Quinta-feira, Novembro 30, 2006

O Natal Está Perto(3)

alumiiinium

Fans of Stravinsky and Jack White (you know you're out there), take note: Aluminium is your dream project. No, Jack White doesn't have a hand in performing the music; in fact, his only involvement with the album was to say "I like" -- and, of course, to have written the songs that appear on the record. See, Aluminium is a pomo, classical interpretation (by XL Records founder Richard Russell and British composer Joby Talbot) of Jack's tunes.
in StereoGum

ALUMINIUM is an album of avant garde orchestral recordings of music written by Jack White of The White Stripes. The project was conceived by the founder of XL Recordings, Richard Russell, who co-produced the album with the renowned composer and arranger Joby Talbot.

The CD comes packaged with a series of cards featuring artwork by long time White Stripes collaborator Rob Jones. The CD costs £13.33 plus postage and packing and is limited to 3,333 copies.

The LP format is packaged with the same artworked cards as the CD, but also includes a signed 10 inch square section of silk screen print by Rob Jones. The LP costs £16.66 plus postage and packing and is limited to 999 copies.

Press release da XL Recordings


Para aqueles que querem uma das 999 cópias do vinil já será tarde, mas (parece) que ainda há esperança para quem queira agarrar uma cópia em CD. À venda na XL Records ou no site do projecto.

Terça-feira, Novembro 28, 2006

Lisboa, Inverno de 2006

mario_cesariny

Faz-me o favor...

Faz-me o favor de não dizer absolutamente nada!
Supor o que dirá
Tua boca velada
É ouvir-te já.

É ouvir-te melhor
Do que o dirias.
O que és nao vem à flor
Das caras e dos dias.

Tu és melhor -- muito melhor!--
Do que tu. Não digas nada. Sê
Alma do corpo nu
Que do espelho se vê.

de O Virgem Negra, Mário Cesariny

Domingo, Novembro 26, 2006

Torture Kitsch

bloody

Mais uma nova presença na lista do Archive de filmes actualmente com estatuto Creative Commons, Il Boia scarlatto (aka Bloody Pit of Horror) é um daqueles clássicos do exploitation europeus, filmado em Italia e (mal) dobrado para deleite dos fans do euro-trash. Com uma cheesiness poucas vezes ultrapassada, este produto de culto, inofensível e risível deverá ter sido na altura encarado como o Saw e disparatados produtos semelhante que actualmente poluem o cinema contemporâneo.

Sendo um produto que revela o início de alguns dos produtos mais exploitativos e perversos do cinema trash europeu (que depois 'imigrou' para os EUA, onde estas tendências foram sendo puxadas ao máximo, em filmes como Hardgore), Bloody Pit of Horror anuncia uma tendência algo sádica que irá marcar o cinema italiano, sobretudo no género Giallo (os políciais carregados de sexo e violência) e no horror de contornos exploitation (como os primeiros filmes de Dario Argento), revelada já em algumas tendências mais extremas da literatura Pulp italiana (os Giallo) nos Fumetti e cartoons para adultos.

No esplendor do seu carregado Eastmancolor, Bloody Pit of Horror continua ainda hoje a espantar pelo seu disparatado Kitsch, actualmente de uma cómica candura quando comparado com o lixo já citado acima. Este é um dos filmes que começa toda uma época de cinema de exploitation europeu (e sobretudo italiano) que marcou os anos 70 e que ainda hoje marca de forma visível a cultura popular de contornos retro. Um deleite para os fans do género.

Double Bill em Tons de Z (2)

zombie ritual

Mais duas das novidades deste mês no Archive (ver o post anterior sobre o assunto). Desta vez o destaque vai para Revolt of the Zombies (1936) uma terrível produção dos manos Halperin, que decerto será de todo o interesse para os admiradores de cinema de 'blue screen', com muitas das cenas filmadas sob um ecrã onde imagens de arquivo vão dando a 'profundidade' de cenário requerida. Esta delícia camp conta com algumas das piores interpretações do cinema do género e decerto que será um must para os fans de Série B's nos pequeninos estúdios que populavam Hollywood antes dos anos 60 (este é uma produção do Favorite Films Corp., distribuidora de alguns esquecidos filmes de exploitation dos 50s e 50s).

A parelha desta jóia é claramente o clássico do camp de horror King of the Zombies (1941), um 'esquecível' e mal amanhado B que decerto teria já à muito sido esquecido se não fosse a presença do comediante Mantan Moreland, um dos actores afro-americanos mais importantes para a história do cinema americano dos 30s e 40s e, num plano secundário Madame Sul-Te-Wan (outra lenda dos chamados Race Films) que, embora recorrendo às costumeiras piadas racistas que permitiam a sua presença em cinema 'branco' , conseguem marcar uma presença central no filme, ao lado do boçal Dick Purcell (um dos galãs da época).

Vale pela presença de Moreland, tão poucas vezes valorizado e muitas vezes 'obliterado' devido aos estereotipos raciais que sempre interpretou no cinema mainstream.

Sábado, Novembro 25, 2006

Double Bill em Tons de Z (1)

double1

Durante algum tempo sem novidades, o Internet Archive teve durante este mês algumas adições interessantes na sua colecção de feature films. Dois títulos saltam à vista por serem tão maus que se tornam interessantes.

O primeiro é o clássico do camp The Screaming Skull (1958), um dos mais disparatados filmes de terror feitos desde sempre cortesia do actor/realizador Alex Nicol, com doses indústriais de aborrecimentos pautados com micro-segundos de cenas aparentemente vanguardistas e sobretudo visões de caveiras a rolar pelo chão, em perseguição hilariante da heroina do filme (Peggy Webber, que trabalhou sobretudo em TV, e talvez reconhecivel dos fans da série de culto Dragnet). Sendo um daqueles produtos que vive do universo das pulp ficcion da época, The Screaming Skull conseguirá no entanto dar alguns momentos esteticamente hilariantes para os fans do género.

