Quarta-feira, Janeiro 31, 2007

Berlim, 1987

wingsofdesire

Anjos cansados da eternidade, a carne e o espírito, as pequenas histórias de uma cidade então dividida, o passado conhecido e um futuro completamente inesperado. Nada é objectivo em Himmel über Berlin, um constantemente revisto filme, começado quase sem script e com um final alternativo que felizmente nunca foi incluido na versão final.

Mais palavras para quê?, Wim Wenders no seu melhor.

Domingo, Janeiro 28, 2007

Gallery of Cool (6): Holly Golightly

hollyG

Sendo um dos filmes mais comerciais, fracos e comprometidos de Blake Edwards, com um cast fraco e momentos repulsivos de comédia (como todas as cenas do cómico com menos piada na história do cinema, Mickey Rooney) e não sendo propriamente o momento alto da carreira de Audrey Hepburn (Paris - When It Sizzles, Sabrina e claro o favorito Charade são o que de mais substancial a 'anoréxica' actriz fez), o que faz Breakfast at Tiffany's (1961) um filme com o culto tão acentuado?

A resposta estará na novela de Truman Capote que, mesmo 'amaciada' para o argumento do filme, apresenta ao público uma das mais engraçadas e cookie call girls da história do cinema americano, Holly Golightly, um dos símbolos máximos da simplicidade sofisticada da própria Hepburn na vida real.

Sexta-feira, Janeiro 26, 2007

Salteadores de Arcas Perdidas

paintalady
How rare can a rare record be - medium, rare, uncooked... how about unreleased!
press release da Finders Keepers

Desenterrando de forma inesperada um album condenado ao esquecimento, porque nunca foi lançado, a Finders Keepers conseguiu meter as mãos numa das três cópias privadas feitas por Susan Christie para alguns amigos e, 30 anos depois, lançou Paint a Lady, um gema do folk psicadélico que invoca terrenos semelhantes ao que Linda Perhacs trilhou no seu seminal e brilhantemente psicadélico Parallelograms (já por aqui comentado) e algum do material de Margo Guryan (também já por aqui lembrada).

De facto, Susan Christie terá várias coisas em comum com estas duas cantoras (ambas esquecidas e reencontradas actualmente por novas gerações de fans), mas adiciona a um estilo algum sereno e down-tempo deste tipo de folk americano dos 60 (algo datado, mas com algum recente culto) a uma abordagem country muito psicadélica, lembrando quase uma Dusty Springfield on acid na suas interpretações de clássicos como 'Yesterday - Where's My Mind' ou 'Ghost Riders In The Sky'.

Percebendo-se logo que é deste tipo de material que os cultos vinylicos são feitos, Paint a Lady é uma daquelas prendas que só a FK poderia desenterrar, para uma nova geração de adeptos de folk obscuro, que decerto apreciaram este feito desta pequena mas cada vez mais influente editora.

Quinta-feira, Janeiro 25, 2007

New York City, 1968

Rosemarys-baby

Roman: He has his father's eyes.

Rosemary: What are you talking about?! Guy's eyes are normal! What have you done to him? You maniacs!

Roman: Satan is his father, not Guy. He came up from hell and begat a son of mortal woman. Satan is his father and his name is Adrian. He shall overthrow the mighty and lay waste their temples. He shall redeem the despised and wreak vengeance in the name of the burned and the tortured. Hail, Adrian! Hail, Satan! Hail, Satan!

Minnie: He chose you out of all the world - out of all the women in the whole world, he chose you. He arranged things, because he wanted you to be the mother of his only living son.

Roman: His power is stronger than stronger! His might shall last longer than longer.

Japanese man: Hail, Satan!

Rosemary: No! It can't be! No!

Minnie: Go look at his hands.

Laura-Louise: And his feet.

Rosemary: Oh, God! [She drops her knife]


Rosemary's Baby, Roman Polansky

New York City, 1976

taxi-driver

Disturbing, powerful, relevant, important, 17 November 1999
Author: Drew, from New Brunswick, NJ USA (in IMDb)

This film didn't cause the incidents in Colombine, or Hawaii, or Seattle, or wherever you care to look, even with all of its disturbing images of violence. It didn't cause those things. It predicted them.

Sábado, Janeiro 20, 2007

Crónicas do Bizarro e Familiar



É desconcertante a forma como Louis Theroux justifica ter escrito The Call of the Weird: Travels in American Subcultures, afirmando que em todos os personagens que descreve neste recente livro, existem pequenos detalhes que lhe são comuns.

O jornalista responsável pelo hilariante Louis Theroux's Weird Weekends faz uma viagem pelos EUA para reencontrar matadores de extraterrestres, Neo-Nazis desencantados, estrelas porno desaparecidas, ex-vedetas de Gansgta Rap, prostitutas dos bordéis legais do Nevada... etc ... tentando reatar antigas quase-amizades que fez quando trabalhou nas suas estranhas séries para o Channel 4.

A forma estranha, juntando ao lado profissional uma certa afecção pessoal, com que Theroux se relaciona com tais personagens é de facto, como já dito, desconcertante, tentando quase justificar o seu fascínio por outcasts sociais, enquanto de forma delirante tenta subverter as crenças dessse mesmos personagens atirando perguntas que o podem colocar, por vezes, em situações arriscadas.

The Call of the Weird é uma leitura brilhante não só para aqueles que costumam ter interesse por subculturas, mas, sobretudo, para aqueles que querem ler algo novo, escrito de forma brilhante, e pessoal mas simultaneamente analítica, sobre como modos de vida considerados marginais podem muitas vezes ser tão disparatadamente idênticas às rotinas vivênciais da classe média.

A Nova Sociedade(2)

jade the pig

Depois de uma semana de autêntico caos social e frenensi televisivo, o Reino Unido tenta agora voltar ao normal, sabendo-se já que o diálogo sobre um pretenso 'Reino Unido multicultural' que parece nunca estar resolvido. Desta vez a criatura cujo o emprego é Reality TV Star e cuja a alcunha é a de The Pig, é expulsa da casa do Celebrity Big Brother, depois de centenas de milhares de queixas terem sido feitas à autoridade reguladora e ao Channel 4 (e algumas em esquadras de polícia!), devido a uma discussão com uma qualquer estrela de Bollywood (paga a peso de ouro para participar) que se tornou uma autêntica campanha de bullying racista, com o canal televisivo a esfregar as mãos de contentamento ao ver as audiências subir e cumplicidade dos outros 'animais' internados na casa.

Aqui nada de novo e, aparentemente este tipo de bullying com algumas tendências racistas têm vindo a ser cada vez mais frequentes (uma participante de outro qualquer reality show defendia o regresso da escravatura duas semanas depois deste acidente televisivo). O que ressalta de toda esta peixeirada é a forma como os políticos britânicos (e indianos) sacudiram a água do capote, mesmo tendo declarado que este triste episódio poderia ferir relações comerciais e de investimento em Londres (onde o investimento financeiro indiano é o 3º maior) e poder vir a tornar-se um incidente diplomático.

