Sábado, Março 31, 2007

Os outros clássicos




Eric Schaefer's readable history of exploitation movies begins with a description of what the genre ain't--the rabid "nudie pics" of Russ Meyer (Faster, Pussycat, Kill! Kill!) and the drecky, knowing arthouse flicks made by Andy Warhol and Paul Morrissey (Andy Warhol's Dracula). Though these camp movies are sometimes labeled "exploitation," they do not exactly fit Schaefer's definition.

For him, exploitation is the brand of movie that puts nudity and antisocial behavior up on the screen in the name of civic-mindedness and healthy social conscience--and with a wink. Between 1919 and 1959, sexual hygiene and antidrug movies with kicky, lascivious titles such as No Greater Sin (1939), Call Girls (1959), Nudist Land (1937), and Paroled from the Big House (1938) traveled through the country outside regular theater chains, advertising themselves as "shocking" yet educational. The posters didn't slouch either.
Amazon.com


Mesmo já com alguns aninhos em cima, Bold! Daring! Shocking! True: A History of Exploitation Films, 1919-1959 continua ainda hoje a ser o opus maximus sobre a história do cinema de exploitation americano, essa mina de interesse que tantas vezes gera culto, mas que aparentemente continua desconhecido e embrenhado em concepções algo dúbias, sobretudo devido ao desenterram de muitas obras (pós-50s) normalmente incluidas nesse género, quando o género se expandiu para o 'puro e duro' sexploitation, sem as fronteiras morais que fizeram este género ser o que foi.

E é mesmo dentro dessas fronteiras que Eric Schaefer se move, definindo de forma completa o verdadeiro exploitation dos anos 2os a 50s, fazendo uma análise dos diversos 'sub-géneros', a sua relação com o público e sobretudo os constragimentos morais e legais que moldaram o Cinema Americano e que originaram alguns dos mavericks qeu fizeram a vida a distribuir estes pedaços de transgressão sob a máscara de serem educativos e esclarecedores de certas actividades humanas que os bastiões morais tentaram fazer com que nunca fossem vistos. E consegue provar porque é que alguns dos títulos destes filmes se tornaram posteriormente legitimos e interessantes documentos de história, com abordagem 'artísticas' que seria depois quase uma regra teórica no cinema 'decente' dos grandes estúdios da Tinseltown, oscilando entre o escabrosamente avantgarde e o fascisóide conservador.

Schaefer conseguiu através de um metódico recolher de informação (alguma adquirida com alguns insiders do género) entregar uma obra histórica fascinante, (completada com uma listagem muito útil de filmes no final), imprecindível para aqueles que querem ficar a conhecer, sem corantes nem conservantes (e sem artifícios sensasionalistas que se encontram noutros livros sobre a 'materia') uma das mais infames e escondidas fatias da história do Cinema americano, com tanto de polémico como de 'definidor' na história desse mesmo cinema.

Quarta-feira, Março 28, 2007

Um Aviso

thetrap

Exibido na BBC2 à poucas semanas, The Trap: What Happened to Our Dream of Freedom, o novo documentário do homem que parece estar a redefinir a forma como o actual cinema documental, é um dos mais pujantes retratos de como as novas teorias políticas, económicas e sociais que ajudaram a moldar a Guerra Fria estão agora a tornar-nos a todos prisioneiros nos políticos que elegemos e das companhias a quem compramos as nossas comodidades actuais.

Adam Curtis nunca cai no facilitismo histérico que alguns documentários que se debruçam sobre temas semelhantes, mas através do seu estilo documental (alicerçado em inúmeras colagens de imagens e sons) consegue deixar um assustador retrado do presente e um poderoso aviso sobre o que poderá ser o nosso futuro próximo. Um documentário essêncial.

links úteis:
The Trap no IMDB
BBC Two—The Trap—site oficial

Sábado, Março 24, 2007

Pastéis de Bacalhau

portugueseNuggets

Portugal: the westernmost country in Europe. A country where - between the ruling dictatorship of Salazar, apparitions and miracles and football - rock and roll managed to arrive. Not byland (for Portugal was isolated and unaware of what was going on in post-war Europe, having as sole neighbor another dictatorship: Franco's Spain) but by ocean, through the many ships which arrived weekly in the ports of Lisboa, bringing news and trends from all around. Portugal seems to breathe and live through the Atlantic ocean: the arrival of rock'n'roll proved to be no exception to this rule.
Portuguese Nuggets 60s no myspace

Finalmente alguém com juizo pegou no incrível legado que é o rock português dos anos 60 e resolveu começar a editar através da série Portuguese Nuggets, alguns desse momentos mágicos de nostalgia vintage portuguesa que parecem estar actualmente a emergir (de forma 'localizada'). Este Nuggets, tal como o título indica, é um primo 'espiritual' da série popular de repescagem retro e consegue entregar momentos de descoberta músical com tanta qualidade quanto a popular série editada pela Rhino.

Para lá de qualquer saudosismo revivalista que poderia atirar para certos flavors of the week, no que toca a uma polémica sondagem realizada pela RTP à umas semanas, Este Nuggets é uma daquelas pepitas sonoras que servirá para não deixar cair no esquecimento nomes como os Tártaros, Conjunto Académico João Paulo, os Blusões Negros ou os Pop Five Music Incorporated, com poucos tempos mortos (embora com cover versions a mais, o único senão) e algumas preciosidades que agora emergem.

