Sábado, Setembro 30, 2006

Imagens sem Som

picadilly

Bold, beautifully crafted, completely modern picture... one of the truly great films of the silent era
Martin Scorsese

Quase simultaneamente ao merecido post sobre Anna May Wong aqui pelo Bitl à umas semanas atrás, descobri uma magnífica edição em DVD do recentemente restaurado Piccadilly (1929) do British Film Institute, de resto uma feliz ideia já que é um dos mais interessantes filmes britânicos de sempre.

A cópia restaurada, com as suas tintagens garridas captura, como aparentemente já não se via à várias décadas, o deslumbramento que este filme causou durante tanto tempo, sobretudo com o exóticos cenários e guarda roupa e sobretudo, a presença da Diva Wong, a quem muito de interessante este filme deve. As suas pulsões provocantemente sensuais (e sexuais) e as questões inerentes ao romance entre duas pessoas de raças diferentes na exótica Londres dos anos 20 (lembre-se que esta hub city e então ainda capital do 'império' tinha muito pouco de comum com o resto da Inglaterra) estão valiosamente intactas, agora com um restauro que torna certos momentos visuais particularmente intensos e até vertiginosos.

Este restauro da obra de Dupont, um imigrado germanico lembre-se, captura todo o explendor que os gestos das suas personagens entre as exposições à luz da ribalta e sobretudo aos actos escondidos por entre as sombras, filmadas com especial cuidado por um herdeiro do expressionismo.

Claramente esta seria a edição perfeita para o catálogo da BFI, já bastante sobrecarregado com filmes não-britânicos (desde já recomendam-se as edições do Kurosawa e de Godzilla) se não tivessem comissariado, na minha opinião pessoal, uma banda sonora pouco consistente e até irritante, composta pelo pianista Neil Brand e gravada com alguns dos 'topo de gama' do Jazz conservador britânico. É facilmente notado (e provado através de um dos extras incluidos nesta edição), que Brand tenta ter um rumo aparente para a sua composição, mas os resultados são insatisfatórios, e tirando a sua peça para flauta que consegue ao de leve cumprir os objectivos, no total tudo parece uma mistura de irritante muzak de elevador com pontuais influências de bandas sonoras para film noir.

Embora esta seja uma opinião pouco partilhada (existe até quem diga que este soundtrack é até superior ao filme!), este é o ponto fraco desta edição, que fica ainda mais evidente depois do tal extra já citado, assistindo-se a uma obra afirmativamente quente e expressiva com uma banda sonora 'pedante' e muito pouco intensa, parecendo apenas cumprir a falta de som num filme sem este.

Mesmo dizendo tais atrocidades da banda sonora, esta edição merece claramente ser comprada, mais não seja para comprovar o afirmativo poder de umas das divas mais injustiçadas e esquecidas do cinema da primeira metade do século XX.

Sexta-feira, Setembro 29, 2006

BBC Memória (2)

huxley

Tendo sido (talvez) a 'droga' (tecnicamente é um ácido) mais importante do Século XX, o Lysergic acid diethylamide (LSD para os amigos) foi o tema de largas dezenas de documentários e figurou em centenas de outros, tendo tido quase sempre um tratamento alarmista, exagerado, errado ou científicamente incorrecto (já para não falar de exploititativo), ou então tendo foi retratado de uma forma exageradamente benéfica, por vezes até sendo mostrado como a única salvação para a Humanidade.

LSD: The Beyond Within, um documentário de meados dos 80 produzido para a BBC (emitido em duas partes), conseguiu deixar de parte todas essas vertentes, distanciando-se quer da publicidade negativa quer do entusiasmo, para produzir um dos melhores documentários que o ácido teve direito, produzindo uma completa e apurada overview sobre a sua história, desde a sua síntese na Suiça por Albert Hofmann até ao downfall devido ao descredito e ao uso de outras drogas mais recentes.

Pelo 'caminho', "LSD: The Beyond Within" mostra ainda (de uma forma sintetizada, já que as influencias são vastas) o profundo impacto do LSD nas artes e nas evoluções sociais, com os nomes (inevitáveis) de Huxley, Leary ou de Ken Kesey a aparecerem durante o documentário.

Até aqui nada de novo, mas o que este documentário consegue dar de novo é uma visão imparcial dos factos científicos, dando importância a vários cientístas que usaram o ácido (incluindo claro Hofmann), e sobretudo o valioso olhar sobre as experiências feitas pelo CIA, que culminaram com propagação do líquido para usos 'recreativos', sempre usando uma forma distanciada enquanto mostra as diferentes opiniões das facções que outrora elogiaram ou denegriram o uso do ácido que é, ainda hoje, um dos maiores símbolos pop do século XX.

BBC Memória (1)

thompson

Emitido em 1978 na série Omnibus, Fear and Loathing in Gonzovision foi um dos principais 'culpados' de ter trazido o culto que Hunter S. Thompson ainda hoje goza para o público mainstream no 'velho continente'.

Este arriscado documentário, guiado pelo illustrador Ralph Steadman, mostra um Thompson muito semelhante em certos momentos ao magnífico retrato que Depp protagoniza em Fear and Loathing in Las Vegas, com as suas fobias, manias e estranhas e ambíguas relações sociais, com footage que somos levados a creer, poderia pôr em risco de vida a crew da BBC, devido ao temperamento algo errático do escritor.

