Terça-feira, Agosto 21, 2007

Patrão Herói

mybossmyhero

Não consigo imaginar o que seria do actual dorama de comédia sem a presença de Nagase Tomoya. Uma das estrelas mais populares deste género actualmente, Tomoya começou a ganhar um estatuto de super-estrela como um 'mais-estúpido-que-uma-porta' yakuza que se quer tornar um mestre de Rakugo Yamazaki 'Toravolta' Kotora em Tiger & Dragon. E no ano passado com (outra vez) uma personagem de 'mais-estúpido-que-uma-porta' yakuza que tem que fazer o liceu para conseguir tornar-se o próximo lider do gang, o actor conseguiu tornar-se uma das referências máximas da nova geração destas telenovelas curtas made in Japan.

Tomoya tornou My Boss My Hero num sucesso nacional, com a sua personagem Sakaki "Tornado" Makio a tornar-se uma 'referência de rua' no Japão e claro que os aficionados do dorama overseas acompanharam esta tendência, tendo sido ainda à pouco tempo votada como a série mais cómica de sempre pela comunidade em redor do influente D-Addicts.

A história não poderia ser mais disparatada: um destemido mas profundamente estúpido Yakuza, um dos candidatos a herdar o 'negócio' é obrigado a escolher entre ir estudar para ter a escolaridade mínima ou perder a liderança ao título. Com a ajuda dos 'empregados' mais próximos do gang (entre os quais se encontra o irritante Tanaka Koki), "Tornado" Makio torna-se do dia para a noite um aparentemente normal adolescente (embora tenha 27 anos!) que vai aprender a ser um adolescente no actual Japão, sendo revelado a uma forma de vida completamente oposta ao sub-mundo da delinquência.

Mesmo com os já normais momentos pirosos que marcam quase todos doramas passados em liceus, My boss, My Hero consegue-se no entanto evidenciar-se como uma das mais inventivas séries mainstream actuais, com momentos brilhantes de slapstick adolescente, mostrando a adaptação (por vezes penosa) a um estranho espécime humano ao que de mais simples e quotidiano existe na adolescência japonesa.

Piece by Piece

dororo


É sempre interessante ver o que acontece com a espantosa herança que Osamu Tezuka deixou ao mundo dos comics quando alguém tenta adaptar as suas histórias para o pequeno ou grande ecrã.

A mais recente adaptação de uma obra do mestre, Dororo (2007), um inventivo conto de um guerreiro lutando de forma sobre-humana para ter de volta (piece by piece), as 48 partes do seu corpo (verdadeiro) oferecidas a 48 demónios, é claramente mais uma pastiche de acção, cheio de efeitos especiais e tantas 'adaptações' ao género que por vezes pouco sobra do original de Tezuka.

Mas esta produção da 'clássica' Toho não pretende de forma alguma ser uma pretenciosa adaptação artística do original Manga , mas sim apenas mais um produto de entretenimento que reúne comédia, acção e terror. Com uma fotografia cuidada e uma produção pensada Dororo consegue (sabe-se lá como) misturar de forma esquizofrenica CGI bem conseguido, comic relief surreal, alguns elementos mais macabros (como a bem conseguida sequência da história do estranho ser humano severamente amputado, Hyakkimaru, que é reconstituido por um mestre alquimista, tanto estranha como humanamente rica), actores vestidos com pouco convincentes fatos de borracha em cenas de acção que têm tanto de excelente coreografia como de hilariante ridículo e, claro, um final épico mas que fica em aberto, já que as duas sequelas deste filme estão já a ser colocadas no calendário para os próximos dois anos.

A equipa técnica e casting deixam também chegar à conclusão que este é um daqueles pastiches que usa vários géneros para criar um produto de acção de contornos épicos, mas sem perder o pé ao tentar agradar a um público generalizado. A presença do coreografo Ching Siu-tung (os fans de épicos de acção recentes de Hong Kong decerto reconhecerão o nome) e dos actores Satoshi Tsumabuki (que os fans da série Tomie reconhecerão) e Kou 'Battle Royale' Shibasaki (também no melodrama Crying Out Love, in the Center of the World), já para não falar na presença algo breve do excelente Shun Oguri (Azumi, Gokusen, Yoshitsune...) dão uma ajuda a fazer desta descontrolada realização de Akihiko Shiota um 'novo clássico' do cinema fantástico japonês de contornos comerciais. E claro que embrulhando tudo isto em sequências narrativas completamente disparatas e uma banda sonora descaindo entre entre o clássico e o western spaghetti dão a este produto algumas das sequências de acção mais hilariantes que há memória nos anos recentes.