Ficam no ar algumas questões sobre a forma como uma simples figura da 'cultura da celebridade' num simples e insignificante programa de televisão, conseguiu, mesmo que por poucas horas, influenciar decisões de empresários indianos, nova políticas culturais de tolerância nas escolas públicas (anunciadas 2 dias depois). Mas o que transparece a cima de tudo, é até onde a 'integridade moral' de uma nação que aparentemente se 'picou', revendo-se, mas sempre negando-o, neste tipo de specimens que são muito mais numerosos do que uma minoria, sobretudo no 'país real'.

Esta à vista portanto, a total supremacia da cultura da celebridade (mesmo as que são crucificadas na praça pública, como actualmente esta criatura), que vem substituir a realidade capitalista das sociedades mutantes onde actualmente vivemos.

A Nova Sociedade(1)


imagem: Inara Tokyo

Como noticiava o Guardian hoje, à alguns dias atrás as ruas de Porcupine foram o palco de brutais conflitos entre a extrema-direita e os seus normais opositores, quando o partido do Le Pen se lembrou de inaugurar uma sede nesta cidade. Até tudo estaria normal se não fosse Porcupine uma das cidades do complexo mundo virtual Second Life, um espantoso espelho social e cultural das actuais sociedades ocidentais, onde (se afirma) tudo o que acontece no mundo físico é possivel de replicar de forma absoluta neste território geográfico virtual.

Tal como no mundo físico, o mundo do Second Life é um dos alvos de várias empresas e instituições que para expandir o negócio e o seu poder, aproveitando a já numerosa população (que já conta com milionários, já que existe também uma currency adoptada), vão-se implantando pelas várias cidades virtuais.

Embora não tenha sido a primeira iniciatica política neste mundo, a acção da Front National inaugura uma nova era na geografia virtual do ciber-espaço. O facto de tal acção ter sido comentada por vários media em todo o mundo, alguns dos quais têm também já um avatar e agências virtuais que entrevistam outros avatars, tratando esta notícia como se tivesse acontecido num mundo físico, torna este (e outros) mundo virtual um Lugar, com todas as considerações sociais, políticas, culturais e 'físicas' que a palavra contém.

Enquanto os cerca de 2,756,685 habitantes do Second Life vão vivendo as suas vidas, criando outras paralelas num espaço físico, replicando as vivências e desejos dos seus 'animadores' num espaço simulado, estes vão dando novos significados ao conceito de espaço virtual, actualmente muito diferente quando estas comunidades apareceram nos anos 90.

Quando este tipo de espaços virtuais complexos, frutos da web 2.0 e de toda a sua complexidade 'social', vão começando a ser notícia também 'deste lado', quer por boas ou más razões, percebemos claramente que nasceu de forma total o mundo imaginado por William Gibson em Neuromancer, tão complexo e cheio de paradoxos como o outro, o físico onde os nossos corpos moram.

ver galeria de habitantes no flickr

Sexta-feira, Janeiro 19, 2007

Vampiros Selectos(1): Valerie

valerie

Infelizmente Valerie a týden divu (conhecido como Valerie and Her Week of Wonders internacionalmente) é o único filme do Checo Jaromil Jires que conheço até à data e, felizmente, um daqueles filmes marcantes dos meus late teens (como o do post anterior) que consegui rever com absoluta felicidade, nos últimos dias.

A maneira como Jires conduz uma das histórias de vampiros mais singulares do Cinema é de uma mestria invejável, conseguindo sintetizar o mito do vampiro sem cair nos seus mais normais clichés, combinando toda uma herança folk, feita de conflitos e simbiose entre o paganismo naturalista e o cristianismo da região do leste da Europa com um onírismo fílmico em conteúdo, estilo e imagética, que confunde os espectadores sobre o que é real ou o que é sonho.

Jires vai revelado durante 'Valerie...' uma das histórias mais fantásticas (no real sentido da palavra) sobre a perda da inocência infantil perante a violência e o desejo sexual dos adultos com 'fórmulas simbólicas' e mecanismos de sentido freudiano (que poderão muitas vezes ser mal entendidos pelo público mais desprevenido), repescando todo o simbolismo dos contos infantis e o folklore Eslavo, num turbilhão simbolista a roçar o onirismo surrealista. Tais qualidades, presentes na obra literária com o mesmo nome, do escritor surrealista Vítězslav Nezval, dão a este filme um sentido literário de crossover entre Nosferatu de Murnau e Alice in Wonderland (tal como no livro de Nezval), transpostas por Jires numa luxuriante de imagem de qualidade etérica poucas vezes sentida de forma tão magnanima no cinema europeu dos anos 70.

Valerie and Her Week of Wonders, ainda considerada uma das pérolas mais escondidas do cinema europeu dos anos 70, conheceu até à poucos meses uma única edição europeia em DVD de 2004, da label exploitation Redemption (que inicialmente o lançou em VHS, encaixando-o no eu catálogo exploitation como um teen exploitation bizarro), que ajudou a criar algum culto. É de resto conhecida a influência que o filme teve junto de Neil Jordan para fazer o aclamado The Company of Wolves e que o projecto paralelo dos Espers, The Valerie Project tem como ponto de partida o filme e a espantosa banda sonora que o acompanha.

Mas possivelmente esta obra-prima poderá agora ser descoberta por um público mais vasto, já que uma recente reedição em DVD há uns meses na República Checa (com alguns extras interessantes) poderá ser aproveitada para possível exportação. Simultaneamente há poucas semanas a Finders Keepers lançou pela primeira vez a extraordinária banda sonora do filme, antevendo-se já um culto muito semelhante ao que o também esquecido Wicker Man teve anos depois de ter sido lançado.

Fazendo uma modesta sugestão pessoal, Valerie and Her Week of Wonders é um filme (e uma banda sonora) a ver (e ouvir) a qualquer custo... e para aqueles que possam ter algumas dúvidas em relação a este filme, aqui fica um link para uma galeria de imagens do filme.

Relatos da Babilónia

hollywoodbab
Não será excessivo dizer que Kenneth Anger é, ainda hoje, uma das figuras mais influentes (directa ou indirectamente) da cultura popular americana. Poderá não ser sempre assumido, mas a forma como Anger esteve relacionado em momentos-chave de uma certa cultura underground e mainstream americana durante mais de 50 anos do século XX, sendo ainda hoje um ícone americano frequentemente citado, é espantosa... ou para usar uma expressão anglofona mais indicada, overwhelming.

Para além de uma obra cinematográfica, pouco numerosa mas extremamente influente, Anger foi (e possivelmente ainda o será) uma 'figura social' extremamente influente, abrangendo vários círculos sociais por vezes antagónicos, talvez devido a uma personalidade multifacetada e com interesse vários.