Embora por vezes exagerando, "...Gonzovision" é um dos melhores retratos em vídeo de Thompson, dando aparentemente uma imagem muito fiel do que foi um dos escritores mais íncomodos e inreverentes (desculpem o chavão desta frase) americanos do pós-segunda guerra.

Só por curiosidade, um dos amigos de Thompson que aparece no documentário (sem ser identificado) é o então desconhecido Bill Murray, que dois anos depois representaria o papel de Thompson em Where the Buffalo Roam.

Noir 1.4: Force of Evil



All that Cain did to Abel was murder him.
(
Leo Morse)

Já muito foi dito sobre a profunda influência que Force of Evil teve no Cinema americano dos 70s, com Coppola e sobretudo Scorsese a elegerem este filme como uma das grandes influências para algumas das obras-chave de ambos. E de facto para um filme de 1948, Force of Evil está profundamente à frente de tudo o que foi feito durante essa década, conseguindo-se facilmente 'sentir' o filme como um pós-Noir que está a criar as novas 'regras' temáticas da posteriores gerações de realizadores americanos (e não só).

Se o Film Noir foi de facto um dos géneros mais inovadores e criativos do cinema americano, é na obra de Abraham Polonsky que todos os sentimentos de culpa, remorso e sobretudo a tentativa de redenção são mostrados de uma forma magnanima, deixando o seu torpor de uma forma perfeita e causando uma angústia como poucas vezes sentidas no Cinema americano, sobretudo devido à 'interacção' entre John Garfield (num dos seus melhores papéis de sempre), o irmão aparentemente na legalidade que lida com a sua profissão de uma forma corrupta, e o magnífico Thomas Gomez, o irmão que trabalha na ilegalidade mas que tenta conduzir-se moralmente através da honestidade máxima.

Force of Evil é de facto o 'filme perfeito' na forma como conta uma história onde todas as personagens são de facto culpadas, mesmo aquelas que revelam uma profunda inocência (e aqui Polonsky dá uma importância magnífica a todas as personagens, por muito 'secundárias' que estas sejam), retratando de forma verosímil a realidade da corrupção, onde não há possibilidades de 'uma mão se recusar a lavar a outra', já que todos estão embrenhados para a vida no sistema.

Para lá da espantosa forma como Polonsky conta a história de dois irmãos (the wicked and the righteous poder-se-ia dizer), que aparentemente se desprezam, mas que sem quererem conseguem deixar o sangue falar mais alto, fica um dos contos mais pujantes sobre a forma como qualquer sistema (legal ou ilegal) molda os seus intervenientes até à traição ou ao sacrifício, um dos temas mais interessantes no cinema americano, mas que poucas vezes mereceu um tratamento tão 'real' e honesto.

Um filme a ver ou rever (ou a descobrir, já que aparentemente parece algo esquecido até à poucos anos), agora com a edição de uma cópia restaurada, cortesia do Sr. Scorsese.

Gritos e Risadas

Tingler

Remember, if you scream at just the right time, it might just save your life.
(William Castle na introdução ao filme)


Para lá de ser conhecido como uma das obras mais interessantes do camp dos anos 50, The Tingler é também um dos momentos "interactivos" entre um realizador e um público mais interessantes no Cinema, devido ao conteúdo que William Castle 'preparou' de forma a gerar medo e espectativa nas suas audiências, que se viam também obrigadas a responder de forma activa ao que se passava na película.

Claramente um filme para ser mostrado em sala de cinema, esta particular obra de Castle, o mago dos gimmicks no cinema (e para quem não conhece algumas das suas hilariantes histórias recomendam-se umas úteis leituras, a começar por aqui), consegue ser uma das mais interessantes experiências cinematográficas que o cinema americano do pós-guerra (e guerra fria, o filme estreiou em 1959) conseguiu trazer ao público.

O fascínio que Tingler me gera já é antigo. É um facto que, desde a primeira vez que vi o filme a história me pareceu absurda, com os seus 'factos científicos' disparatados e a 'coisa' que dá nome ao filme ainda consegue gerar umas valentes gargalhadas. Mas é na forma como Castle gera a interacção (uma palavra costumeira de ser usada em muitas das obras deste autor) com o público que The Tingler se torna uma peça magnífica de cinema, com a forma muito interessante com que é filmada a cena da trip de LSD (a primeira de sempre na História do Cinema, pelo que parece), a cena ''tintada" a puro vermelho (o filme é a preto e branco) e sobretudo os 'apagões' de imagem (3, segundo me lembro) em momentos fulcrais na história, que geram ainda hoje alguns nervos nos espectadores pouco habituados a técnicas tão 'vanguardistas' no cinema comercial.

A forma quase surreal que Castle gera para moldar a percepção do seu público continua ainda a gerar-me um fascínio muito interessante, entendo este homem como um dos mais perspicazes e eficientes realizadores que, embora esteja interessado em contar um história, está também de forma muito activa (e até impositiva) a tentar gerar (com ou sem êxito pouco interessa) os sentimentos das suas personagens no público, usando gimmicks que ainda hoje podem ser vistos como inovadores, que também Hitch usou (a propósito, alguma atenção a banda sonora deste filme revela um posterior 'piscar de olho' por parte de Bernard Herrmann em Vertigo), levando a arte do make believe até a consequências bem interessantes.

Fica aqui a sugestão aos 'sortudos' que ainda não viram este filme (e portanto ainda sem conhecimento dos seus truques), para cerca de 80 minutos de cinema que gerará alguns sustos, muitas (involuntárias) gargalhadas e presenciar a um dos melhores papéis de Vincent Price. Aos outros que revisitam o filme com frequência, deixo um cúmplice piscar-de-olhos para o favoritismo votado a uma das obras de sci-fi/terror mais interessantes dos 50s.

