

Chema (Fele Martinez ) eufórico de curiosidade mórbida tenta saber o que estará na videotape que causou a morte do director de tese de Ángela (Ana Torrent), tentando confirmar o que Alejandro Amenábar nos confirma em Tesis (1996): existem visões em filme que podem matar (literalmente).

Os (poucos) sortudos que se deram ao trabalho que ir ouvir Amenábar apresentar este resultado da tese de final de curso na Cinemateca Portuguesa em 1997 (ou terá sido finais de 1996?), e aqueles que foram descobrindo esta obra mais tarde (devido à notoriedade que o realizador ganhou com The Others) sabem que este será um dos melhores inicios de carreira de sempre no cinema latino. Cada vez mais actual devido a um cada vez maior fascínio do cinema comercial pelo horrendo fenómeno snuff, Tesis é uma obra cada vez mais essencial para entender por que é que o actual 'cinema de choque' não consegue ter qualquer interesse.

Grandes Espaços de Pequenas Felicidades

greathappspace

Mais uma viagem pela complexa psyche japonesa num documentário que tem tanto de estranhamente interessante como que psicologicamente repelente. O mundo dos hustlers de Osaka que populam o bar de alterne de Issei, o mais bem sucedido 'empresario' de hosts masculinos de Osaka, é feito de ilusões de riqueza rápida, problemas de figado (é revelado que chegam-se cada um dos alterneiros poderá ter que beber mais de 10 garrafas de champanhe por noite) e promessa que dar romance instantaneo às numerosas clientes que gastam em 2 horas o que possivelmente um trabalhador médio nipónico ganha em 2 semanas de trabalho.

The Great Happiness Space (2006) de Jake Clennell é um estranho (por vezes chocante) e comovente documento que segue estes trabalhadores da noite que têm como clientes jovens adultas que, quer através de riquesa pessoal e profissões bem pagas, quer através da prostituição numa das cidades mais ricas do Japão, procuram o seu grandes espaços de felicidade, mesmo que estes se revelem estranhamente pequenos e apenas existentes enquanto o cartão de crédito conseguir aguentar, mas que mesmo assim as faz sentimentalmente preenchidas por algumas horas.

Embora mencionado, o sexo aqui não é de forma alguma importante, e na maior parte das vezes evitado, o objectivo é o de conseguir sentir algumas das emoções humanas que são recalcadas e não usadas, num espaço urbano onde embora cheio fisicamente, a comunicação humana é feita sobretudo através do digital, deixando pouco espaço para comunicação puramente humana.

Tal como Tokyo Noise já por aqui mencionado, este documentario trás à visão uma realidade algo escondida para aqueles que ainda vêem o Japão como apenas um destino exótico de férias.