Quinta-feira, Agosto 31, 2006

Key Largo, 1948

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Bogart, Bacall e Edward G. Robinson... juntos no mesmo filme.

Em Terra de Cegos...(2)

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Embora atrasada (o trabalho não espera e este blog desespera para ser editado com frequência), fica aqui a referência a um artigo de Billy Bragg no Guardian à umas semanas atrás. Depois das críticas cerradas que o homem fez ao MySpace (ver este post antigo), agora Billy descobriu verdadeiras perversões económicas nos terms of use da MTV Flux.

Entendendo o esforço que várias multinacionais fazem contra, por exemplo, a pirataria, que referem como estando a tirar o pão da boca aos seus trabalhadores (basta ver as hilariante formas de propaganda lançadas nos EUA com esse fim), não se entende o recurso dessas mesmas entidades ao retirarem os direitos a artístas desconhecidos de conseguirem fazer uns míseros dólares (para alimentar mais o ego do que a boca) pelo uso de obras criativas.

A questão dos direitos de autor versus o uso indiscriminado de obras está cada vez mais presente em várias comunidades on-line. O lançamento de Steal this Film, o documentário sobre como o Pirate Bay que revelou como as relações internacionais entre a Suécia e os EUA são feitas com contornos ilegais de forma a travar pirataria, trouxe novamente à baila a questão do copyright, e por incrível que pareça, as companhias por detrás do Myspace e da MTV parecem estar a querer usar as mesmas 'tácticas' que qualquer grupo pirata.

Quem se lixa, novamente, são os artistas independentes, algo inocentes e pouco habituados a reclamarem os seus direitos ao lerem os term of use diga-se, que com a promessa de fama ao aparecerem na MTV ou terem milhares de hits na sua página do MySpace que lhes pode dar um contracto, vão vendendo a 'alma ao diabo'.

Segunda-feira, Agosto 28, 2006

A Suprema Arte da Perversão

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Cinema is the ultimate pervert art. It doesn’t give you what you desire. It tells you how to desire
Slavoj Žižek

Nunca as teorias de Slavoj Žižek gozaram de tanta fama junto do 'público' como actualmente, com a actual geração de universitários ligados às 'ciências humanistas' de ambos os lados do Atlântico a venerarem o homem que é já considerado uma das figuras mais relevantes do pensamento cultural das últimas décadas e o primeiro filósofo do século XXI (esta última que considero pouco exacta pessoalmente).

O facto é que Žižek, na sua aparentemente embrulhada de neo-materialismo, psicanálise e análise lacaniana, não faz distinção entre a chamada alta e baixa cultura, tratando a cultura pop, que é a forma básica da actual cultura (nunca isso poderá ser esquecido) como uma das mais fascinantes e perversas formas de moldar a realidade (ou o Real), ridicularizando com o seu sentido de humor sarcástico e franco os actuais conceitos de 'Bom' ou de 'Verdade'.

The Pervert's Guide To Cinema, um extenso documentário deste ano produzido para o britânico Channel 4, é um daqueles documentos intensos onde Žižek, com a sua esperta abordagem entre o "Freud explica" e o eterno questionar do espectador, olhando de frente para a câmara como um aparentemente sério professor olhando para o aluno (sempre com uma gargalhada seca pronta depois da pergunta), faz pouco da realidade explicando através do ridículo que o Cinema, um dos mais poderososo veículos da Cultura popular, não nos 'realiza' mas ensina-nos a pensar que somos humanos 'reais', com sentimentos 'próprios' e 'únicos', sem qualquer interferência cultural.

Abordando exemplos como The Matrix, Aliens, o Exorcista ou Fight Club, Žižek revela-nos a sua visão psicoanalítica da Cultura Popular (e por 'arrasto' do estranho conceito de "Realidade" que todos nós parecemos conhecer), para depois mergulhar mais fundo, usando sobretudo obras de dois dos seus favoritos autores, David Lynch e Alfred Hitchcock, para desmascarar as nossas perversões como cinéfilos e seres humanos, aparentemente com 'realidades' produzidas através da cultura pop. The Pervert's Guide To Cinema é um daqueles fascínantes documentos que decerto não deixara indiferente qualquer cinéfilo, desafiando-o a ver alguns dos seus possíveis filmes favoritos através dos olhos de uma das criaturas mais fascínantes do actual pensamento cultural e político.

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Entretanto, e fazendo disto também uma recomendação pessoal, existe uma relativamente interessante introdução a Žižek como figura pop aqueles que até agora ignoraram tal nome, através de Zizek!, um documentário de Astra Taylor do ano passado, que consegue dar uma visão linear mas consistente da biografia deste teórico cultural e de como se tornou um 'ícone do pensamento', sobretudo nos EUA, sempre num relato na primeira pessoa.