Esta edição de uma label que aparentemente tem como nome Galo de Barcelos, é uma preciosidade que tem que ser apanhada rapidamente (as edições limitadas são assim, encontrar agora para não chorar depois!), sendo uma daquelas preciosidades do que define de forma excelente o que seria o espírito teenager acabado de nascer durante os anos 60 num Portugal isolado e fadista.

Sexta-feira, Março 23, 2007

O Amanhã foi Ontem

inland empire

Put on the watch. Light the cigarette, fold back the silk, and use the cigarette to burn a hole in the silk. Then put your eye up to the hole and look through, all the way through, until you find yourself falling through the hole and into the shifting patterns you see on the other side.
Jim Emerson, RogerEbert.com

Como esperado, a crítica está 'all over the place' com o mais recente filme de Lynch, tentando analisar algo que será pouco analisavel e conseguir umas boas linhas de texto que consigam fazer sentido. Por este blog o sentimento é o mesmo.

Mas existem algumas coisas claras em Inland Empire. Este é o 'filme máximo' do autor, aquele que (aparentemente) Lynch tentou fazer desde a sua soberba estreia em formato feature, também é claro que ambos os último dois filmes (o circular Lost Highway e a fita de moëbius Mulholland Dr. - The Straight Story claramente não precisa de ser invocado aqui) foram um ensaio para este e que finalmente agora, todo o simbolismo e linguagem cinematográfica lynchiana está finalmente consolidada.

Avisando desde a primeira cena (a do disco de vinil a rodar) qual é o formato, Lynch apresenta a sua obra mais completa, simbólica e (por que dizer) perfeita, com interpretações brilhantes (Laura Dern ganharia decerto um Oscar se isso não fosse um prémio para vender bilhetes de cinema a imbecis), uma narrativa anti-sequêncial perfeita (apenas com alguns momentos aparentemente algo hesitantes) e uma visão consolidada de todo o seu raciocínio teórico sobre o Cinema (e sobretudo o Cinema 'de mitos' Americano), apresentado um produto final que lembra em diversos níveis a genialidade de Sunset Blvd e que mostra (finalmente) a pura essência do Surrealismo no cinema, como muita poucas vezes (literalmente) se havia presenciado. A obra perfeita do pós-cinema.

Clássicos do Cinema do Piolho: Kung Fu Emperor

KFEmp

Existem alguns itens na colecção pessoal de DVDs que embora nunca tenham encontrado lugar neste blog, possuem um ambíguo valor acrescentado na prateleira. Kung Fu Emperor é decerto um dos mais especiais, com a sua péssima dobragem com sotaque americano, a sua cor decadente que se tornou em poucas décadas um mal comum a estes 'mais ou menos' obscuros produtos de 'cinema de piolho' (mas que dão também uma patine preciosa ao filme), uma das bandas sonoras (e efeitos sonoros) mais bizarros do cinema asiático e uma carga de comédia involuntária que provocará erupções histéricas de riso.

Este raro produto de rara qualidade cinematográfica da editora Martial Arts Theater que nunca se tornou (infelizmente) um clássico do género, mas que decerto que interessará aos fans do Kung-Fu xunga é recomendado para serões em qualquer clube recreativo rural depois da aula de shotokan, consumido com umas minis e sem pipocas para não engasgar o público durante as gargalhadas.

Clássicos do Cinema do Piolho: They Call Me Trinity

theycallmetrinity

Haverá algum filme em toda a história do western spaghetti que consiga igualar o estatuto de filme de cinema do piolho que ainda hoje em dia They Call Me Trinity tem? Também me parece que não.

Para lá de todo o pó do deserto, dos arrotos e a pouca etiqueta à mesa, das piadas racistas e os murraços na cabeça infligidos por Bud Spencer com a cumplicidade de Terence Hill, relembra-se um dos clássicos da 'comédia bruta' por aqui.

Para Além do Bom e do Mau (2)

Shinobi

Continuando um pouco a caminhada pelo actual cinema nipónico que (para mim) misteriosamente faz as delícias dos cultistas, lá deixei entrar pelas pestanas Shinobi: Heart Under Blade (2005), uma daquelas obras de 'medievalismo pós-moderno' que, tal como Azumi e a sua (ainda mais) terrível sequela, consegue desafiar qualquer critério de qualidade, mas deixa sempre o espectador bem disposto com sucessivos disparates.

Esclareça-se, não estou aqui para 'malhar' neste tipo de filmes, até porque 'coisas' com essa misteriosa medida artística a que normalmente a 'burguesia' chama de 'qualidade' são escassas neste blog. Mas, para bem ou para o mal, Shinobi ganhou um daqueles prémios japoneses que se podem comparar aos Razzie americanos (Bunshun Kiichigo awards se não me engano na 'dicção') e parece merecê-lo: um cast popular (ou 'popularucho' para muitos), com a ultra-estrela Yukie "Yamaguchi" Nakama (sempre genial, mesmo no pior) e o canastrão Jô "eu também quero ser como o Johnnie Deep" Odagiri, filosofia de pacote, espadeirada e pulos com arames (por vezes superiores a Azumi, diga-se), guarda roupas saídos de uma sessão de Cosplay do Hack Sign e sentimentalismo a lembrar uma novela mexicana.

Tudo isto para dizer que gostei! Gostei muito mais de ver isto do que aquela caixa DVD com o double bill da Azumi que já me arrependi de ter comprado num excesso de consumismo tão estúpido como a numerosa colecção de sapatos de uma qualquer mulher de um ditador asiático. E gostei muito mais do sentimentalismo barato, dos 'pulos com arames' e do melodrama para gente com idade cerebral de 10 anos. E até me ri menos disto do que do Azumi (esta comparação começa a tornar-se chata).

