Domingo, Fevereiro 25, 2007
Espiões, Playmates e Salada de Ovo
Umas das primeiras obras mais estranhas da história do Cinema americano, What's Up, Tiger Lily? (1966) é ainda hoje um dos marcos da história do comédia americana. Muitas vezes menosprezado quando comparado com a restante obra de Woody Allen, e por vezes acusado de ser apenas uma desculpa parva para fazer sátira debitando piadas onde o sexismo ou estereotipos sobre orientais são constantes, esta obra de Allen apenas à poucos anos começou ser olhada de uma forma diferente, tornando-se rapidamente numa obra de culto para aqueles que procuravam uma renovação no cinema de comédia, estagnada nos anos 90, e para aqueles que expostos a formatos diferentes de comédia (sobretudo televisivos) reconheceram neste filme um espírito pioneiro.
Embora não sendo uma ideia nova na altura, a genialidade de pegar num (então) obscuro filme japonês de espiões (International Secret Police, de 65), retalhar a sua sequência narrativa e dobrar todas as falas com actores americanos (com sotaque sulista, como Allen revela no início do filme), atirando todos as piadas existencialistas num exercício de détournement em tudo semelhante aos exercícios cinematográficos de 'anti cinema' de Guy Debord e ao posterior Les Filles de Kamare de Rene Vienet.
Mas ao contrário da obra de Vienet, 'What's Up...' é uma obra de puro humor caústico, caótico de contornos por vezes profundamente hilariantes, sem qualquer (aparentemente) input político dessa obra situacionista (muito semelhante a esta e com resultados igualmente hilariantes), se excluirmos o existencialismo cómico das posteriores obras de Allen, atingindo em algumas partes resultados que parecem o fruto de uma jam session de película entre Grouncho Marx e John Waters.
Umas das obras mais estranhas, únicas, hilariantes e brilhantes da comédia dos 60s, What's Up, Tiger Lily? é uma obra que reaproveita o exploitation, a cheesiness, e a falta de sentido de rídiculo do filme original para contar uma das histórias mais estúpidas de sempre (a de uma secreta receita de Egg Salad que toda a gente parece querer obter), uma mera desculpa para fazer um dos produtos mais subversivos do cinema de comédia, desde que os Marx se reformaram. A ver com cautela e de gargalhada pronta.
Sexta-feira, Fevereiro 23, 2007
Sounds Like Teen Spirit
Aqueles que tenham Siamese Dream como um dos albuns favoritos e que agora lhes gera uma melancolia nostalgia, decerto que notaram um estranho mas familiar feedback de fundo, durante o genérico de Linda, Linda, Linda (de 2005, estreado no mercado americano apenas em meados do ano passado) após a cena inicial em que uma estudante ensaia um monólogo que irá pontuar o filme. É esse feedback de 3 segundos que parece (aos fans do album acima citado) dar o mote para o que veremos durante as próximas quase duas horas: a profunda nostalgia de ser adolescente e o momentos mágicos de descobertas inocentes desses anos que causam tantos sorrisos como caretas de repúdio.
Não quer isto dizer que a banda sonora deste filme, composta e tocada por James Iha, tenha um peso assim tão importante. De facto as composições discretas do ex-Smashing Pumpkins são apenas pontuais no filme de Nobuhiro Yamashita, actualmente visto como uma das novas figuras de culto no cinema japonês, muito por culpa do rápido culto que Linda, Linda, Linda goza actualmente nos EUA. O que este aparente singelo filme especial é a forma despretenciosa mas extramamente calculada como Yamashita conta uma das histórias mais interessantes sobre a adolescência que deram à costa nos últimos anos.
Já comparado como o interessante Kamikaze Girls, talvez à falta de outros filmes nipónicos que tenham tido sucesso nas bilheteiras americanas, este filme não poderia ser mais diferente estéticamente. Evitando a edição de cenas rápidas e comerciais de influência publicitária (isto sem qualquer desprimor para este filme), A 'narrativa estética' de Linda, Linda, Linda está na profunda contemplação e calma edição de cenas que parecem apenas descrever a base, deixando o resto para a interpretação do espectador.
Esta narrativa vai sendo dada através dos silêncios, pausas e hesitações das personagens, uma banda de adolescentes que, devido a perderem dois elementos da banda uma semana antes de tocarem no fecho do festival anual de Shiba High School, recrutam à pressa uma aluna coreana (a fazer intercâmbio cultural na mesma escola) que pouco ou nada fala a lingua japonesa, para cantar algumas covers do seminal grupo punk-rock japonês, the Blue Hearts durante o concerto.