O mais interessante aqui serão os segundos iniciais do filme, onde os produtores desta obra-prima do Z avisam a audiência que pagam os custos do funeral a quem morrer de susto ao ver esta película, ostentanto um belissímo caixão reservado ao 'sortudo'. Decerto que com esta fórmula de terror o único funeral que teriam que pagar seria o dos espectadores que tenham morrido de aborrecimento, caso isso estivesse também comtemplado no bilhete.

O segundo caso de camp crónico é o fabulosamente mau The She Beast (1966, também conhecido como 'Sorella di Satana'), uma obra de terror-depressa-tornada-comédia na forma como os actores, que aparentam estar sob o efeito de substâncias tóxicas, se vão arrastando até ao final despachado. Esta producção italiana/britânica é um manifesto anti-comunista (!) de contornos cómicos e possui alguns dos momentos mais kitsch do cinema do género europeu da altura, assegurando momentos de preciosa comédia. Basta ver a cena onde a bruxa/monstro esquarteja o bébado dono do hotel, lançando o objecto usado para tal, uma foice, para o chão, caindo 'ocasionalmente 'por cima de um martelo, para perceber que estamos a ver algo invulgarmente simbólico no campo do exploitation.

Mesmo medíocre, existem dois nomes neste filme que o tornam um must para os fans de série Z. O primeiro é claro, Barbara Steel, a Rainha do terror europeu, actriz de algumas das maiores obras do horror de sempre. O segundo é o realizador desta pérola, Michael Reeves, que 2 anos depois realizaria o clássico Witchfinder General (1968), pouco antes da sua morte prematura.

Download The She Beast
Download The Screaming Skull

TV Party Tonight

forbiddentrans

A Skeleton Farm Productions produz de vez em quando 30 minutos de loucura video que disponibiliza como um video podcast no seu tracker. Forbidden Transmission é uma colectânea de clips de todo o mundo, combinando dos momentos mais bizarros e hilariantes de televisão e é claramente recomendado para depressões de inverno.

A Água Suja do Capitalismo

one two three

Decertos que muitos verão One, Two, Three como uma das mais brilhantes comédias do sátiro Billy Wilder. Outros terão a visão amarga de que este é um produto de comédia barata, de diálogos pobres e batidos. Pouco interessa. A forma como Wilder realizou este filme, tentando ofender todas as partes envolvidas na ocupação de Berlim depois Segunda Grande Guerra, constitui uma das formas mais bem conseguidas de análise política e claro, dos verdadeiros interesses humanos, que rodearam essa cidade, nas vésperas da construção do Muro.

O filme junta no mesmo cenário um frenético director da Coca-Cola na cidade, a filha do presidente da mesma companhia que casa em segredo com um jovem idealista socialista do 'outro lado' durante uma escapada ao lado oriental, um grupo de funcionários soviéticos dispostos a fazerem um acordo com a multinacional de forma a gamarem secreta receita da soda mais famosa do mundo e um bando de funcionários e outros oddballs com alguns problemas em admitirem o seu verdadeiro papel durante o regime Nazi.

Com personagens destas o filme só poderia ser um dos produtos mais bizarros assinados por um dos mais satíricos realizadores americanos de sempre. A forma frenética como a personagem de James Cagney, num dos seus papeis mais geniais de sempre, conduz as restantes personagens até às últimas consequências, só para salvar o emprego e conseguir a sua tão desejada promoção, é brilhante, atirando as personagens numa constante luta entre o marxismo e o capitalismo, para entregar um final algo esperado, mas que não deixa de se tornar também ele algo inesperado.

Muitas vezes incompreeendido, banido em alguns países até à pouco tempo e constantemente cortado devido à constantes ofensas com que Wilder bombardeia o espectador, One, Two, Three é um daqueles produtos da guerra fria que ainda hoje consegue dar vislumbre geniais de actualidade, sendo do primeiro ao último segundo dos seus longos 112 segundos uma das obras mais hilariantes sobre o panorama político europeu da época, de que ainda hoje se ouvem ecos. Altamente recomendado.

Sexta-feira, Novembro 24, 2006

As Irmãs Catita (4):The Pontani Sisters

Pontani_Sisters
photo ©2006 *vivavanstory

Pegando em mais umas ideias de um post anterior, as agora emergentes no neo-burlesco The World Famous Pontani Sisters tem vindo a criar a sua generosa presença no campo, seguindo os passos de
Bernie Dexter (que já teve direito a um post por aqui) ou a actual sensação Von Teese.

Uma presença frequente no já influente This or That: Burlesque Game Show (agora com direito a uma página repleta de videos no magnifique Internet Archive), as altamente qualificadas e jeitosas Pontani serão, caso exista alguma justiça neste mundo peculiar das 'artes performativas', as próximas porta-estandarte do que melhor foi feito no campo do burlesco, que agora está a resurgir com um agradável Furore.

Mesmo sabendo-se que neste universo revivalista existe tanto hype como vazios a simular-qualquer-coisa-parecida-vagamente com burlesco, recheado de clichés e guarda roupa a condizer, as Pontani Sisters conseguem ter todas as referências estéticas nos 'sítios certos' para entregarem o belissimo espectáculo, por vezes algo sleazy demais, que as faz destacar do restante aborrecido material.

Desde já recomenda-se uma passagem pelo videos do This and That, aqui e aqui.

O Papa do Punk-Rock Americano

dirk

Dirk Dirksen faleceu de forma inesperada à 4 dias atrás. Decerto que este nome não dirá muito mesmo aqueles que afirmam gostar de Punk Rock, mas o mentor da venue Fab Mab foi uma das mais influentes figuras do género nos EUA durante os anos 80.

Auto-alcunhando-se Pope of Punk, Dirksen foi um dos poucos corajosos empresários na baía de San Francisco a acreditar numa geração de (literalmente) dezenas de bandas punk americanas e um dos poucos a criar espaços para concertos de bandas que actualmente são referências máximas como os Dead Kennedys, Flipper ou Black Flag, algo impensável a qualquer empresário músical que gosta-se do seu emprego.