Mas mesmo assim 'isto' apenas é recomendado aqueles que levam a sério filmes como Azumi (bolas é a última vez que falo nisto!) e a sua (terrível e 'mais inútil e gasta continuação de todo o cinema japonês' - idem!) sequela, ou a gente disposta a rir das desgraças (artísticas) alheias. Os outros podem ir ver o novo filme do David Lynch, não perdem tempo e merece até ao último tostão o preço do bilhete.

Para Além do Bom e do Mau parte 1

Panda Pitch!


Pessoalmente acho bastante mais interessante o trabalho a solo de Noah Lennox (aka Panda Bear) do que dos seus amigos dos Animal Colective. Lennox consegue ter um som bem mais agradável, 'explorado' e concreto e, sobretudo, mais 'luminoso', uma qualidade que decerto terá algo haver, tal como referia Mark Richardson aqui, com a actual casa do sonoplasta (Lisboa).

Acabadinho de chegar, Person Pitch parece vir a confirmar esta afirmação de uma forma perfeita, com o seu cruzamento entre as harmonias vocais dos Beach Boys e coros africanos, acompanhados por camadas sonoras de deliciosa textura analógica, sempre a soarem como se estivessemos dentro de um tanque de isolamento lillyano, prestes a começar uma moderna viagem psicadélica. Justiça seja feita e este deverá decerto estar nos melhores albuns do ano.

Terça-feira, Março 20, 2007

Brilhante Crespúsculo

twilight Samurai

Muito superior à longa lista de filmes sobre samurais que se vão acumulando nos gostos dos fans do género, Tasogare Seibei de 2002 (conhecido como Twilight Samurai no RU) é um daqueles filmes cada vez mais raros na actualmente bem cotada 'filmografia de exportação' japonesa.

A história singela e por vezes comovente de um samurai em tempos de profundas mudanças na sociedade japonesa (no final da era Edo) poderá não fazer um item do menu dos amantes do actual Chambara, cheio de 'cenas com arame' e bastantes imprecisões históricas para chocar até os mais distraidos, mas é de facto um dos recentes tesouros de um género que já teve uma qualidade espectacular, sem nunca ceder a argumentos mais exploitativos.

Baseando-se no romance (verídico) de Shuhei Fujisawa, Yôji Yamada consegue filmar uma comovente história familiar sem ceder aos efeitos melodramáticos que decerto seriam esperados, usando para tal a simplicidade captada num elenco magnífico (Hiroyuki Sanada, conhecido dos fans de Ring ou Rie Miyazawa, a estrela de Blood Gets in Your Eyes), conseguindo criar um dos melhores retratos do quotidiano 'antigo' do Japão que há memória na última década.

Contemplativo sem cair em clichés e apurado no seu storytelling, este 'Samurai do Crespúsculo' será decerto do interesse daqueles que procuram alguma seriedade e simplicidade no actual 'cinema de época' nipónico.

Sábado, Março 17, 2007

Traquinices Sonoras 2

muitoobrigado


E os cavalos a correr e as meninas a aprender
São os brandos costumes que temos para aprender
Ocaso Épico, Cafécucerto

Não há nem haverá
O Quinto Império
Ocaso Épico, Desoriental


Volta-se a cair na nostalgia neste blog ao ir buscar ao baú das recordações, aquele que deverá ser um dos discos mais extraordinários da chamada Música Moderna Portuguesa. "Muito Obrigado", seminal e monumental (e Primal) registo dos Ocaso Épico, um dos alter-egos de Carlos Cordeiro (aka Farinha Master) está quase a fazer 20 anos, mas o espírito pioneiro e eloquente com que este disco marca os ouvidos é ainda hoje surpreendente, com a sua mistura de música popular e sons urbanos e quase industriais (que viriam a ser alcunhados de 'Música Foleira Urbana'), a empacotar uma visão sarcástica do Portugal dos 80s como nunca outro artista consegui alcançar de forma simultaneamente tão ironicamente cómica como de profundamente analítica.

E embora sendo uma memória do que era Portugal nos anos 80, na altura em que a indústria músical se começava finalmente a 'profissionalizar', Muito Obrigado consegue ainda hoje não parecer de forma alguma datado na sua fenomenal massa sonora e, sobretudo na caústica critica. É algo triste constatar isto, mas trocando algumas das personagens músicais e sociais que povoam este disco por outras mais actuais, poder-se-á decerto vislumbrar muita da pequenez mental que Portugal vive actualmente.

Usando o título deste singular e único documento, pelos bons momentos sonoramente tão surrealistas como realisticamente reveladores, nós é que temos que agradecer!

Sobre o Presente e Sobre o Futuro

takecaremycat

Um filme como Goyangileul Butaghae (conhecido como Take Care of My Cat aqui no RU) ajudará decerto a quebrar um pouco o sentimento nostálgico que este blog tem vindo a cair nos últimos posts. A belissima primeira longa metragem da realizadora coreana Ae-eun Jeong é um surpreendente filme que mostra um tema tão batido como o coming of age de um grupo de 5 amigas acabadas de sair da escola direitinha para o cruel mundo adulto, com a diferença importante e individualizante de não cair nos habituais laivos de nostalgia que costumam 'povoar' esse quase 'género cinematográfico'.