Entres estes silêncios, pausas e hesitações destas adolescentes vai-se construindo uma narrativa cúmplice de uma história de Rock and Roll que mostra aquilo que mais nenhum filme 'do género' quer mostrar. Não existem aqui quaisquer tiques de músico com metas de estrelato mundial ou ambições de conseguir um contrato discográfico, algo que marca filmes nipónicos como Nana ou a série Beck. O objectivo é tocar de forma mais-ou-menos afinada 3 faixas num qualquer festival escolar numa cidade de interior, tarefa que tanto as personagens como as próprias actrizes (apenas o baixo é músico profissional) fazem de forma magnífica.
Um interessante e contemplativo documento das relações adolescentes, este filme é feito de forma realista mas sem nunca trair um sentimento de achievement adolescente, onde as relações entre os vários membros, e sobretudo entre a lider da banda (a revelação Yu Kashii, actualmente a figurar na série Tokyo Tower) e a 'estrangeira' Son (Du-na Bae, uma nova mas já bastante conceituada actriz coreana), são postas de uma forma realista mas simultaneamente quase simbólica, com o realizador a mostrar momentos quase icónicos (o diálogo que converge em pura união entre Kashii e Bae à frente do espelho, com uma a falar em japonês e a outra a responder em coreano, os joelhos esfolados da nervosa Bae segundos antes de entrar em palco, etc...).
A avaliar pelo positivo feedback on-line, este será um dos filmes mais apreciados e com mais culto na actual filmografia nipónica, tendo já ganhado as preferências do público 'especializado' no cinema japonês (foi votado numa recente sondagem de público do influente Midnight Eye como o filme favorito do ano passado). Mesmo filmado de forma aparentemente singela e simples, Linda Linda, Linda é um daqueles filmes que se pode definir através da sua cena final: mesmo tocando num pequeno palco no ginásio de Shiba High, a banda sente-se (e faz-nos sentir) como se estivessem a tocar no Nippon Budokan com a lotação esgotada, num perfeito momento de extasiante punk rock. Um daqueles filmes da década a não perder.
Antes dos Clássicos
Existiu um pequeno período na história do Cinema americano onde as regras 'censurantes' que definiram o que chamou o 'periodo clássico' (1935 até aos anos 50) pouco foram cumpridas, um acto de rebeldia 'punido' através de um código rigoroso posto em prática por Joseph Breen (baseado no conhecido code Hays) que foi abraçado pelos estúdios que o adaptaram não para se auto-censurarem mas para criarem uma maquina corporativa que ainda hoje tenta destruir qualquer oposição.
Pre-Code Hollywood: Sex, Immorality, and Insurrection in American Cinema, 1930-1934 de Thomas Doherty é um dos mais interessantes relatos desta época, debruçando-se sobre a evolução dos estúdios, que reinavam livres no escuro do cinema, sem preocupações em mostrar conteúdos moralmente condenados por um emergente conservadorismo de contornos religiosos, os mesmos que actualmente comandam de forma hipócrita o destino dos EUA, que através da Grande Depressão conseguiu moldar todo o cinema, não só o da altura mas até aos dias de hoje.
Doherty não faz só uma fácil listagem dos vários géneros que nasceram ou floresceram nesse período (Vice films, filmes de Gangsters ou as comédias 'libertinas'), mas consegue encontrar a génese do cinema de intervenção política (antes da infame caça às bruxas que debilitou o género até aos finais dos anos 60), e aventurando-se ainda pelos terrenos dos Newsreel e do 'cinema de expedição', a génese do exploitativo e pseudo-documental Mondo, numa viagem fascinante à psique pop americana.
Pre-Code Hollywood é um documento completo da época em que a cultura popular americana era ainda livre e pouco moldada a considerações morais, sendo um interessante livro para qualquer interessado no cinema americano.
Sábado, Fevereiro 17, 2007
A Volta do Fato de Treino
Em 2005 a mesma equipa de Ace wo Nerae (comentado por aqui no post Fato de Treino), pegando na fama que a série teve no ano anterior, resolveu voltar ao 'ataque' das audiências com mais um dorama desportivo, usando o carisma tímido de Ueto Aya para produzir Attack nr. 1, uma série sobre o volleyball feminino japonês. A fórmula é exactamente a mesma, substituindo a colegial que foi escolhida por um reputado treinador para ser a estrela máxima do Tennis japonês por uma outra que se tornará uma das estrelas do Voleyball nipónico.
Mesmo aqueles que viram Ace wo Nerae e gostaram decerto que vão achar este 'mais do mesmo' dorama algo repetitivo e chato. Treinos desumanos, lágrimas a rodos e sequências narrativas exactamente decalcadas desta série fazem Attack nr. 1 um produto cansado, onde apenas fica de pé a prestação de Ueto "Azumi" Aya, para sacríficio do resto que cheira a falso (incluindo a barba do treinador).
