Terça-feira, Outubro 31, 2006

730 Dias Depois...



... o BitL continua on-line.

A todos os participantes, regulares, ocasionais ou 'por engano', fica aqui um obrigado pelas visitas feitas em 2 anos. Vemo-nos por aqui.

O Cineasta Máximo

amos vogel


'As a race we have become aware of certain dangers that surround us. We comprehend, for example, that nuclear power is a real danger for mankind, that over-crowding of the planet is the greatest of all. We have understood that the destruction of the environment is another enormous danger. But I truly believe that the lack of adequate imagery is a danger of the same magnitude.'

Werner Herzog


Sempre me pareceu que sem Amos Vogel e Maya Deren não existiria cinema independente americano actualmente para além do 'neutral' Sundance e instituições semelhantes, que 'domesticaram' um tipo de cinema de forma a ser mastigado facilmente pelo mainstream.

Se Deren, alcunhada (de forma algo merecida) como a 'fundadora dos indies' nos EUA, foi de facto uma figura influentemente fundamental para a arte americana do século XX, Vogel foi um dos maior divulgadores de tudo aquilo que em cinema é ignorado, minimizado e até censurado.

Quer com o Cinema 16, quer através do fundamental New York Film Festival, o casal Vogel criou uma estrutura de 'ver cinema' nunca vista nos EUA até aos anos 50, usando a sua boldness, curiosidade e incansável trabalho 'de campo' para trazer ao outro lado do Atlântico a estrutura das cinematecas europeias, exibindo sem qualquer limite nem censura, ombro a ombro, obras significativas e obscuras do avant garde, cinema documental sem circulação comercial, obras de propaganda e novos autores, dando ao público de uma forma 'desprotegida', algumas das imagens mais estranhas, belas e significativas da arte do (ou no) Cinema.

E como se isso não bastasse, Vogel escreveu em meados dos anos 70 uma das obras mais importantes para os estudantes de Cinema e cineatas, Film as a Subversive Art, que nos seus cerca de 600 ensaios, conta uma a 'outra' história do cinema, aquela que nunca aparece nos outros livros, mas que teve uma absoluta importância para muita da cultura popular que actualmente nos rodeia.

Se muitos dos apreciadores do cinema independente americano (sobretudo avant-garde) conseguem ainda actualmente sentir a sensação magnífica do 'inesperado' ou até da 'surpresa' ao verem algumas obras, isso deve-se tanto aos criadores, como a divulgadores como Vogel, que nunca se inibiu em 60 anos de trabalho ardúo, de nos mostrar o que a indústria mainstream não quer ou não tem interesse em nos mostrar.

Sábado, Outubro 28, 2006

Consumismo de Sábado à Tarde (3)

evil pinky
Evil Pinky #2, criação de Steven House, nos saldos da Forbidden Planet (International), pela quantia de £0.99!

Tem Piada, Não Teve?

denshaSP

Francamente considero-me um fan 'a sério' da série Densha Otoko. Não consigo deixar de rever vezes sem conta a série e mostrá-la a que ainda não a viu, louvando os seus méritos televisivos e narrativos de uma série que, embora pareça uma vulgar e por vezes pirosa série de TV, possui méritos narrativos e de caracterização de personagens especiais.

É claro que, tal como milhares de outros fans, também estive à espera do tal episódio especial mostrado no final de Setembro, que contava uma das possíveis sequelas do romance entre o homem do combóio e a sua agora namorada Hermés.

Mas este especial claramente é um daqueles casos em que a montanha pariu um rato. As personagens passaram a ser uma paródia do que foram na série, as piadas brejeiras, que davam a certos characters uma piada especial foram substituidas pelo humor mais grosseiro e escatológico e o argumento, que até agora era implacável e a roçar o genial, deu lugar a uma história sem pés nem cabeça, exagerada até ao ponto da náusea e cheia de disparates que nunca deveriam ser permitidos ser mostrados em TV, dando lugar a uma lamechice idealista que não tem qualquer fascínio. E a inclusão de novas personagens, péssimos (para não destoar), torna este episódio ainda pior.

E se a personagem do Densha Otoko passou toda a série a choramingar para conseguir obter o amor da sua office lady, é agora a vez dos fans chorarem perante a pobreza deste episódio que serve apenas para sugar o que resta do filão 'densha otoko', tentando responder a um certo saudosismo que a série revela de vez em quando, e talvez preparar os coach potatoes para algo mais saido deste mesmo filão.

O destino deste episódio é revelado nos primeiros minutos, quando são entrevistados alguns 'nativos' de Akihabara (a 'electric city' conhecida por ser o ponto de romaria de milhares de otakus), que revelam que o este spot já não é um lugar de refúgio desses seres, mas um ponto turistico para milhares de curiosos, que adoraram o romance descrito na série, e que agora vêm os otakus não como seres repelentes, mas como um dos bastiões do trendy, tornando-os em superstars. Claramente tal como os ingénuos turistas que perseguem os otakus na rua, também a Fuji TV caiu na armadilha de se juntar a esta paródia, tornando Densha Otoku numa espécie de celebração disparatada desta tribo urbana, para depois exercitar um profundo mau gosto na forma como constroí este espisódio especial, que acaba de uma forma estúpida e repelente.

Agora que a Fuji TV declarou já que nunca mais faria mais nenhuma destas sequelas da série, fala-se já na exibição da animação que os otakus da série (uma série dentro da série portanto) viam religiosamente, Getsumen Toheiki Mina, sendo esperada a sua exibição em Janeiro. Resta esperar que 'isto' não seja um sinal de que existe ainda alguém a tentar explorar um filão já esgotado. A ver vamos.

Sexta-feira, Outubro 27, 2006

Got Carter!


Influente e eternamente louvado, Get Carter é um daqueles poucos filmes made in england que consegue ser visto como uma obra decente de cinema. Este neo-film noir não tem muitas cenas onde apareçam armas (ao contrário do remake americano), a violência é relativamente contida e as cenas de sexo consegue ter algum bom gosto. De facto Get Carter, sendo influente para o posterior cinema de gangsters, consegue ter aquilo que a maior parte destes produtos não têm: Charme.