Gaijin Japan

japanoramaMoe


Jonathan Ross está de volta com uma nova season da série documental (já) de culto Japanorama na BBC3, com mais 6 episódios cheios de momentos hilariantes. Japanorama (não confundir com o filme Japanarama, que de resto possui o mesmo espírito bizarro) é um pouco como o também mítico Adam and Joe Go Tokyo (que já passou por aqui num post antigo), mas com a vantagem de Ross lidar com todas as bizarrias mostradas durante a série de uma forma naturalmente desarmante, sem nunca mostrar a mínima estranheza ao presenciar (e participar) em algumas das mais hilariantes reportagens mostradas na televisão britânica.

Ambiguamente interessante, Japanorama pertencence aquela 'familia televisiva' de programas muito Gaijin que não se cansam de mostrar o Japão através do fascínio e do exploitation por alguns dos assuntos mais bizarros deste pais. Mas simultaneamente a série consegue ter uma forma extremamente inovadora ao abordar o grotesco e o estranho de uma forma magnificamente simpática, sobretudo à forma descomplexada com que Ross, um daqueles characters televisivos de grande peso na TV britância (e que pessoalmente acho ter inspirado muito do que o Herman José tenta fazer actualmente, sem sucesso diga-se) conduz todos os assuntos, dando de facto uma overview aos temas que são praticamente desconhecidos pela maior parte do público mainstream.

Se a primeira parte da série em 2002 tinha já deixado a salivar algum do público que, entretanto se converteu em japanófilo (devido também à invasão de cinema nipónico em 2003), a segunda série não deixa grandes dúvidas que, actualmente, o mercado de entretenimento está cada vez mais virado para oriente, agora já não à procura de alternativas à cultura pop ocidental, mas em busca (muito desenfreada) de muitos dos elementos que, através de vagas sucessivas de 'exportação', são já eles parte dessa mesma cultura nesta parte do globo.

E como muitos, também Jonathan-san já se mostra um convertido a tais tendências, aparentando até estar a tornar-se um entendido neste(s) tipo(s) de cultura nipónica... para bem de todos os espectadores.

Domingo, Setembro 24, 2006

Os Humanos Inregulares

welcometoNHK
Pondo em dia alguns posts atrasados, encontrei nos drafts do BitL um resumo já há muito esquecido sobre NHK ni Youkoso!, (traduzido será algo como "Benvindo à NHK") uma das séries de anime que resolvi começar a seguir à uns meses, agora que se anuncia o final de várias séries interessantes e que os fansubs começam a mostrar pouco vigor em apostar em séries com alguma substância.

Sendo uma produção da Gonzo, uma das companhias de topo que não costumo dar grande credibilidade (Witchblade, Speed Grapher e Solty Rei são productos que considero fracos face ao actual panorama anime), hesitei bastante para começar a seguir a série, mais uma adaptação (como normalmente acontece) de um Manga de Tatsuhiko Takimoto em parceria com o 'novato' Kendi Oiwa.

Mas, embora sendo algo 'fragmentada' na narrativa e com um pace algo limitado, a série consegue captivar facilmente a atenção daqueles que apreciam um bom conto sobre alienação otaku, revelando a vida de hikikomori de Satou, um tipo que não sai de casa à perto de 3 anos e que para além da impassividade vivencial (ou até inregularidade humana, como uma das personagens refere sobre este estado vegetativo) gerada por este "estado", ocupa a cabeça com as mais bizarras alucinações (de onde vem o título da série) que pretendem explicar esta reclusão voluntária.

Ocupado a não cumprir o seu "papel social", Satou depressa se vê confrontado com um desafio para um 'projecto' de uma enigmática personagem feminina (Miasaki Nakaha), que o desafia a curar esta doença social, enquanto o visinho otaku o desafia para produzir o mais espectacular ero-game de que há memória.

Se os primeiros episódios revelam todas estas iniciais propostas (mais a conspiração que torna a estação de TV NHK, uma força do mal para alienar os jovens urbanos japoneses), NHK ni Youkoso! começa facilmente a decair, após o 6 episódio, numa 'narrativa de fragmentos', isolando em passos pequenos a progressão da série e deixando pouco espaço para os espectaculares movimentos narrativos que pareciam ser eminentes nos primeiros episódios.

Mesmo dizendo isto, NHK ni Youkoso! é claramente um produto interessante para os fans de Genshiken e séries particularmente interessadas em retratar o universo otaku, dando uma abrangente e algo reprimida visão dos universos dos lolicons (muito limitada e pouco ousada em relação ao Manga, por 'respeito ao establecido') e dos criadores de ero-games. Será também uma visão interessante para aqueles que possam ter um interesse particular numa das actuais doenças sociais pós-industriais e pós-pós-modernas, os hikikomori ou NEET (Not currently engaged in Employment, Education or Training) como são conhecidos aqui pelo Reino Unido.