Sendo uma figura de gostos versáteis (a sua carreira extensa é impressionante), Dirksen ficou conhecido como um desbocado que gostava de provocar as audiências dos espectáculos que promovia, recorrendo ao insulto de forma a tentar passar uma das mensagens perdidas no actual género musical, o de pensar e agir.

Num mundo cheio de parasitas e oportunistas, que facilmente 'saltam para a carruagem' do comboio actualmente trendy do Punk Rock de forma a fazerem o seu fast buck, é uma pena de cavaleiros como DD sejam cada vez mais raros. Desde já fica aqui uma modesta lembrança a esta personagem, sem a qual muito do que actualmente é considerado clássico no género possivelmente não teria chegado aos nossos ouvidos.

Quinta-feira, Novembro 23, 2006

As Irmãs Catita (3):The Puppini Sisters


Já se sabe que desde há 2 anos para cá existe uma onda revivalista pelos aspectos mais 'burlescos' dos 50s. Para o público mainstream nomes como Dita Von Teese ou as boçais 'neo-bananarama' Pipettes (ver este post) estão já na lista desse auto-proclamado movimento retro, mas existe algo mais substancial em productos gerados pelo fascínio do mundo dos nossos avós.

Claramente a tentarem apanhar a onda, as Puppini Sisters conseguem ser as mais fieis e decalcadas figuras destes estranhos revivalismos. Sendo um papel de carbono das velhinhas manas Andrews, as Puppini (que não são irmãs, claro, e que apenas têm 1 elemento chamado realmente Puppini) conseguem condensar de forma própria e realmente profissional o 'look and feel' do objecto imitado, em vez de recriarem o gimmick algo parvo dos Nouvelle Vague, que tentam fazer versões inúteis de músicas em versão easy-listening.

Se as 'oscilantes' e constantemente ridicularizadas Pipettes, que parecem fugidas de um qualquer establecimento prisional, não conseguem ser levadas a sério, com um péssimo album e umas presenças ao vivo que agoniariam de excesso até o fan mais extremo do camp retro que actualmente (e subitamente) ganhou tantos fans, as manas Puppini estão no escalão da classe das 'imitadoras profissionais'. No album de estreia, Betcha Bottom Dollar, existem boas versões de alguns clássicos pop (não só dos 40s, o periodo na timeline da pop de onde as Puppini vão buscar o seu act), as coreografias não são nada más e o visual retro é realmente afinado, ao contrário das por vezes grosseiras Pipettes.

Poderá não ser nada novo, um pastiche, uma cópia cansada da Andrews Sisters, sem grande valor musical, uma verdadeira inutilidade pop. De facto não conheço até agora alguma crítica musical decente que tenha sequer feito um elogio às manas Pupps... mas num mundo tão saturado de plágio e imitação descarada que se tornou a actual pop bem sucedida (basta pensar no sucesso que bandas como os Franz Ferdinand ainda têm), porque não se poderá apreciar um produto se pretenções artisticas e que apenas nos quer dar uns bons minutos de easy-listening de elevador? Afinal o Natal está a chegar (uma época particularmente marcada pelo camp) e decerto que as Manas Puppini ficarão bem ao lado da Árvore de Natal.

A ouvir sem reservas, sem expectativas e com boa vontade.

Entre o Som e o Ruído

Coppola_Conversation

Acreditando no que Coppola diz no comentário áudio desta recente edição de The Conversation (1974), este terá sido um dos projectos mais queridos do realizador que apenas foi possível ser feito devido ao êxito de Godfather (dois anos antes), um projecto classificado como algo rotineiro e comercial que serviu para abrir as portas à realização de filmes realmente 'de autor'.

Quer se queira quer não, existe um duplo Coppola quando se vê a lista de obras do realizador. De um lado temos a fachada comercial e conhecida, aquela que trouxe o culto com Godfather, Apocalypse Now ou The Cotton Club. A outra, pessoalmente mais interessante, é composta por obras marcadas pelo lado mais 'independente' do realizador, impolada pelo culto algo juvenil por obras independentes de referência e pelo sentindo de tentar recuperar alguns dos sonhos de Estudante de Cinema. E nesta categoria The Conversation é a melhor obra de Coppola.

Como o realizador afirma, este filme é quase uma resposta directa a Blow Up, onde a imagem que despoleta toda a história é substituida por uma conversa captada em fita por Harry Caul (Gene Hackman, excelente!), um detective privado ou leading authority in freelance surveillance, para usar um termo mais preciso, pescado no imdb.

Avançado até aos limites da paranóia, Coppola molda o filme de uma forma brilhante, revelando de início o seu fascínio pela obra de Antonioni, mas que rapidamente avança para o campo da análise mental (por vezes de contornos freudianos) através da forma como o som é descontruido (não só o da conversa que dá nome ao filme), analisando a paranóia de Caul, obcecado com os destinos dos intervenientes da conversa. E por entre a captura sonora de estática e o som claro do que será o culminar de uma estranha história, Coppola consegue compor um perfeito conto de alienação, isolamento e paranóia.

Tantas vezes olhando simultaneamente como underrated e overrated, The Conversation talvez seja o filme de Coppola que mais divide os fans do realizador. É certo que será algo datado e por vezes caia em certos tiques estilisticos, mas este filme merece claramente uma revisão, de preferência em várias doses repetidas, de forma a desenterrar uma das obras mais interessantes e menos conhecidas de Coppola.

Harrison Vezes Dois

rex


Mais uma double bill em DVD para relembrar um dos actores algo esquecido. Unfaithfully Yours (do magnifico e frenético Preston Sturges) e Blithe Spirit, uma corriqueira comédia de David "Lawrence da Arabia" Lean, recuperam o espírito arrogante e expressivamente humano de (Sir) Rex Harrison, um dos clássicos compositores de personagens que conseguiu representar uma quantidade de characters tão numerosas como díspares.