A romaria de Jack Carter a Newcastle, para tentar perceber o que realmente matou o seu irmão, tem algum dos diálogos mais espectacularmente engraçados no cinema britânico e sobretudo um gangster charm que parece ser actualmente impossível de assistir no 'cinema criminal', povoado de actores com subtileza menor à dos nossos primos primatas, autênticos role models para milhares de atrasados mentais que conseguem ainda ver tal tipo de cinema actual. E se Michael Caine consegue ser ainda hoje ser visto como uma das figuras mais interessantes na cultura popular britânica, isso deve-se na sua maior parte devido a este espantoso conto que consegue ser simultaneamente realista e profundamente estilizado.

Tendo sido um dos alicerces de influência do 'novo cinema' de gangsters britânico que desde finais dos 90s tem vindo a 'dar à costa', com as obras de Guy Ritchie, Shane Meadows ou o seminal "Sexy Beast " de Jonathan Glazer a 'gritarem' essa mesma influência, Get Carter é uma das obras mais interessantes de ser descoberta pelos fans desses mesmos filmes, de forma a constatarem que antes de toda essa geração de realizadores, que pessoalmente considero pouco interessante, existiu um filme que marcou o nascimento de todo o género no Reino Unido. Recomenda-se desde já esta edição recente.

Space Oddity

UNARIUS
via Gpod

Se existem obras cinematográficas que, apesar de não 'pertencerem' à história oficial do cinema, conseguem ter uma aura de culto absolutamente inresistivel, The Arrival (1969?) tem todos esses elementos e ainda consegue, acreditando nos escassos dados sobre esta oddity, ser uma das obras mais interessantes a nível de efeitos especiais. Embora esteja categorizado na longa lista de bizarrias que são os filmes realizados ou patrocinados por seitas religiosas, este documentos é um dos mais estranhos produtos camp alguma vez surgido nessas condições, tendo, e acreditando na data deste filme, alguns dos mais interessantes efeitos especiais vistos no cinema pré-Star Wars.

The Arrival é uma producção da Unarius Academy of Science que conta a visita dos nossos "space brothers" a um aborigene, revelando-lhe os segredos da imortalidade e dando-lhe as noções fundamentais que alicerçam esta seita americana, usando uma 'linguagem estética' berrante, camp e absolutamente açucarada e barroca que faria outros atentados estéticos como o Disco parecerem produtos estéticamente sóbrios e monocromáticos.

Mesmo tendo momentos que parecem ser inspirados nas mais avançadas obras de sci-fi da época (existe alguns momentos Star Trek por aqui), The Arrival consegue ser, e volto a frisar que não estou absolutamente certo da data deste bizarro documento, uma das obras que poderia ter inspirado 'A saga do Lucas', com as suas naves a planar no espaço sem as chamas a aparecerem nos reactores (lembre-se que oficialmente 2001: A Space Odyssey, realizado um ano antes, terá sido 'oficialmente' o primeiro filme a não usar tais inconsistências científicas).

Independentemente de ser ou não de 1969, The Arrival é uma daquelas obras a ser vistas pelos adeptos do camp no sci-fi como um dos produtos mais bizarros desse sub-género a descobrir.

Sábado, Outubro 21, 2006

A Granny Mamie

mamiedoren
Ah, to think back about that fabulous era when women had figures that looked like Coke bottles...
www.cultsirens.com


Com 75 anos (a avaliar por algumas das fontes), Joan Lucille Olander é o único vertice vivo do magnífico triangulo das 3Ms, que fizeram enlouqueceram muitos homens e redefiniram muitos clichés de beleza feminina que ainda hoje as sociedades ocidentais parecem (por vezes secretamente) admirar.

Mas se Marylin e Jayne Mansfield conseguiram notoriedade através da sua carreira cinematográfica (sobretudo a primeira como sabemos) , Joan Lucille, conhecida como Mamie Van Doren, tornou-se desde cedo como a actriz e pin-up que definiu o que hoje em dia é conhecido como Celebridade. Um fiasco cinematográfico, Van Doren conseguiu notoriedade e poder visual a partir dos anos 50, apenas através da sua aparência física e pelo seu 'life style', uma tendência no entertenimento que apenas surge muito mais tarde (por si só entenda-se) nos anos 80 e consolidada apenas depois dos 90s, com os reality shows que projectaram um bando de inúteis e inaptos seres para o absoluto estrelato, sem qualquer motivo válido para tal.

Mamie Van Doren é de facto a avozinha desses seres, mas sendo uma celebridade vintage merece claramente relevo. Numa época em que dezenas de bombshells apareciam tão depressa como desapareciam, muitas com destinos horriveis e trágicos (basta lembrar nomes como o de Barbara Payton), Van Doren, um magnifico catálogo de alterações plásticas, consegue ainda hoje manter uma invejável silhueta (75 anos, lembrem-se!).

Sendo uma adepta do Macintosh desde os anos 80 (a sua biografia de meados dos 80, foi escrita num dos primeiros modelos de PC que a Apple lançou), costuma ainda neste momento editar (pessoalmente segundo consta) o seu site pessoal onde vai exibindo uma luxuriosa figura e contar os pormenores mais sórdidos de algumas das estrelas de Hollywood com que foi para a cama.

Para aqueles que regularmente costumam visitar este blog devido a algumas das entradas nos arquivos dedicados a celebridades como a 'bovina' Katie Price, aqui fica uma razão algo mais decente para admirarem curvas feitas com um dos derivados do petróleo mais interessantes actualmente. E já agora visitem o site pessoal da senhora Van Doren, este icon da pop da Hollywood Babylon merece!

Tamara Dobson 1947-2006

tamaradobson

Poderá ser menos conhecida que Pam "Foxy Brown" Grier para o público em geral, mas Tamara Dobson foi (com Grier) a heroína máxima do Blaxploitation. Com uma curta carreira no Cinema, a modelo/actriz que foi considerada a mais alta leading lady no Cinema pelo The Guinness Book of World Records (1.90 aprx), fica para a história do cinema como a pujante Cleopatra Jones, que em dois filmes (Cleopatra Jones de 1973 e Cleopatra Jones and the Casino of Gold de 1975) marcou o apogeu de todo um género que depressa desapareceria.

