Domingo, Dezembro 31, 2006

O Filme do Ano?

PanLabimage

Não foi propositado, mas escolhi este post para fechar o ano de 2006, morto dentro de 7 horas e meia. Cerca de dois meses depois, sem tempo e com umas férias de 2 semanas em Portugal pelo meio, volto a esta draft para acabar um post sobre o filme do ano, aquele que me levou a ter prazer já esquecido em ir a uma sala de cinema.

El Laberinto del Fauno é o comeback tão esperado de um dos realizadores mais espantosos das últimas 2 décadas e confesso que até conseguir ver a estreia no Reino Unido à dois meses atrás andava a evitar a qualquer custo não ceder ao hype gerado pelo filme, de forma a conseguir uma exaltação absoluta assim que sentasse o rabo na cadeira do cinema.

De facto todos os segundos da obra-prima de Guillermo del Toro são preciosos, contando uma das histórias mais pujantes e imaginativas que há memória no actual cinema. Temos os planos mais audazes e espectaculares do actual cinema (que valeram por parte do prestigiado crítico britanico Mark Kermode, a alcunha de 'Citizen Kane' do cinema fantástico), um cast perfeito, a envolvência cénica e excelente argumento que del Toro costuma exigir. E claro, existe a leitura simbólica e nada simplista da realidade, mostrada através de uma fábula, um cautionary tale que continua a história já começada com Espinazo del diablo.

Foi notado que muitos estariam à espera de uma espécie de Amélie Poulain (um dos favoritos para constantes revisitações cá por casa), mas del Toro entrega ao espectador em vez disso uma fábula, mas sem escapismos e humor, e sem pudor para mostrar a violência na então jovem ditadura espanhola, com a presença do cruel capitão Vidal (o actor Sergi López, o maior e mais espantoso vilão do actual cinema europeu) que não poupa os espectadores a alguns momentos de violência gráfica angustiantes. López, que torna qualquer filme banal uma obra-prima de maldade, tem aqui uma presença avassaladora, quase umas das figuras do mal que povoam o universo de fantasia de Ofélia (Ivana Baquero), a personagem princípal do filme, que tenta fugir ao destino cruel através de uma visão fantasiosa da vida, que ajuda de resto a traduzir a realidade cruel e a gerar símbolos (e quase um sistema mitológico) para traduzir a situação.

Com uma pujante realização, El Laberinto del Fauno, é uma das obras mais significativas do actual cinema, com del Toro aqui a assinar mais um filme perfeito (como poucos realizadores seriam capazes, apenas me lembro de repente de Alejandro Amenábar), uma proeza que apenas não conseguiu realizar com o fraco Mimic. Foi com alguma pena que me apercebi que nesta curta estadia por Portugal o filme ainda não tinha estreado em salas portuguesas, mas desde já este é um daqueles filmes que tem que ser visto com urgência, merecendo todas as palmas que urgem bater no final e que traduzirão o mesmo sentimento de gratidão que aqueles que em Cannes este anos as também bateram numa longa ovação de 20 minutos. Como este já poucos há!

Segunda-feira, Dezembro 11, 2006

Mínimo Denominador Comum (2)

As actuais 'exportações musicais' para o Reino Unido parecem estar cheias de equívocos que me fazem pensar que os pobres brits estão fartos de serem vistos como autistas (e por vezes até chauvinistas) a muitas das sensações musicais externas que chegam ao resto da Europa. Dai até inventarem as suas próprias playlists de 'música do mundo' à procura de alguma abertura à novidade vai um passo pequeno e este ano por aqui foi rico em edições sobretudo das 'outras' américas.

Para além de Seu Jorge e das péssimas CSS (já por aqui comentadas) de há uns meses para cá começou-se a dar atenção a Rodrigo y Gabriela pelos artistas com o mesmo nome. E nota-se desde logo que, ao ler as críticas positivas à obra, os equívocos são grandes. Neste album, que entendo que gerará algum interesse a muita gente, não existe (ou pessoalmente não reparei) nenhuma reformulação do flamenco, nem sequer a fusão a esse estilo com riffs thrash (!??!!) e muito menos inovação compositiva, como afirmaram muitos críticos, alguns dos quais nem se inibiram de juntar o album às célebres lista de best of do ano que agora acaba.