Apenas recomendado a desportistas (exceptuando os de sofá).
O Novo Tradicional
Sendo um género de comédia extremamente regulada e com uma tradição rígida desde os tempos medievais, o Rakugo seria um tema pouco provável de usar como ponto central de um dorama. Tiger & Dragon, um dorama estreado pela TBS em 2005 mostra de forma genial como é que, em pleno século XXI uma tradição medieval de contar histórias para um público entendido poderá ser uma experiência avassaladora, mesmo que feito através de televisão.
Reunindo uma boa fatia da cast masculino, realização e screenwriter de uma das séries (de comédia) japonesas mais espectaculares de sempre, Kisarazu Cat's Eye, e adicionando Nagase Tomoya(Ikebukuro West Gate Park) e o sex appeal de Itoh Misaki (tornada um sex symbol 'quase-mundial' devido à série Densha Otoko), Tiger & Dragon é uma série logo à partida de conseguir captivar mesmo o mais teimoso telespectador.
As histórias misturadas do jovem yakuza que quer aprender Rakugo de forma a estar mais em contacto com a figura paternal de um mestre individado ao mesmo bando a que o yakuza pertence e a do filho do mestre que renegou a arte de contar histórias como forma de rebelião contra a figura paternal são ainda mais ampliadas através da competição para 'ganhar' o caração de uma femme fatale (Itoh Misaki, pois claro) que não é uma mulher objecto mas um perigoso predador, servindo tal cliché de personagem na perfeição para consolidar a história de forma original. Afinal estamos na presença de personagem que são estereotipadas, mas que simultaneamente se 're-arranjam' para causar surpresa ao espectador.
O formato narrativo da série é espectacular, tal como Kudo Kankuro (o screenwriter) já nos tinha habituado em Kisarazu Cat's Eye, com a acção nas vidas de várias personagens a desenrolarem-se de forma frenética, sempre deixando 'espaços em branco' na narrativa, até começar o espectaculo de Rakugo a meio do episódio, que contará (de forma não só tradicional) o resto da história. Mas essa mesma história é contada não só através do contador de histórias no palco, mas também com as cenas 'reais' e também com os mesmos actores em guarda-roupa medieval, re-encenando a acção no sentido figurativo, sempre com uma edição de imagem frenética e com cortes bruscos, gerando uma 'manta de retalhos' narrativos que no final encaixam na perfeição.
Tiger & Dragon é uma espantosa repescagem de uma tradição de contar histórias, contando 'novas' histórias, usando simultaneamente linguagens cinematográficas/televisivas e a tradição estrutural do Rakugo para conseguir, tal como os mestres destes tradicionais monólogos, captivar o público. A descobrir.
Hammer-o-Rama(2)
Uma fantástica primeira obra, Cronos de Guillermo del Toro é um dos 'filmes definição' do chamado Cinema Fantástico dos anos 90, apresentando na sua mescla de tributo à Hammer (sobretudo a imagética de Terence Fisher) e ao universo fantástico de Dario Argento, novas pistas seguidas pelo género durante a década, deixando de lado a saturação do gore e dos slasher movies sentida nos 80s, e reactivando o sangue mostrado em contextos mais simbólicos e místicos.
Sendo claramente um filme com uma forte influência dos dois nomes acima citados, cimeiros dentro do género, del Toro actualiza aqui essas influências para novas variantes dentro do género, algo que ainda hoje é sentido no actual cinema de terror, transformando uma história gótica de imortalidade e vampirismo num quase retrato simbólico da condição humana, tema que retomaria ao longo de toda a sua obra até à actual, já por aqui comentada.
Del Toro usa aqui pela primeira vez a personagem inocente que, um pouco como a criança presente em algumas obras de Dalí, observa o surreal desenrolar de uma história que mistura gore simbolista e misticismo de uma forma esplendida, originada por um estranho engenho mecânico desenvolvido pelo mítico alquimista Fulcanelli (outra influência de Argento) que trnasforma comuns mortais em super-heróis imortais, mas com fragilidades quase insustentáveis para um humano.
O facto de del Toro situar o seu negro conto de imortalidade no seu país natal, gera ainda mais ocasiões para aumentar todo este simbolísmo existêncial, 'casando' de forma perfeita (e com pormenores cómicos engraçadissimos) o gótico com a acção, algo que refinaria em Blade 2 e Hellboy, dois filmes também com 'pormenores Hammer', embora mais dissimulados, apresentado já alguns dos 'tiques' que definiriam o seu estilo actual, único e esplêndido.