Sexta-feira, Setembro 22, 2006

Noir 1.3: He Walked by Night (1948)

hewalkedbynight

Sendo o filme que deu origem a Dragnet (uma das séries policiais mais celebradas da cultura pop americana), He Walked by Night é também um dos marcos do Noir ao apresentar uma faceta mais documental, onde a investigação policial ganha contornos mais realistas. Se este realismo estava já bastante presente no cinema americano da altura (basta pensar em I Am a Fugitive from a Chain Gang ou em muitos dos filmes que iniciaram o exploitation mais ligado ao crime), é com este filme, muito esquecido fora dos circuitos de fans de Dragnet, que se consolida através da propaganda social a figura do 'polícia esforçado', mas também a do criminoso inteligente, de rosto humano e sobretudo, de precisão meticulosa.

He Walked by Night é claramente, como já entendido, um produto de propaganda, revelando de forma realista (até certo ponto claro) os métodos de investigação polícial para capturar um assassino de um polícia. Se quase todo o filme se desenrola num plano moral, com as inevitáveis consequências do crime cometido (a viúva, os colegas que lembram o assassinado, a investigação que ultrapassa o brio profissional, etc...) é na forma como é apresentado o criminoso e as cenas de perseguição (com 15 minutos finais frenéticos e bastante involventes) que este filme ganha todo o seu esplendor.

Está aqui claramente demonstrado o trabalho de Anthony Mann (que estranhamente não está creditado no filme) e John Alton, exploradores dos "hypnotic moments of light-in-darkness" (como dizia o crítico James Naremore), que conseguem tranformar um simples film de police proceduals (um género que ainda hoje tem ecos em séries como CSI e produtos semelhantes) num dos momentos mais interessantes e outsiders de todo o Género Noir.

Infelizmente algo desprezado e esquecido, He Walked by Night parece quase ser um tubo de ensaio para filmes fundamentais no Noir como Raw Deal ou até The Third Man, e agora que caiu no estatuto de creative commons, merece claramente uma invocativa e decente edição em DVD, de forma a não ficar como uma das obras mais esquecidas do género.

Noir 1.2:Double Indemnity (1944)

DoubleIndemnity

Double Indemnity é um dos mais famosos film noirs e aquele onde todo o género está assente, pertencendo à trindade que gerou o género, trindade esta que completada por The Maltese Falcon e Shadow of a Doubt.

Quase de certeza que não existe nada no género que não tenha sido trazido pela primeira vez ao ecrã com estes três filmes, mas aqui os elementos estilísticos do género que já existiam (muitos deles, claro está, da 'escola germanica') foram meticulosamente catalogados através de um trabalho preciso de Billy Wilder e Raymond Chandler, juntando-os num todo que seria usado e abusado até ao final dos anos 50 (com um apogeu em Big Combo e Touch of Evil) e em constantes revisitações ao género.

O flashback, a gabardine, os diálogos metralhados e repletos de haikus chandlerianos, os cigarros, a pistola, a femme fatale, o anti-herói detectivesco (aqui um vendedor de seguros), o burbon e as sombras e o nevoeiro, retirados das ficções pulp e que agora são alguns dos clichés máximos do Cinema, faziam aqui uma das suas primeiras aparência juntos, num dos filmes mais importantes do cinema americano dos anos 40.

Valem a pena umas revisitações constantes, para lembrar que muitas das coisas que andamos a ver são apenas reminiscências.

Noir 1.1: Renaissance (2006)

renaissance

Sendo mais um filme a tentar encontrar um caminho interessante para as variadas técnicas originadas pelo CGI, Renaissance (aka Paris 2054) consegue ser um dos produtos mais interessantes dos últimos anos, ao gerar universos Noir que conseguem manter uma uneasiness no espectador até ao final.

Renaissance, com o seu altamente contrastado preto e branco (algo semelhantes a alguns momentos de Sin City) e os seus universos arquitectónicos futuros de uma Paris cyberpunk, é um espantoso documento 'técnico' que consegue fazer parelha com Immortel (outra belissima produção europeia), mas infelizmente não consegue ultrapassar o estigma lançado por este tipo de produções (e aqui não me refiro aos dois filmes citados acima, mas a outros productos como Final Fantasy, por exemplo), ao não conseguir ser mais do que um belissimo portfolio de CGI sem grande substância.

Um argumento mediano (embora com um interessante final e alguns momentos de viragem que o colocam alguns pontos acima da maior parte dos blockbusters actuais), diálogos entre o desinteressante e o medíocre e sobretudo 'actuações' que revelam tiques humanos extremamente irritantes, levam a querer que este filme, se a sua técnica aplicada, seria mais um daqueles filmes onde os clichés formais são debitados a 300rpm.

Mesmo dizendo isto, Renaissance merece claramente uma visão, já que parece que consegue (finalmente) chegar a algo lado em termos técnicos, revelando um apurado sentido claro de não inveredar por caminhos óbvios do CGI e, sem se tornar irritante, inovar na forma visual como consegue contar uma história.

3 Biliões de Dolares

branson

Subitamente, o Reino Unido está a sofrer uma febre generalizada sobre o climate change. Relatórios bombásticos, a rivalizarem com outros (aberrantes, diga-se) lançados pelas agências americanas começam agora a submergir (atirando a ameaça terrorista para segundo plano), o filme do quase-presidente Al Gore a gerar um grande fuzz (embora a estreia esteja só agendada por cá na próxima semana), e o patéticos Tories a mudarem o logo do facho (mais apropriado no meu ver) por uma árvore verde que pelos vistos custou £40,000... a lista continua.