Quase um sumário de décadas de cinema de acção de contornos pouco sérios que constitui a galáxia de cinema fantástico trash japonês, este filme é um encanto para os aficionados do género. Poderá ser evitável para aqueles que procuram algo mais sério, mas para os fans do cinema fantástico trash este poderá ser um equivalente à lendária e absolutamente imperdível triologia de Tsui Ark Chinese Ghost Story, conseguindo por vezes atingir o mesmo género de entertenimento que esta obra-prima do cinema fantástico de Hong Kong.

A Desbunda no Desespero

Zetsubou-Sensei


A produtora SHAFT volta ao 'lugar do crime' de Pani Poni Dash! para trazer aos fans do humor absurdo no Anime uma das séries mais desbundantes do ano.

Os objectivos de Sayonara Zetsubou Sensei (qualquer coisa como Adeus Sr. Desespero) são idênticos aos da tão anterior celebrada (e algo mal recebida pelos fans mais 'conservadores' da recente animação japonesa) PPD!: uma aparentemente normal high school é o ponto de encontro de bizarras personagens, como a conselheira psicológica com um natural pendor para a filosofia nietzschiana, um grupo de estudantes esquizofrénicas que dividem várias patólogias psicológicas graves (umas representantes do que de mais anti-social poderá ser imaginado, uma neet, uma stalker, uma estupidamente optimista que quer ser deus como objectivo de vida e fetisches vários para compôr situações realmente hilariantemente estranhas).

Com se não bastasse, juntam-se a esta turma uma imigrante ilegal que comprou um nome masculino a um estudante agarrado (e que se torna rapidamente a mascote) e uma exchange student com múltiplas personalidades que apenas serve para uns planos panty shots. A unir um dos grupos de personagens angustiantes está um recente contratado professor que não perde a oportunidade para tentar o suicídio, mesmo que em frente aos alunos em plena aula.

Ao assistir-se aos primeiros episódios nota-se logo a clara (e despreocupada) crítica social feita neste anime, com o Sr. Desespero a servir como um ponto conservador (até ao ponto do sucídio) que se vê envolto na peculiar esquizofrenia social que se tornou o actual Nipão. Mas claro que sendo esta uma das séries produzidas e realizadas pela mesma equipa que materializou um dos universos mais estranhos da actual anime de comédia (falo claro do já citado PPD!), isto não é para levar muito a sério, sendo muita mais um veículo da desbunda gráfica e cómica que essa mesma série celebrou, com momentos dignos de figurarem em qualquer catálogo do novo Surrealismo japonês.

Mais do que uma série que tente manter alguma coerência narrativa ou algo parecido, Sayonara Zetsubou Sensei é mais uma daqueles exaltantes séries que serve muito mais para largar a confusão que vai nas cabeças da rapaziada da SHAFT, do que para ser um produto comercial. E claro, como já é habitual, as novas ideias gráficas que a equipa desta produtora atiram para o meio dos episódios é exuberantemente refrescante.

Uma daquelas séries a não perder para aqueles que gostam de comédia surreal no actual anime e sobretudo aqueles já habituados ao universo bizarro da SHAFT.

Kim Novak ao Serão

kimnovak

Judy Barton (Kim Novak) resolve ocultar a sua anterior 'incarnação' como Madeleine Elster de forma a poder reviver o seu amor por 'Scottie' Ferguson (James Stewart), numa das cenas que Hitch desejou não estar incluida na versão final de Vertigo (1958), mas que foi incluida devido à pressão dos produtores da Universal.

Domingo, Agosto 19, 2007

Criss Cross

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O psicopata Bruno Anthony (Robert Walker) cumpre a sua parte do criss cross 'combinado' com Guy Haines (Farley Granger) em Strangers on a Train (Alfred Hitchcock, 1951).

Quinta-feira, Agosto 16, 2007

Just Like Honey (3)

honeyclover

Para os fans de Honey and Clover mais do mesmo só pode ser bem vindo e quando se começou a falar de uma adaptação (logo a seguir ao final da primeira série) para cinema a notícia provocou a loucura nos já inúmeros fans da série de anime. Mas agora visto, o produto final sabe claramente a pouco, algo que de resto (inconscientemente) se estava à espera desta estreia na realização de Masahiro Takada.