Muitas vezes imitada e parodiada (Os fans do Austin Powers decerto que se lembram da Foxxy Cleopatra), Dobson desapareceu em 2 de Outubro passado, depois de uma luta constante nos últimos dois anos com esclerose multipla, mas ficará para sempre como um icone pop, na imagem da poderosa king-fu fighting agente anti narcoticos Cleopatra Jones, kinking badass.

Sexta-feira, Outubro 20, 2006

Burlesco Revisitado

forbiddenzone

No auge da chamada New Wave (refiro-me ao rótulo terrível criado para designar certas bandas nos finais dos anos 70), o colectivo auto-nominado Mystic Knights of the Oingo Boingo, comandado por Richard Elfman (sim, o irmão mais velho do Danny, que também colabora no filme), resolveu capturar em filme o espírito off-broadway dos bizarros espectáculos ao vivo desse colectivo. O resultado foi um Forbidden Zone, uma das obras mais hilariantes e pouco-sérias da avantgarde americana dos 80s e um dos documentos mais interessantes do real espírito do burlesco, tão em voga actualmente, sobretudo por culpa da Mrs. Manson.

A obra Elfman mistura de facto o caos do circo bizarro dos Oingo Boingo (um dos outfits influenciados pelos Mother of Invention), misturando comédia, musical, sleaze, uma generosa colecção de oddballs, cartoons e uma visão sarcástica (e muito afectada pelo 'espírito artístico', diga-se) da Americana. Se muito do que pode ser observado em Forbidden Zone está já datado e marcado por uma certa 'arrogância art school', a forma como são reciclados o street humor e o entertenimento ' mais baixo' dos anos 30 é magnífica, parecendo todo o filme incitar à memória nomes como Cab Calloway, Max Fleischer ou aqueles estranhos filmes de burlesco, como "Chicks and Chuckles", que teriam depois um papel importante também em Twin Peaks.

No filme assistimos à bizarra história da familia Hercules, que por acaso tem uma porta para a "forbidden zone" na cave e que lhes dá acesso ao mundo bizarro do King Fausto (Hervé "welcome to fantasy island!" Villechaize), onde minions, beldades nuas/semi nuas, carne crua, piadas grotescas, simulações sexuais, os minstrels e o Diabo (Danny Elfman) a cantar Minnie the Moocher, compôem um dos productos de culto dos mais estranhos que se fizeram nos 80s.

Mesmo sendo um 'híbrido' entre o mau-gosto e a comédia negra de contornos geniais, Forbidden Zone decerto que gerará bastante interesse nos aficionados da cultura pop americana da primeira metade do século XX, estudantes de arte e outras criaturas que gostam de atirar os nomes de umas obras de culto de forma a gerar a admiração dos amigos e para aqueles que constinuam a gostar da obra repetitiva de Danny Elfman (existem por aqui muitos momentos interessantes).

Esta Chaotic musical fantasy (como definida pela tagline do filme), poderá não ser do gosto de muito do público mainstream, mas decerto que merecerá uma visão e uma re-avaliação actual, mais não seja para se valorizar alguns dos momentos brilhantes de reciclagem do "universo Oingo Boingo" e de alguma influência e culto que gerou nos anos posteriores.

A Dona de Casa Sabe!

supermarketwoman

Cada vez mais aqui pelo RU assiste-se a um estranho backlash contra as grandes cadeias de supermercados, que tiveram uma espécie de 'idade de ouro' na relação com o consumidor (que exigia, como em toda a Europa, ter uma espécie de grande superfície de compras para os cada vez maiores subúrbios), e que agora são vistos como os grandes culpados (que surpresa...) da desagregação das comunidades e o fim do chamado comércio local.

Toda a gente decerto sabe que os 'nossos' supermercados são autênticos bullies financeiros , deixando os fornecedores num ataque de nervos constantemente, chateando as comunidades até à morte e dando uns magníficos cupões e memberships que apenas servem para espiarem os nossos comportamentos como consumidores.

Não estava à espera de encontrar tal maquiavélico mundo em Sûpah No Onna (aka Supermarket Woman), mas a comédia do 'trágico' Juzo Itami consegue aflorar tais questões de uma forma bastante 'esperta', compondo a personagem principal do filme, Hanako (Nobuko Miyamoto), como uma idealista que tenta resgatar do desastre o supermercado de um amigo de infância, ameaçado pela inaptidão deste como manager e sobretudo de um novo supermercado que parece estar a 'roubar' todos os seus clientes.

O motto do filme é claramente o anunciado por Hanako antes de ser contratada para fazer uma autêntica 'revolução dos supermercados', A dona de casa é que sabe! A partir daqui, esta morna comédia começa a entrar no terreno da frenética análise da relação entre os clientes e os vendedores de comida. Vamos sendo bombardeados com novas tácticas 'limpas' e 'consumer-friendly' para ganhar confiança nas desconfiadas donas de casa, na inevitável história de amor, que teima em não acontecer até ao final, e sobretudo com os truques sujos da competição, que teima em enganar o consumidor para tramar a competição. Pelo meio ficam um perseguição de carrinhas, uma boa colecção de bizarras personagens (uma imagem de marca de Itami), agressivas invasões de supermercado em dias de promoções e sobretudo um idealismo que seria perfeito para todos, num mundo dominado por truques sujos para conseguir o lucro fácil.

Supermarket Woman poderá não ser a comédia perfeita e o seu tema decerto que não deverá suscitar grande interesse para quem não seja um ser obessecado por supermercados. Mas a forma claramente humana e idealista como Itami consegue fazer crescer a história de tal aparentemente desinteressante assunto, leva o espectador a vibrar com as vitórias do "Honest Goro" face ao seu pouco escrupuloso concorrente, o dono do nojento "Bargains Galore".

Decerto que aqueles que alguma vez 'tropeçarem' neste filme não sentirão aquela sensação de ver uma obra-prima da comédia, mas decerto que nunca mais conseguirão entrar num supermercado sem olharem para as prateleiras com um olhar muito diferente. Instructivo!