Claramente, este é o termo mais usado e abusado actualmente no campo da 'consciência ecologista', algo que de repente toda a gente parece ter algures num qualquer cantinho do cérebro, pertinho dos comportamentos frenéticos que são os actos de consumo, que causam essa mesma consciência parecer pouco normal. Temos até por cá um bando de Tories a tentarem caçar o seus votos através do abuso do termo e a irem trabalhar de bicicleta (embora, segundo consta, seguidos pelos motoristas nos seus potentes carros de luxo de forma a poderem entregar os fatos imaculados a estes defensores do ambiente).

Ontem os media ingleses enfiaram no mesmo saco o 'esforço' de Richard Branson (sim, o Mr. Virgin), quando casualmente anunciou que iria doar 10 anos (!) de lucros da sua companhia de aviação e comboios para desenvolvimento de projectos que assegurem a 'defesa do ambiente'. A notícia foi saudada por uns e vista como um gimmick por outros, mas aparentemente poucos se aperceberam o real sentido deste acto, desde já louvável.

Branson, que não é estúpido e sempre esteve mais à frente do que o 'comum dos mortais', algo que ajudou a construir um império de cerca de 300 empresas (penso eu) que constitui o grupo Virgin, sabe muito bem que o petróleo é um bem que tecnicamente já não existe desde à alguns anos, algo que atira para o constante denial um batalhão de políticos incompetentes e pouco atentos e biliões de habitantes do Planeta Terra, que acham que deveriam ser os 'outros' (sejam eles empresários ou políticos) a 'arranjar' (bonito termo) uma solução.

Pois perante esta impassividade, Branson teve um golpe de génio. Os cerca de 3 Biliões de Dolares 'doados', dão-lhe uma magnífica publicidade, permitiram criar polos de investigação e, sobretudo, e aqui parece que nenhum analista conseguiu chegar, permitirá a algumas empresas do grupo Virgin terem acesso em primeira mão a tecnologias que permitirão ao grupo sobreviver à crise dos combustíveis, quando outros grupos estão já a descer vertiginosamente nos mercados devido à soberba que são os actuais preços dos combustíveis.

Claro que Branson irá lucrar com tal doação, mas perto de outro tipo de incentivos dados por empresas com acções suspeitas na matéria (basta ver o mini-escândalo em que a Exxon está envolvida), este é um dos mais brilhantes actos de gestão financeira que me lembro. O acto deste homem, que claramente não tem nada a perder com isto, constitui uma das mais importantes notícias no campo da ecologia desde o tratado de Kyoto, um dos gestos mais extraordinários que algum empresário alguma vez fez desde que começou o Século XXI, e no entanto está a ser tratado pelos media como mais um capricho deste enfant terrible do universo financeiro.

Mas estes é claramente o futuro desse mesmo universo, muito dependente do ouro negro e com uma preguiça absoluta em tentar resolver essa dependência e, por acrescento, modificar de forma saudável o actual estílo de vida que mantemos, que de resto já está a levar umas machadadas valentes.

Sábado, Setembro 16, 2006

Dixie Daisy

StanwyckBarbara

Uma das obras mais esquecidas de Barbara Stanwyck, Lady of Burlesque é uma das pérolas onde a actriz ousou arriscar mais do que as pernas para criar a personagem de Dixie Daisy (o alter-ego da escritora do argumento, Gypsy Rose Lee, uma stripper que revelou muito do lado oculto do burlesco), já com uma idade considerada 'madura' (tinha na altura 35 anos!) para o cinema americano dos 40s.

Se Stanwyck é claramente lembrada sobretudo pela sua perfída personagem em Double Indemnity , um dos maiores clássicos do Noir de sempre (e que lhe vale ainda hoje uma das maiores auras de culto da categoria das maiores femme fatale de sempre na história do cinema), é em Lady of Burlesque que se revela de forma total como o que seria posteriormente considerada uma das actrizes mais relevantes do cinema americano, o 'corpo' de Phyllis Dietrichson (a sua personagem em 'Double...') e a recriação da perfeita femme fatale, ousada, inteligente e sobretudo belissimamente desinibida.

Lady of Burlesque é uma daquelas obras que consegue definir uma era que à data estava já morta devido aos códigos de conduta morais que ciclicamente varre os EUA, sendo quase um estudo de como, através da actualmente candida transparência e sombra insinuante, se conseguia mostrar mais além do que era permitido e entretanto contar uma história pouco interessante (um clássico whodunnit num teatro de burlesco). Mas este filme consegue ser um documentário precioso dos bastidores do burlesco pré-50s, com uma exactidão (aparentemente) desconcertante da vida daquele showbusiness reservado para aspirantes e falhados, com um realismo voyeur (basta ver as cenas de camarim, arriscadas e abundantes), estando muito à frente do que seria uma das regras de ouro do exploitation dos finais dos 50s e 60s, dando aos papéis femininos uma importância extrema e deixando os actores flutuar pelas cenas.

Agora que o filme caiu já no estatuto de creative commons (o que para muitos é, infelizmente, sinal de 'pouca qualidade'), parece ser a hora de redescobrir esta preciosidade daquele tipo de cinema que mostra o outro lado das noites de glamour dos 40s. Imprescindível a fans de Barbara Stanwyck, a amantes do Noir, mas também aqueles interessados nas regras impostas pela 'moralidade' no cinema da época, que encontrou formas engenhosas para projectar o 'outro lado' da noite de uma forma camuflada, e sobretudo inicial o tão adorado/odiado cnema com teor de exploitation.