Agora com frequentes re-releases devido à grande fama das suas obras mais recentes, este Cronos é um filme a redescobrir, para tentar perceber as actuais tendências do cinema fantástico.
Vizinhos Exemplares
Sendo um perfeito estudo sobre os clichés do suspense no cinema, La Comunidad é uma das obras mais interessantes do cinema espanhol dos últimos anos, muitas vezes esquecida pelo público e poucas vezes citada pela crítica.
Em quase duas horas de filme, Alex de la Iglésia conta a história de um prédio onde os habitantes, psicologicamente moldados pela presença de 300 milhões de pesetas no apartamento de um morto, vão tentando descobrir o dinheiro e tentando afastar pessoas que não façam parte da 'comunidade' que possam também saber da presença do tesouro no prédio.
Um cast soberbo encabeçado pela já veterana Carmen Maura e uma história perfeita que , embora com contornos estranhamente semelhantes a The Tenant de Polansky, consegue ser profundamente original e perturbante ( de Jorge Guerricaechevarría, um dos nomes grandes tantas vezes citado por aqui), fazem deste pecúliar documento uma das obras-primas de Iglésia, onde a comédia negra, o suspense e o terror se juntam de forma perfeita para atormentar os espectadores.
À medida em que a personagem de Carmen Maura se enterra na 'comunidade' para reclamar o abastado achado, mais o suspense vai crescendo, com cenas de estilhaçar os nervos, cronometradas de forma mestra por Iglésia, até a um apoteótico (e exagerado) final, uma das perseguições mais estranhas da história do cinema contemporâneo, toda filmada no mesmo prédio onde praticamente todo o resto da acção do filme é passada.
Mesmo com um final algo 'espectacular' e pouco realista, levando ao exagero as perseguições no cinema, La Comunidad possui algumas das mais perturbantes personagens do cinema dos últimos anos, um grupo de oddballs que aparenta uma normalidade suspeita e que é capaz dos piores excessos para agarrar o tesouro do prédio e onde, estranhamente ou talvez não, o mais alienado e mentalmente perturbado (Charlie, o 'precioso' Eduardo Antuña) será a única pessoa com 'bom senso' no sinistro grupo.
Uma das melhores obras do cinema espanhol actual, La comunidad é uma obra a ver ou relembrar, agora que se espera a primeira obra 'internacional' de Iglésia (The Oxford Murders com Elijah Wood e John Hurt), sendo este o filme onde o realizador mais completa o seu próprio universo estético, um produto que possivelmente será o mais cinematograficamente interessante em toda a sua obra e que muito possivelmente munca se repetirirá de forma tão absoluta.
Quarta-feira, Fevereiro 14, 2007
Hammer -o-Rama(1)
That night, fleeing from Transylvania, Professor Abronsius never guessed he was carrying away with him the very evil he had wished to destroy. Thanks to him, this evil would at last be able to spread across the world.
Sendo quase uma ode explicita à estética da Hammer, The Fearless Vampire Killers possui em si mesmo todo o universo da produtora (existem charmosos condes, magníficos decotes, sangue realmente vermelho e cenários góticos a rodos por aqui) mais a visão sarcástica e existencial de Polansky, com o uso de um slapstick que tem tanto de patético como de profundamente brilhante, tendo como figura máxima o anti-herói Alfred, o próprio kafkiano Polansky, que não poupa detalhes, quer nos cenários, quer nas personagens, para criar uma obra absoluta.
Mesmo não sendo o filme que os fans de Polansky recordem com mais frequência, The Fearless Vampire Killers é aquele que mais retém e mostra o universo profundamente irónico e cómico (e até absurdo) de um dos maiores realizadores da segunda metade do século passado, sendo um complemento necessário a Rosemary Baby e sobretudo Repulsion, ambos também com pontuais rasgos de comédia em contextos onde esta não é aparemente usada. A rever sem pudor!
Otaxploitation
Foi notada, mesmo a ocidente, a fama que o universo dos otaku obteve através do dorama Densha Otoko (comentado à muito por aqui), através de um tratamento algo unusual na cultura pop mainstream, que até então retratava este autêntico exercito de criatura socialmente inadaptadas e obsecadas como freaks grotescos e repulsivos.
Em Desha Otoko, embora esse lado grotesco esteja também presente, estes agora heróis do consumo urbano são retratados como figuras pouco trendy que por acrescento bizarro se tornaram trendy, um pouco com o fenómeno Napoleon Dynamite nos EUA. o Otaku é projectado rapidamente para o imaginário dos consumidores de pop mainstream como os tipos estranhos que mesmo inadaptados, parecem ser 'boas pessoas' e que, com alguma sorte, poderão mesmo arranjar uma date com a inacessível office lady.