Sexta-feira, Outubro 13, 2006

Sexta-Feira ,13

Só para lembrar a data:


Jason Voorhees limited edition 12" action figure, na Shadowland Toys ou na Forbidden Planet

Lulas à Japonesa

homemlula

A Oriente, desde 2001 que se nota o resurgimento da cómedia non-sense, levada até às mais despropositadas consequências. Se o género comédia-teen goza actualmente de boa saúde na Coreia do Sul (em breve existirá um post sobre assunto por aqui), que desde essa altura tem vido a vender os chorudos direitos para remakes em Hollywood, no Japão este género, numa facção mais baixo-orçamento, tem vindo resurgir, revivendo as velhas glórias da comédia grotesta e de míriades de heróis de borracha.

Se actualmente os apreciadores deste género de comédias podem ver as maravilhosas cenas de artes marciais do super-detective que usa o seu capachinho (!) para derrotar os super vilões (Dura Deca a.k.a. The Rug Cop), foi com Calamari Wrestler (2004) de Minoru Kawasaki, um low budget que inesperadamente se tornou um fenómeno de bilheteira, que as coisas começaram a 'aquecer' para os empreendedores realizadores viciados em mostrar ao mundo os disparates que supostamente nunca deveriam ter sequer passado pelo cérebro humano.

Embora apontado frequentemente como uma reminiscência dos filmes do El Santo (ainda hoje com especial culto nos EUA), a história da lula que se torna o herói do wrestling japonês (!) vive muito mais do fenómeno da luta livre nacional e sobretudo de parodiar a série Rocky, colocando tal inesperado ingrediente (a lula) em tais palcos, fazendo do filme uma comédia representada como se de um normalissimo filme dramático se tratasse, com as inevitáveis cenas de ringue, onde vai derrotando humanos e mais tarde um vil e mal educado lagostim (!). E se aqui tudo é possível, o que dizer de cenas mais triviais como os dilemas do pobre animal marinho face ao amor, os seus treinos para derrotar o lagostim vilão ou até as suas actividades de lazer?

O facto é que Kawasaki criou uma das obras mais desconcertantes de ser vista alguma vez no actual cinema japonês. Se a comédia soft-core mascarada em filme de vanguarda, The Glamorous Life of Sachiko Hanai (aqui o argumento rebenta qualquer escala de previsibilidade) de 2003 conseguiu espantar os privilegiados (?) que conseguiram ver esta pérola, Calamari Wrestler consegue sintetizar o mais trivial no cinema actual para mostrar uma das histórias mais disparatadas que haverá memória, ousado até fazer cenas dramáticas onde existe uma relação séria entre um invertebrado e uma rapariga.

E tentando provar que este dramatismo terá que ser levado a sério, Kawasaki realizou posteriormente o Executivo Koala, mostrando as tendências homicidas reprimidas de um salary man que é um Koala ou até a fabulosa história do caranguejo que se torna aceite na comunidade que o adoptou (The Crab Goal Keeper), transformando-se no barman mais rápido do planeta, completando a sua 'triologia animal'.

Altamente recomendado aqueles que acham que já viram de tudo em Cinema, Calamari Wrestler é um marco na história do disparate a que certo cinema low budget chegou... para bem de todos nós.

Quinta-feira, Outubro 12, 2006

Mannequim Superstars

fuccon
Imagem cortesia de powermetal.de

É bastante difícil catalogar Kyupi-Kyupi, um dos mais conhecidos colectivos artísticos nipónicos actualmente. Misturando instalação video e performance, Yoshimasa Ishibaschi, Mazuka Kimura, Koichi Emura and Mami Wakeshima, misturam a glossy cultura popular japonesa com imagens de neo-burlesco e comédia grotesta de forma a transmitirem uma visão bastante provocante da realidade mediatica actual.

Se já conceituados no panorama da Arte actual, com exposições/performances nos mais conhecidos museus mundiais, Kyupi-Kyupi ganharam uma exposição mediática ainda mais abrangente com a sua série de curtos skethes cómicos OH ! Mikey, originalmente transmitidos no bizarro programa Vermilion Pleasure Night da TV Tokyo, um dos veículos mediáticos que Kyupi-Kyupi usou para propagar as suas máximas artísticas, marcadas pelo Kitsch, o burlesco de contornos soft-core e o humor negro.

Em traços gerais o que trouxe mais popularidade à esta série foram os seus 'actores'. Não tendo recursos para contractar actores estrangeiros que podessem simular uma telenovela americana, uma das paixões de adolescência do front-man Ishibaschi, o colectivo usou manequins de loja, com aspecto ocidental, para encenarem as vicicitudes de uma familia americana, os Fuccons, a viverem no Japão devido aos negócios do patriarca da familia.

O casal Fuccon, James e Barbara e o seu 'rebento' Mike, com as suas expressões faciais congeladas vão vivendo as suas aventuras de Gaijin num país culturalmente diferente, com consequencias algumas a roçar o polémico, revelando uma das mais sarcásticas diferenças culturais entre os dois países. Perante as aventuras de Mickey, muitas vezes marcadas por uma sexualidade pré-adolescente bizarra, os manequins vão encenando uma das comédias mais negras vistas em algum canal televisivo.

OH ! Mikey rapidamente ganhou um estatuto de culto quer junto de algum do público nipónico mais jovem, ampliado logo de seguida devido a vários website com video streaming como o YouTube, levando à decisão da TV Tokyo de incluir o programa numa slot priviligiada nos sábados à noite.

Agora que se tornou um fenómeno 'global', OH ! Mikey está, ironicamente, a ser exibida actualmente nos EUA com o título The Fuccons no já lendário G4's Late Night Peepshow (no canal de cabo G4) e com a edição em DVD na primeira season o fenómeno de popularidade destes manequins está no seu auge, falando-se já em restaurantes temáticos(!) com o universo destas bizarras personagens.