Embora já conhecido nos círculos do cinema avantgarde devido a Fireworks, Anger conheceu a sua primeira onda de fama mainstream ao publicar em 1958, durante a sua estadia em Paris a convite de Cocteau, o célebre e maldito Hollywood Babylon, um compêndio venenoso dos escândalos privados de algumas das estrelas de Hollywood, muitas delas superstars mundiais ainda hoje conhecidas (e vivas), o que lhe valeu a proibição de publicação deste curioso livro até 1974 nos EUA. Passadas várias décadas, e como se algumas das curiosas histórias das estrelas tivessem ficado por contar, Anger publicou outro tomo (Hollywood Babylon 2, em 1984), completando os seus relatos sobre aberrações sexuais, abuso extremo de substâncias tóxicas, sede de poder e destruição pessoal, sempre num tom oscilando entre o jocoso e o ternamente elogioso.

Ambos os os livros estão recheados de pormenores de vidas privadas quer de personagens mundialmente conhecidas, quer de pobres coitados que nunca conseguiram sequer os seus 15 minutos de fama, tornando esta escolha 'democrática' um relato completo da complexidade e estranheza da psicologia humana sob a influencia do 'cheiro' da fama.

Por entre os seus artigos sobre suicidio, depressão, alegrias superfulas, glória temporal e excessos corporais 'babilónicos', Anger vai contado a 'outra' história de Hollywood, aquela que não figura nos anais da história de Tinseltown, com detalhes de fabulosas histórias, muitas vezes pequenos episódios aparentemente sem significado, que modificaram completamente toda a face da cidade.

Para lá dos 'mexericos' e da narrativa sarcástica do comportamento humano, estas duas obras são fontes quase inesgotáveis de informação (que o digam inúmeros realizadores que usaram estes dois livros como pesquisa para trabalho, o exemplo mais frequente será Mulholland Drv.), Hollywood Babylon 1 e 2 são ainda hoje dos livros mais úteis para os cinéfilos e interessados na história do Cinema americano que queiram obter pistas ocultas sobre figuras, obras e factos que não chegaram ao conhecimento geral. A agarrar à primeira oportunidade, em 1a ou 2a mão.

Punxploitation

suburbia

Das obras de Penelope Spheeris, Suburbia (1984) é decerto aquela que sempre me agradou pela forma despretenciosa com que consegue mostrar teenage angst de uma forma politicamente incorrecta e verdadeira, sem cair em tiques arty.

Descrevendo a vida de um grupo de punks (verdadeiros e dos quais muito poucos são actores profissionais), que ocuparam uma casa num subúrbio abandonado de L.A. (se não me engano), Spheeris compõe um conto urbano-depressivo da alienação da sociedade americana na época das Reaganomics, onde (aparentemente) o No Future não era uma figura de estilo e onde sabemos desde logo que, devido aos confrontos entre este pequeno grupo de rejeitados com a comunidade, as coisas decerto acabarão mal no final.

É claro que esta obra de Spheeris não será uma obra-prima do cinema dos anos 80, com um script algo coxo e uma carga representativa fraca, devido a um cast na maior parte amador, mas o teor quase documental, sem concessões (e que provocaram choque na altura) com que a realizadora conduz este filme, fazem de Suburbia uma das obras mais verdadeiras, significativas e importantes das convulções juvenis nos anos 80.

Sendo um dos meus filmes favoritos de adolescência, é com algum espanto que agora revejo este filme com uma especial surpresa, ao notar que Suburbia não perdeu, durante todos estes anos, a sua energética mensagem social, datada mas influente para a definição de um cinema juvenil low budget e de contornos documentais, que começou a aparecer na época.

The Haunted and the Hunted

dementia13
Tagline: You Must Pass the "D-13" Test To Prepare You for the Horrifying Experience of Dementia 13. If You Fail the Test...You Will Be Asked to Leave the Theater!

Sendo o primeiro feature film 'oficial' de Coppola (os anteriores filmes foram recusados pelo realizador como seus), Dementia 13 (1963) tem sido com alguma regularidade revisitado por cinéfilos e estudantes de cinema o suficiente para ter já um estatuto histórico já assegurado.

Mesmo sendo uma película mediana, muito marcada pelos flavors da época, e com dois nomes maiores do cinema fantástico dos anos 60, Jack Hill e Roger Corman, a primeira obra de Coppola possui um encanto momentaneo na forma como compõe alguns dos clichés do género, parecendo já anunciar uma nova época neste 'género' cinematográfico e antevendo a importância que o chamado slasher cinema teria a partir de meados dos anos 70.

É notada uma grande influência de Hill e Corman (existem alguns momentos exploitation, pois claro!), sendo quase um produto destas duas sumidades cinematográficas, mas muito do simbolismo imagético de Coppola começa já a emergir aqui, mesmo que com algumas referências a Psycho e algum gore até então pouco usado em cinema (estavamos ainda a alguns anos de distância do Herschell Gordon 'Wizard of Gore' Lewis e de todo o género nascido após a obra desse pioneiro), fazendo deste singelo filme uma obra muito interessante.

Quarta-feira, Janeiro 17, 2007

Nodame a Go-Go!

nodame0135LG
imagem cortesia de Memento

Os mais atentos a este blog decerto que já entenderam que pelo volume de posts sobre Nodame Cantabile das últimas semanas, a coisa ainda está para durar. As magníficas bandas sonoras tocam sem parar (sim existem várias) e a espectacular série live-action já foi vista e revista cá por casa.

Agora com a estreia da série anime, no bloco de animação Noitamina, (que tornou conhecidas as séries Honey and Clover ou Paradise Kiss) a coisa começa a tornar-se algo cansativa e o facto é que esta nova adaptação, feito num medium que poderia ainda ser mais proveitoso ao mostrar o exagero cómico que o dorama tão bem traduziu, não consegue sequer ter o exagero comic (e cómico) e o melodrama camp e divertido que a estupenda série com 'gente a sério'.

Mesmo dizendo isto, e sobretudo para os fans, a série consegue desde logo agarrar os espectadores, mesmo os que já não sejam 'virgens' ao 'fenómeno Nodame', com uma excelente composição de personagens, situações caricatas e comportamentos excessivos, num 'palco' que os outsiders sempre consideram formal e sossegado .

Claramente recomendado aos fans, Nodame Cantabile (o Anime, como tudo o resto), decerto que atrairá novamente mais fans para este (já) produto e sobretudo, como todas as outras reprises em vários formatos do manga original de Tomoko Ninomiya, e sobretudo, dará a conhecer um outro lado da chamada 'música clássica' a públicos normalmente aversos a tal género. Aprovado!

Terça-feira, Janeiro 16, 2007

Pourquoi pas?

mareva

Este senhor avisou e a malta não ligou. Confesso que fiquei muitos meses indiferente ao contagiante post sobre a Mareva Galanter à largos meses no piu piu, talvez por culpa de uma certa snobeira de fan de yé-yé que não consegue enfrentar o facto que, para além da deusa April March, ninguém conseguiu traduzir actualmente o espírito de clássicos da pop como 'Laisse tomber les filles' ou 'Le temps de l'amour' ou até mesmo esse clássico da 'cuequinha molhada' que é 'Ne dis Rien'.