Parece pois bastante oportuna a estreia do dorama Akihabara@Deep em meados do ano passado, aproveitando esta onda de descoberta pelo universo dos frequentadores dos maid cafes de Akihabara, para continuar a explorar o filão que começa já a cair na puro e duro exploitation.
As virtudes de Akihabara@Deep são muito poucas. A maior parte dos personagens é pouco desenvolvida, os seus gags são pouco engraçados, o argumento é um flop (esta série é uma adaptação de um manga com já alguns anos), os actores são menores, salvando-se a prestação algo credível de Kazama Shunsuke como o 'incomunicativo' Page e pouco mais. Sobretudo não será por aqui que alguém completamente desconhecedor desta zona de Tokio e destas 'vitimas de consumo pop' terá alguma epifania em relação ao fenómeno, mesmo com cenas recheadas de catfights e maids em cafés que mostram videos da série Japan Gravure e outros delights softcore.
Mesmo com uma edição de imagem edgy extremamente interessante, a série não consegue criar qualquer ritmo e apenas no 3º episódio se consegue vislumbrar algum interesse neste produto. E como se não bastasse, a presença do irritante Kitamura "Azumi" Kazuki no sua também irritante personagem 'qualquer-coisa-Takeshi', que já tinha dado cabo do especial Densha Otoko DX, deixa esta série cair, infelizmente, num profundo estado de desinteresse. Apenas recomendado, em doses modestas, aqueles que se interessam pelo fenómeno Otaku.
A Água Suja do Capitalismo (2)
Mesmo não sendo um dos mais bombásticos documentários sobre corporações, como muitos que deram à costas durante esta década, The Cola Conquest de 1998 levanta já o tom crítico que muitos posteriores comentários usam para descrever as tácticas absolutistas com que as corporações multinacionais usam na carneirada (aka o consumidor).
O documentário de Irene Angelico vai mostrando, , ao longo de três partes, as várias fases do gigante de Atlanta, com o inevitável início da história da bebida que começou como um tónico de farmácia com extracto de Cola e de Cocaina, para depois arrancar para as práticas de publicidade dúbias (percursoras na altura) até fazer parte da americana, e mais longe, da cultura popular global. Claro está, que é explicado quase com uma estranha neutralidade, o nascimento da tal garrafa que se distingue da concorrência ou até a estranha metamorfose do sinistro e magro São Nicolau, num abastado e barbudo pai natal de barbas brancas e vestes vermelhas.
Mas à medida que as conquistas do refrigerante de caramelo e agua açucarada se vão acumulando, o espectador vai chegando a conclusões que deveriam ser já do senso comum: as tácticas do "taste of Freedom" que passaram por fazer um frenético negócio também com o inimigo durante as várias guerras em que os EUA se foram metendo, as campanhas de 'desculturização' em vários países onde a companhia tentou (e ainda tenta) liquidar bebidas tradicionais para introduzir os seus produtos, o tapar os olhos às condições laborais desumanas dos seus trabalhadores no 'mundo do sul', como os casos escandalosos da Guatemala ou de Lagos.
Claramente já datado e muito desactualizado, The Cola Conquest é no entanto um documento útil para aqueles que aqueles interessados em entender a forma como a Coca-Cola se adaptou às novas tácticas económicas dos 90s, quando as brands já não vendiam produtos, mas sim imagem.
E poderá não ser editado de uma forma catchy e decerto que existem poucos convidados polémicos e espalhafatosos neste documentário, se excluirmos os próprios representantes e acções da companhia, mas está aqui tudo para aqueles que apenas começaram a ter alguma consciência económica depois de verem os execráveis documentários do Michael Moore ou o fabuloso The Corporation. Recomendado como um complemento ao filme descrito no post 1 com o mesmo nome.
Ver o post A Água Suja do Capitalismo (1)
Sexta-feira, Fevereiro 09, 2007
Vickie Lynn Hogan ,1967-2007
A morte prematura de Anna Nicole Smith gerou uma atenção algo surpreendente aqui pelo Reino Unido, onde teve um destaque algo generoso pela maior parte dos media, revelando (ou constatando) o seu real peso na cultura pop também por cá.