Tocar guitarra acústica com brio, quer para executar composições próprias ou dos Metallica ou Led Zeppelin poderá ser muito interessante para alguns (sobretudo aprendizes de guitarra presumo), mas entre Rodrigo y Gabriela e alguns dos virtuosos de rua que costumam tocar qualquer instrumento músical em troca de uns tostões atirados pelos peões haverá pouca diferença, algo que parece não ser a mesma opinião dos fans aqui pelo Reino Unido, que parecem apostados a renderem-se ao projecto, à falta de melhor e sem nenhuma World Music Superstar para louvar este ano.

Mas esse melhor nunca será encontrado sem alguma procura e sobretudo bastante curiosidade, algo que parece ter faltado na indústria músical britânica nos últimos anos, espelhando uma atitude que infelizmente é cada vez mais generalizada.

Quinta-feira, Dezembro 07, 2006

Lovecraft Revisited

Cthulhu

Entendo a grande divisão que The Call of Cthulhu (AKA A Genuine H.P. Lovecraft Adaptation) de 2005, gerou (e continua a gerar) naqueles que tiveram o privilégio de ver esta oddity. Existem aqueles que o acharam um filme pretencioso e camp e outros (os fans de Lovecraft suponho) que o acharam uma verdadeira pérola na lista das numerosas e maioritariamente más adaptações do esotérico escritor.

Confesso que dos que vi na lista de adaptações este é a escolha perfeita para juntar aos clássicos Re-Animator ou Curse of the Crimson Altar, por capturar de forma interessante a pouca 'presença física' das histórias deste autor (que estaria muito mais interessando em reavivar as sensações decadentes da literatura pós-romântica do que a descrever com exactidão algumas acções 'reais') e sobretudo pela 'técnica' empregue para traduzir tais estados de terror.

Vivendo numa época em que o CGI consegue simular, mesmo em filmes de baixo orçamento, este tipo de 'realidades alternativas', The Call of Cthulhu consegue ser um refrescante exercício de cinema, não usando muitas das técnicas presentes no cinema fantástico das primeiras 3 décadas do século passado, como recriando de uma forma quase literal esse mesmo cinema, tão influente.

Agora que Cthulhu do estreante Dan Gildark está prontinho a ser mostrado nos próximos meses (e que aparentemente está já a criar alguma expectativa), este The Call of Cthulhu poderá indicar que será esta a melhor forma de recriar (e homenagear) H. P. Lovecraft no Cinema, usando as mesmas técnicas disponíveis à data do livro do escritor (1925, segundo consta), parecendo que, depois deste inventivo exercício visual de baixo (muito baixo) orçamento, poucos serão os filmes que conseguirão alcançar o terror Lovecraftiano como este.

Mínimo Denominador Comum (1)

evilbong

Aqueles que nos anos 80, costumavam rondar com curiosidade os então recentes videoclubes, sobretudo aqueles repletos de bizarrias do 'cinema fantástico'(a maior parte Direct-to-video) decerto que se recorda, como eu, de Charles Band como o produtor e realizador de perólas do trash como Parasite (a estreia da nulidade Demi Moore), Trancers, Rawhead Rex ou Necropolis (com uma desconhecida Lee Anne Baker que apenas será lembrada por uma minúscula percentagem da população deste planeta devido às suas 6 próteses peitorais).

Claramente Band foi durante as últimas décadas um dos piores realizadores de sempre. Com a maior parte das suas produções e realizações a morarem na 'Tromaville' (gajas nuas, maus efeitos especiais, super-heróis inaptos e defícientes, argumentos de horror péssimos e infantis e muito mau gosto e piadas escatológicas...), Band passou despercebido para a maior parte do público durante estes últimos 15 anos, ocupado a aumentar a bem sucedida Full Moon Pictures, uma concorrente directa da Troma, isto até se ter lembrado de realizar outro filme, para infelicidade daqueles que algum dia poderão descuidadamente pôr os olhos em Evil Bong.