Em Blithe Spirit, o filme que o projectou para a sua carreira americana, Harrison tem alguma dificuldade em manter uma comédia algo datada actualmente (mas sem dúvidas, igualmente perfeita), compondo um papel de viúvo casado-de-novo que é assombrado pelo fantasma da ex-mulher e que o fará repensar o actual casamento (poucos anos depois seria Harrison o fantasma na soberba comédia romântica The Ghost and Mrs. Muir, um dos favoritos cá em casa).

Mas em Unfaithfully Yours o caso muda de figura, com um dos papéis mais expressivos do talento de Harrison, conseguindo acompanhar de forma perfeita os diálogos freneticamente atrevidos e de tirarem o fôlego de Preston Sturges. O papel do Maestro atormentado com uma suposta infidelidade da mulher, que o faz agir de uma forma perigosamente maníaca, tornando-o quase um mostro cómico, é um daqueles filmes que fará qualquer espectador indiferente a este actor, adorar ter conhecido esta obra perfeita do sadismo cómico, muitos anos luz afastado das personagens que representou em Cleopatra, My Fair Lady ou Doctor Dolittle.

Com Night Train to Munich e The Ghost and Mrs. Muir, Unfaithfully Yours é um dos filmes que revelam um dos mais interessante facetas de um actor que conheceu a fama através de filme algo mais corriqueiros e comerciais. Enquanto isso Blithe Spirit, nesta edição tintado com o mais garrido technicolor, poderá não estar a altura a esta pérola da comédia de diálogos frenéticos, mas será também uma agradável surpresa para aqueles que procuram alguns dos filmes mais antigos deste soberbo actor, actualmente raramente vistos, mas que ganham um especial valor devido à presença de Harrison.

Sábado, Novembro 18, 2006

Sellers Vezes Dois

sellersComedies

Duas (algo) recentes re-edições em DVD trouxeram aos fans de Peter Sellers a alegria de re-encontrar duas das mais tipicas comédias do génio. Quer The Battle of the Sexes (1959), quer The Wrong Arm of the Law (1963) poderão não ser obras sonantes do brilhante actor, mas são eternos clássicos de como Sellers se moldava nas suas personagens até roçar o genial.

Em "Battle..." Sellers é o 'ancião' Mr. Martin, um fiel contabilista numa tradicional empresa escocesa de tweed que subitamente é 'invadida' por uma ambiciosa empresária americana que irá tentar provocar drásticas mudanças no negócio, perante o desespero dos empregados. Sendo um papel de 'man with a plan', Sellers consegue compor uma personagem, muito mais velha que a sua actual idade na época, que leva o conflito entre os duas antagónicas formas de fazer negócio até aos limites, tornando uma comédia que estaria destinada a ser algo vulgar aos picos do brilhantismo.

Bem mais composto, embora caindo em alguns truques cheesy que costumam abundar nas comédias britânicas, "The Wrong Arm..." é uma típica comédia de gangsters que possui um charme mais identificável com Sellers.

Aqui o crook cockney Pearly Gates, que se esconde sob a facade de um estilista francês para ocultar o seu verdadeiro 'ofício', oferece uma magnífica caracterização de uma idealizada classe de gangsters inteligentes e com fortes princípios morais, que devido a um grupo 'estrangeiro', se vê na necessidade de se unir e de fazer mais um pacto (um acto costumeiro, como se entende durante o filme) com as (mediocres) forças policiais.

Visto como uma obra onde se nota a génese de personagens que fariam de Sellers uma das figuras cómicas mais inresistiveis do cinema, "The Wrong Arm..." é uma daquelas obras hilariantes que culmina com 'aqueles' 30 minutos finais de acção cómica frenéticos, onde entre os bem falantes gangsters e os imbecis polícias, parece que não existem nenhumas diferenças de actuação.

A Estrada da Redenção

redroad

Vencedor do prémio do Júri em Cannes este ano e uma das grande surpresas do festival (ao lado claro do já-considerado filme da década, Laberinto del Fauno, que terá um post dedicado para o final da semana que vem), Red Road , filme estreia de Andrea Arnold, é um magnífico conto de redenção passado no 'deprimido' mundo dos estates de Glasgow.

Debruçando-se sobre a 'sociedade em permanente vigilância' que se tornou a Europa (sobretudo o Reino Unido), um tema cada vez mais emergente no cinema europeu, basta pensar no sucesso Alice, curiosamente também galardoado em Cannes o ano passado, com o prémio Jeune Regards), Red Road conta a história de Jackie, uma operadora de CCTV polícial que vai enchendo os seus dias vazios a observar o quotidiano de milhares de pessoas que passam pelas camaras de segurança das ruas da cidade.

Apercebemo-nos depressa que existem ausências na vida vazia de Jackie e quando um homem toma de forma obssessiva a atenção da personagem, fazendo com que as câmaras operadas por Jackie passem parte do tempo apenas a vigiar esse homem. E quando a personagem passa desta posição de 'God's view' da sala de operações, para o plano do físico, começando a interferir directamente com este mesmo homem, entramos no campo do thriller 'pele de cebola', onde as camadas que vão sendo retiradas ocultam ainda mais mistérios que se revelam de forma abrupta nos últimos 20 minutos de filme.

Com uma conteúdo realista e sem nunca 'perder o pé' numa misteriosa história que se vai revelando cada vez mais dramática, Red Road é uma excelente surpresa no cinema britânico que agora parece estar a sair de um prolongado deserto para conseguir dar ao público algo minimamente digno de ser visto. Desde já este será um ds pontos altos da 'colheita do ano' e decerto que não desiludira muito do seu público e sobretudo os fans de Alice.

Sexta-feira, Novembro 17, 2006

O Natal Está Perto (2)


Rise of the Ogre, o luxuoso album de artwork dedicado aos Gorillaz acabadinho de ser editado no RU, está recheado do melhor que Jamie Hewlett fez sobre a fictícia banda. Para aqueles que ainda tenham algumas dúvidas porque é que o homem é o Designer of the Year este ano. Esta compra é obrigatória!

Já agora para os mais curiosos, o Murdoc apresenta este livro aqui.