Ambos os documentários via Greylodge's Gpod (aqui e aqui, respectivamente)

Domingo, Agosto 27, 2006

A Diva Esquecida

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Anna May Wong por Nickolas Muray

Costumo notar, quando vou à caça de DVDs para o fim-de-semana, o fascínio que a secção de "world cinema" (um conceito em voga aqui pelo RU, que abrange TUDO o que não seja falado em inglês, pois claro) provoca nos consumidores 'teenagers/jovens adultos'. Muito por culpa do cinema chinês e japonês estar arrumado nestas prateleiras, existem sempre uma pequena mas fiel legião de adeptos de volta dos últimos títulos importados e que sabe à espera (das frequentes) promoções. De resto uma boa fatia da população decerto que quando confrontada com o termo "Tartan Asia Extreme", logo aguça o olhar para entender onde estarão potenciais 'companheiros' de filmes como Audition, BR, Visitor Q ou Hard Boiled, tentando entender pelas capas (que ostentam actores asiáticos) qual a melhor compra.

Devido a numerosas razões (que estão condicionadas por factores de trends, influências financeiras, opções no mercado de entertenimento e mudanças culturais), a cultura popular ocidental hoje em dia consegue, dentro de certos limites, assimilar filmes cujos protagonistas são não-ocidentais (neste caso do extremo oriente), e devolver algumas das referências culturais daí geradas para a 'rua', criando trends como aquelas vividas durante a febre gerada por Kill Bill ou, em menor escala, por Audition e Battle Royale e até Old Boy. Interessante lembrar que nem sempre isto foi uma coisa banal de ser vista em qualquer loja europeia.

Claramente o cinema asiático está desde à 3 anos a conseguir competir de uma forma espantosa com o cinema produzido sobretudo nos EUA, com uma cada vez maior número de espectadores que já não acham estranho o (ou a) protagonista ser um(a) não-caucasiana.

Decerto que nas últimas duas décadas assistiu-se a uma 'emigração' de nomes asiáticos para os EU (lembro-me assim de repente de Chow Yun Fat, Michelle Yeoh, Lucy Liu, Chiaki Kuriyama e claro John Woo), mas o facto é que por poucas vezes, sino-americano nascido e criado 'in-situ' teve esse previlégio.

Tudo isto faz-me lembrar uma das mais notáveis e única presença sino-americana em cinema americano de expressão mainstream que conseguiu ganhar alguma notoriedade em Hollywood. Anna May Wong foi uma pioneira na forma como conseguiu aparecer em mais de 40 filmes, a maior parte produzidos nos EUA. Claro que uma grande parte de representações que teve foram personagens exóticas, normalmente relegadas para um plano muito secundário (a escrava de The Thief of Bagdad de Walsh, a exótica criada de Impact), mas Wong conseguiu de facto obter um relevante status na industria, sobretudo se pensarmos que a grande parte da população sino-americana vivia na Chinatown de LA, sem grandes laços com o exterior e normalmente representados no cinema americano como personagens misteriosas e muitas vezes sinistras, e sempre por actores caucasianos (basta pensar em personagens como Fu-manchu ou Mysterious Mr. Wong, representados por Lugosi ou Karloff), isto com saudáveis excepções (o detective "Poirotiano" Mr. Wong, também representado por Karloff).

AnnaMayWong

Se a melhor parte da carreira de Wong pode ser resumida apenas em cerca de 20 anos (década de 30 e 40), as obras em que participou, com performances magníficas, fizeram desta actriz uma das referências da 'igualdade' (completamente falsa, claro está, mesmo nos dias de hoje) com as diferentes comunidades residentes nos EUA foram retratadas no cinema.

Se em filmes como Daughter of the Dragon (um policial quase proto-cinema de acção de Hong Kong) ou Shanghai Express (onde muitos afirmam ter roubado muito do protagonismo reservado a Marlene Dietrich) Wong conseguiu realmente um papel central, foi com Piccadilly, 'estranhamente' uma produção britânica, onde se revelou ao representar o papel da dançarina Shosho e onde teve realmente um tratamento digno de uma actriz com a panache que possuia e onde a sua personagem adquiria (como qualquer subject do Império Britânico) uma importância simultaneamente Chinesa e Britânica, se as armadilhas do "mysterious Orient". Foi de resto neste filme que nasceu a sua Screen Persona, de gestos exactos e metódicos e presença erótica perturbante que ainda hoje não deixa de ser eloquentemente fantástica, bem mais sofisticada e interessante que muitas das suas colegas caucasianas americanas, moldadas aos gostos da época e sem qualquer estímulo próprio.