Hachimitsu to Clover consegue ter um lado absolutamente captivante para os fans, com uma magnífica caracterização das personagens, sem enveredar pelas pouco plausíveis características físicas das personagens do manga e da subsequente série de anime (características essas que de resto eram por si mesmas quase simbólicas), reunindo um cast bastante eficiente (encabeçado por Yû Aoi, uma recente estrela dos dorama que já provou ser uma das melhores actrizes de TV da mais recente geração de dorama).

Mas as qualidades contemplativas da história, que necessitam de tempo para amadurecer, quer a história quer as personagens, é muito difícil de captura num mero filme de 2 horas de duração. E isso é evidente quando as personagens perdem o seu lado mais profundo, limitando-se a 'correr' pelas acções da narrativa sem conseguirem captura muita do interesse que a história inicial continha, resumindo-se a maior parte das acções mais simbólicas em artifícios narrativos.

Isto não quer dizer de forma alguma que Hachimitsu to Clover é um filme a dispensar. A forma como Takada tenta 'emendar' a falta de tempo parece bastante inteligente, percebendo-se que aqui não existem grandes ambições (e por vezes isso nota-se no certo tom 'piroso' de algumas composições visuais) e a banda sonora da veterana Yoko Kanno poucas vezes evidência essas limitações, algo que poderia também ser ainda mais evitado se não se tivesse incluido umas pirosas canções emo cantadas em inglês de um (aparentemente desconhecido) James Wendt.

Decerto que este é um filme simultaneamente a não perder pelos fans da(s) série(s), que é pouco mais do um recap dos episódios da season 1, mas também é claramente uma excelente introdução para aqueles que ainda não conhecem este bastião do slice of life melancólico da actual anime.

Otaxploitation (5)

tokyotanaka

O primeiro lead role de Tanaka Koki, tornado (mediamente) célebre no monumental My Boss My Hero (a merecer um post atrasado dentro em breve), é um dos mais irritantes doramas japoneses que deu à costa ultimamente, a avaliar pelos primeiros 3 episódios. Claramente a ganhar algum culto devido à presença da 'sinistra' beldade de Kill Bill/Battle Royale/Azumi 2, Kuriyama Chiaki e às centrais referências à 'otakudom' (neste caso a maníacos por combóios) o dorama Tokkyu Tanaka San Go não conseguiu ganhar aceitação pessoal, mesmo com a presença de Tsukamoto 'Kisarazu Cat's Eye' Takashi a dar uma engraçada côr à série, e sobretudo alguns dos nomes que produziram e realizaram Kisarazu Cat's Eye e Tiger and Dragon, dois dorama de eleição cá por casa.

O facto é que a linha narrativa da série é apelativa até ao ridículo: um convencido e estúpido adolescente com megalomania infundada nas suas qualidades, que forçou dois otakus a serem seus amigos (porque mais ninguém no seu perfeito juizo o faria), fica fixado na personagem de Chiaki depois de ver um panty shot da mesma (claramente um bónus para os fans da actriz ou da sua body double). Mas a forma como Koki representa a sua personagem até ao nível da perfeição é espantosamente repelente, deixando os espectadores exactamente com o mesmo sentimento que os restantes personagens que se vão relacionando com a personagem principal, o do profundo e desesperante desprezo.

Claramente apenas aconselhada aqueles que costumam seguir qualquer coisa relacionada com o universo otaku que se mexa (e aqui existem alguns pormenores interessantes) e sobretudo com a malvada Kuriyama, Tokkyu Tanaka San Go é uma série com pouco interesse para o restante público, ficando a sensação que com outro character design dos personagens, um tratamento narrativo mais cuidado e sobretudo sem a presença de Tanaka Koki, esta poderia tornar-se um dos melhores dorama do ano e quem sabe um sucessor em termos de visibilidade do já icon na cultura popular japonsesa Densha Otoko.

Mas dizendo isto com consideração pela verdade, a esperança é a última coisa a morrer nestas coisas e continuaremos (a tentar) ver até que estação este combóio continuará a avançar e a perseverança é uma qualidade interessante.