O Natal Está Perto (1)



Mesmo sabendo que o Hugo Chavez já não gosta do Pai Natal, aqui fica uma recomendação para o periodo consumista que se aproxima.

Recomendada igualmente a coleccionadores ou fanáticos e àqueles que apenas agora tropeçaram no magnífico e luxurioso mundo da Hammer (estas vagas neo-góticas até não são assim tão inúteis), a caixa de 21 DVDs lançada no final do mês passado está já à venda, provocando a cobiça. São 21 dos mais significativos títulos da produtora de culto, que ainda hoje tem um peso absoluto na cultura popular.

Notam-se algumas ausências de peso nesta selecção (como The Horror Of Dracula ou Witchfinder General, dois dos melhores momentos da Hammer), mas aqui o critério de escolha parece ter sido o de editar algumas novidades editadas pela primeira vez em DVD, algo que é de louvar, com a presença de alguns dos mais significativos títulos camp e exploitation como The Devil Rides Out, Demons Of The Mind, One Million Years BC (quem não se lembra deste clássico do exploitation?) e claro Rasputin The Mad Monk, com a rainha Barbara Shelley.

Poderá não ser uma selecção perfeita, até porque muitos dos outros clássicos já foram incluidos em outros box sets, mas este indulgência é altamente recomendada.

Quinta-feira, Novembro 16, 2006

Ilusões Politicamente Cinéfilas

"[T]he last few years have seen a growing tendency for supposedly progressive themes to be tackled in big-budget Hollywood fictions, along with the incorporation of originally marginal aesthetic choices and strategies in the production of cinematic blockbusters, brands and franchises. This survey describes some of these phenomena and the critical response to them, and discusses their ambivalent implications and limitations."
Rose Coloured Spectacles, Tom Jennings



Como nunca é tarde demais para estas coisas, pôs a leitura em dia nos artigos da edição de inverno do Variant, um dos melhores free newspapers de cultura (facção 'leflista') do Reino Unido, já por aqui citado em algumas ocasiões. Um artigo em especial, Rose Coloured Spectacles de Tom Jennings, chama a atenção devido à análise coerente do estado aparentemente politizado do actual cinema americano, que analizado num número de livros recentes (ver lista em baixo), parece estar a tentar ter algum relevo político no actual cinema comercial.

Assim por alto basta pensar no remake de The Manchurian Candidate (2004), Lord of War (2005) ou Syriana (2005) para perceber que temas políticos (e sociais) têm vindo a ter especial destaque por parte dos estúdios quando, simultaneamente, se assiste a uma valente procura de 'new blood' em alguns dos nomes da geração 'sundance', tentando-se assim refrescar com um pseudo-independente vigor a extraordinária e acentuada decadência do cinema comercial americano.

A pertinência do artigo de Jennings está na leitura transversal de vários desses filmes, chegando à conclusão, bastante apurada por sinal (e claramente comprometida com o pensamento de esquerda, afinal este jornal escocês é um dos bastiões do leftism intelectual por aqui), de que tudo este 'lançar de luz' sobre os 'assuntos importantes do mundo actual' não passa de um imenso fogo de artíficio. Esta nova geração de realizadores, claramente comprometidos por um idealismo bacoco e infantil, com problemas de análise que não estejam pejados de lugares comuns e, sobretudo, sem qualquer estrutura mental que resista a uma análise nas entrelinhas, não consegue dar uma verdadeira e apta leitura sobre assuntos políticos sem recorrer à glossiness que sempre transpirou da glamorosa Hollywood.

Analisando com algum aparente desprezo esta pretenciosa vertente do cinema americano 'politicamente esclarecido', Jennings consegue explicar porque é que Fight Club (1999), Three Kings (1998) ou até a obra-prima de Kathryn Bigelow, Strange Days (1995) conseguem ser três das mais significativas obras de pensamento político no cinema actual, conseguindo atingir o que outros filmes, bem mais empenhados e ambiciosos ao lidares com temas politizados, não conseguem nem sequer abordar de uma forma séria. Claramente um artigo pertinente que merece uma leitura aqui .


Livros citados no artigo:

Carl Boggs & Thomas Pollard, A World in Chaos: Social Crisis and the Rise of Postmodern Cinema, Rowman & Littlefield, 2003.

James Mottram, The Sundance Kids: How the Mavericks Took Back Hollywood, Faber & Faber, 2006.

Sharon Waxman, Rebels On The Backlot: Six Maverick Directors and How They Conquered the Hollywood Studio System, HarperCollins, 2005.

Ben Dickenson, Hollywood’s New Radicalism: War, Globalisation and the Movies from Reagan to George W. Bush, I.B. Tauris, 2006.

Quarta-feira, Novembro 15, 2006

This is Massacration

massacration
Parecendo um upgrade dos geniais Spinal Tap, os Massacration, que começaram como um sketch no programa (de gosto dúvidoso) Hermes & Renato para de repente se tornarem uma das maiores sensações do heavy metal brasileiro dos últimos anos, devido ao album Gates of Metal, Fried Chicken of Hell.

Claramente muitos pontos abaixo dos Tap, Os Massacration conseguem no entanto ter especial piada devido aos lirics absolutamente ridículos, um visual semelhante ao Manowar e uma inresistível maneira de apresentar todos os clichés do Heavy Metal de uma forma que não deixa de ser hilariante.

'Gates of Metal...' apresenta uma estrutura em tudo semelhante a qualquer album do género, tropeçando em todos os clichés do género, tocados de uma forma perfeita (alguns boatos a circular dão como certo que um dos músicos de estúdio será o reputado Igor Cavalera, ex-baterista dos Sepultura), tornando-os ainda mais ridículos devido a um uso exagerado de efeitos sonoros e sobretudo a letras que misturam um inglês 'arraçado' de 'brasugês', gritados de uma forma hilariante e com temáticas ridículas.

Surpreendentemente (ou talvez não) o quinteto foi depressa 'adoptado' pela comunidade metálica brasileira, actuando com regularidade em concertos e festivais do género e estando já a criar uma considerável legião de fans, um pouco como o que se passou no final da década de 80 com os Spinal Tap.