O facto é que, quer as forma generosas de Smith (verdadeiro nome Vickie Lynn Hogan), como a personagem que encarnou durante a sua carreira, moldaram muito do que hoje se celebra ou condena quase se fala das big blonde bimbos que chegaram ao estrelato absoluto. Mas ao contrário de Pamela Anderson, que ainda tenta ser levada a sério (com as consequências conhecidas) ou Victoria Silvstedt, que nunca conseguiu sair do limbo de ícone erótico, Smith conseguiu alcançar desde logo o patamar da superstar que encarnou de forma absoluta a personagem, um upgrade de Marylin para os anos 90. Com medidas mais generosas e poderosas misturando os atributos de uma figura de comics e de luxúria carnal que deixou de aparecer por Hollywood depois da morte de Jayne Mansfield, Smith nunca se conseguia enfiar de modo seguro no molde destinado a tais personagens que encarnam desejos sexuais masculinos.
Existe uma cena magnífica na comédia disparatada Naked Gun 33 1/3 onde, em silhueta, uma Smith quase tornada uma Jessica Rabbit perversa, esta se vai desnudando por detrás de um biombo transparente (um lençol, talvez?), exibindo a sombra do seu generoso perfil para depois, inesperadamente, deixar aparecer uma vistosa 'saliência masculina' ao nível das coxas, uma provocação cómica que decerto não seria aprovada por mais nenhuma pin-up na altura.
Dona de uma história típica que interpretou com mestria, a miúda das brenhas que ascendeu à fama a mostrar os atributos físicos e que casou com o magnata texano com os pés para a cova (e que originou uma batalha legal demorada entre a viúva e os seus enteados), não teve qualquer concorrência à altura dos outros ícones sexuais dos anos 90, aparecendo sempre como uma vedeta forte e triunfante, uma valquiria que parecia nunca negar a personagem que foi compondo ao longo dos anos de fama.
Moldado a esta figura de femme fatale caricatural e exagerada, quase como uma fisicamente abastada e luxuriante vénus americana, Smith foi uma das mais conhecidas figuras do panteão erótico masculino dos 90s. Agora, a verdadeira e corporal texana que ousou viver o estereotipo até à morte, deixa para a eternidade popular a figura mítica de um dos maiores e talvez até influentes ícones sexuais masculinos da última década do século XX, aquela que fisicamente recuperou todo o esplendor do desejo masculino que Fellini ousou filmar nas 'suas' mulheres e que o cinema americano do 50s gerou para mostrar a abundância pós-guerra.
O Outro Lado do Espelho
First off, I do not share the classical view of the film being divided into a dream and a reality part. No question: the film breaks down into two portions of unlike sizes, of which the second, shorter one, consists of ostentatious motif variations of the first one. And I also agree that with the slowed down camera work and the focus on certain distinct motifs the film creates a nightmarish atmosphere. However, I feel the interpretations spread around tend to trivialize the film and with it a number of motifs that may provide its real charm.
For one thing, repetition of motifs is something that Lynch has dealt with in most of his works. I am of the opinion that he is dying to express a specific message, which he tries to deliver in always new images and concepts. This message is closely linked to the repetition of motifs. For the time being, let me put it this way: The doubling of motifs refers to a doubling of events. Events recur and the meaning of events lies within the repeating – and not exactly in them being unreal or dreamlike. The dreamlike nature of Lynch’s films results from the fact that reality often is nightmarish and not that it may all just be a dream.
Moments recur... that points me to the idea of fate. When incidences keep repeating over and over, they lose their distinctiveness, at least to a viewer who is aware of it. Time and again David Lynch is able to turn a simple walk across a corridor into a frightening situation. Still we should keep in mind that repetitions challenge the singularity of events.
The concept of fate is further conveyed by a number of motifs and key scenes. And it is these scenes, which are, on the one hand, the most memorable ones, but also the ones that will lose their function if being interpreted as part of a dream. A strong argument against a dream/reality interpretation comes from a short sequence in the beginning of the film. Before we see Rita heading up Mulholland Drive there is a shot of a red pillow. We hear the sighing of a woman, who - by indication of the camera movement - seems to sink into the pillow. We do not see the woman, but we can clearly identify the bed; it is the one we later see the corpse and then Diane lying in. Does Diane lie down to dream in the beginning and does she wake up when the first part ends? I think not. Two major themes, the quest for identity as pivotal to all characters in the film (Lynch himself emphasizes it in an interview in the DVD extras) as well as the idea of destiny get lost if going down this road, because the effort in searching ones identity is repealed by the unambiguousness of wish and reality. The idea of fate, playing a such central role in first part, in shape of the Cowboy, the bum and before all, in the story of Adam Kesher, becomes a sole metaphor.
Frank Wittchow, Lost on Mulholland DriveSábado, Fevereiro 03, 2007
Herói da Comédia Involuntária
Mesmo não tendo a importância cinematográfica de The Mysterians de Honda, o filme que revolucionou o sci-fi japonês e que deu a conhecer a vertiginosa imaginação do cinema japonês, Invaders from Space é uma das obras mais interessantes (e uma das poucas) a ter revelado ao 'ocidente' o primeiro super-herói cinematográfico japonês, Super Giant, conhecido neste lado do mundo como Star Man.