Esta ausência, desde logo desconcertante para o espectador, é preenchida com um retrato realista (e por vezes cruel) do presente destas personagens femininas que categorizam as actuais late teens que vivem na numerosa área metropolitana que rodeia Seoul, e que procuram entre ilusões de working girl e escapismo vivêncial um futuro menos condenado.

A working girl com síndroma de princesa que esconde as inseguranças juvenis, as irmãs gêmeas que vão vivendo um vida banal (quase destinada) pós-liceu, a orfã e soturna artista gráfica wannabe, que parece condenada a viver no bairro de lata que a viu crescer e a idealista/escapista/optimista unificadora do grupo (a magnífica actriz Du-na Bae, já por aqui referida devido a Linda, Linda, Linda) formam o comovente e melancólico grupo de amigas que vão tentando 'ter' uma vida por entre desilusões familiares, inadaptações sociais ou relações sociais, tentando manter uma amizade de escola enquanto jogam com as suas aparentemente dispares vivências e interesses.

Jeong dá um retrato feminino do presente destas personagens, sem nunca cair num feminismo algo voyeur que costumam caracterizar certas obras 'femininas', usando simultaneamente artíficios pop e um novo realismo visual que, embora por vezes crú e claramente marcado pela melancolia, não quer cair num desesperado negativismo e que consegue de forma genial puxar uma beleza urbana algo desamparada. E quando a narrativa começa a ficar insustentável, a realizadora consegue encontrar o futuro das suas personagens, que embora seja algo vago, consegue fugir a uma visão negativa.

Este retrato do presente e do futuro e uma das crónicas mais interessantes do actual cinema coreano, com algum reconhecimento internacional, será decerto do agrado de muitos daqueles que têm vindo a descobrir no novo cinema asiático novas formas de expressão sem recurso a clichés e muletas estéticas, estilisticas e narrativas.

Quarta-feira, Março 14, 2007

Bombástico, Mas Pouco


Tentando demarcar-se de outros estudos e de opiniões gerais sobre o cinema realizado sob os efeitos do 'medo atómico', Atomic Bomb Cinema de Jerome Shapiro tenta dar aos seus leitores uma visão algo polémica de que afinal muito do cinema 'atómico' é de facto marcado por pulsões freudianas e análises profundas à sociedade americana.

O problema de Shapiro é que usa demasiadas vezes visões profundamente pessoais (por vezes até à irritação e misturadas com factos biográficos do próprio autor que são dispensáveis) para tentar fundamentar algo que é quase irrelevante, num estilo de escrita que é marcado por uma tentativa de confronto com outros 'escoláticos' que, num fundo, vão dar a lugar nenhum.

Se existem alguns pontos interessantes na análise algo centrada no cinema americano, Shapiro derrapa muitas vezes em certos pontos quando tenta analisar o cinema nipónico, ficando a ideia que, no geral este teórico está apenas a exercitar o seu poder de opinião numa dose generosa de verboreia neo-freudiana que, sem pessoalmente negar, acho pouco fundamentada neste livro.

Ficam alguns parágrafos interessantes de pé (sobretudo sobre o início dos 'Bomb Films' americanos) e uma algo extensa lista de filmes que abordam o problema como apendix, mas no geral este é apenas um livro que faz do seu volume uma generosa colecção de sinoses de alguns dos mais centrais filmes do género que pouco têm de análise frontal e imparcial.

Interessante para estudiosos deste tipo de cinema, que queiram uma 'segunda opinião' (pessoalmente pouco fundamentada), mas pouco interessante para aqueles que pretendam uma visão imparcial sobre o tema.

Sábado, Março 10, 2007

Otaxploitation (2)

Miina

Queremos nós mais um anime que, aproveitando 'restos' do filão Densha Otoko, tenta ainda criar mais material comercial mascarado de 'otakuness', que gerará novas fatiotas para o cosplayer, merchandising para os coleccionadores, e sobretudo visões de colegiais com cenouras enfiadas na parte de trás do uniforme de 'supergal' e seios saltitantes? Também me parece que não, mas Getsumen To Heiki Mina, uma excressência da série Densha Otoko lá estreou no Japão este passado mês de Janeiro, cumprindo a 'ameaça' de re-aproveitar algumas das sequências animadas presentes na série de dorama... e como quase todas as produções da Gonzo, esta série é claramente dispensável.

Traquinices Sonoras 1

SirEdmund

Inicialmente criada para divulgar a obra de uma das bandas mais esquecidas (mas das mais interessantes do actual panorama musical português), a netlabel You are Not Stealing Records, o quartel general dos Stealing Orchestra, tem vindo a destacar-se por editar/divulgar projectos bem mais interessantes do que os já costumeiros projectos sonoros que marcam o actual panorama das netlabels (excessivamente marcadas por edições de projectos electrónicos que pouco ou nada têm de interessante ou original).

Um dos releases desta label actualmente a tocar repetidamente cá por casa é "Ne peuvent être vendus séparément"(2005), do (aparentemente) duo Sir Edmund et L'Autre, uma 'excrecência' do programa experimental-cómico de rádio RAREDMI. Um sarcástico registo de desconstrucção nostálgica como forma de comédia, Sir Edmund et L'Autre vão manipulando trechos do que parecem ser samples (e que parecem mais ser produções originais deste projecto) para entregarem um 'produto final' marcado por uma subversão cómica, por vezes a roçar o genial.