Desde a Intro 'satánica', onde uma voz demoniaca debita uma receita de bolo até à hidden bonus track, uma remistura tecno-xunga de um dos temas do album, 'Gates of Metal...' consegue ser implacável na sua extrema paródia ao Heavy Metal, pontuado com momentos brilhantes. Claramente esta não é uma sugestão de audição para aqueles que possam levar os Manowar ou bandas semelhantes a sério.

Let Him Waste Your Time

jarvis

Depois do fim dos Pulp, Jarvis Cocker tem andado às voltas com projectos (não só músicais) bizarros demais para descrever por aqui, e de repente , chateado com o público do Reino Unido, foi viver para França, um dos países que mais contribuiu (culturalmente entenda-se) para o som inesquecível de uma das bandas mais geniais dos últimos 20 anos no RU.

Agora de volta (por enquanto) à terra natal, Cocker lançou o album Jarvis, um documento muito retro, por uma dos maiores entendido no 'tema', e que gerou uma larga indiferença do público mainstream, aparentemente maior do que o final dos Pulp em 2002, já longe dos éxitos retirados de Different Class de 1995.

Cocker continua sarcástico como sempre, agora (aparentemente) ainda mais caústico na sua visão social, despreocupado com o lado mais melódico e empenhando-se a relatar através de canções marcadas por um saudosismo mais próximo do início dos Pulp os seus contos desamparados de alienação urbana. Mesmo com faixas como Don't Let Him Waste Your Time e Fat Children que contêm uma pop muito orelhuda, Cocker parece mais emprenhado em fazer um opus de sons passados, muito esotérico e com presença de luxuriosos arranjos que parecem (e são) saídos de décadas passados à muito.

Como tudo aquilo que é único, será preciso tocar este album algumas vezes até se mergulhar a fundo no que Cocker tem para dizer, algo que acontecia no início da carreira do homem (os que conhecem It decerto que percebem onde quero chegar). Gastar tempo a ouvir este album luxuoso, que decerto não deverá figurar nas costumeiras listas do ano que já estão a ser feitas, não é tempo perdido, isso é mais que certo.

Bronzeado da Escócia

P0r volta de 2001 ouvi algumas faixas de Snippets, o único album (até à data) do colectivo de Edinburgo Fake Tan. Na altura alojado no saudoso (e legal) Mp3.com, uma das fontes de música abrangida pelo estatuto de Creative Commons que desapareceu com a 'emergência' do negócio da venda de música on-line, estas faixas dos Fake Tan foram uma presença constante nas playlists do Winamp (isto muito antes do iTunes) e dois anos depois foram esquecidas em algum CD com mp3s.

Revivi alguns segundos de uma dessas faixas ao ver Red Road (post prometido para breve) e depois de uma rápida procura, encontrei o mesmo album, agora alojado no site da Floppy Records, uma joint venture on-line que procura promover albuns de um número limitado de bandas locais. Snippets continua a soar tão espectacular como o ouvi da primeira vez, com as suas atmosferas lo-fi melancólicas, por vezes saudosistas e com muita estática e ruído entre lamentos electricos.

Fica aqui a sugestão de fazerem o download ou contribuir para a felicidade da banda e comprar o CD on-line aqui, e já agora mandar uma mensagem de agradecimento a um album que calha bem para o Inverno.

Segunda-feira, Novembro 13, 2006

52 Anos Depois...

seven samurai
imagem: www.artwallpapers.com

Akira Kurosawa's "The Seven Samurai" (1954) is not only a great film in its own right, but the source of a genre that would flow through the rest of the century. The critic Michael Jeck suggests that this was the first film in which a team is assembled to carry out a mission--an idea which gave birth to its direct Hollywood remake, "The Magnificent Seven," as well as "The Guns of Navarone," "The Dirty Dozen" and countless later war, heist and caper movies. Since Kurosawa's samurai adventure "Yojimbo" (1960) was remade as "A Fistful of Dollars" and essentially created the spaghetti Western, and since this movie and Kurosawa's "The Hidden Fortress" inspired George Lucas' "Star Wars" series, it could be argued that this greatest of filmmakers gave employment to action heroes for the next 50 years, just as a fallout from his primary purpose.
Roger Ebert

Agora que foi revisto cá por casa, numa cópia recentemente lançada pelo BFI (muito inferior à já 'clássica' da Criterion), fica aqui um artigo do Alternative Film Guide sobre um dos maiores, mais espectaculares, completos e mais influentes filmes de sempre.

Sábado, Novembro 11, 2006

Jack Palance 1919-2006

jack palance
Jack Palance e Joan Crawford em Sudden Fear. Imagem:Brian's Drive-In Theater

Aborrecimento Infernal

hellgirl
Continuo a não compreender o sucesso que o anime Jigoku Shōjo alguma vez teve algum interesse (é um dos mais famosos animes dos últimos anos, sobretudo fora do Japão) e, sobretudo não consigo entender como é que se consegue fazer uma segunda season de uma história que é igual em todos os episódios. Claro que fazer uma versão live-action a re-contar as aventuras na primeira season é ainda mais redundante.

A fórmula narrativa de Jigoku Shōjo (aka Hell Girl) é simplesmente a maior perda de tempo que algum espectador possa ter e sintetiza-se facilmente: alguém quer matar outra pessoa, escreve o nome desta no website na Hell girl, assina-se um contrato, o pulha que merece morrer é levado para o inferno, a personagem boazinha fica feliz 'para sempre' (ou até ser cobrado o serviço) e acabou o episódio. Ficam alguns momentos (pontuais) de algum interesse gráfico (repetidos todos os episódios, já que a história é sempre a mesma) e uma caracterização de personagens vazia, dualista e cheia de clichés. Será realmente interessante ver esta história repetida até à náusea? Parece que não.