Galanter não possui grande talento (para além dos físicos) para cantar de forma convincente '7h du Matin', como tinha Jacqueline Taïeb, a sua sensualidade lolita é (pode-se dizer) fabricada pelo marketing, ao contrário de Gillian Hills e a sua aparente inocência fica muito longe de Chantal Goya e da rainha France Gall. A sua versão de 'Pourquoi pas moi' é um pavor (e a razão porque nunca levei a sério este album) e ouvir uma voz feminina cantar 'L'Hôtesse de l'Air', um 'território' no ultra-caústico Jacques Dutronc, será, talvez, bizarro. E diga-se de verdade que, só se fica a ganhar se se preferir ouvir o best of dos Rita Mitsuko ou qualquer album dos Stereo Total a este album.

Mas no topo de tantos 'defeitos', sejamos honestos, existem aqui magníficos exemplos de uma frescura que poderiam (e talvez o tenham feito quem sabe) originar um revival do género. Poderá faltar garra em alguns momentos, mas Ukuyéyé, o album em questão, tem de facto momentos magníficamente catitas, como uma decente versão de 'La Madrague', quase ao nível do original da BB (sacrilégio!), o 'pop-western-carregado' de 'Le temps de l'Amour' é inresistível e uma versão apenas vestida de Ukelele de 'C'est Bon' consegue fazer exclamar o título da faixa de maneiras muito inventivas e insinuosas.

Não será uma maravilhosa obra-prima do revivalismo yé-yé (esse lugar está já ocupado por April in Paris), mas Ukuyéyé é uma excelente iniciação ao género e um daqueles 'documentos' de quem mesmo os fans hardcore do Yé-Yé decerto conseguirão tolerar, mais não seja pela senhora Galanter. Eu cá não me queixo mais!

Unrated, Rated ... and X-Rated

ThisFilmIsNotYetRated

Para os sortudos quem nunca viram um ecrã semelhante ao da imagem em cima, decerto que This Film Is Not Yet Rated será um dos mais surpreendentes (será?) documentários lidando com cultura popular, dos últimos tempos. Os restantes decerto que conseguirão prever desde logo algumas das coisas que Kirby Dick tem para contar neste singelo documento sobre a absurda situação de censura a que todos os consumidores de cultura popular americana são submetidos através da 'avaliação moral' de supostos revisores da indústria cinematográfica.

Claramente não sendo um documentário brilhante, This film... consegue, no entanto, desde logo puxar para terrenos do escândalo o surreal sistema de classificação de filmes pela MPAA, começando pelos já costumeiros testemunhos de 'vítimas', neste caso realizadores, para depois subir o nível a uma 'análise comparativa' entre vários exemplos pouco plausíveis de injustiça e até censura, que estranhamente favorece, por exemplo, cenas de excessiva violência a cenas quase inocentes que contêm apenas e só, sugestões de conteúdo sexual.

Mas a parte mais inédita deste documentário é claramente a forma como Dick tenta descobrir os membros do juri da MPAA, através de uma detective privada (!), para depois partir para um confronto directo com os membros desse organismo, apresentado as evidências de que tudo o que normalmente é afirmado pelo spokesperson da organização. Puxando ainda mais o confronto, Dick submeteu o filme à própria MPAA (!), e quando a classificação foi conhecida, recorreu ainda da decisão, numa recambulesca sucessão de episódios, também eles explicados no final do documentário.

Mesmo sendo um mediano documentário, This Film Is Not Yet Rated é um muito interessante documento sobre a actual cultura popular, desde sempre atingida por censura, ratings e sobretudo ameaças de favorecimento ou desaparecimento através das actuais grandes multinacionais que controlam a indústria de intertenimento americano (e mundial). E mostrando sobretudo como a própria indústria (a MPAA é uma organização formada pelos maiores estúdios, pertencentes às maiores multinacionais que controlam os media) se favorece, usado de argumentos imbecis, mas poucas vezes questionados, este documentário prova que aqueles que usam os 'serviços' destas corporações sem pestanejar (todos nós, portanto), estão a ser mentalmente manipulados.

Segunda-feira, Janeiro 15, 2007

Lock and Loll! (3)

Bunnys_Cover_Red_Suits
Quando os lendários Ventures fizeram a sua primeira tour no Japão, estavam longe de imaginar que originariam uma das mais bizarras e originais manifestações do surf music. Realmente espantados com uma recepção numerosa em todos os concertos da tour, os Ventures foram vistos por muitos dos músicos do género que resolveram replicar com um original twist o estilo da banda, com resultados extremamente originais (e muitas vezes hilariantes), muito longe dos diversos e aborrecidos projectos que ainda hoje vão imitando os clássicos da surf music.

Sendo o primeiro guitar hero japonês, Takeshi Terauchi (aka T. Terauchi, Terry) foi (e é ainda) um desses inovadores espantados com o som rápido e frenético da banda. Com um estilo ultra-rápido e frenético, por vezes quase selvagem, Terauchi aliou o seu algo precoce virtuosismo, imitando o som dos Ventures, aos sons mais tradicionais nipónicos (replicando o género Minyo, um tipo de canção mais rural), em registos a roçar o acrobático.

Tal como Let's Go Classics (como Takeshi Terauchi and the Bunnys) de 1967, este This is Terauchi Bushi é uma das melhores introduções ao som de uma das personagens mais antigas (e das mais bizarras) do rock nipónico. Com uma carreira de mais de 40 anos, Terauchi ainda é muito desconhecido pelo ocidente, embora seja uma das figuras de culto dos fans de surf mais esclarecidos, tendo mesmo alguma influência em bandas recentes (e mais decentes do género) que tentam replicar e reavivar este tipo de som.

A ouvir assim que existir qualquer possiblidade de tal!

Domingo, Janeiro 14, 2007

Domingo à Tarde: Piano e Guitarra

domtar

Walter Gieseking - Debussy - The Complete Works for Piano
Kristin Hersh - Hips And Makers

Olhó Sonoro!(2)


Nodame Orchestra RS LIVE! (Epic Records Japan), na rakuten.co.jp

To Call it Masterpiece...

deer.hunter

... is to state the obvious, 15 December 2006
Author: dbdumonteil (in IMBD)


Of the first two American films about the Vietnam war with a priceless artistic weight, "the Deer Hunter" wins hands down over "Apocalypse Now" (1979) although Francis Ford Coppola's work is very potent too.


But would it be judicious to pigeonhole Michael Cimino's work in the category of the war movie? Unlike Coppola's visual nightmare, only the central part takes place in Vietnam and the filmmaker barely shoots one fight sequence before Mike (Robert De Niro), Nick (Christopher Walken) and Stevie (John Savage) are prisoners of the enemy and are forced to play Russian roulette in the notorious unbearable scene. Actually "the Deer Hunter" is a film straddling two movie genres: the war movie and the social drama. Rather than shooting a political film, Cimino chose to represent us the deadly impact this nightmarish war had on an American community whose hopes and values disappeared.


continuar a ler o texto

Sábado, Janeiro 13, 2007

Olhó Sonoro!(1)

A Bout de Souffle, Martial Solal (amazon.fr)

Bolas!

balls

Ainda estou a conseguir tentar entender onde estará o brilhantismo de um dos mais aclamados albuns indie britânicos de 2006. Por mais que tente ouvir algum motivo de interesse em Balls, dos Broken Family Band, e sobretudo entender algumas das mais exuberantes críticas músicais do ano, não consigo entender onde este mediano (talvez medíocre) produto tenha alguma coisa relativamente diferente de dezenas de outros saídos no ano passado... esperem.... estou a ouvir algo diferente... oh! não, pessoal era só impressão minha.