Com faixas a oscilar entre o que podem ser consideradas canções ("Je Suis Inadapté", uma versão brilhante de "Tainted Love" ou a 'Vianiana' "Pedro") e recriações de bizarros filmes educativos, vão emergindo momentos de crossover sonoro que, embora por vezes caindo em alguma experimentação (a soar a falsa, talvez caindo até no campo do irónico) geram momentos de espectacular comédia sarcástica ("Ah les Électrodes", "Avant d'Aimer", "Idéalism en Question" ou "Vargsriket Luciferian en Répét"), criando a banda sonora perfeita para um filme que cruze um happening Dada com um filme de Guy Maddin dobrado em francês.

Esta é uma audição que (pessoalmente) tem tanto de adictivo como de hilariante.

Domingo, Março 04, 2007

Não É Nostalgia, É a Verdade

lydiaLunch
Lydia Lunch

Decerto que já muitas pessoas notaram que sempre que está um republicano na presidência dos EUA existe um agressivo, forte e brilhante conjunto de pessoas que, de forma independente e pioneira, resolve começar a largar a fúria, gerando movimentos que decerto serão elogiados num futuro próximo. Mas tal nem sempre é verdade, e mesmo que (talvez) algo toldado por um sentimento de Nostalgia, que já se sabe tem tanto de interessante como de nefasto, observo que a última 'revolta' acabou nos finais dos anos 80, culminando com o final 'reinado' de Reagan (durante dois mandatos). Desde então, e depois de um período que ficará definico como calmo (os 'anos Clinton'), voltámos a um regime de contornos fascístas, onde a insanidade do poder se revela num terrível modo. Mas aqui, e ao contrário do que se passou nos 80s, não existiu de facto nenhum movimento realmente novo de revindicação, de fúria nem de contra-cultura nos EU.

Uma das qualidades 'alquimicas' da Nostalgia é a de 'transformar' as coisas que vivemos com intensidade (no passado claro) e a aquela típica exclamação de 'no meu tempo é que era bom', algo terrível que deveriamos perder de uma vez por todas para conseguirmos avançar para um 'túnel de realidade' mais ajustado ao que fazemos no presente. Mas nem tudo parece, infelizmente, errado quando analisamos certas coisas com tal prisma de memória. Dois documentários recentes parecem vir dar razão a esta metamorfose nostálgica, ambos debruçando-se sobre dois momento-chave da actual cultura popular americana. Um é Kill Your Idols (2004), um retrato also feliz do que se convencionou chamar o movimento No Wave de Nova Iorque e o outro é o mais recente (e já comentado por aqui) American Hardcore, que conta a história do 'novo' e purificado Punk Rock americano que (se) purgou de vaidades e se fez um dos mais inovadores e sinceros movimentos musicais (e não só) das últimas duas décadas.

Ambos os documentários possuem algumas falhas e parecem comprometidos com algumas ausências, mas no entanto dão a ideia, pessoalmente que acho correcta, que os ricos contra-culturais anos 80 americanos não parecem ter tido continuação nos início do século XXI.

O primeiro (Kill your Idols), vai mostrando através de alguns das mais centrais personagens da No Wave o que aconteceu em NY durante a década de 70 e 80, para culminar num periodo 'quente' de 1 ano em que o designado movimento (que não o foi de facto) se auto implodiu, para depois gerar outros focus sarcásticos de comentário social e político. E todos essas mesmas personagens parecem concordar que nada de musicalmente novo, vital e, sobretudo, descomprometido saiu da cidade desde os anos 80... algo que fica provado ao veremos inúteis e boçais bandas como os Yeah Yeah Yeah ou Strokes a 'representar' o rico património contra-cultural de NY, como muito bem observa Lydia Lunch, num sarcástico comentário à actual (de 2004) scene da cidade.


minort
Minor Threat

Como se não bastasse, American Hardcore assume os mesmo contornos, mas agora cobrindo o território de 'costa a costa'. O notado é que o punk inglês, mais do que um movimento contra-cultura foi sobretudo um movimento apenas estético e até (sacrilégio!) superfúlo, onde a pose e os devaneios de alguns junkies inúteis foram mais importantes do que os actos significativos do que se fez no outro lado do Atlântico.

Este documentário repõe, à sua maneira, esta verdade para depois mostrar um movimento que mudou toda a face da música underground de uma forma quase gloriosa, onde bandas com uma influência primal no panorama musical, embora nem sempre creditadas (Bad Brains ou Minor Threat são os melhores exemplos) e qeu ajudaram até mesmo a moldar uma nova e inteligente left wing americana, alimentada pela reaganomics.

Aparentemente engolido pelas desistências ou mudanças de alguns dos seus intervenientes, entendendo a saturação e cada vez maior hostilidade dentro do movimento Hardcore, que em poucos anos se tornou uma paródia de si mesmo, este documentário celebra o caminho desses pioneiros, mas deixa um panorama algo amargo, mostrando o que o maisntream fez a estes 'produtos', tornando-os meras expressões de consumo, perante os olhares de desprezo das figuras deste movimento, que não vêm continuação dessa obra na 'geração bush', talvez por esta estar adormecida pelas 'revoluções a brincar' que as multinacionais vão vendendo à falta de energia e criatividade para criar novas e originais.

Dizendo isto tudo, será que existe algum movimento juvenil americano que actualmente cuspa na sopa desta forma tão violenta, gerando novas consciencias do ridículo político destes últimos anos? Pessoalmente acho que não.

Cinema (O)Culto2

blinddead

Amando de Ossorio, desaparecido à cerca de 5 anos atrás, será sempre lembrado na cultura pop de contornos culto como o criador dos templários sem olhos que, despertando das sepulturas, assombraram durante os anos 70 o cinema de terror ibérico.