Mas agora que a segunda season do anime já vai a meio, a japonesa NTV lá lançou o live-action, de forma a conseguir re-utilizar ainda mais a mesma história, agora com actores. E se a série de anime conseguia ainda ter segundos de deslumbramento gráfico, o dorama é terrivelmente mau, com actores que parecem mais amadores a fazerem cosplay com a cabeça entupida de downers e maus efeitos especiais que lembram as séries xungas de TV dos anos 80. A evitar.

Sexta-feira, Novembro 10, 2006

Andam Eles Aqui?

flyingsaucers

Não querendo parecer um ser alienado, comecei a reparar ultimamente que os media britânicos pontualmente falam sobre Ovnis. Por estranho que pareça, e não querendo de forma alguma sobrescrever algumas das teorias de conspiração que desde sempre circularam on-line, parece que agora finalmente existe já uma inclinação dos media para tal tema.

Não quero com isso afirmar que acredito (ou não) em tais coisas, mas o facto é que existe já uma 'estranha' inclinação para se falar no assunto sem que os reporteres se desmachem a rir. Afinal, agora que parece que as 'ameaças extremistas' já não assustam o público de forma a este apoiar incondicionalmente qualquer medida política por muito aberrante que possa parecer, fazendo com que os politicos que outrora comandavam a 'war on terror' tenham caido num descredito total mesmo fazendo um esforço colossal para manterem o assunto da Segurança na ordem do dia (basta ver o título desta notícia), existe um interesse particular em tentar prever qual será o 'nosso' próximo inimigo que nos ameaçará de uma forma terrível e implacável.

Ironia à parte, o facto é que o MoD britânico tido aparentemente algum trabalho a investigar tal assunto (como noticiava o Guardian à alguns meses atrás), e agora que a conjectura política nos EUA e Reino Unido parece estar a mudar, existe um súbito interesse em tais actividade deste ministério. Fazendo um tracking algo linear, basta pensar que desde a Segunda Grande Guerra que a industria de armamento tem tido uma presença eufórica com este esforço político em encontrar 'perigos eminentes' para a sua expansão tecnológica e financeira. Tivemos uma Guerra Fria, que entre uma miriade de coisas, criou o 'meio' onde este post está a ser registado, e que foi gerando umas crises políticas que deram muito 'jeito' a tal lobby, tivemos logo de seguida uma 'star wars', que se revelou desnecessária devido ao desaparecimento do Bloco Soviético, tivemos e temos crises no Médio Oriente e agora que, aparentemente, já ninguém se choca muito com os grupos terroristas islamicos (já que as consequências já foram muito para além do estado de choque) existe uma vaga para o lugar do próximo inimigo global.

Todo este (meu) raciocínio parece ser algo simplísta, mas o facto é que, falando de cultura popular (e desde já lembro que este é um blog sobre cultura popular) estão abertas algumas brechas de senso comum que me fazem pensar deste modo. Será necessário muito tempo até que toda a questão do terrorismo esteja ultrapassada, agora (ainda por cima) que se nota já uma cada vez maior separação social no Reino Unido devido a tal questão e que aparentemente chegamos a uma nova era conservadora, apoiada por um largo sector da sociedade britânica que, como em qualquer lugar do mundo, está aberta a dar um voto de confiança a qualquer 'Zé-poucochinho' que recite o mantra desejado.

Mas, e mesmo prevendo que este será o post mais ridiculo alguma vez escrito por aqui (só o tempo o dirá), com um possível aumento a este tipo de notícias se repetirem num futuro próximo, estará aberta a porta para encontrar um novo tipo de paranóia social que fará a delicia de todos aqueles que lucram (das mais variadas formas) com a forma como todos nós vemos a segurança mundial.

Quinta-feira, Novembro 09, 2006

Cinema Sonoro

Scott walker
Sendo um fan incondicional de Scott Walker, tenho um particular interesse em The Moviegoer (1972), uma das obras mais esquecidas pelas fans e aparentemente considerado um 'produto menor' pelo próprio cantor.

Viajando por temas de filmes que na maior parte estão actualmente obscurecidos, Walker entrega interpretações magnificamente elaboradas de composições de Alan e Marylin Bergman, Lalo Schifrin, Mancini ou de "Speak Softly Love", uma das composições mais conhecidas/ reconhecíveis de Nino Rota, acompanhando a sua espantosa voz com uma luxuriosa orquestra dirigida por Robert Cornford. Uma obra musical para cinéfilos, The Moviegoer é um roteiro cinematográfico esquecido, mas um válido documento daquele que considero o maior crooner do século passado. A descobrir.

A Sul da Fronteira

800 balas
Sendo um género que mais influências demonstra no 'recente' cinema espanhol de contornos mais independente (mais nas 'figuras de estilo' do que em 'género'), o Western Spaghetti tem em 800 Balas (2003) uma das maiores homenagens feitas a esses clássicos filmados na Europa (Itália e Espanha sobretudo), que conseguiram ultrapassar no seu realismo e criação de figuras máximas do género os produtos made in USA.

Todo o filme acenta na figura de Clint Eastwood e na triologia Leoniana/Morriconiana A Fistful of Dollars/ For a Few Dollars More/ The Good, the Bad and the Ugly, com recriações absolutamente brilhantes desses clássicos (filmados na célebre cowboy town que é a Mini-hollywood em Almeria, onde também esta obra de Iglésia foi filmada) e com um poder de invocar imagens de forma magistral.

O problema com esta obra de Alex de la Iglésia é sobretudo a sua incapacidade de entregar algo mais do que isto. Embora toda a equipa deste projecto seja brilhante (um argumento do maior scriptwriter do actual cinema espanhol, Jorge Guerricaechevarría e um cast soberbo encabeçado por Sancho Gracia e Carmen Maura), 800 Balas não passa de uma celebração dos tempos em que Espanha estava no mapa devido a Almeria, não conseguindo traduzir na história do grupo de ex-duplos liderados pela personagem Julián Torralba nenhum motivo de interesse dramático e usando 'muletas' de comédia que são por vezes dispensáveis. E o flow de todo o filme cai muitas vezes num torpor, que se torna mortal para uma obra de um dos mais brilhantes realizadores europeus.