Sendo um modelo para outros super-heróis bem mais conhecidos como Ultraman and Kamen Rider, Super Giant parece ter ficado algo para trás na repescagem nostálgica de muitos dos japanófilos do Sci-fi e o magnífico e divertido Ken Utsui (o actor que encarnou a personagem), apenas à poucos anos teve um comeback através de vários dorama, donde se destaca o ancião avó yakuza em Gokunsen.
Invaders from Space, um release americano que cola dois episódios originais de Super Giant, usa de uma 'magnifica' dobragem em 'americano' para dar a Super Giant (aqui Star Man, como ficou conhecido nos states) e aos seus amigos uma presença ainda mais espirituosa numa das fitas que, se não me atraiçoa a memória, mais me deu para rir.
De facto não existe qualquer cena neste filme nenhuma cena de Utsui que não seja de uma boa disposição quase tirânica, enquanto protege a Humanidade de um exército algo nazi, alojado num satelite ao 'largo' do planeta Terra, que promete destruir o planeta de forma satanica. Desancando um exército de figurantes e exibindo os biceps nos intervalos, 'este' Super Giant de Invaders from Space é de uma das maiores figuras do camp japonês, que agora que 'caiu' no estatuto de creative commons, merece uma re-descoberto.
Sexta-feira, Fevereiro 02, 2007
IconoEspasmos: El Topo
Too much perfection is a mistake
El Topo
Existe algo que liga John Lennon aos Kyuss, Marylin Manson, o Dune ao western spaghetti, o Star Wars ao imaginário poético/imagético de Mœbius. Alexandro Jodorowsky é um dos ícones mais fascinantes do cinema de sempre e El Topo uma das obras fundamentais do cinema do século XX.
Amado e odiado de uma forma visceral, oscilando entre a adulação quase divinizada dos fans e as acusações de megalomania mística e de copiar Buñuel até ao pormenor, tanto a obra como o autor são tão controversos e influentes hoje com em 1970, ano da estreia do filme. Uma viagem mística pelo Velho e Novo Testamento, ao ritmo do sol do deserto e do revolver que tenta encontrar o Nirvana, O pistoleiro Jodorowsky vai misturando a iconografia Cristã com o misticismo oriental, mesclando o espirito com uma violência física brutal e um sentido de grotesto corporal a roçar o cómico, enquanto procura a redenção máxima, alcançada no final.
El Topo (a personagem e o filme) é um 'poço' de influência para a contracultura, atravessando quase três décadas de amadurecimento, para estar, embora sempre nas sombras, nos manifestos artísticos de muitos movimentos da actual pop mais obscura, do misticismo ambíguo às festas stoner nos desertos do continente americano. Como um do mais místicos e populares filmes de culto, El Topo apresenta-se ainda hoje como o western 'spaghetti maximus', aquele que concretizou de forma mais absoluta a forma como o herói (ou anti-herói) procura uma razão existencial de vida e a redenção num género que sempre foi marcado por tais personagens.
Links:
El Topo: a book film
Like Water For Legless Dwarves (ensaio)
The Dune You'll Never See (Alexandro Jodorowsky e o filme Dune)
Vampiros Selectos(3): Martin
Existem duas obras na já conceituada e conhecida obra de George Romero que nunca mereceram o mesmo culto que a chamada triologia de Zombies, mas que possuem uma maior importância e mérito que as duas obras que se seguiram (nesta triologia) à primeira obra brilhante que é Night of the Living Dead.
Quer Dawn of the Dead e Day of the Dead têm ainda hoje uma presença invejável na cultura popular, mas parece-me que é em Season of the Witch (aka Hungry Wives de 1972) e na sua 'continuação' Martin (1977) que Romero consegue ser um verdadeiro realizador da angústia e o aborrecimento social que podem culminar numa 'zombificação social'. Não quero com isto dizer que tais clássico do cinema de Zombies sejam dispensáveis, mas é conhecido o actual fascínio de Romero pela fama e culto, que o leva a quase ser uma caricatura de si próprio (isto sem sentido prejurativo), mas é nestas duas obras raras da vida de subúrbio americano, que este autor se revela como um dos mais agudos observadores da sociedade americana dos 'burbs.
Martin é quase um manifesto individualista de vida, com o realizador a não fazer qualquer juizo de valor entre as actividades deste Vampire for Our Age of Disbelief (como afirma a tagline do filme), o anti-herói mais marcante do cinema deste realizador, enquanto interage com os monótonos e vazios habitantes dos subúrbios de Pittsburgh, usando metódicos meios de conseguir alimentar a sua soberba de sangue humano e simultaneamente desmistificando todos os símbolos normalmente associados ao cinema de vampiros.