Entre o aceso ódio e o fulgurante culto, OH ! Mikey é uma das séries de humor mais bizarras que alguma vez sairam do Japão. Poderá não ser suitable para todos os gostos, mas ninguém irá decerto ignorar esta serie se algum dia 'tropeçar' num dos muitos fan sites dedicados às Mannequim Superstars.

As Garra do Monstro e os Amores Expressionistas

Kemonodzume

Será uma redundância dizer que a nova obra de Masaaki Yuasa é bizarramente estranha e com um espectacular estilo único sem qualquer ligação com a actual anime. De resto Yuasa, um dos mais influentes e inovadores criadores da animação japonesa actuais, nunca conseguiu estar ligado a uma produção que podesse ser facimente rotulada.

Basta pensar no seu envolvimento menos 'directo' em Noiseman Sound Insect (1997) ou Cat Soup (2003) ou nas suas próprias realizações, como Mind Game (2004) e no episódio Hamaji's Resurrection, da série The Hakkenden (1994), ainda hoje vistas como das obras mais influentes da actual Anime para entender que a obra de Yuasa projecta já o que será o futuro próximo da anime, sem concessões estéticas nem clichés sobre-usados e sem possivel comparação com a animação mainstream.

Kemono Zume, a nova série realizada por Yuasa, produzida pelos não menos influentes Madhouse Studios, é claramente uma evolução no estilo deste autor, com os devaneios visuais obssessivos que se tornaram quase uma regra na obra do autor, mas agora com um estilo expressionista altamente absorvente, que não dá descanço aos espectadores.

Traduzido como "As Garras da Besta" (ou "As Garras do Monstro"), Kemono Zume conta a história da luta entre um limitado grupo secreto de samurais contemporâneos (os Kifuken) que lutam contra uma raça de aparentemente míticos monstros canibais (os Shokujinki) que se escondem em corpos humanos, revelado-se apenas quando sentem lúxuria. A história desenvolve-se quando Toshihiko, filho da cabeça do clan dos Kifuken se apaixona por Yuka, uma aparentemente humana com uma forte linha de sangue Shokujinki, levando-o a rebelar-se contra o clan.

Se através desta pequena descrição Kemono Zume aparenta cair em alguns dos clichés da animação que retrata Yōkai e extremas transformações corporais, a forma surreal como Yuasa constroí esta bizarra história usando como tema centrais os impulsos humanos mais escondidos catalogados pela psicanálise, faz desta série uma das mais frescas propostas desta season de animação made in Japan, mostrando como esta história de amor singular consegue revelar os mais temíveis segredos do psique humana.

E se a temática é de facto rica em simbolismo (uma marca deste realizador), com uma construção não-linear das personagens, que parecem ocultar factos (que vão surgindo com alguma surpresa durante a série) é a técnica de animação, brutalmente expressionista, que partindo da influência da pintura deste movimento artístico (pessoalmente parece-me que Oskar Kokoschka parece ser, entre outros, uma das influências gráficas desta série), gera uma magnífica mezcla gráfica, que uma complexa mistura traços esquizófrenicos com fotogramas coloridos à mão, fazendo cada segundo de imagem uma ilustração animada que se junta na perfeição aos desejos complexos das personagens.

A adicionar a esta mestria gráfica, a banda sonora, melancólica e 'urbanamente cool' (composta por Megumi Wakakusa) eleva esta série à perfeição, complementada pelo tema de abertura "Over Blues" dos hipersters Katteni Shiyagare, um dos combos mais interessantes do actual revivalismo swing, que conseguem acrescentar ainda mais interesse a esta obra-prima.

Kemono Zume é uma daquelas séries que nega aqueles que (ainda) afirmam que a actual animação japonesa está presa num perpetúo ciclo de clichés e que não consegue ser inovadora. Altamente recomendável, esta é uma das mais singulares e interessante séries dos últimos anos.

Simulações da Realidade(2)


Controverso e já premiado, Death Of A President foi exibido pelo britânico Channel 4 (que também o produziu) à uns dias atrás, perante um coro de protestos e tentativas de anular a sua exibição. O mockumentário de Gabriel Range usa como ponto de partida o assassinato de George W. Bush em 2007, através de uma bem sucedida mescla de CGI e imagens de arquivo, para fazer a análise de uma nação constantemente paranóica com sua actual War on Terror, minimizando a constantes polémicas e manifestações de repúdio no seu interior que Bush tem gerado.

Se claramente Range tem uma abordagem algo 'americana' na forma como apresenta estes factos fictícios, criando aquela emoção algo cheesy que nos habituamos no cinema comercial americano, a sensação que fica ao assistir a este filme é a de que existe aqui uma grande exactidão de possíveis factos, já para não falar de crítica dura, na forma como as elites americanas são olhadas pelo resto do mundo, mas apresentando também o 'outro lado' desse olhar, com uma fabulosa caracterização dessas mesmas elites que constroem e mantêm o status de Bush.

Para lá de quaisquer clichés e alguns aparentes exageros (sobretudo com a questão das falhas de segurança ao presidente americano, que aqui parece pouco eficaz, mas muito bem caracterizada), Death Of A President é um daqueles documentos que decerto será imperdível aqueles que já se habituaram a criticar uma das figuras mais controversas da política mundial actual.

Construindo de forma tão absorvente a realidade de factos que nunca existiram, este documentário permite-nos de forma extrema constatar que estamos mais mergulhados nas imagens que os media nos habituaram do que pensamos, fazendo-nos perfeitos alvos para uma 'construção paralela da realidade', nunca tão linear como inocentemente costumamos ter como garantida. Se como costuma dizer Robert Anton Wilson, a realidade é como plasticina, facilmente maleável, este é um daqueles 'produtos' que o vem provar de uma forma altamente irónica. Recomendado.

Terça-feira, Outubro 10, 2006

Simulações da Realidade(1)

manonthemoon

De todas as centenas de hoaxes e teorias de conpiração a circularem na web, a que sempre considerei mais interessante e mais compacta sempre foi a de que os EUA nunca pisaram a Lua em 1969. Ambos os lados desta teoria, que reúnem conceituados cientistas e técnicos, continuam à décadas a jogarem um interessante jogo de Xadrés, atirando factos e análises ás imagens para provarem ambos os pontos de vista. Se a Nasa, como lhe compete, e outros apaixonados da Astronomia tentam explicar todos os aparentes erros encontrados (aqui por exemplo), existem outros que vão acumulado factos que parecem claramente irreverentes e faria acreditar até o mais cerrado fanático do caríssimo programa espacial que culminou com a suposta chegada da Apolo (ver aqui ou aqui por exemplo).