Nada de bom deste filme pode ser apontado (não é um 'tão mau que até é bom', não é uma ode ao mau exploitation, nem sequer um produto típico da Troma), mas no entanto Band tem agora uma legião de fans nova, apostados em divulgar e debater com uma avidez pouco natural este péssimo produto, onde um bong infernal dá cabo da vida a uns stoners, acompanhado por uma banda sonora pavorosa, alguma carne feminina exposta e muitas piadolas secas que faria produtos como Scary Movie parecerem inteligentes.

Consigo entender a soberba constante que muitos cinéfilos mais 'selectos' possuem para encontrarem a 'next big thing' do cinema-lixo, depois de mais de 10 anos de inexistência de obras significativas deste género tão popular até aos finais dos 80s. Mas nem Band é um jogador novo neste campo (e diga-se para justiça que foi produtor de magnificas obras trash), nem Evil Bong é algo que se possa aconselhar como obra representativa, para tristeza de muitos stoners que talvez (esperemos que não!) se revejam nas personagens deste filme.

Aqueles que queiram perder tempo com isto (ou não consigam conter a curiosidade de realmente ver isto), força!

Terça-feira, Dezembro 05, 2006

1977 - 2006


Pouco reconhecido na Europa, Logan Whitehurst conseguiu no outro lado do Atlântico um culto considerável, primeiro por ser o baterista e um dos fundadores dos 'barrocos' Velvet Teen e depois das obras maiores que são os seus lançamentos a solo, editados sob o nome Logan Whitehurst & the Junior Science Club.

Há já vários anos debilitado pela doença, Whitehurst morreu na Segunda-feira passada, deixando uma marca muito própria na música indie actual, com uma obra a solo que decerto agradará a muitos daqueles que procuram no chamado Geek Rock alguma novidade e que urge ser descoberta.

Sexta-feira, Dezembro 01, 2006

Enfiar de Carapuças(3)

McLibel

Há vários anos atrás, quando uma larga fatia da população mundial enterrava alegramente os dentes nos (então trendy) big macs e o termo junk food tardava ainda a entrar no lexico popular, um grupo de activistas, reunidos sob o nome de London Greenpeace, começaram a distribuir uns folhetos acusando a multinacional McDonald's de vários factos pouco simpáticos.

O gigante, aproveitando fraquezas da lei inglesa, requeriu uma desculpa pública desse grupo e o cancelar de distribuição de tais folhetos. Essa prática (a do pedido de desculpas) tinha já sido usada por várias vezes no Reino Unido contra vários jornais e cadeias de televisão, a maior parte de relevo e recursos (Channel 4, o tablóide The Sun ou a BBC, só para citar alguns), algo que todas essa empresas decidiram fazer, de forma a evitar feios combates em tribunal.

Tendo sido o julgamento mais longo da história penal do Reino Unido, o processo McLibel marcou também o final da imagem simpática da corporação, com uma esmagadora luta entre este gigante Golias contra dois cidadãos ingleses, sem qualquer apoio por parte do país de quem possuem um passaporte.

Sendo um 'remake' de McLibel: Two Worlds Collide, o mais recente McLibel (aka Two People who Refused to Say Sorry) é um update muito resumido na saga de 314 dias do primeiro julgamento, mais a segunda acção que Helen Steel e David Morris (os únicos a nunca vergarem perante as ameaças da corporação) se submeteram de forma a conseguirem um resultado ainda mais favorável à causa que defenderam. Sempre sem apoio legal, à parte de um advogado que sem receber um tostão foi tentando ajudar o duo, e apenas com a ajuda solidária do público, os dois 'processados' conseguiram de forma heróica fazer conhecer ao mundo a forma desumana como as corporações lidam com o 'cidadão comum', visto apenas como um cliente inconsciente sem direitos de questionar, através do então popular site McSpotlight.