Quarta-feira, Setembro 13, 2006

As Verdades nas Mentiras

negativland

Tudo no universo dos Negativland parece estar condicionados por dois factores: o primeiro e mais interessante, é a forma como este inovador projecto sonoro consegue moldar a realidade, baralhando desde os anos 80 os seus ouvintes com as suas colagens sonoras, que conseguem formar perfeitas realidades alternativas, onde a crítica social e aos media é condensada em algumas das peças sonoras mais hilariantes alguma vez produzidas. O outro factor, aquele que lhes valeu a fama internacional é claramente a forma fácil como os Negativland se enfiam em sarilhos.

Sonic Outlaws, um magnífico documentário de Craig Baldwin de 1995, descreve a fundo estes dois factores, dando uma magnífica overview sobre a história da banda e a forma genial (e muitas vezes ilegal) como um dos monstros mais interessantes gerados pelo culture jamming criou algumas das obras mais interessante de guerrilha cultural pós-80s, e claro está, debruça-se sobre alguns dos casos mais bicudos que o colectivo teve que resolver devido a esta abordagem artística.

No centro destes casos está o ainda lembrado sarilho originado através do single "U2" que levou a banda ao desespero quando a Island e os próprios U2 (embora este o neguem) levaram a banda a tribunal, expondo ao ridículo as actuais contigências do Star System. E como os mais atentos se devem lembrar, quanto mais os U2 se revelavam rídiculas personagens da actual pop, fazendo declarações que contradiavam a (aparentemente) liberdade de expressão que pregam, e que os fez exibir nos multiplos ecrãs presentes no palco da Zoo TV tour, milhares de horas de TV por satélite, que 'por acaso' estavam a ser usadas sem qualquer autorização num espaço público, e que também 'por acaso' também estavam protegidas por copyright, algo que a banda parecia propositadamente ignorar. Calro está que neste processo, quanto mais os U2 desciam no ridículo, mais os NL cresciam em popularidade (e diminuiam no volume dos bolsos).

Mas para além destes centros de interesse, Sonic Outlaws é também em si mesmo uma colagem anarquica de imagens 'roubadas' e colocadas fora do contexto, usando footage sem qualquer ligação com os NL e colocando-a em 'sítios estratégicos' durante as entrevistas aos intervenientes do projecto e dos seus colaboradores externos. Arriscando ir ainda mais além, o documentário exibe ainda uma séria overview sobre a história da 'colagem' (desde os Dadas até ao actual culture jamming, passando pelos situacionistas) e revelando casos de triunfo de Davids sobre alguns das multinacionais Golias actuais (a sequência dos GI Joes com vozes de Barbie, vendidos 'por engano' em algumas lojas de brinquedos é hilariante).

A forma como Craig Baldwin estrutura (desorganizadamente diga-se) os factos e mentiras por detrás destes loucos sonoros, onde parece que a verdade se torna mentira e a mentira é a única verdade (isto quase ao ponto da loucura), tornam este documentário um dos mais inventivos documentos feitos até à data. Só é pena que não seja este um dos moldes do actual cinema documental, ainda muito preso à formula 'National Geographic' para conseguir mostrar (tentando ser mais 'real' que a realidade) factos, em vez de os integrar (e entregar) como apenas factos de uma realidade multipla.

One of a Kind

holly_golightly

Num género musical tão marcado pela imitação e pelo 'virar o disco e tocar o mesmo', como é o actual rock de tendências retro que vive de explorar a herança dos 50s/60s, existe uma pessoa que conseguiu, finalmente, reciclando essa herança, apresentar ao público um produto original e que não está preso em clichés. De resto, nunca estas manifestações neo-garage, que se regem pelo 'príncipio Xerox' (discover an energy source, copy it, copy it again and keep going, como dizia Iain Sinclair num soberbo artigo sobre o Primitive London) tiveram alguém tão inovador e genialmente integro à composição (e portanto sem rip offs preguiçosos).

Holly Golightly (nome verdadeiro!), dá para perceber pela intro, uma das personagens musicais do RU que mais admiro devido a um extenso reportório (mais de 13 albuns) que é imaculadamente fresco dentro do 'género' que insere e que sempre se conseguiu manter independente. De resto, apenas o seu nome soa a plágio (os cinéfilos mais atentos decerto que já ouviram o seu nome em algum lado), que orgulhosamente se destaca da monotonia que actual caracteriza a chamada música independente (facção garage ou lá o que lhe quiserem chamar).

Parece-me, agora que Chan "Cat Power" Marshall evoluiu para terrenos comercialmente mais sólidos e P.J. Harvey se tornou cada vez menos interessante e activa, que Holly Golightly deveria ser considerada por muito do público dessas duas cantoras a actual 'rainha do indie', merecendo já urgentemente a atenção do um público indie mais 'generalizado', que decerto descobriria na obra de Golightly muitas das melhores pérolas indie dos último anos.

5:55

555

Finalmente Charlotte Gainsbourg arriscou e fez um album. Numa altura em que qualquer um(a) edita discos que arriscam facilmente entrar nas listas das coisas mais intragáveis de sempre, é bom saber que Charlotte, que considero uma 'criatura dotada' mas que sempre esteve (involutariamente) presa à fama devido sobretudo à mesma que o pai e à mãe (de quem 'herdou' o estilo vocal, tão imitado desde os 60s) gozam, finalmente se decidiu a gravar um album que faz parelha com o algo polémico Lemon Incest.