No início de 2001 a americana Fox TV, aproveitando os 'restos' de popularidade dos X-files, emitiu um dos documentários mais interessantes sobre o tema. Conspiracy Theory: Did We Land on the Moon? gera ainda hoje um forte repúdio por largas partes da comunidade científica (como esta longa lista de supostos erros, compilada por Phil Plait) e simultaneamente forneceu as provas mais consistentes aos cépticos. A minha opinião pessoal é a de que seria muito possível e relativamente simples forjar um dos acontecimentos mais significativos (será?) da História do Século XX, sobretudo com tal generoso budget. Se tal aconteceu, confesso que me estou a borrifar.

Simultaneamente, um dos cientístas mais 'maltratados' pela comunidade científica americana, lançou à poucas semanas mais um video sobre a sua invenção mais interessante, que poderia resolver ad perpetum todos os nossos problemas energéticos. Refiro-me a Joseph Newman, o suposto inventor da já chamada Newman Energy Machine, um motor que gera mais energia do que a que precisa para funcionar, usando para tal energia do magnetísmo natural do Planeta, algo que nunca foi provado até hoje pela comunidade científica e que aparentemente é de uma possibilidade nula, cientificamente.

Claramente, não serei a criatura mais clara para explicar tal mecanismo, mas a paixão que Newman põe na sua invenção e a forma como explica de forma linear a forma de trabalhar da sua máquina 'mágica', fez-me acreditar (tal como a vários outros anteriormente cépticos cientístas) que de facto tal invento existe e apenas não está a ser usado devido às já normais formas algo 'nublosas' como os lobbies ligados às energias se movimentam nos EUA. O seu actual video poderá ser visto aqui, e para além de alguma 'cheesiness' com que Newman nos brinda, leva-me a questionar se de facto este homem não terá mesmo razão.

E ao contrário do acontecimento descrito no início, este facto deveria ser urgentemente verificado. Decerto que não seria preciso um budget tão generoso como o que o Programa Apolo para o governo americano provar que este mecanismo é válido ou apenas mais uma 'banha da cobra', e sobretudo para se entender se o futuro do planeta está ou não na solução que Newman (aparentemente) encontrou.

Segunda-feira, Outubro 09, 2006

Tiger Tanaka Forever!

tigertanaka

Embora atrasada, fica aqui a minha modéstia homenagem a um dos mais significativos actores de culto do cinema nipónico, muitas vezes esquecido, mas com uma obra das mais significativas do cinema de Yakuza e do género Chanbara, tantas vezes plagiado nos tempos que correm. Tetsuro Tamba morreu no passado dia 24 de Setembro, e será mais conhecido pelo seu papel de Tiger Tanaka em You Only Live Twice (1967), pessoalmente o único (ou dos poucos) filmes da série 007 que consigo suportar.

Tamba foi actor em mais de 300 (!) filmes desde os anos 50, tendo consolidado a sua imagem de super-actor japonês sobretudo como yakuza e samurai, valendo-lhe uma popularidade assombrosa no Japão e nos EUA, um país que desde os anos 80 mostra um claro interesse por ambos estes dois géneros cinematográficos.

Ficam para a história do cinema de culto japonês clássicos como Seppuku (1962), considerado por muitos uma presença fundamental no top ten dos filmes de samurai e claro Kaidan (1964), uma das obras-primas do cinema nipónico dos anos 60 (e obra fundamental de Masaki Kobayashi), infelizmente algo esquecido. Fica também marcada a sua participação em variadas séries de TV como a fantástica The Water Margin, uma série com um culto ainda bastante forte aqui no RU (foi exibida pela primeira vez por cá nos idos 70s) e na recente (e favorita aqui por casa) Yoshitsune, um dos últimos trabalhos que fez na sua longa carreira que decerto daria também ela um magnífico filme, onde teria o papel de um dos mais carismáticos actores japoneses de sempre.
Tamba Forever!

Domingo, Outubro 08, 2006

Back by Popular Demand

Fica desde já o aviso, este é um post dispensáve de ser lido. Aqui há cerca de um mês, numa conversa com o autor deste blog, foi convencido a ter finalmente um sitemeter neste blog. Nunca me atraiu a ideia de andar a ver que poderá vir algum dia aqui espreitar, e confesso que a perspectiva que sempre tive sobre o BitL era a de que, sem qualquer falsa modéstia, este blog merecia o prémio do 'blog menos lido de sempre', e que tal perspectiva pessoal dever-se-ia manter assim ('quanto menos se sabe melhor'), algo que não me chateia nada e me permite ir fazendo os meus balanços 'audio-visuais' sem qualquer chatice.

Mas esta semana essa indiferença acabou ao começar a fazer uma análise mais científica dos frequentadores deste blog. Descobri desde logo, por exemplo que este é o post mais visitado de sempre! E que quem o visita o faz devido a esta imagem.

Perdoem-me os restantes membros da blogosfera que compõem o público deste modesto cantinho da blogolandia, decidi aumentar um pouco as minhas 'estatísticas' e oferecer mais uma prenda a essa maioria que tanto presa o post em causa, que relata os meus pensamentos antigos sobre uma coqueluche chav do Reino Unido, Katie Price (AKA Jordan)...

Assim, esperando que apreciem a prenda, e rapidamente aumentem os hits neste blog (se calhar umas palavritas como Boobs, Tits, Model ou Sex Tape ajudarão os vossos motores de pesquisa a encontrarem este post) aqui vai:


Katie Price (Jordan)a mamanhuda que faz as estatísticas deste blog subirem em flecha... desde já obrigado pela (rápida) visita
Enjoy!