30 Anos Depois...

elvis-stitches
... O Homem ainda continua ser Rei

Jayne Mansfield ao Serão

jaynemansfield

Jerri Jordan (a inimitável Jayne Mansfield) guincha a sua magra prestação no microfone do estúdio de gravação durante a gravação do single que a levará ao estrelato na constelação do Rock and Roll, em The Girl Can't Help It (Frank Tashlin, 1956), um dos maiores rock'n'roll films de sempre.

O Divórcio Europeu

caimano
O mais recente filme de Nanni Moretti passou bastante despercebido aqui pelo RU, perdendo o momento político quente da queda de Silvio Berlusconi, devido a uma premiere com um ano de atraso. Talvez por isso a crítica tenha minimizado Il Caimano (2006) na sua sarcástica e negra parábula de um casamento desmoronado que representa uma Itália adormecida numa depressão onde a propaganda faz a felicidade do eleitor.

Mas o que parece não ter sido notado pela crítica britânica, muitas vezes preguiçosa em relação ao cinema não-americano, é a destructuração social que Moretti nos apresenta de forma extremamente deprimida (e deprimente) e que serve de exemplo a praticamente toda as sociedades europeias (incluindo esta auto-excluída ilha). Aqui o divórcio de Bruno (um produtor cinematográfico em rápida queda) e Paola (a sua musa e mãe dos seus filhos) é de facto o retrato da actual Europa, cansada, deprimida, tentando agarrar o que resta da glória da união democrática que foi a CE, agora que se encontra esgotada de ideais políticos e sem respostas para uma população adormecida pela propaganda e o consumo.

Claro está que esta não é a obra-prima de Moretti e que este retrato da recente Itália peca pela sua fragmentação narrativa, muito dividida entre a vida pessoal do casal Bonomo e a produção do Caimano, um filme biografia de Berlusconi que claramente é vetado de ser feito por tudo o que é poder instituido. E se nos minutos finais o filme retoma com claridade o propósito crítico (quando Moretti representa a sua própria pessoa no papel do bizarro político, depois da desistência de Michele 'O Polvo' Placido, para interpretar Cristovão Colombo, num filme que claramente invoca o passado para não olhar o presente, uma marca normal em regímes totalitários), o facto é que a forma extrema com que Moretti tenta marcar o seu ponto de vista se torna impotente perante o quase desespero que o filme toma, marcando o final talvez um dos momentos mais tristes e sem esperança (e com uma precisão real assustadora) da obra deste realizador, que se habituou a trazer nos seus filmes as marcas positivas dos seus ideais.

Sábado, Agosto 11, 2007

Fantasmagória

mononoke

Mais do que uma natural tendência da actual animação japonesa, a forma como todos os anos uma série invulgar dá à costa mostra que existe público receptívo para inteligente a novas formas de narrativa em animação e que existem criadores que olham para fora dos moldes do que 'tradicionalmente' se faz na produção de um dos países mais influentes (no que toca a presença gráfica) do mundo.

A forma como Mononoke assenta o seu estilo, simultaneamente nas transgressões gráficas do periodo Edo e no simbolismo Art Nouveau e na decadência simbolista, torna-se uma experiência gráfica estimulante, conseguindo a série renovar as já clássicas histórias de fantasmas (com uma milenar tradição no extremo oriente) de uma forma expressionista e simbólica, como poucas vezes foram mostradas nos últimos anos.

Depois de Kemono Zume no ano passado ter cativado audiências nas franjas do público habitual, chega agora a vez de Mononoke renovar o voto na surpreendente inovação na actual anime, criando em formas espantosas de criação visual novas formas narrativas, mesmo quando renovam o espírito Edo, um dos mais marcantes períodos artísticos nipónicos, que ainda hoje encontram ecos profundos em muita da cultura pop do Japão. A não perder.

Precisamos de Mais Contos Pós-Modernos?

sakuranposter

Não bastavam já as memórias de geisha, as visões de Marias Antonietas ao som dos Bow Wow Wow e mais outros mimos pós-modernos do actual cinema bubble gum, para aparecer ainda mais um vazio conto exótico, que tem tanto de visualmente deslumbrante como de significantemente vazio.