Quase um veículo para apenas mostrar o que de aparentemente parece estar no background da história, Martin conhece um final abrupto às mãos do seu tio caçador de vampiros, este sim uma personagem central no filme, que dispôe do destino do jovem vampiro de forma marcada, representando o 'velho mundo' dos vampiros, onde os rituais místico vazios de sentido marcam a vivência, mas sobretudo as figuras da decência que tentavam marcar as aparências, num palco onde o aborrecimento e o vazio existêncial leva o seus habitantes a procurar forma 'socialmente reprovadas' de amaciar a existência, quer seja o adultério dos 'adultos', quer os excessos vampíricos do adolescente Martin.
Pop Dell Arte (2)
In Japan, this anime is on everyone's list of most-loved classic animes of their youth. Despite its age, the story is timeless in its charm. The anime is based on the early 70's manga by Sumika Yamamoto, which appeared in Margaret magazine. This is a sports anime, and nearly every conflict and issue ends up leading to the tennis court. But ultimately, it is personal relationships and spiritual growth which directs this story, not simply the issue of winning or losing.
The Technogirls Aim for the Ace! page
Consegui finalmente meter os olhos na versão original de Aim for the Ace! (Ace wo Nerae!, no original, já por aqui falada, devido à versão live action algo recente), uma das séries mais catitas e com mais culto junto dos entusiastas de anime retro (facção 'desportiva').
E desde logo se descobre que, após um certo choque visual devido a uma certa abordagem baixa-produção (que marca muitas destas séries japonesas dos anos 70), esta é uma das séries onde a estética Pop, no seu auge mainstream na época (a série é de 1973) tem uma representação entusiasmada e garrida, com excelentes frames que decerto espantarão qualquer entusiasta do género.
Claro que tudo nesta série gera muitos sorrisos trocistas, com muitos laivos de camp datado e caracterizações visuais muito para lá do piroso, mas aqueles com particular interesse por artes gráficas retro decerto que encontraram aqui uma das pérolas da animação japonesa, numa das séries que foi o expoente máximo do Shōjo (animação e comics para adolescentes do sexo feminino), antes da redefinição deste género pelas mais populares (no ocidente) Sailor Moon e Candy Candy.
A agarrar esta oportunidade de ver esta reedição da série, junto de qualquer fans subs 'junto de si'.
Pop Dell Arte (1)
(...) one of Japan’s most successful and internationally recognized graphic designers and artists. He began his career as a stage designer for avant garde theatre in Tokyo. His early work shows the influence of the New York based Push Pin Studio (Milton Glaser and Seymour Chwast in particular) but Yokoo himself cites filmmaker Akira Kurosawa and writer Yukio Mishima as two of his most formative influences.
In the late 1960s he became interested in mysticism and psychedelia, deepened by travels in India. Because his work was so attuned to 60’s pop culture he has often been (unfairly) described as the “Japanese Andy Warhol” or likened to psychedelic poster artist Peter Max, but Yokoo’s complex and multi-layered imagery is intensly autobiographical and entirely original.
in Wikipedia
Vampiros Selectos(2): Asa Vajda
Mesmo sendo um típico filme de terror, Maschera del demonio (aka Black Sunday, Mask of the Demon, etc) é uma das mais peculiares peliculas de vampiros e aquela que ajudou a definir um género que teve o seu apogeu com as produções da britânica Hammer.
Uma das obras-primas de Mario Bava, Black Sunday é também um dos mais influentes e perfeitos filmes de vampiros que consegue, sem nunca mostrar um único canino aguçado, mostrar todo o esplendor de Barbara Steele (que já teve um post dedicado à algum tempo por aqui), a femme fatale do género que ainda hoje 'assombra' algum do actual cinema, sobretudo na obra de alguns revivalistas como Tim Burton e na obra de 'revisitação' do mito, Dracula, de Coppola.
Uma excelente fotografia, cenários nublados que simultaneamente são clichés anteriores, mas que também criaram muitos outros, influentes efeitos especiais e uma produção rebuscada dão a esta obra, inspirada num conto de Nikolai Gogol, uma presença algo discreta e até (actualmente) um pouco esquecida na história do Cinema, mas fundamental para todo o género, com as suas 'imagens fundamentais' e sobretudo criando uma das mais icónicas presenças do género, com a personagem da femme fatale/bruxa/vampiro Asa Vajda.
É deste material que o culto é feito


