Sábado, Outubro 07, 2006

Camp Estilizado

casshern

Após tanto tempo a ouvir falar tão bem de Casshern, resolvi finalmente comprar o DVD do filme e esquecer um dos defeitos com que me deparo normalmente ao escolher novos filmes para ver, o de não confiar o meu dinheiro na crítica, por muito construtiva e até válida que possa aparentar. Os mais habituados a lerem este blog sabem que normalmente dou margens de dois anos até ver pela primeira vez obras que outros consideram fundamentais... passou-se isso com Sin City (que não me arrependi) e sobretudo com Kill Bill (que acho uma nódoa) e pareceu-me que finalmente que na semana era o Casshern que merecia a minha arriscada forma de passar o tempo.

Diga-se desde logo que desde os 10 minutos iniciais, Casshern apenas contribuiu para a minha boa disposição. Os clichés sucedem-se a um ritmo que não esperava e as gargalhadas foram abundantes. O problema foi que este constante riso perante um dos inícios mais desgraçados do actual cinema oriental foi dando depois lugar um mau estar pertinente, muito por culpa das sucessívas referências a outras obras, parecendo querer tapar algumas das falhas narrativas.

Claro está que algum 'bad acting' (e desde já refiro que gosto do trabalho de alguns actores envolvidos nesta obra de estreia de Kazuaki Kiriya), o excesso de cenas de acção mal traduzidas (camufladas através de filtros... o que nem sempre resulta pessoal!), a sobrecarga de CGI (pelos vistos poucos ou nenhum serão os momentos aqui sem actuação contra um 'blue screen') que geraram fabulosos backgrounds mas que infelizmente não conseguem salvar o filme e sobretudo a brutal carga simplista (todos diferentes, todos iguais... a Guerra é Má a Paz é Boa, etc...), completaram a minha percepção que este filme é um completo flop. Não conseguirei ir a extremos como esta crítica do essell.org, mas o facto é que consigo entender os 6 pontos apresentados para não ver este filme.

Fica a ideia que
Casshern, como primeira obra, é um projecto ambicioso, mas infelizmente parece muito vago, descambando entre os clichés de toneladas de videoclip musicais que parecem não ter qualquer rumo (as cenas de Kumiko Aso são péssimas) e os renderings de videogames muito passé. E para isso existem já no mercado muitos (bons e maus) exemplos.

Estando já um bocado arrependido de estar a ser tão mauzinho com um filme que claramente já tem um grande culto e que até foi muito significativo para alguns cinéfilos, deixam-me dizer em defesa própria, que no meio desta obra involuntariamente camp, existem de facto momentos interessantes no filme (pequenas pitadas, mas que mostram que Aso poderá vir a fazer algo agradavelmente interessante na próxima obra) e sobretudo a iconografia heróica, embora cheia de clichés, está muito interessante e sobretudo magnificos momentos gráficos, infeizmente vazios de conteúdo. Fora isso, apenas fiquei com a ideia de que deveria pedir o meu dinheiro de volta.

Quinta-feira, Outubro 05, 2006

O Que É a Arte?... Pois!

art-school-confidential

I've stopped going to see art films because every critic gives them four stars and say things like "masterpiece," "spellbinding," and "mesmerizing." I mean, they're doing that with my film, but I don't want to use those blurbs. Critical reviews aren't worth too much anymore because just about every film can get one or two of them.

Terry Zwigoff

Zwigoff está de volta às colaborações com Dan Clowes no perspicaz Art School Confidential, um dos mais perspicazes olhares às escolas de arte de que haverá memória. Gosto do trabalho que esta dupla produziu em Ghost World e agora parece que temos um update na ironia, com as refleções de Clowes. Art School Confidential vai avançando primeiro com o já costumeiro coming of age, mas quase sem nos apercebermos estamos envolvidos num dos mais ácidos exercícios de sempre sobre o mundo da Arte actual.

Para aqueles que ainda aquecem os miolos a pensar no que é actualmente a Arte, existe um explicativo diálogo-quase-monólogo de Jim Broadbent (um dos mais interessantes actores britânicos a trabalhar em Hollywood) quando tenta explicar a Jerome Platz (o 'novato'Max Minghella) como é que se poderá tornar um artísta famoso. Penso que aqui está sintetizado tudo o que Clowes e Zwigoff pensam sobre a Arte actual, algo que a avaliar pelas críticas algo divididas ao filme, não parece ter muito consenso. Brilhante!

California, 1986

reignblood

Existem algumas pessoas que se lembram de certos anos durante a década de 80 não por ter sido uma das décadas mais kitsch e onde a pop chegou a limites de disparate nunca antes atingidos, mas porque no 'underground' (em todas as suas variantes e não só musicais) muito do que actualmente é perfeitamente inofensívo e comercial estava a nascer.

A California de 1986 não era muito diferente da actual, com as suas superstars de L.A., as suas cocktail parties, os mitos caídos na 'europeia' Frisco e claro, multidões de imigrantes à procura do American Dream, com a sua generosa fatia de excluídos socialmente.

Se a cena artística e musical em, por exemplo, NY conseguiu décadas antes nutrir uma forte network de artístas independentes que se iam suportando como podiam, até chegarem a possuir um peso bastante significativo na gerência da cidade (isto antes de Rudy Giuliani claro), L.A. e San Francisco tinham essas mesmas estruturas fragilizadas, devido ao reino absoluto da indústria do entertenimento (sobretudo com as infames playlists da MTV) e a MPRC, que então estava no seu vigor.

Isso não impediu o nascimento e crescimento de algumas das enterprises que ainda hoje se mantêm veículos importantes de certos mercados, alguns deles já aceites pelo mainstream e a edição comercial de 4 dos albuns que mudaram todo o som então conhecido como apenas Heavy Metal e que trouxeram ao entertenimento muitos dos sub-géneros nesse género musical.

Master of Puppets (Metallica), Reign in Blood (Slayer), Peace Sells...But Who's Buying? (Megadeth) e Darkness Descends (Dark Angel) trouxeram a alternativa a fans deste tipo de som que não se reviam no Hair metal dos Poison ou Motley Crüe. Estes excluídos alimentados pelo velhinho heavy metal britânico e pelo Punk rock americano da Bay Area tornaram um género chato e estruturado por clichés risíveis num dos maiores fenómenos de revolta teenager, com consequências então imprevisíveis, 'criando' o Thrash Metal e abrindo o caminho para muitos dos discos que actualmente são comprados nas grandes superfícies comerciais e que tintam de negro os quartos de adolescentes ao redor do mundo.