Mika Ninagawa (uma das mais conhecidas fotógrafas japonesas da actualidade) arrisca a sua estreia na realização com uma adaptação do manga de Moyoco Anno e traz à vida no corpo e (poucos) dotes de representação de Anna Tsuchiya a história da oiran Kiyoha. Sakuran é, dá logo para perceber, um daqueles produtos feitos apenas para agradar aqueles que gostem da forma a favor da substância, com uma menina Tsuchiya a passear pela tela com um magnífico guarda roupa (e a praguejar como uma rameira, algo que, lembre-se, nem mesmo uma oiran nunca faria) à falta de alguma substância que não seja a de um gigante videoclip a tentar promover alguma forma de product placement.

Com Anna Tsuchiya agora em alta devido à sua personificação da (já impossível de aturar) rocker Nana, este é um daqueles produtos (boa escolha de palavra) para os fans desse valente império de merchandising que se tornou essa série/filmes/CDs/etc e da pouco talentosa actriz/cantora/modelo/ celebridade que apenas conseguiu acertar no papel no divertido e recomendado Kamikaze Girls... os outros podem evitar ver isto, ou então tentar esquecer que um bordel do periodo Edo não é a mesma coisa que um bordel na Buenos Aires do início do Século XX, e (tentar) deleitar-se com uma overdose visual sem sentido, preferencialmente com o som no mínimo para evitar uma das bandas sonoras mais insuportáveis que há memória no cinema comercial japonês dos último tempos.

Primus Inter Pares

tonywilson

Anthony Howard Wilson - 20 Fevereiro 1950 – 10 Agosto 2007)

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*five ways that Wilson changed the music industry (BBC)

*Obituário e guest Book do Manchester Evening News

Tippi Hendren ao Serão

tippi

Melanie Daniels (Tippi Hedren), fuma mais um cigarro enquanto o bando de pássaros se junta para mais um ataque, algo que Slavoj Žižek justifica em The Pervert's Guide To Cinema como erupções de ciúmes maternais de Mrs. Brenner (The Birds Alfred Hitchcock, 1963).

All you need for a movie is a gun and a girl

lastlife in the universe

A frase no título, atribuida a Godard e repescada por Pacze Moj num post sobre Ruang Rak Noi Nid Mahasan (conhecido internacionalmente como Last Life in the Universe) revela a forma como este espantoso filme de 2003 consegue de forma tão completa mostrar uma simples mas ambígua e bilateral relação entre dois quase-estranhos , usando como 'desculpa' uma qualquer narrativa, retomando com mestria o mesmo espírito do mestre Godard nos idos 60s.

Muitas comparações com Lost in Translation foram feitas (e aqui vou repetir a mesma ideia do post ja citado), mas pouca justiça é feita numa tão perguiçosa comparação, sendo esta obra de Pen-Ek Ratanaruang um muito mais rigoroso exercítio sentimental (poderiamos dizer até poético) sobre o existencialismo humano, onde as duas personagens (um japonês e uma tailandesa a viverem na Tailandia) não falam uma linguagem comum e onde as poucas palavras trocadas entre os dois possuem camadas de significados que nunca a menina Coppola conseguiria filmar.

Um daqueles filmes de 'ambiente' que rapidamente ganhou culto devido ao seu ambiente poético entre o caos existencial e os detritos de Bangkok, que a presença de Tadanobu Asano (um dos actores asiaticos mais reconhecíveis nos dias que correm, devido a hits como Rampo Noir, The Taste of Tea ou Ichi the Killer) e um cameo de Takashi Miike ajudaram a consolidar, Last Life in the Universe é um dos mais elementares e essenciais filmes do extremo asiático dos últimos anos, que ajuda a entender o que de realmente relevante existe nas filmografias dos países desta zona, para além dos escolhos visuais e sem conteúdo que tem vindo a dar à costa na 'nossa zona'. Imperdível.

Terça-feira, Agosto 07, 2007

Barbara Stanwyck ao Serão

barbara

Phyllis Dietrichson (Barbara Stanwyck) bebe um copo pré-coito, antes de convencer o vendedor de seguros Walter Neff (Fred MacMurray) de que o crime perfeito poderá um dia ser possível (Double Indemnity, Billy Wilder 1944).

Sábado, Agosto 04, 2007

Son of Man

manson


Meet ONE MAN'S FAMILY REVEALED FOR THE FIRST TIME outside the courtroom - the staggering details of the most hideously bizarre murders in the annals of crime SURPRESSED UNTIL NOW and NOT PERMITTED on TV, Radio or Family Newspapers!