Embora já tornado um filme de culto, 800 Balas é claramente, e numa opinião muito pessoal, o filme mais fraco deste realizador e uma transição na obra de Iglésia, que conseguiu até a este filme realizar algumas das melhores comédias negras de que haverá memória no cinema europeu contenporâneo. Este filme é apenas recomendado para fans incondicionais de Iglésia e do Spaghetti Western, correndo o 'restante público' o risco de minimizar a restante obra (brilhante) deste realizador ao ver este filme.

Segunda-feira, Novembro 06, 2006

Ouro sobre Veludo

andrea aterciopelados

Por volta de 1995, lembro-me de ter ficado a conhecer os Aterciopelados através do teledisco Bolero Falaz e ter ficado com a sensação de que esta banda colombiana seria, com os seus 'vizinhos' mexicanos Café Tacuba e Maldita Vecindad (que já mereceram um post por aqui) uma das bandas que iria revolucionar a estagnada pop-pós-grunge a que estavamos submetidos na Europa e EUA.

Claramente era na altura muito naïf (e ainda o sou , para o bem e para o mal) e não entendi que bandas como esta não geram qualquer interesse fora do circuito falado em inglês (e que dá a papinha à boca daqueles que já não têm ou nunca tiveram, qualquer curiosidade de ouvir música recente desta zona do globo para além dos Gotan Project e coisas semelhantes feita a martelo). Mas o facto é que o Bolero Falaz tornou-se em 1995 (ou terá sido 96...) o hit de Verão na America Latina, projectando os Aterciopelados para a fama absoluta nesse circuito comercial particular e permitindo um sucesso além das fronteiras dessa zona.

Redescobri à uns dias atrás o album de onde foi retirado este bolero romântico com muita 'dor de corno'. El Dorado é um daqueles albuns rock perfeitos, onde com uma mistura de punk-rock (ou hard-rock) com os sons tradicionais da 'área' como a música rancheira, o bolero o flamenco e mais uma misturada de influências, criando um som inreverente e inresistível.

Com um alinhamento de faixas soberbo, onde apenas se notam pequenos momentos algo datados, El Dorado é um dos albuns mais perfeitos dos anos 90 (que me consigo lembrar) , servindo-se da voz rouca de Andrea Echeverri, guitarras cortantes e uma secção ritmica poderosissima, que tanto pende para o punk rock mais áspero como para uma 'batida latina' de contornos mais 'expressivos', para entregar um perfeito album de rock contemporâneo.

É certo que actualmente a banda já não tem este tipo de som, evoluindo para outros terrenos musicais, tornando-se mais comercial e 'exploradora', e mesmo ainda tocando algumas das faixas de El Dorado, como mostraram num fabuloso concerto na Expo 98 (no dia da Colômbia), o seu som (e a line-up) sofreu já drásticas mudanças. Mas pessoalmente recordarei os Aterciopelados como eram em 1994, quando lançaram esta obra-prima do rock latino dos anos 90, esperando que qualquer dia, uma possível re-edição da Sony, o faça mais conhecido fora da América Latina.

Domingo, Novembro 05, 2006

Hinduismo Pop

The Little Book of Hindu Deities

Throw another ingredient in the American spirituality blender. Pop culture is veering into Hinduism.
USA Today


Re-editado no mês passado, o magnífico The Little Book of Hindu Deities de Sanjay Patel, membro da equipa da Pixar, está a gerar o fascínio do infantes americanos e o deleite de inúmeros designers e ilustradores. Servindo inicialmente como um livro de crianças para introdução às mais conhecidas divindades do panteão Hindu, este "Little Book" está a ganhar um culto nos young adults, convertendo-se agora numa obra de ilustração para adultos.

Inicialmente uma auto-edição, este "Little Book..." tem agora uma reedição, revista e aumentada pela Plume/Penguin USA.

via World of Kane

Cantabile, Animato e Prestissimo

Nodame Cantabile

Seguindo a já comum adaptação, Nodame Cantabile é um dorama adaptado de um Manga original de Tomoko Ninomiya , que conta as aventuras de Nodame e Shinichi, dois alunos do conservatório de música com 'estilos de vida' completamente opostos que de forma muito difícil, conseguem criar uma relação devido á cumplicidade musical, enquanto são recrutados para uma orquestra por um estranho personagem que se faz passar por um condutor europeu, e que irá mudar a vida de ambos, mais à dos outros oddballs recrutados para o efeito.

Se o Manga, que se tornou uma obra de culto e um campeão de vendas, chamou à atenção juvenil para o universo da chamada música clássica, promovendo entre os adolescentes japoneses audições das referências usadas no manga, a série de TV, actualmente em exibição na Fuji TV, parece estar a tornar tal género musical numa coisa trendy, mostrando de forma algo bizarra e usado truques cómicos, a vida dos estudantes de música.

Claro que a série cai em costumeiros clichés dorama, sendo por vezes pirosa e com elementos irreais, mas passados os 10 minutos iniciais do primeiro episódio, Nodame Cantabile torna-se uma série interessante na forma como mostra uma relação impossível num background musical interessante, e com recurso a estilos narrativos que decerto devem muito à obra original.

Agora que está a ser produzido também o Anime da série, que irá para o ar em Janeiro no bloco de animação da Fuji TV (o já de culto Noitamina, que tornou conhecidas as séries Honey and Clover ou Paradise Kiss), este dorama parece estar já a dar novo fôlego às vendas de música clássica, tal como tinha acontecido com a série de banda desenhada.

Mesmo que por vezes atire para um certo camp (voluntário ou involuntário, não sei), e entendendo que ninguém poderá levar muito a sério este produto televisivo, Nodame Cantabile é uma lufada de ar fresco no actual panorama das séries japonesas, devido á sua candura e a uma excelente e arrebatadora soundtrack. Recomendado aqueles que já perderam a fé em comédia para TV.

Sábado, Novembro 04, 2006

Culto e Nostalgia

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