Este tipo de alt-neo-Western'n'Country-indie-pop, feito por meninos burgueses que vão combinando um humor existencialista pós-Cake, e com muitos tiques vaqueiros, poderá até ser interessante na teoria, sobretudo se embrulhado numa capinha retro bem catita, algo aliás que deverá ser norma neste tipo de bandas (outro aclamada nulidade do ano é a estreia dos Frattelis, também com uma capa de semelhante temática, como poderá ser visto aqui), mas quando se desembrulha o rebuçado, o sabor é como os rebuçados de anis, muitos gostam e alguns odeiam.

Como se não bastassem já os inúmeros projectos alt-country-qualquer-coisa, feitos por putos em cidades americanas, que lá vão repetindo sessões audiofilas nos ícones do género e tentando amanhar um som vaqueiro-chick, onde as vacas já vem feitas em hamburger, agora temos pessoal vindo de Cambridge, onde talvez existam vacas as sério, mas onde a coisa não resulta de forma séria.

Parecendo uma revisitação da British Invasion, quando miúdos ingleses a imitarem sotaques sulistas e a representarem a cultura do delta do Mississippi, tentavam vender (com sucesso, diga-se) discos do outro lado do Atlântico, este tipo de discos servirá algum propósito, mas confesso que ainda estou para descobrir qual.

De Balls ficam uma mão cheia de belos riffs, nem sempre tão originais como seria de esperar, duas ou três faixas (You're like a Woman, Alone in the Make-out room...) que poderiam fazer uns singles bastante consistentes, mas... that's all folks!

Sexta-feira, Janeiro 12, 2007

11.01: Bye Bob!

RAW

Algo já esperado pelos amigos e fans do autor, e comentado por aqui à algum tempo, Robert Anton Wilson deixou a nossa dimensão às 4.50am (California) do dia 11.01. Aqueles que quiserem deixar alguma mensagem no blog de RAW, carreguem aqui.


How we all laughed!
O such lovely companions
On this splendid old craft!
Here’s to bold Captain Wilson
Who jumped ship last night
Amused to the end
By his share of the Light!

Hail Eris! Hail Arlen! Hail Schrödinger’’s Cat
Hail Robert Anton Wilson
Wherever you’re at.

with much love
Nick Herbert

Quinta-feira, Janeiro 11, 2007

Gallery of Cool (5): Gillian Hills

GillianHills
A história da diva Yé-yé na Cha cha Charming!

Gallery of Cool (4): Woody Guthrie

WoodyGuthrie

O Esplendor e a Decadência

Satyricon

The "theatre effect" is often the sign of primitivism in film drama -- except when it's Orson Welles or Frederico Fellini. Satyricon's sets are spectacular, neo-modernist constructions that combine both the pictographic art of the past with the angular sensibility of the present. Characters declaim their lines to phantoms beyond the screen or to decadent aristocrats in the burlesques that are frequently featured within the playhouses, feasts, tombs, temples and the other venues that carry the action of this mythical adventure.
Lawrence Russell, Culture Court

Desde a primeira vez que vi Satyricon, que imaginei que os executivos da MGM esperavam de Fellini uma espécie de filme sword and sandals ou um exploitation arty, que conseguiria cativar as audiências ao ponto de ser um êxito de bilheteira monumental. Claramente tal não aconteceu e este magnifico filme ficou para a história como um dos documentos mais mal amado quer pelo público mainstream, quer pelos fans de um dos maiores realizadores de sempre.

Pelo que já li algures, Satyricon seria um dos favoritos de Fellini, onde deixou a sua marca mais vincada, quer esteticamente, quer no seu 'existêncialismo luxuriante'. Confesso que não sei se tal será verdade, mas o facto é que este será o ponto de viragem na carreira do realizador, quase que fechando um ciclo, começando após este filme a fazer uma 'revisão biográfica', que embora cheia de momentos espectaculares, deixa de parte outras considerações, sobretudo estéticas, de parte. E não querendo parecer excessivo, parece-me que esta será a obra-prima (estética) de Fellini, onde este deixou em todas as frames, segundo a segundo, um valor estético absoluto e muito poucas vezes igualável.

Não merecendo de forma alguma algum do desprezo a que alguns fans votaram o filme, sobretudo por ser um produto em parte (e também) com dólares e sobretudo devido à sua(s) ambiguidade(s), Satyricon merece uma urgente revisão histórica, para se entender que nunca antes (e possivelmente nunca depois) o Esplendor e a Decadência do Império, mas também a sua complexidade e humanidade, foram filmadas de forma tão verosímel e simultaneamente tão simbólica.

Fica a sugestão de leitura da análise rigorosa de Lawrence Russell ao filme e sobretudo a visão ou revisão desta obra-prima.

Gallery of Cool (3): James Fox

performance1

O cockney gangster (James Fox) que depois de ter caido em desgraça no gang dos gémeos Kray (copiados mais tarde em Snatch), refugia-se no ninho luciférico de Mr. Taylor (Mick Jagger), para descobrir as simbioses geradas pelo psicadelísmo. 37 anos depois este filme, tantas vezes desvalorizado, é um dos mais importantes documentos do cinema psicadélico, condensando todos os tiques do género (no cinema), e tentando levar para o mainstream influentes técnicas narrativas e visuais (e nem sempre reconhecidas), como as desenvolvidas pelo mago Kenneth Anger, Warhol e os escritos de Jorge Luís Borges, em numerosas citações durante o filme.

Poderá não ser tão citado como Blow Up de Antonioni ou Easy Rider de Hopper, e poderá não ser tão espectacular como El Topo (do mais esquecido e no entanto influente realizador de sempre, Jodorowky), mas de facto, depois de ter maturado tantos anos, Performance merece uma urgente revisão, de forma a fazer-se justiça. Recomenda-se a versão uncut.

Quarta-feira, Janeiro 10, 2007

Renascimento?

Enquanto, durante a semana passada, meio mundo estava com os olhos postos no Consumer Electronics Show (CES) em Las Vegas, para assistir a mais um desenrolar da batalha entre a Apple e a Microsoft, com as costumeiras promessas de mais gadgets para tornar as nossas máquinas mais independentes e finalmente tornarem a TV um objecto redundante (finalmente), a GM discretamente anunciou mais notícias sobre o 'lançamento' do hibrido Saturn Vue, depois de ter desmantelado por completo o projecto EV1.

Inicialmente anunciado no último Los Angeles Auto Show à um mês atrás, este projecto está a ter um tratamento mediático muito discreto por parte da GM, talvez a tentar esconder o facto de que o documentário 'Who Kill the Electric Car' (já agora para os mais distraidos, podem ver o post sobre o documentário) gerou algum mal estar na multinacional.