É provavelmente um lugar comum dizer que Charles Manson e a sua 'familia' acabaram com todas aspirações que os anos 60 tinham em mudar o mundo, que culminaram com um dos julgamentos mais mediáticos até aos anos 80. Não quero com isso dizer que todas as mudanças feitas durantes esses anos atribulados e idealistas foram arrasadas por um bando refugiado no death valley, mas de facto os massacres que a familia Manson fecham de facto aquilo que ainda hoje conhecemos como o movimento hippie.

Manson, por si só, sendo ainda hoje um dos mais reconhecidos icones pop do pós II guerra (e que, talvez de forma exagerada, podia ser um dos rostos mais conhecidos do século passado se tivesse tido acesso à parafernália mediática que o Rei Elvis teve), daria 'pano para muitas mangas' no que respeita à sua influência na cultura popular, que decerto poderiam encher vários blogs de cultura pop. E é claro que uma personagem como esta deu (e decerto continuará a dar) motivo para inúmeros documentários, filmes e sabe-se lá mais quê, que aproveitaram a figura de Manson para encheram de gordura as mãos do mainstream na sua refeição recheada de pormenores mórbidos e sórdidos deste bando de alucinados.

O primeiro documentário que inaugurou esta parada de horrores exploitativos (antecedido pelo ficcionado exploitation The Manson Massacre) foi Manson (1973), um documento jornalístico recheado daquele sentido mórbido vibrante que faz as delícias dos espectadores televisivos, sempre com um desespero soberbo em ver na desgraça dos outros entertenimento mediático.

Passados 33 anos este documentário está já datado e é facilmente notada as suas tendências mediáticas ao mostrar os membros da familia num registo alucinado e paranoíde, retratando estes de forma parcial e dando (pois claro) uma importância desmesurada aos pormenores do caso (na altura em que este documentário foi realizado o caso estava ainda em pleno julgamento) e a atenção a Vincent Bugliosi, o delegado de acusação que nunca escondeu a sua sede por fama, mais preocupado em (de forma encenada) revelar o seu papel na acusação de Manson do que explicar os aparentes erros da acusação.

Mas o que mais interesse gera neste documentário é a maneira de como, mesmo com uma visão populista do caso, algumas citações dos acusados (sobretudo de Mary Brunner, Linda Kasabian e Susan Atkins) conseguem revelar, no meio de tanta bizarria, algum sentido, mostrando que A Familia Manson não passa de um resultado prático da sociedade americana, e que mesmo alguns membros desta sociedade vêem em Manson um 'herói Hippie', como um rápido inquérito de rua mostrado no filme (mais tarde repescado por Stone no seu Natural Born Killers) revela.

Mesmo sendo tão manipulativo e gratuito, este documentário é uma peça fundamental de iconografia pop underground. Poderá não ser do agrado de todos, mas existem momentos aqui que nunca mais foram mostrados de forma tão esclarecedora (talvez por ainda estarem 'quentes') nos inúmeros documentários posteriores.

Lembrar Jonestown

jimJonesDoc

Via Gpod

On November 17, 1978, Congressman Leo Ryan traveled to an isolated rain forest in Guyana to investigate the concerns of his San Francisco-area constituents. Their alarming stories focused on a jungle compound known as Jonestown, a group called the Peoples Temple, and its leader, Rev. Jim Jones. According to news filtering back to America, U.S. citizens were being held against their will in prison camp conditions. There were allegations of physical and sexual abuse and even rumors of a planned mass suicide.

Congressman Ryan, an impassioned human rights advocate, decided to get the facts for himself. Within forty-eight hours, Ryan, Jones, and over 900 Jonestown settlers were dead -- casualties of the largest mass murder-suicide in history. In the next few days, horrifying details of cyanide-laced soft drinks and disturbing images of children poisoned by their parents emerged from the jungle.


Sendo um dos momentos mais terríveis de sempre na história das seitas religiosas americanas, o massacre de Jonestown teve pouca exposição durante mais de duas décadas. Depois de toda a poeira ter acentado e dos inúmeros sensacionalistas especiais jornalisticos feitos nos dois anos seguintes a esta brutal tragédia, o caso parece ter sido algo esquecido, mesmo quando acontecimentos algo semelhantes (basta lembrar os Davidianos) reacenderam o debate sobre o poder emocional e mental que este tipo de seitas tem sobre os seus membros, num país onde o número de pequenos grupos e facções religiosas (sobretudo de raiz cristã) é elevado.