Simultaneamente admirada por ter conseguido 'furar' o rótulo de actriz de 'race films' (algo que os afro-americanos estiveram confinados até aos anos 80!) e por ter-se revelado uma das divas mais sofisticadas de Hollywood, mesmo quando limitada devido à sua 'aparência', Anna May Wong começou apenas no final dos anos 90 a ser redescoberta, isto depois de passados mais de 30 anos desde a sua morte, como uma das mais fascínantes divas asiáticas do cinema mundial, cujos os achievements em Hollywood ainda estão para ser ultrapassados por muitas das actrizes de topo actuais, mesmo tendo sido tratada, como quase todos os sino-americanos, uma cidadã de segunda. Só é pena que todo o seu potencial tenha sido mostrado apenas em meia-duzia de filmes com algum relevo.


Outras leituras:
Anna May Wong: first asian american star! por Philip Leibfried
Profile of Anna May Wong: Remembering The Silent Star por Kenneth Quan
Website de Frosted Yellow Willows, o documentário sobre a vida de
Anna May Wong

Sábado, Agosto 26, 2006

Nottingham05: Saturday Night, Sunday Morning

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"Saturday Night and Sunday Morning" offers a terrifying glimpse into an age where work, booze, and death were all that Britain's young men had to look forward to.
Jamie Russell, BBC Films Reviews


Das peças de culto da chamada Nottinghamia, Saturday Night, Sunday Morning ocupa um lugar cimeiro de como ainda hoje muitos dos habitantes de Nottingham vêem a cidade, um dos bastiões da revolução industrial britânica, rodeada de minas e onde o movimento dos Luddites nasceu. O filme de Karel Reisz está para Notts como o posterior Os Verdes Anos de Paulo Rocha está para Lisboa, uma espécie de viagem pela classe operária, substituindo aqui o aprendiz de sapateiro e a sopeira pelo operário da fábrica que se torna um ladykiller de pint em punho e a adolescente que ainda vive com a família e que espera encontrar um marido que lhe permita sair de casa.

Mas ao contrário da magnífica obra de Paulo Rocha "Saturday Night..." é apenas um relato neo-realista do no future dos 'jovens adultos' da classe operária inglesa nos anos 50/60, presos à rotina aborrecida da fabrica e cujo 'sonho da minha vida' seria o de casar e com sorte comprar uma das novas casas feitas à saída da cidade (ainda existem!) onde terão uma vida frugal e suburbana. O filme tornou Albert Finney no herói da classe operária, que representava uma personagem que, fora do 'ambiente profissional' vivia para ir ao Pub com uma fatiotas catitas e que mantinha uma relação mais-ou-menos-séria e de contornos algo dúbios com uma mulher dona de casa casada com um dos colegas da fábrica.

Mesmo assim, Saturday Night, Sunday Morning tem claras virtudes, que permitiram ser visto como um dos filmes que trouxe uma lufada de ar fresco que transformou o panorama cinematográfico britânico (tal como o já citado filme de Rocha fez em Portugal), e criou o ideal do jovem herói do proletariado inglês, uma figura que desde então foi apreciada pelas audiências britânicas que apenas se tornou uma figura do passado quando as célebres 'renovações' da era Tatcher destruiram o herói da fábrica para dar o seu lugar ao herói da sociedade de consumo, o Yuppie.

O filme retrata com muita exactidão o quotidiano da maior parte das cidades inglesas em meados no século passado (e que pode ainda ser francamente observado nos dias de hoje), e sobretudo, e aqui o filme consegue ter um valor acrescido, a forma como são retratadas as personagens femininas, com Shirley Anne Field e Rachel Roberts a representarem duas duas personagens centrais que aguentam a personagem de Finney até ao final, e que evitam tornar o filme desinteressante.

Claro que para um habitante da cidade o filme ganha logo outro valor, tentando-se de forma atenta reconhecer algumas das landscapes urbanas que possam ainda ter sobrevivido, sobretudo as vizinhanças dos bairros operários e das fábricas, hoje em dia desaparecidas ou re-aproveitadas para outros fins. Este filme poderá ser um possível (e deprimente) renovar daquele espirito próprio em Nottingham, que sempre tentou ter viva a memória de um dúbio ladrão (tornado herói do povo) que conseguiu desafiar os poderes instituidos e que parece viver ciclicamente em personagens como a que Finney interpreta, de forma algo atabalhoada diga-se, neste clássico do cinema britânico.