Considerações estéticas à parte, o facto é que me recordo perfeitamente destes 4 albuns com um sorriso, mesmo sabendo que os Slayer apostavam claramente numa abordagem exploitation de iconografia nazi e cantares satânicos (que lhes trouxe muitos problemas e claro publicidade), tal como os Dark Angel, que os faziam parecer algo desestruturados mentalmente, que os Megadeth com a sua visão cínica socialmente negra tentavam parecer sérios e sobretudo o moralismo dos Metallica pareciam vagos.

Na altura isto era o mais sério e estruturado que se podiam obter no underground (estou voluntariamente a excluir outros géneros também muito activos nessa área geográfica) e o som, de tão inovador, parecia atirar este tipo de 'sons extremos' para terrenos muito interessantes, algo que de facto, em parte, aconteceu. Embora actualmente cheios de clichés, na altura isto era o que mais inovador alguma vez poderia ser feito em termos musicais, num género expecífico.

Está claro que em 20 anos muita coisa muda. Os Dark Angel nunca conseguiram ter um sucessor digno a este velocíssimo opus de agressão sónica (com uma interessante agressividade nunca sentida até então), os Slayer são vistos como uns 'vendidos' pelos seus fans satânicos, tal como os Megadeth e os Metallica, que são uma caricatura deles mesmos, tendo sido (ou provocado) o aceitamento pelo mainstream.

No caso do Metallica (os mais conhecidos destas 4 bandas), que após a morte do mítico Cliff Burton se desmoronaram numa sucessão de fraquissimos albuns que os levaram à fama total fora do género, poder-se-á observar claramente que o que nasceu nesse ano de 1986 devido à edição destes 4 albuns foi um dos fenómenos pop mais interessantes da década e que moldou não só um género musical (e originou muitos outros) mas originou uma indústria á parte que foi sendo aglomerada (primeiro pontualmente, depois de forma total) nos 'gostos' musicais de milhões de consumidores de música e de lifestyles.

Mesmo que rapidamente absorvidos e ultrapassados (sobretudo no caso das duas bandas com M no início dos nomes), e com fans a originarem eles próprios sons ainda mais extremos (outra banda da Bay area, os Death, lançaria um ano depois um dos albuns com um sugestivo título de "Scream, Bloody, Gore", originando o ainda mais extremo Death Metal) o género nunca mais conseguiu ser parado, fazendo parte hoje de uma das grandes tendências do mercado musical.

Quarta-feira, Outubro 04, 2006

RAW Needs Your Help!

raw

via gpod, Only Maybe , boing boing e
Douglas Rushkoff entre outros...

Não costumo aderir de forma 'vísivel' a este tipo de apelos, mas penso que este é particularmente especial. Vários blogs estão a revelar que Robert Anton Wilson está, devido à sua prolongada doença, internado em casa e com problemas financeiros. Desde já aqui apelo também à ajuda, aderindo à onda de apelos que está a varrer a bloglandia, para ajudarem uma das figuras-chave do pensamento americano do pós-segunda-guerra. Os detalhes estão em baixo.

Para aqueles que talvez ainda não conheçam a obra de RAW, uma pesquisa (podem começar por aqui) será decerto reveladora para entender que esta é de facto fundamental ainda hoje, na era em que a realidade é moldada através dos ecrãs de TV, sendo uma das maiores influências para a actual cultura popular, sobretudo a que lida directamente com as inevitáveis teorias da conspiração que nos rodeiam.

Citando uma curta bio publicada na edição de 'the Illuminati Papers' pela editora Via Optima, Wilson é um visionário, humorista, romancista, dramaturgo, poeta, escritor de divulgação científica, filósofo libertário, adepto. O seu sentido de análise do real, perto da paranoia e com uma dose estupenda de cepticismo em relação aos vários 'túneis de realidade' que somos obrigados a aderir numa vida dia-a-dia com muitas simulações de felicidade e pouco sentido crítico, parece ser um dos poucos estudos sérios sobre os 'bastidores da(s) realidade(s)', para citar novamente a excelente edição da Via Optima.

Não será preciso dizer que Wilson tem uma profunda influência no autor deste blog e de facto muito do que aqui é escrito é reflexo do fascínio que Wilson me gerou desde a primeira vez que meti os olhos num livro deste autor.

Donativos podem ser feitos directamente a Robert Wilson através da conta de paypal: olgaceline@gmail.com. ou mandando cheques directamente para RAW através de:
Dennis Berry c/o Futique Trust
P.O. Box 3561
Santa Cruz, CA 95063.
EUA

Domingo, Outubro 01, 2006

Caído do Céu

enfants2

Ao contrário do post anterior, a edição em DVD da cópia restaurada de Les Enfants du Paradis apenas merece aqui por casa o louvor de conseguir capturar todo o esplendor barroco da obra prima de Carné.

A edição da Pathé para o mercado britânico não possui qualquer bónus (exceptuando o já costumeiro trailer, o que é pena já que a história do filme daria outro filme também bastante extenso), mas a forma como um dos mais belos filmes europeus de sempre é apresentado ao público nesta edição, muito do qual o irá ver pela primeira vez, está perto do exemplar.

Claramente o som da película parece ter sido algo negligenciado (decerto devido ao seu estado), mas a sua imagem revela nas suas longas 3 horas de filme, toda a magia que levou muitos a considerar este um mas espantosos documentos cinematográficos de sempre.

Agora que é apresentado novamente ao público, Les Enfants du Paradis, com os seus cenários generosos, as multidões de figurantes, a presença de algumas das mais espantosas personagens (a cortesã Garance, o arrepiante mimo Baptiste, o nihilista Lemaître), e sobretudo a captura total do barroco teatro popular francês do século XIX, é uma daquelas obras urgentemente a rever.