Um recente documentário, Jonestown: The Life and Death of Peoples Temple (2006) tenta trazer de volta a memória das vitimas na chamada Jonestown, um compound na Guiana construido pelo Peoples Temple liderado pelo megalomano e carísmatico Reverendo Jim Jones.

Tentando sempre que possível manter uma certa contenção face aos acontecimentos, este aborvente de chocante documentário recolhe testemunhos por vezes emocionados dos poucos sobreviventes do massacre e de familiares das vítimas e outros protagonistas directos deste acontecimentos, traçando um retrato histórico e psicológico de o fundador da primeira Igreja 'mista' dos EUA (no início dos anos 60, ainda longe da chamada 'integração racial' americana), e que até tarde na história deste movimento religioso foi considerado um dos cidadãos mais notáveis da California.

Os realizadores Stanley Nelson, Marcia Smith e Noland Walker expõem neste pujante documentário os inovadores métodos desta seita, actualmente muito imitados por inúmeras seitas de cariz mais 'popular', dando um retrato aparentemente apurado e independente, emocional mas racional, do homem que originou o maior massacre de sempre alguma vez ligados a uma seita religiosa do século XX.

E Se...

If


What a sorry, retrograde, inward-looking, cliche-driven sense of nationhood is laid before us by their choices, many of them long since staled and drained of their power by four decades of reruns. All our national distempers and cultural fevers, circa 1954, are represented here: the self-deluding postwar victory complex and nostalgia for the great good fight (The Dambusters, Henry V); the post-imperial compensation fantasy (Goldfinger); the chinless emotional constipation of the English (Brief Encounter); our lovable and harmless eccentrics, gawd bless 'em (Withnail And I, Billy Liar). And one perfect, long-lost, almost unnervingly British masterpiece in The Wicker Man. Lists like this explain why foreigners make better British movies than the British themselves.
John Patterson , in The Guardian 04.08.07


Consigo entender a frustação de John Patterson neste artigo sobre o ciclo Summer Of British Film que a BBC e o British Film Council estão a promover, de forma a 'matar' alguma da vergonha que o actual cinema britânico tem em se assumir simultaneamente nas salas nacionais e nos festivais internacionais. De resto se não fosse este um dos verões mais boçais, estúpidos e retrógrados (no que respeita a blockbusters nas salas de cinema britânicas, entenda-se), este ciclo de pouco serviria para divulgar o cinema caseiro, tal é a selecção de 'preciosidade' já vistas, revistas, conhecidas de cor e até (por vezes) ampliada na sua verdadeira importância que compõem a maioria desta lista de 'luxo'.

Claro que uma análise mais demorada à lista (que daria um longo e pouco simpático post, que pessoalmente evito), evidenciaria também ela um certo pudor em mostrar obras mais escondidas, refugiando essa vergonha em 'valores seguros' mas já muitas vezes vistos (e que serão de pouco agrado, infelizmente, para o público mais novo), acrescentando outros que parecem ter sido incluidos como uma espécie de 'bater no peito' a mostrar um orgulho nacional, mostrando que as várias tendências cinematográficas das décadas de 50 e 60 (quer sejam elas o social realismo ou certas formas de comédia) também tiveram o seu equivalente brit, mesmo quando existe muito pouca ousadia (muito pouca mesmo) numa selecção tão contida e onde os clássicos de pleno direito tapam a ausência de cinema mais artisticamente independente.

Mas voltando ao assunto deste post, um dos grandes esquecidos, e prontamente indicado por John Patterson no seu artigo, é sem dúvida 'If....', um dos (poucos) documentos cinematográficos dos anos 60 britânicos que consegue traduzir uma visão aberta sobre o cinema que se fazia nos finais dos anos 60, antagonizando com um certo 'Novo Cinema' britânico que parecia mais empenhado em criar uma nouvelle vague ou realismo italiano em casa.