La Noche del terror ciego (aka Crypt of the Blind Dead), Ataque de los Muertos sin Ojos (aka Attack of the Blind Dead) e subsequentes filmes da série (no total de 4) são ainda hoje um dos marcos do cinema de terror espanho, quer devido ao seu baixo orçamento e actuações risíveis que os tornam comédias involuntárias, quer pelos momentos genuinamente de culto, onde os templários sedentos de vingança ganham uma assustadora veracidade (mesmo que por segundos).

A influência destes filmes de Ossorio é conhecida, quer em 'casa' com uma nova geração de cineastas espanhóis do género, quer na geração de cineastas americanos que reformularam todo o cinema fantástico da década de 80 (existem alguns momentos nos dois primeiros filmes da série que parecem ser depois retomados por Raimi na série Evil Dead).

Uma série a redescobrir, agora que recentes reedições da Blue Underground no mercado americano e a Anchor Bay na UK (ambas de 2005), voltaram a colocar estes filmes no mercado, já merecido em formato DVD.

Sábado, Março 03, 2007

Japulas

lakeofdracula
According to legend vampires cast no reflection, so it is perhaps not so surprising that this attempt from Toho Studios to mirror a strain of cinema so grounded in European folklore should lack any real bite.
Jasper Sharp, sobre Lake of Dracula in Midnighteye.com

Tropecei à algumas semanas numa atrás numa curiosa limited edition de 3 DVD, editada pela Shadow Warrior (uma obscura editora britânica de clássicos de terror e exploitation japoneses), com três dos seis filmes que Michio Yamamoto realizou para a Toho, tentando responder às cada vez maiores edições de culto que a Hammer lançou nos finais de 60 e principios de 70. Esta suposta triologia contém Chi o suu bara (Bloodthirsty Roses, aka Evil of Dracula), o já conhecido Lake of Dracula e a curiosidade Yureiyashiki no Kyofu (Bloodsucking Doll, aqui 'renomeado' como Legacy of Dracula, atirando o futuro comprador para a confusão).

Se as duas primeiras obras são já conhecidas dos fans do cinema de terror japonês dos anos 70, sobretudo pela presença de Shin Kishida, o Christopher Lee japonês e figura de culto do B japonês, já Bloodsucking Doll é um dos filmes menos vistos da cinematografia curta deste realizador e a 'cereja no topo do bolo' desta edição, revelando uma pérola do cinema de vampiros japonês.

Muito já foi dito sobre estes 3 filmes já clássicos da Toho, como a sua irresistível cheesiness e pirosa abordagem aos cénarios e clichés 'ocidentais', em mansões 'ocidentais' repletas de espelhos e candelabros, com belas vampiras em vestes decotadas e transparentes ('resuscitando' visões das Hammer Pin ups), mas o que fica de uma visão mais atenta, e algo contraditória à crítica a Lake of Dracula da Midnight Eye, é a forma como Yamamoto 'acarinhou' a direcção destes três filmes, tornando-os documentos de culto quase imediatos.

Com bandas sonoras datadas mas irresistíveis, 'paisagens psicológicas' de gosto exploitation soberbas, que aglomeraram todas as influências do cinema de terror dando-lhe um sabor muito anos 70 (uma das décadas mais interessantes do cinema B japonês), estas três já clássicas pérolas do cinema de vampiros merecem uma redescoberta urgente, talvez para tirar alguma da carga negativa que a crítica foi dando a estes filmes (e sobretudo a Lake of Dracula) e para dar a conhecer a tão menosprezada obra de Yamamoto.

Esquisita História de Amor

sassyGirl

Agora que está prestes a estrear o remake americano de Yeopgijeogin geunyeo de 2001 (conhecido internacionalmente como My Sassy Girl), parece ser a altura de revisionar umas das obras mais marcantes da comédia coreana (facção comercial) que abriu caminho para a 'internacionalização' do género e a procura de títulos novos na cinematografia de comédia desse país por parte dos estúdios americanos para os seus incansáveis remakes, à procura de ideias novas que aparentemente pouco existem já no cinema comercial americano.

A história bizarra do estudante Kyun-woo que se vê confrontado de forma intimidatória, por entre actos de bizarros comportamentos e violência viril (e masculina) por parte de uma misteriosa rapariga (de que nunca vamos conhecer o nome) com um passado por resolver é um dos mais interessantes contos cómicos que deu à costa nos últimos anos, reusando clichés cómicos de uma forma completamente nova e, sobretudo, criando os seus próprios paradigmas cómicos através da estrnha personagem da rapariga (a fabulosa actriz Ji-hyun Jun, actualmente a filmar 'Blood the Last Vampire'), numa orgia cómica que tem tanto de insólito independente como de sabor mainstream.

Dividido em três partes, esta história (aparentemente baseada em factos verídicos), dá-nos quase tres diferentes momentos diferentes de estética cómica, começando pela comédia fisica e com momentos hilariantes entre as duas personagens, para depois avançarmos para a comédia de situação com contornos também insólitos mas de gosta 'comercial', abrandando um pouco o ritmo frenético do filme, e culminando numa muito interessante e humanamente tocante comédia de contorno 'existêncialista' que fecha o filme de uma forma soberba.