Confesso que desde que gravou a faixa Love Etc, para a banda sonora do filme com o mesmo filme, que esperava um full album que conseguisse captar o largo talento que a 'actriz/cantora à vezes'. 5:55 é decerto um album sem as 'interferências' que o nome de familia de Charlotte poderá gerar (e que de certo, infelizmente, irá decidir muitas das críticas), mas o bando de colaboradores que reuniu para produzir este album têm de facto a qualidade de serem alguns dos (mais conhecidos) 'influenciados' pelo Mestre da Canção. Nigel Godrich, nome reconhecido por muitos devido às produções dos Radiohead, os Air, Jarvis Cocker e Neil Hannon têm aqui uma prestação (claramente) activa, produzindo um dos albuns mais espectaculares do ano, com pianos como já (infelizmente) já não se ouviam de forma tão emotiva e com arranjos de cordas luxuriosos de David Campbell (sim, sim o gajo é pai do Beck e depois...) que me fazem acreditar que existe realmente vida para além da actual pop de plástico.

E claro, 'aquela' voz, que denuncia uma das mais interessantes heranças da pop, fez finalmente um dos albuns que irão fazer o ano de 2006 ser lembrado por ter tido alguns dos mais interessantes dos últimos 10 anos. A ouvir agora que o Outono ameaça.

Domingo, Setembro 10, 2006

Certezas Femininas, Incertezas Masculinas(2)

masculin_feminin
Masculin féminin: 15 faits précis, Jean-Luc Godard (1966)

Certezas Femininas, Incertezas Masculinas(1)

la_dolce_vita_2
La Dolce Vita, Federico Fellini(1960)

Sábado, Setembro 09, 2006

Et moi, et moi, et moi?

JacquesDutronc

"Jacques Dutronc and the Bolan Boogie/The Heavy Hitters and the Chichi music."
Cornershop, Brimful of Asha


Em época de celebrações e retrospectivas da obra de figuras máximas da música pop francesa, o nome de Jacques Dutronc parece estranhamente ausente nas agendas de re-lançamentos, colectâneas, tributos e outros actos de bajulação. Tal como Michel Polnareff (de que apenas consigo ouvir em início de carreira) ou Nino Ferrer, Dutronc parece ser uma daquelas figuras claramente a re-descobrir, quer na sua contida obra musical (7 ou 8 albuns se não me engano) e também nos seus papéis para cinema, sobretudo como actor de Andrzej Zulawski.

Jarvis Cocker ou Damon Albarn claramente devem tanto à influência de Ray Davies como a de Dutronc (algo de resto já assumido por ambos em diferentes ocasiões), que com o seu sarcasmo seco e alegre e (irónico) sentido de humor conseguiu gerar uma 'escola' de narrativa do quotidiano na pop através de figuras de estilo por vezes levadas às últimas consequências da crítica. Canções como "Et moi, et moi, et moi", "Mini, Mini, Mini", "Les Playboys", "Le Cactus" e "Il est cinq heures, Paris s'eveille" são arrepiantes hinos à Paris dos finais dos anos 60, com a 'fauna' que estava prestes a incendiar a cidade em 1969 à solta pelas mesmas ruas que a burguesia resignada a uma vida banal, camuflada por um crescente poder de compra e tiques nouveaux riche. E se o então imergente "segmento de mercado" que são os Teenagers era o um dos principais alvo de Dutronc, o que dizer do quase clarividente "L'opportuniste", que canta as aventuras daqueles que não perdem a oportunidade para 'virarem a casaca', e que parece ser a imagem de marca dessa mesma geração (em qualquer ponto da Europa de resto), que actualmente está o establishment político europeu?

De resto Davies e Dutronc são quase dois gémeos (génios também) estéticos apenas separados pela língua e pelo Canal da Mancha, ao retratarem até aos limites do ridículo as gerações onde se inserem, retratando através da ironia os tiques idealistas dos seus compatriotas, através de letras ácidas aparentemente amaciadas pela cómica arte da ironia. Mas se o frontman dos Kinks e poeta pop teve já direito a um comeback aqui há uns anos e um tributo por parte da rapaziada da então alcunhada Brit Pop, Jacques Dutronc parece ainda vagamente esquecido.

Sexta-feira, Setembro 08, 2006

Inverno Agora

miandlau

Devido ao concerto aqui em Notts à uns dias atrás fiquei com curiosidade de saber como soava Mi And L'au do duo com o mesmo nome. Este album de estreia de um duo composto por um músico francês e uma modelo finlandesa, uma edição da Young God records de Michael Gira (que segundo parece, se está a tornar perito em encontrar talentos do 'freak-folk') foi gravado algures num chalé no meio da floresta ou algo parecido (onde é que já ouvi isto antes?) e consegue ter momentos captivantes, entre os sons algo 'documentais' de uma banda sonora de Inverno (segundo parece L'au é compositor de bandas sonoras) e o down-tempo despido de electricidade que categoriza muito do 'tal' folk actual.

Embora uma excelente banda sonora de background, o facto é que o album de Mi e de L'au está cheio de (já) lugares comuns que Devendra Banhart trouxe para a actual música pop, parecendo por vezes uma 'imitação' (desculpem o excesso) dos primeiros albuns do Star Child, curiosamente editados também por Gira na YG.

Este album parece estar em sincronia perfeita com alguns dos momentos de "Oh Me Oh My...", mas infelizmente, há que dizer, que muitos furos abaixo na escala daquele que pessoalmente considero um dos albuns mais inspirados e interessantes da primeira década deste século. Curiosamente, ou talvez não, o concerto de Mi e de L'au aconteceu apenas 5 ou 6 dias antes do concerto de amanhã à noite, quando Banhart subirá aqui a um palco da cidade (ainda não está decidido aqui por casa se irei ver isso), para entregar a sua desconcertante (e original) visão do mundo.