E agora, depois do discurso à nação de Bush Jr. (que parece finalmente dead and gone a avaliar pelo desespero do clan Bush), possivelmente o lobby americano do petróleo estará a perder importância, a GM vai tentando limpar a imagem, sabendo que a 'transição' trará algum futuro mercado à corporação (As important as the transition from horses to horsepower, dizia o CEO Rick Wagoner!).

A ver vamos!

Lock and Loll! (2)

lockloll2

Mais recordações sonoras made in Japan:

a) Uma recordação sonora com 20 anos dos japoneses S.O.B. com Don't be swindle (1987) e com Leave me Alone (1986)

b) Umas das mais enigmáticas girls-band, as nipo-britanicas Mika Bomb, com o seu ruidoso opus The Fake Fake sound of Mika Bomb, um lançamento da Damaged Goods de 2001

Ver anterior artigo Lock and Loll!

Sábado, Janeiro 06, 2007

Gallery of Cool (2): Nodame

nodame
A actriz Juri Ueno como Megumi Noda (Aka Nodame) no dorama cómico Nodame Cantabile, cujo último episódio foi exibido no dia de Natal na Fuji TV, e que já está a gerar fenómenos de culto surpreendentes. Aguarda-se a série em anime!

Noddle a Go-Go

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imagem cortesia de Mooiness!

Momofuku Ando é um nome que poderá não dizer absolutamente nada a milhões de consumidores de instant noodles, AKA Ramen, mas sem esta absoluta e imprescidível invenção deste intrepeneur, biliões de refeições teriam sido muito difíceis de fazer (e de comer). Fica aqui uma modesta homenagem ao inventor desta fabulosa invenção, falecido ontem (dia 5 Janeiro).

Gallery of Cool (1): Joan Crawford

CrawfordJoan
imagem cortesia de Dr. Macro

Balbúrdias Cinematográficas(2)

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Um dos documentos estranhos dos 60s, The Party, tal como o filme no primeiro post com este nome, é uma espécie de fruta da época, revelando o kitsch e liberdade expressiva de muito do cinema cómico da época. Um filme que deve tanto ao génio executivo de Blake Edwards como das estupendas qualidades de improvisação de Peter Sellers.

Sendo já um filme onde ambas as personalidades estavam já a entrar em ruptura, devido aos choques de personalidades sentidos durante a rodagem de Pink Panther, e com um script mínimo que dava uma liberdade criativa aos actores para um improviso por vezes brutalmente engraçado, The Party revela algumas das cenas mais caóticas do cinema dessa década.

Desde o início que a personagem de Sellers, Hrundi V. Bakshi um falhado actor indiano a tentar entrar nos estudios americanos, vai fazendo crescer a balbúrdia em cena, quando convidado por engano para uma festa de Hollywood, tentando comportar-se como uma quase-celebridade para adquirir alguma aceitação e possíveis trabalhos. Fazendo um crescendo no recurso ao slapstick, Sellers vai conduzindo a improvisação até ao ponto em que no set (uma mansão onde toda a acção é filmada), é incluido um elefante (bébé) que é lavado num volumoso banho de espuma na piscina interior da mansão, e que quase que foi literalmente fatal para alguns actores em cena(!).

The Party poderá não ser um dos momentos mais brilhantes de ambos este realizador e deste actor, mas é um documento monumental do cinema de cómedia, introduzindo alguns recursos técnicos para realizar uma obra tão improvisada, sendo um dos filmes mais inovadores da época, demonstrando uma liberdade criativa desconcertante.

Weird Press

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Editada numa garagem de Cardiff, a acreditar nos press releases, a Kruger faz as delícias dos aficionados do pop indie sempre que é editada em papel e distribuida à borla pelas lojas de discos indie e outros locais trendy para os tarados deste fandom.

Sempre à espera o próximo número (o de Dezembro está prometido mas não editado), os artigos compostos pelo trio dos 2 Mikes e de 1 Joe fazem as delícias cá por casa, sendo uma das leituras de casa-de-banho favoritas, que muitas vezes, e embora sem nunca se perceber onde acabam as mentiras e começam os factos, dão origem a descobertas sonoras muito interessantes.

Aqueles sortudos que consigam por as mãos (e os olhos) nesta mag-quase-fanzine aproveitem, os desafortunados que nunca conseguiram fazer tal, sempre podem fazer download dos números antigos em formato pdf aqui.

Requiem Para um Post Esquecido(2)

lotsodom

Melville Webber and J. S. Watson, Jr., collaborated on this film in the relative isolation of Rochester, New York, at the end of the 20's and beginning of the 30's. It represents one of the first attempts at transplanting the European avant-garde cinema to America. Clearly influenced by German Expressionism in its use of stark and geometrical decor and its pointed, often hyperbolical psychological confrontations, the filmmakers favored the multiple superimposition of the same image, echoing across the screen.

Educational Media Collection

I have never seen light manipulated so eloquently as in these expressive lights and shadows which sometime form men or fragments of a body, sometime coagulate into flowers or break up their particles into water ... and all times make Lot In Sodom a moving and arresting film.
Herman G. Weinberg, Close Up, 1933

One of the first American sound experimental films ... Significantly (Watson and Webber) avoided a direct representation of the sexual conflict implicit in the Biblical story and showed instead a series of symbolic quasi-erotic tableaux that emphasize the elemental qualities of the story ... its handling of sexuality now seems painfully obscure; at the time, however, its subject matter was considered too much in advance of popular taste to permit commercial distribution. Shot on 35mm, it was not available to amateur (16mm) markets either.
David Curtis, Experimental Cinema

Lot in Sodom, realizado em 1933 por James Sibley Watson e Melville Webber é uma das pérolas do cinema avantgarde americano infelizmente algo desconhecido e nem sempre apreciado, muito devido à sua percursora forma de erotismo, demasiado ousada para a época. Uma espantosa fotografia e um sentido estético, mesmo que 'imitando' algumas correntes artísticas europeias, extremamente apurado para a época e realizado de forma espectacular por estes então 'inexperientes' realizadores, torna este filme um dos documentos mais interessantes do cinema americano da primeira metade do século XX.

Actualmente com estatuto de Public Domain, existem algumas torrents e downloads gratuitos (e legais) de Lot in Sodom on-line, como este aqui.


*post inicialmente feito em 4 de Setembro 2006

Sings Like an Angel, Plays Like the Devil

megan

Lançado praticamente ao mesmo tempo que o album do post anterior, Wire Waltz, segundo album (ao que parece) dos Last Town Chorus, está a ter um sucesso algo surpreendente, sobretudo aqui pelo Reino Unido. A press parece gostar de Megan Hickey (agora a solo, com a partida após o album de estreia de Nat Guy) e da forma como a slide guitar grita de uma forma espectacular com uma voz misturada, que tanto apela a uma liberdade expressiva identica a Cat Power, como sussurra de melancolia como Hope Sandoval.