Um dos mais interessantes produtos do actual cinema coreano, My Sassy Girl é uma das primeiras obras de comédia mais tocantes dos últimos anos, sem se perder em caminhos independentes (o sabor comercial do filme nunca é camuflado pelo realizador Jae-young Kwak), mas também sem ceder a momentos fáceis de forma a criar momentos divertidos. Uma obra a rever ou a descobrir com urgência, de forma a evitar a já esperada desilusão americana.

Looks like Teen Spirit

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Lançado quando começou a nascer o que hoje se tornou a chamada indústria de entretenimento, fortemente orientada para o público adolescente, Rock Rock Rock é um dos teen movies mais esquecidos dos 50/60s, talvez por ser aquele menos preso às regras estruturantes do cinema (e mesmo do filme musical) e mais próximo ao que seria o videoclip nascido décadas depois.

Apenas com o pretexto de mostrar alguns dos acts mais hot da altura (incluíndo artistas afro-americanos, algo muito raro de ser captado em celluloid nessa altura), Will Price tenta contar uma história (típica) da adolescência americana, com um cast encabeçado pela estreante Tuesday Weld, uma teenager ainda longe do seu estatuto de sex symbol, mas sempre fazendo entender que essa mesma história (mal interpretada, sem sentido e aberrantemente infantil) é apenas um ponto de unificação para as actuações de Chuck Berry, Jimmy Cavallo, Connie Francis ou The Johnny Burnette Trio (entre outros), apresentados pelo lendário DJ Alan Freed (a quem se atribui o cunhar do termo 'Rock and Roll')

Acima de qualquer crítica cinematográfica, que tornaria esta oddity num verdadeiro filme, Rock Rock Rock é um gigante clip dos gostos da juventude americana dos 50s, um dos documentos que permitiu a muitos desses adolescentes ver pela primeira vez alguns dos artistas que apenas ouviam, tornando-os figuras 'visualmente identificáveis' e contribuindo assim para o nascimento do culto da imagem que se tornaria evidente a partir dos anos 60.

Agora que vai sendo desenterrado do esquecimento, através de algumas edições em DVD com preços acessíveis, este filme merece uma visão curiosa, mais talvez pelo seu conteúdo 'estético' e pela banda sonora, do que pelo filme em sí. Recomendado a fans dos artistas e geeks do Retro.

Quinta-feira, Março 01, 2007

As Meninas boas vão para o Céu, As Más para a No-Use High School

Dasepo Naughty Girls

Tendo-se tornado num dos mais recentes centros de 'novo cinema' da actualidade em poucos anos, a Coreia do Sul é actualmente um daqueles polos de atracção para as companhias de entretenimento americanas, dispostas a comprar resmas de direitos para remakes cinematográficos e para procurarem novas influências pop para os seus produtos, encapotados e enviados para todo o mundo. Nota-se desde meados dos anos 90 que , com uma indústria cinematográfica profissional que se desenvolveu de forma brutalmente rápida e com o maior número de aderentes ao uso de Internet do mundo (actualmente grátis e incentivada pelo governo), a Coreia do Sul se tornou de facto um dos maiores gigantes orientais de entretenimento popular, ombreando actualmente os seus vizinhos japoneses.

Com uma invejável cinematografia cada vez mais vista fora da zona oriental do globo e com vários remakes americanos anunciados (como o blockbuster My Sassy Girl, actualmente a ser produzido na sua 'versão americana', que terá decerto por aqui um post dentro de algumas semanas), é natural que outros 'produtos' mais interessantemente inovadores sejam também revelados ao público 'ocidental'.

Dasepo Sonyo (aka Dasepo Naughty Girls) insere-se nesse pacote de filmes, sendo uma das comédias recentes mais difícil de catálogar e que provoca as mais dispares reacções do público ocidental que vai pondo os olhos nesta obra (que o digam os espectadores que encheram as sessões do Festival de Berlim do ano passado).

Inspirado numa série de banda desenhada publicada on-line, este filme é um dos produtos mais bizarros dos últimos anos e que desafia qualquer classificação. A abrir as hostilidades, o filme mostra, mesmo antes do genérico, a chegada de um professor substituto a uma sala de aula, anunciando que o actual professor está de baixa médica por ter contraído uma doença sexualmente transmitível através de uma aluna da mesma escola (a No-Use High School), aconselhando logo depois exames médicos a todos os alunos presentes, algo que provoca o pânico e a debandada geral, mesmo dos membros masculinos da classe.

Daqui para a frente todo é esperado: Existem momentos 'Zucker' que facilmente se misturam com a comédia mais escatológica, que fará parecer a série de filmes American Pie um remake do Bambi, momentos musicais que usam o kitsch do género para mostrar pequenos apontamentos de humor sarcástico e negro que se diluem num camp adolescente aberrante, momentos de acção cómica de existencialismo arty e repleto de (aparentes) simbolismos quase surreais que decerto confundem os espectadores pouco habituados ao humor coreano.

De resto, nada de diferente poderia ser esperado de uma história que cruza os destinos de uma aluna que vive na extrema miséria (e que carrega, literalmente, a miséria às costas), de um ciclope (!) que é irmão de uma 'estranha' rapariga que provoca pulsões homosexuais a um mimado adolescente rico e mais uma mão cheia de oddballs que convivem socialmente (e não só) na mesma escola, ameaçada por uma estranha maldição de contornos satánicos que gerará uma das cenas mais bizarras do actual cinema de comédia... e esta é a parte mais linear.