Um perfeito exemplo de um documentário low budget com a benção de Ken Loach, este é um magnífico documento para provar um verdadeiro exemplo de perseverança como poucas vezes se viu no mundo ocidental globalizado e pouco atento aos direitos dos seus cidadãos. A forma modesta e honesta como se apresenta este documentário faz-nos lembrar que existem exemplos de coragem que ainda tentam (por vezes positivamente) 'resgatar' os direitos humanos e de liberdade de expressão que as democracias ocidentais tantas vezes apregoam, mas que poucas vezes conseguem defender.

Mais do que um documentário a ver, este é um verdadeiro serviço público a não perder, e um dever cívico que deve ser conhecido e propagado.

Enfiar de Carapuças(2)

vivazapatero

Aparentemente um produto destinado a mostrar a nódoa que é a actual política Italiana (que mesmo numa época pós-Berlusconi continua um caos), Viva Zapatero! é, depois de uma rápida reflecção, um ensaio sobre a actual liberdade de expressão na Europa, um continente que tenta (ainda) mostrar uma face livre de vícios pouco democráticos, que normalmente são apontados a outras áreas do globo, mas que no seu todo e no particular não consegue de forma eficiente ter uma classe política elevada, empenhada e inteligente.

De resto esta lamúria de comediante Sabina Guzzanti, que viu o seu programa satírico RAIot suspenso depois do primeiro episódio devido às violentas (e aparentemente verdadeiras) críticas ao governo neo-fascista de Berlusconi ajudado por uma oposição inoperante e estúpida, é uma prova de que o velho dizer 'estamos entregues aos bichos', na forma gritante como mostra ao que chegou a política num pais do 'velho continente' na sua complicidade com os media e os interesses financeiros, é cada vez mais apropriado e verídico.

De forma zangada, irónia e 'queixinhas' Guzzanti retrata as personagens grotestas que povoam a actual política italiana, 'partindo a loiça' em diversos frente-a-frente improvisados com tais personagens e apresentando os factos escandalosos do actual estado a que chegou a censura sob a batuta do magnata e do seu círculo de eleitos.

Este poderá não ser um documentário primoroso, falando apenas de cinema, mas é decerto um delicioso documento de como a Italia se tornou um país com mais parecenças políticas com o que foi anos 30 do que o que tenta mostrar ao mundo actualmente, funcionando também como um cautionary tale para muitas democracias ocidentais (em particular as 'mediterranicas') onde os Media estão aglomerados nas mãos de poucas corporações.

Enfiar de Carapuças(1)

Who_killed_electric_car_(20

Who Killed the Electric Car? is a 2006 documentary film that explores the birth, limited commercialization, and subsequent death of the battery electric vehicle in the United States, specifically the General Motors EV1 of the 1990s. The film explores the roles of automobile manufacturers, the oil industry, the US government, batteries, hydrogen vehicles, and consumers in limiting the development and adoption of this technology.
in Wikipedia

Em poucos anos a Sony Pictures Classics tem ficado conhecida pelos seus documentários trendy, normalmente sobre novas formas de cultura pop ou 'questões pertinentes' actualmente adoptadas pela mais recente geração de jovens adultos como bandeiras de consciência social.

Claro que ao dizer isto, Who Killed the Electric Car? fica logo embebido de uma certa aura de 'inconsequência documental'. Mesmo dizendo isto, este documentário é um perfeito complemento ao manifesto que Al Gore fez este ano, aproveitando uma altura estranhamente apropriada, com uma produção esmerada que conta a já costumeira história de como as multinacionais americanas nos andam a lixar a vida.

Para aqueles que ainda se lembram com EV1 da GM, que tanto optimismo gerou, este será um documentário perfeito. Os outros poderão achar este um documentário algo 'queixinhas', mas a forma como os factos são analizados e as consequências apontadas, não deixa qualquer dúvida que este é um dos mais interessantes produtos desta nova vaga de documentários que tentam apontar o dedo às consequências que os interesses comerciais de uma minoria geram no consumidor e sobretudo no ambiente.