Mesmo entendendo que este é um album já com muito hype e que poderá até ter um toque pretencioso e tendencioso (afinal nunca o neo-country e o som southern esteve tão popular, mesmo vindo de gente a morar na Brooklyn), Wire Waltz merece ser desprendido de tais factores e ouvido vezes sem conta, de tal forma são as composições 'orelhudas' de Megan Hickey.
Poderá estar incluido no que de mais pop se faz na actual Americana (por vezes chega mesmo a cheirar a plástico), mas este é um daqueles albums que não poderá ser ignorado pelos fans do género e por aqueles que esperam ainda um album de iniciação ao género, com momentos deslumbrantes e uma slide guitar espectacular, como apenas à memória recentemente em Random Harvest dos Friends of Dean Martinez, por aqui já comentado à uns aninhos.

*o título do post foi tirado desta frase do Village Voice: "She sings like an angel and plays lap steel guitar like the Devil."

Initials NN

nastasia

Com já 5 albuns editados, Nina Nastasia parece ainda ser uma daquelas pérolas que só brilham para o tipo de público que costuma ouvir esta nova vaga de neo-americana de contornos mais melancólicos. Mas se Blackened Air de 2002 figurou em algumas listas de best of the year ilustres, On Leaving, o album de 2006 que me chega agora aos ouvidos merece sem dúvida figurar nos lugares cimeiros das listas de 2006 e ganhar a atenção de um público mais largo.

O estilo 'neo-Southern' de Nastasia está agora consolidado e polido, com esta nativa de NY agora menos poupada na instrumentação e a aliviar o peso deprimente que os anteriores albuns continham (algo que está francamente ultrapassado), conseguindo aqui a sua masterpiece, em temas por vezes desconcertantemente simples, um pouco como o que aconteceu com Chan Marshall (AKA Catpower) no seu espectacular The Greatest.

Este é um daqueles que será um crime ficar esquecido no ano que acabou mesmo à pouco!

Sexta-feira, Janeiro 05, 2007

They Are Back!

genshiken2

Seja uma ponta de otakuness ou um fascínio pela invulgar caracterização de personagens numa série slice of life, Genshiken marcou de forma invulgar aqueles que gostam de anime. Cá por casa não foi excepção, com a série adaptada dos manga pela Genco a ser revista de forma periódica.

Agora passados mais de 2 anos, uma OVA (Original video animation) de 3 episódio vem tentar completar a história original dos manga, algo 'amputada' na primeira série. Percebem-se algumas (ligeiras) mudanças no caracterização das personagens, pequenas diferenças estéticas no estilo, mas passados estes anos, e sendo um dos follow-ups mas esperados, este 'Genshiken 2' vem trazer mais uns minutos preciosos a uma das séries mais especiais dos últimos anos. A ver, rever e divulgar!

WARP!

Gokinjo_Monogatari

Agora que tem vindo a ganhar um reconhecimento muito para além das fronteiras nipónicas, Ai Yazawa, a autora dos famosos Paradise Kiss e Nana, parece estar a ser alvo de uma 'revisitação' na carreira, com alguns fansubs a 'resgatarem' do esquecimento a série de anime Gokinjo Monogatari (traduzindo-se como 'contos da vizinhança' ou algo parecido), adaptado de um manga desta autora.

Decerto que aqueles que procuram aqui alguma da sofisticação gráfica das outras duas séries já citadas decerto que ficarão desiludidos, mas a história dos vizinhos Mikako e Tsutomu, ambos inseparáveis desde a infância e ambos estudantes na mesma escola de arte, mostra uma deslumbrante artwork, muito confinada a um certo 'cute' é certo (também sentido em algumas das personagens de séries posteriores, afinal Yazawa é uma autora de shoujo), mas com uma exuberância pop ainda pouco sentida na animação japonesa na altura da sua produção (1995).

Sendo uma espécie de prelúdio de Paradise Kiss, este Gokinjo Monogatari possui ainda agora, passados 12 anos depois, uma deslumbrante e pioneira frescura estética, depois consolidada em PK, quem nem mesmo alguma da técnica de animação, algo datada, parece comprometer.

Quinta-feira, Janeiro 04, 2007

Requiem Para um Post Esquecido(1)

CottenJoseph
The cities are full of women, middle-aged widows, husbands, dead, husbands who've spent their lives making fortunes, working and working. And then they die and leave their money to their wives, their silly wives. And what do the wives do, these useless women? You see them in the hotels, the best hotels, every day by the thousands, drinking the money, eating the money, losing the money at bridge, playing all day and all night, smelling of money, proud of their jewelry but of nothing else, horrible, faded, fat, greedy women... Are they human or are they fat, wheezing animals, hmm? And what happens to animals when they get too fat and too old?

Uncle Charlie (Joseph Cotten, Shadow of a Doubt)

Este é o requiem por um post à muito esquecido, recuperando uma revisão do filme feita à mais de 4 meses, através da cópia restaurada para a edição em DVD na Hitchcock Collection da Universal.

Mínimo Denominador Comum (3)

Courtney-Love
Sem querer 'rosnar' muito sobre o tema, parece que, agora que um novo ano começa, o Reino Unido volta a ser invadido pelos reality shows, que ocupam uma grande parte dos esforços dos principais canais públicos para se baterem pelas audiências dos coach potatoes. E sendo um meio onde ex-celebridades e wannabes se misturam para tentarem (ou recuperarem) os seus minutinhos de fama.

Simultaneamente a isto, parece actualmente existir um esforço algo suspeito em 'regenerar' algumas ex-estrelas através de uma exposição mediática(também suspeita) que se baseia em qualquer novidade pouco relevante, tornando tais figuras uma espécie de 'banda de suporte' num eterno concerto para espelhar a estupidez do sistema de celebridades.

Há falta de melhor, Courtney Love, uma artista actualmente reformada nos meios americanos muito por culpa própria, teve no mês passado uma exposição exagerada nas rádios da BBC, decerto devido ao intervalo entre os Big Brothers e outros produtos semelhantes, que esta semana recomeçam e que, no preciso momento em que escrevo isto, já ocuparam uma larga parte da análise das 'notícias do dia' da BBC Five Live (radio).

Precisamente esta mesma rádio deu um destaque alargado à actual obra literária da senhora Love através de uma longa (demasiado longa) entrevista, louvando o brilhantemente vazio e estúpido Dirty Blonde, um diário (?) de uma vedeta que, em entrevista, não consegue articular uma única frase estruturada. E como se não bastasse, outra rádio da BBC convidou também a sra. Love para mais um programa onde esta tentou (?) explicar a ideia por detrás desta tão comentada obra (??), fazendo o seu choradinho do 'vocês-sabem-lá-como-é-difícil-ser-famoso' e ainda, como se não bastasse (parte 2), entregaram-lhe a BBC6 através do 6 Music Selector 2006, um veículo de estúpidez sonora por excelência, de forma a dar a sra. Love a oportunidade de exercitar os seus dotes de DJ.