Espaço 1979

warrobots

Por mais que tente evitar, este blog parece condenado a ter com alguma frequência posts sobre alguns dos piores filmes alguma vez feitos em toda a história do Cinema. Embora não seja propositado, vejo e revejo com frequência filmes que apenas podem ser classificados como perda de tempo, mas que possuem (pelo menos para mim) uma magnífica aura contagiante de fascínio.

Estando entre a cópia de Star Wars e o perfeito filme sci-fi para imbecis, La Guerra dei robot (aka War of the Robots) é uma das pérolas do que de pior se fez nos anos 70, se excluirmos o disco sound e outros atentados estéticos. Tendo como protagonista um dos sex symbols europeus mais esquecidos (felizmente) de sempre, o inarrável Antonio Sabato (um homem que consegue ser um pior canastrão que o David Hasselhoff), este filme é uma pérola do mau gosto que até os apologistas do 'Mau cinema' (existirá realmente?) ficariam enjoados.

Mais do que tentar descrever algo que é indescritível, deixo aqui um conselho: agarrem numa six pack da cerveja à vossa escolha, vão ao site da Public domain torrents e saquem o filme (legalmente!) aqui via bittorrent e impressionem os vossos amigos, convidando-os para uma TV Party inesquecível.

Entretanto fica aqui um link para Women in Spacesuits in TV and Film, um site que decerto será do agrado daqueles que conseguirem resistir até ao fim. Bons Filmes!

Quarta-feira, Setembro 06, 2006

Para Além dos Vícios Tradicionais

LAZARO

Tal como a Pigalle, François Hadji-Lazaro é um dos símbolos de uma Paris que cada vez mais pertence ao passado. Claramente um revivalista, Hadji-Lazaro canta e toca desde há mais de 30 anos canções onde explora o universo da cidade onde o 'sexo é proletário' (como gosta de dizer) e a noite é feita com um copo numa mão e um gauloise noutra.

Primeiro através dos Les Garçons Bouchers, um soberbo outfit punk/ska/oi formado em 1975 que depois evoluiu para terrenos mais 'tradicionalistas' com a inclusão de intrumentos tradicionais, Lazaro explorou a sua faceta mais sarcástica e irónica com os seus relatos feitos em voz rouca sobre a alienação urbana, sempre cortados com algum humor negro esteticamente marcado pelo politicamente incorrecto. Mas é com Pigalle, a banda que 'herdou' o nome de um dos Quartiers mais conhecidos de Paris, que Hadji-Lazaro se revela como um maestro na arte de expor o universo das almas deabulantes pelas ruas 'perdidas' da cidade, entre a fatalidade do Amor e do Vício, em bares nublados pelo fumo e os vapores do alcool, onde se cruzam destinos perdidos que, como o 'protagonista' da banda, revelam simultaneamente crueldade (basta pensar na prestação cinematográfica de Lazaro na "Cidade das Crianças Perdidas") e a tristeza contida na fatalidade das personagens que descreve.

Pigalle (a banda) consegue compor perfeitos hinos existencialistas (neo-realista será talvez o termo mais usado para definir a banda, herdeira dos 'chanteurs réalistes' da década de 20), que junta à sua formação 'tradicional' de guitarra, baixo e bateria intrumentos como a sanfona, a gaita de foles ou o esquecido dulcimer, misturando ska, punk, java e tango para conseguir um som único e contagiante.

Se o single "Dans la salle du bar-tabac de la rue des Martyrs" trouxe a fama total do grupo em França, fora das fronteiras galesas os Pigalle são ainda hoje, passados mais de 25 anos desde a sua formação, uma banda perfeitamente desconhecida, tendo apenas um limitado número de fans underground, sobretudo em países francófonos. Agora que a carreira (musical) de Hadji-Lazaro parece estar mais concentrada na label Boucherie Productions, editora conhecida sobretudo por ter editado o primeiro album dos lendários Mano Negra, parece ser tempo de redescobrir uma das bandas mais influentes e interessantes da música francesa dos 80s/90s, que definiu o som característico do rock françês das últimas décadas e que tornou o chamado "folk rock" algo muito mais para além das chatices feitas nesse campo durante a década de 70.

Audições recomendadas:

Pigalle - Regards affligés sur la morne et pitoyable existence de Benjamin Tremblay... (1990)
Pigalle - Pigallive (1992)
Pigalle - Pigalle (1986)

Garçons bouchers "S/T" (1987)
Garçons bouchers "Tome 2" (1988)
VA - Boucherie... c'est la reprise (compil Boucherie Productions, 1998)

Segunda-feira, Setembro 04, 2006

Primeiro estranha-se...



Depois entranha-se! Desde a fase inicial que venho a acompanhar as imparáveis sessões de podcast que Natasha, uma canadiana emigrada em Amesterdão tem produzido através de um dos blogs mais retros de sempre Oh Lá Lá!.

Embora grande parte da música que passa nesses programas sejam (o já tenham sido) presenças nas playlist cá por casa, é sempre fantástico ouvir alguém que se atira com este entusiasmo ao que de mais pop existe na música francesa dos anos 60. Recomendado a retro-heads e aprendizes do retro europeu... muita dos sons fundamentais passam por aqui.