Mesmo tendo uma história fragmentada e por vezes aparentemente algo inaquada para um feature film (e que agora esta a ser 'revista' através da série com o mesmo nome, que é mais fiel aos comics originais), Dasepo Sonyo conta estas bizarras histórias adolescentesque vão revelando através de cenas que têm tanto de perturbante como de histericamente cómico, os seus problemas existênciais, sexuais e sobretudo, nas suas estranhas relações sociais, onde tudo parece correr sempre para os piores cenários e que decerto provocarão o culto mais dedicado ou o ódio mais primal. Imperdível

Swing Out Sisters!

swinggirls

Muitas vezes considerado um 'irmãozinho' mais velho de Linda, Linda, Linda (ver este post anterior), Swing Girls é uma das comédias mais refrescantes vinda do Japão nos últimos anos, caindo facilmente numa categoria de 'nova comédia comercial' com um brilho (ou brio) muito especial, agradando facilmente aos espectadores e conseguindo (por vezes) entusiasmadas críticas por parte dos críticos.

Tal como Linda Linda Linda, esta obra de Shinobu Yaguchi conta também as aventuras musicais de teenagers num qualquer liceu no meio de uma zona rural do Japão, mas desta vez o terreno trilhado é o das big bands americanas dos 30s/40s, quando um grupo de (hilariantemente deliquentes) raparigas decidem-se alistar na banda de suporte à equipa de baseball local, mesmo sem nunca terem visto um instrumento musical, apenas para escaparem às aulas de Verão.

Daí para a frente sucedem-se algumas das mais disparatadas situações músicais, com o cast a incorporar de forma perfeita os personagens (Juri 'nodame cantabile' Ueno, aqui na sua espectacular revelação, é particularmente brilhante) e um final musical tão escapista, que embora um pouco fraco, remata de forma espectacular esta fresca comédia, por muito contraditório que possa soar.

Sem ser um filme tão comprometido com uma leitura sobre a adolescência como Linda, Linda Linda, Swing Girls consegue ter espaço para crescer durante a sua narrativa, mesmo usando de 'muletas' algo escapistas e com alguma 'economia de tempo', sempre sem perder o pé na sua história e, sobretudo conseguindo fazer rir o espectador do princípio ao fim, mesmo quando usa de piadas algo batidas, que aqui têm surpreendentemente uma frescura nova.

Este é um dos filmes obrigatórios dos fans do novo cinema 'ligeiro' japonês, uma bizarria que coloca os clássicos tocados pelas Big Band americana no cenário mais improvável possível, com resultados muito interessantes e surpreendentemente novos.

Para Além do Bom e do Mau

azumi1


Parece-me estranho, agora que tenho cada vez menos tempo para editar este blog e que tenho estado mais selectivo com as "visões, audições, navegações, observações e leituras" que escolho para figurarem por aqui, que tenha perdido tempo a dedicar um post a Azumi (2003) uma daquelas obras aparentemente inconsequentes que populam o culto a um certo cinema japonês onde Battle Royale ou Ichi the Killer são reis, pelo menos aqui pelo Reino Unido. Mas, agora que a 'caixa Azumi' (com os dois filmes da série mais uma carrada de extras) se tornou acessível no seu preço, tive um momento de aderência a um certo hype e dei uma oportunidade tardia a preencher uns serões com tal companhia.

Confesso que fiquei pouco impressionado e tirando algumas gargalhadas, este action flick pouco poderá oferecer a quem não esteja muito inclinado a perder tempo com tais produtos. Mas a presença de Ueto Aya (já por aqui e aqui citada) na sua estreia cinematográfica decerto que deverá causar alguma 'comoção cinematográfica', percebendo-se como é que a frágil actriz consegue segurar um filme de acção de contornos (livremente) medievais em cenas de acção desenhadas para serem espantosamente absurdas.

Mesmo estando num terreno meio-caminho entre algumas das piores obras americanas de John Woo (sobretudo o horrendo Mission Impossible 2) e os 'filmes de samurai' de guarda roupa inadequados e maneirismos muito modernos para a época que pretendem representar, Azumi consegue captar uma frescura que já poucas vezes é sentido no actual cinema de acção, algo que Tarantino tentou fazer exactamente no mesmo ano (com Kill Bill), mas sem conseguir, mesmo partilhando de muitas das influências comuns de ambos os filmes. E desde logo a diferença espantosa nos dois filmes é sentida quando, onde Azumi tenta reciclar maneirismos de forma a recriar momentos inocentes de acção, conseguindo pelo caminho criar os seus próprios clichés, Kill Bill tenta usar esses mesmos maneirismos como se algo novo fossem, caindo num ridículo jogo de reciclagem pop, de onde nada de inédito se aproveita.

Com um cast jovem mas já consolidado nos dorama japoneses, cenas de acção apenas desenhadas para dar satisfação ao público dominado pelo primal sentido de querer entretenimento escapista e sobretudo pelo desejo de Ryuhei Kitamura de fazer o filme de acção perfeito (com conseguiu com o aclamado Versus, obra de estreia do realizador) com todo os simbólicos momentos isso cria, Azumi torna-se devido a tais qualidades um daqueles produtos que, mesmo inadequadamente vulgar (ou mau, usando uma palavra que por vezes é usada em vão por muitos críticos do filme), é puro material de culto, uma experiência gráfica que já ganhou lugar na cultura pop cada vez mais global e globalizada.

Para além do Bom e do Mau, este filme é o que aparenta ser: um produto de divertimento, que deu tanto gozo a realizar como a dá a ser visto e revisto e, acima de tudo, criou um culto quer pelo seu grafismo quer pelo seu cast, algo que é merecido e que deveria ser expandido.