(spoilers)

Não quero com isto dizer que 'If....' não tenha também ele os seus 'tiques de época', mas a forma como Lindsay Anderson (um realizador inesplicavelmente esquecido no RU) constroi o seu conto de angústia adolescente nas bording schools britânicas, onde a ambiguidade sexual, a consumação dos moldes sociais através da disciplina e sobretudo a perversidade (a vários níveis) dos 'superiores' em relação aos 'inferiores' (sejam quais forem as relações entre os dois grupos, de idade, de classe...) geraram uma explosiva mistura de iconografia adolescente, busca de liberdade através da rebeldia ou consumada auto-destruição (talvez mais simbólica que real) no final do filme.

A presença de Malcolm McDowell neste filme como o 'rebelde principal' da escola, quase que parece explicar os actos da personagem por que este actor mais é lembrado na cultura pop (refiro-me claro de Alex de Large em A Clockwork Orange), e a personagem simbólica da 'rapariga' (Christine Noonan, uma mistura de musa não-real e de 'guerrilheira do real', na cena final a lembrar Patty Hearst) tornam este filme um dos maiores clássicos do cinema de 'adolescentes', com as suas ambíguidades que misturam melancolia poética e 'maldade' real, realidade social e ícones românticos sempre num clima de suposição (como de resto o título transmite), numa vontade gritante de reconhecimento, muito antes dos clássicos do género se terem consumado por volta dos 80s e ainda muito longe dos massacres em cenários escolares (muito reais) de Colombine e afins.

(fim dos spoilers)

... E se .... mesmo sem o merecido reconhecimento neste ciclo de verão, 'If....' merece rapidamente uma visão ou revisão. Numa época em que os icones juvenis se criam a um ritmo frenético, de forma a se tornarem uma ferramenta lucrativa de lucro através do entertenimento para milhões de teenagers adormecidos numa cultura construida para fazer as mais efectivas lavagens cerebrais, este pequeno exercicio de rebeldia, politicamente incorrecto e sempre desafiando o cinema establecido urge ser rapidamente descoberto, de forma a lembrar o que realmente ser adolescente significa.

A Tempestade em Altair IV

forbidden planet

Mesmo passados 51 anos da sua estreia, Forbidden Planet continua ainda a deixar espantados muitos dos fans de sci-fi. De resto a efeméride passou-me despercebida no ano passado, mas não quis deixar de rever esta semana, no esplendor de uma cópia restaurada, todo o esplendor deste marco do sci-fi em cinemascope.

A forma primorosa como a Warner produziu o mais fabuloso e completo sci-fi da década dando ênfase simultaneamente aos efeitos especiais e 'maquinaria' de aspecto inovador (e credível), aos inpecáveis exteriores do planeta Altair IV (onde se passa toda a acção do filme) e os interiores da casa onde o Dr. Edward Morbius, a sua filha Altaira e o robot Robbie parecem jogar um estranho jogo de ilusões deixam-me ainda hoje com a sensação que todos os objectos e props neste filme foram, de alguma forma, importantes em algum ponto para o design da segunda metade do século XX.

E como se tal não bastasse, a forma arriscada (comercialmente) como uma das mais percursoras bandas sonoras dos anos 50 foi incluida (as chamadas Electronic Tonalities que o casal Barrons, esquecidos percursores da música electrónica, criaram) e a utilização de animação para alguns efeitos especiais ( a cargo de Joshua Meador da Disney) é realmente espantosa, criando de forma pioneira alguns dos lugares comuns do sci-fi que ainda hoje povoam a cultura pop.

Outra espantosa adicção ao cinema de ficção científica que FP trouxe foi a criação, ainda longe da complexidade do espantoso universo Star Trek e ainda mais do pastiche Star Wars, de um universo próprio usando as referências clássicas da Tempestade de Shakespeare (com um Dr. Edward Morbius a fazer o papel de Prospero, transportado para o planeta o seu exílio em Altair IV numa nave chamada Bellerophon), algo que embora muito frequente na literatura do género, poucas (ou nenhuma) vez(es) tinha sido tentado com sucesso, e que apenas com Star Trek e com o Cyber Punk dos 80s se consolidou.

Mesmo alguma sloppiness no cast (aqui o filme peca por alguma preguiça, talvez a mesma representada por Leslie Nielsen, que se arrasta pelo set como se estivesse a representar uma personagem algures num barbecue numa qualquer suburbia americana, o que de resto não deixa de ser interessante), não estraga esta obra prima do kitsch tecnológico, sendo recomendado num verão onde a imaginação cinematográfica bateu no seu ponto mais baixo e quando o sci-fi neste meio de entertenimento se tornou obsoleto.