Existem algumas pessoas que se lembram de certos anos durante a década de 80 não por ter sido uma das décadas mais kitsch e onde a pop chegou a limites de disparate nunca antes atingidos, mas porque no 'underground' (em todas as suas variantes e não só musicais) muito do que actualmente é perfeitamente inofensívo e comercial estava a nascer.
A California de 1986 não era muito diferente da actual, com as suas superstars de L.A., as suas cocktail parties, os mitos caídos na 'europeia' Frisco e claro, multidões de imigrantes à procura do American Dream, com a sua generosa fatia de excluídos socialmente.
Se a cena artística e musical em, por exemplo, NY conseguiu décadas antes nutrir uma forte network de artístas independentes que se iam suportando como podiam, até chegarem a possuir um peso bastante significativo na gerência da cidade (isto antes de Rudy Giuliani claro), L.A. e San Francisco tinham essas mesmas estruturas fragilizadas, devido ao reino absoluto da indústria do entertenimento (sobretudo com as infames
playlists da MTV) e a MPRC, que então estava no seu vigor.
Isso não impediu o nascimento e crescimento de algumas das
enterprises que ainda hoje se mantêm veículos importantes de certos mercados, alguns deles já aceites pelo
mainstream e a edição comercial de 4 dos albuns que mudaram todo o som então conhecido como apenas
Heavy Metal e que trouxeram ao entertenimento muitos dos sub-géneros nesse género musical.
Master of Puppets (Metallica), Reign in Blood (Slayer), Peace Sells...But Who's Buying? (Megadeth) e Darkness Descends (Dark Angel) trouxeram a alternativa a fans deste tipo de som que não se reviam no
Hair metal dos Poison ou Motley Crüe. Estes excluídos alimentados pelo velhinho
heavy metal britânico e pelo Punk rock americano da
Bay Area tornaram um género chato e estruturado por clichés risíveis num dos maiores fenómenos de revolta teenager, com consequências então imprevisíveis, 'criando' o Thrash Metal e abrindo o caminho para muitos dos discos que actualmente são comprados nas grandes superfícies comerciais e que tintam de negro os quartos de adolescentes ao redor do mundo.
Considerações estéticas à parte, o facto é que me recordo perfeitamente destes 4 albuns com um sorriso, mesmo sabendo que os Slayer apostavam claramente numa abordagem exploitation de iconografia nazi e cantares satânicos (que lhes trouxe muitos problemas e claro publicidade), tal como os Dark Angel, que os faziam parecer algo desestruturados mentalmente, que os Megadeth com a sua visão cínica socialmente negra tentavam parecer sérios e sobretudo o moralismo dos Metallica pareciam vagos.
Na altura isto era o mais sério e estruturado que se podiam obter no underground (estou voluntariamente a excluir outros géneros também muito activos nessa área geográfica) e o som, de tão inovador, parecia atirar este tipo de 'sons extremos' para terrenos muito interessantes, algo que de facto, em parte, aconteceu. Embora actualmente cheios de clichés, na altura isto era o que mais inovador alguma vez poderia ser feito em termos musicais, num género expecífico.
Está claro que em 20 anos muita coisa muda. Os Dark Angel nunca conseguiram ter um sucessor digno a este velocíssimo opus de agressão sónica (com uma interessante agressividade nunca sentida até então), os Slayer são vistos como uns 'vendidos' pelos seus fans satânicos, tal como os Megadeth e os Metallica, que são uma caricatura deles mesmos, tendo sido (ou provocado) o aceitamento pelo mainstream.
No caso do Metallica (os mais conhecidos destas 4 bandas), que após a morte do mítico
Cliff Burton se desmoronaram numa sucessão de fraquissimos albuns que os levaram à fama total fora do género, poder-se-á observar claramente que o que nasceu nesse ano de 1986 devido à edição destes 4 albuns foi um dos fenómenos pop mais interessantes da década e que moldou não só um género musical (e originou muitos outros) mas originou uma indústria á parte que foi sendo aglomerada (primeiro pontualmente, depois de forma total) nos 'gostos' musicais de milhões de consumidores de música e de
lifestyles.
Mesmo que rapidamente absorvidos e ultrapassados (sobretudo no caso das duas bandas com M no início dos nomes), e com fans a originarem eles próprios sons ainda mais extremos (outra banda da Bay area, os Death, lançaria um ano depois um dos albuns com um sugestivo título de "Scream, Bloody, Gore", originando o ainda mais extremo Death Metal) o género nunca mais conseguiu ser parado, fazendo parte hoje de uma das grandes tendências do mercado musical.