Claramente a abusar, as rádios da BBC tentaram expremer a coisa até às últimas consequências, fazendo desta figura uma espécie de 'porta-estandarte' do que será o bom-gosto de ter um dos famosos primos americanos a aparecer tantas vezes apenas numa semana e meia, tentando aparentar alguns conteúdos numa época pré-natal sem reality shows. Mas o que realmente aconteceu foi apenas mais um período 'para encher chouriços', que faz as personagens de Spinal Tap fazerem sentido, algo pouco digno de um grupo de rádios que (costuma) ser pontuado pelos seus conteúdos interessantes.

Piadas Surrealistas

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O Mundo de Ryuji Masuda parece povoado de personagens desiquílibradas que tentam ressuscitar o que foi até à algumas décadas uma constante em animação, a comédia surrealista.

Depois de em 2003 Ga-Ra-Ku-Ta ter feito algum furor devido a uma violência cómica, reminiscente nos velhinhos Loony Toons, pouco vista na actual animação japonesa, Masuda subiu ainda mais a fasquia no ano passado, com a história de dois seres alienigenas (Corona e Crescent, um sol e uma lua) que aterram de forma forçada a casa de Funny, uma roliça personagem que vive num mundo infantil onde as regras da Física, Quimica e da Razão parecem não existir.

Funny Pets parece, por um lado uma revisitação constante a esse universo pontuado pela violência rídicula e exagerada que fazia a delícia dos infantes e adolescentes que cresceram a ver desenhos animados do Roadrunner e Bugs Bunny, mas por outro lado, toda a sanidade mental que estas (actualmente ultrapassadas) obras americanas possam ainda ter, são largamente substituidas por um apelativo caos surrealista onde todas as convenções são abandonadas de forma a conseguir mostrar a relação (igualmente inocente e perversa) das três personagens que vivem em conjunto numa casa saída de qualquer conto infantil.

Usando apenas 3D e sem conter qualquer linha de diálogo, as personagens de Funny Pets conseguem re-aproveitar o ambíguo mundo infantil que desde os anos 80 'contaminou' as formas de expressão adultas, para criar um universo paralelo onde pulsões surrealistas se exercem de uma forma hilariante, com momentos brilhantes.

Claramente recomendado aqueles que queiram ver novas expressões gráficas na actual anime que reutilizem o cute de uma forma desconcertante.

Balbúrdias Cinematográficas(1)

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Agora que aqui pelo Reino Unido passou todo o furore sobre a nova 'excrecência' James Bond, quem sabe devido ao final de mais um Natal, nota-se a completa indiferença em relação a mais este produto (aqui a palavra adquire um significado autêntico) da série, repleta de já-não-tão interessantes bond girls, de gadgets rídiculos e de mais product placement desbragado, enquanto mais um actor encarna este herói da extrema-direita, tão passé e decadente como o Natal dos Hospitais.

Embora pareça mentira, existem cinéfilos apreciadores do cinema de espionagem, que nunca conseguiram levar mesmo a sério esta figura grotescamente fantasista, engrossando a 'pequena maioria' que já desistiu nos últimos 20 anos de sequer olhar para os trailers da série, de forma a não estragarem o serão. Este grupo claramente divide-se entre aqueles que, com um gosto apreciável, gostam de ver filmes de espiões decentes, como The Ipcress File e Funeral in Berlin (ambos magníficas adaptações de Len Deighton e ambos com o verdadeiro herói britânico, sir Michael Cain) e aqueles que cederam à balburdia psicadélica do bastardo Casino Royale de 1967.

Pouco mais se poderá dizer de novo desta verdadeira obra-prima do camp dos 60s, um manifesto cinematográfico recheado de figuras ilustres do cinema e com um guarda-roupa, cenários e soundtrack que marcaram o bizarro e o kitsch dessa década. Casino Royale não tem um Bond, mas sete, revelando os seus defeitos e virtudes, os seus pecados e paixões e sobretudo os seus inumeráveis tiques pessoais, misturando-se entre o barroco luxuoso e o popluxe de plástico, que o filme tão bem revela nas obras deste (infelizmente) tão conhecido espião cinematográfico.

Casino Royale consegue criar um descredito nos filmes do Bond de uma forma magistral , usando de todos os seus artifícos barrocos e muitos erros de continuidade (mais o charme da maior bond girl de sempre, Ursula Andress) para provar que, para além da balbúrdia constante que nos vai entrando pelos olhos, pouca coisa fica e que até mesmo uma figura fantástica da comédia, como Peter Sellers, consegue ter o mesmo charme e desempenho cénico que qualquer 'fruta da época' que actualemente seja contratada para fazer o papel do espião.

Nas suas duas horas e tal, e com uma sequencia anárquica e confusa com mais de meia hora que encheria de orgulhos os irmãos Marx e tornou Barbarella (um ano depois) um filme sério, esta é uma overdose de brilhante nostalgia barroca, quando os espiões (no cinema claro) eram personagens de ambíguo kitsch que não deveriam ser levados a sério.

A possível razão deste filme é a de desacreditar completamente quem ainda viva negando que, se retirarmos toda o vazio de ideias que a série Bond constantemente enfia pelas goelas dos seus espectadores... e não existe de facto, actualmente, qualquer razão para se continuar a fazer filmes com um tipo chamado Bond, James Bond.

Quarta-feira, Janeiro 03, 2007

Duas Ausências Nipónicas

niponobit

O cinema nipónico perdeu duas figuras nos passados meses que, embora pouco conhecidas a ocidente, tinham especial relevo como figuras culto para os fans do cinema nipónico.

A primeira ausência (no final do mês de Novembro) foi a de Akio Jissoji, o realizador dos filmes do super-herói nipónico preferido cá por casa (ex-equo com a lagartixa gigante Gojira) Urutoraman (ou Ultraman como é mais conhecido), e mais alguns estranhos produtos exploitation como Mandara ou Tokyo: the Last Megalopolis, um dos poucos que ganhou algum culto a ocidente.

A Jissoji devem-se alguns dos mais inventivos (e excêntricos) truques de câmara que ainda hoje pontuam qualquer filme B japonês infestado de monstros risíveis e storylines estranhas. Activo até ao final, Jissoji teve ainda tempo para acabar Yume Ju-Ya, um bizarro conto fantástico e encenar para os palcos uma bizarra adaptação da Flauta Mágica de Mozart onde apareciam estranhos monstros saídos da série Ultraman(!).

Entretanto no inicio de Dezembro, desapareceu uma das divas da nouvelle vague nipónica, Kyoko Kishida, nome que será decerto conhecido dos inúmeros fans de uma das obras mais significativas da nova onda de cinema japonês dos 60s como a "Mulher das dunas" do filme de culto de Hiroshi Teshigahara com o mesmo nome.

Com um percurso feito sobretudo no cinema de exploitation e no terror/fantástico, Kishida pouca fama teve para além das fronteiras de alguns filmes obscuros feitos sobretudo durante os 60s e 70s, mas ficará para sempre a sua performance, extremamente sensual (e que lhe deu uma fama de pin-up de culto mundial) num dos mais relevantes filmes japoneses na década de 60.