Recordar é Viver

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An excellent piece of documentary about the finest underground movement in music anywhere in the world between Roky Erickson came out of the asylum in the 70's and the churches burned in Norway in the 90's!
Peter Padron, User do IMDB


Baseado no livro publicano pela Feral House em 2001 escrito por Steven Blush (já um documento de culto), American Hardcore está a gerar as maiores espectativas mas também as mais cerradas críticas por parte dos fans do período mais interessante do punk rock.

Pessoalmente nunca me convenceu o punk britânico, envolto desde logo num oportunismo gerado estética, onde o look era mais importante que a substância e as palavras de ordem pareciam gritadas por retardados, que sabiam muito bem o que os fans, que presos nessas mesmas 'malhas estéticas', queriam ouvir.

Não pretendo de forma alguma minimizar o papel do punk britânico ou dos Clash/Pistols/Stranglers na história da música do século XX, ou nem mesmo ser crítico em relação aos atentados musicais produzidos no Reino Unidos sob a bandeira do Punk, a maior parte deles realizados apenas por puro oportunismo trendy, que sem querer se tornou norma e apenas se esbateu durante uma coisa chamada new wave (quando, aí sim, se revelou mais uma vez o génio da pop britânica). Claro está, e isto é uma opinião objectivamente pessoal, o facto é que, se retirarmos os Clash e os Stranglers, musicalmente o punk inglês vale menos que o peso do hype que lhe foi atribuido em caca de vaca para adubar os campos.

Basta olhar atentamente para o 'Mapa Punk' para entender que aqueles dedos que apontam a salivar para a capital do Reino deveriam estar antes a percorrer a parte mais importante e musicalmente relevante desse mesmo mapa, localizada no lado oposto do Atlântico, num rico território onde esse mesmo Punk foi 'inventado' e onde deu, após o valente safanão dos Sex Pistols com o single 'Anarchy in the UK', os seus frutos mais interessantes.

O documentário de Paul Rachman, prestes a estrear nos EUA, mostra qual foi, de facto, a parte mais substancial da música Punk, onde se gera a nostalgia mais cerrada pelo facto de ser este de facto o movimento que fez interessante os anos 80. Rachman e Blush conseguem captar de uma forma única o movimento hardcore que conseguiu fazer do Punk uma verdadeira contra-cultura americana como já não se vislumbrava desde os anos 60, 'colando' através de testemunhos de figuras-chave e muita footage inédita a história da scene californiana, que contagiou os adolescentes da era Reagan de costa-a-costa.

E se o documentário está a gerar as mais favoráveis críticas, sendo visto já (quando oficialmente ainda nem estreou) como um dos documentários mais interessantes sobre uma cena musical underground, também é verdade que muitos (velhos e novos) fans se interrogam porque é que figuras lendárias como Jello Biafra não participaram no projecto, ou porque é que o filme foi produzido e está a ser distribuido pela gigante multinacional SONY.

Parece, e aqui estou a ser algo subjectivo, que este documentário, que decerto me irá por os miolos em fogo devido à sua qualidade nostálgica, sofre também ele daquele mal que o hardcore vem sofrendo desde os anos 90, já que se tornou parte da 'máquina', estando em 'piloto automático' desde esta idade de ouro (o documentário cobre os anos de 1980 até 1986), recorrendo agora também a fórmulas inventadas nessa altura, usadas até à nausea.

Mas de qualquer das formas, como diz a cantiga, recordar é viver, e decerto que American Hardcore viverá para preencher a maior parte das espectativas já geradas, sendo ainda um daqueles documentos que decerto terá uma especial atenção das 'crianças' que agora descobrem que existia algo bem mais legítimo no Punk Rock do que muita da cagada que costumam ouvir debitada pelos actuais 'heróis do actual punk', que sabiamente conseguem ter airplay nas rádios e TV com ajuda dos seus patrões em multinacionais... já agora, para os mais cépticos, aqui fica o link para o trailer.

Good Girl, Bad Girl

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Com o Reino Unido a viver actualmente um popular revivalismo do Burlesque, lá estreiou por aqui com um atraso pouco recomendado The Notorious Bettie Page, o biopic da maior pin-up de sempre, realizado por Mary Harron.

Talvez por falta de meios o filme, dedica-se sobretudo a revelar 'os primeiros passos' da modelo, para depois retratar o problemas com a justiça que Irving 'King of Pin-Up' Klaw sofreu nas mãos das infames Kefauver Hearings , 'passando por cima' de muito de que relevante se viveu na altura com o renascimento do Burlesco nos EUA e dado pouca evidência a relativa fama que Bettie Page tinha mesmo no 'mainstream' da indústria de entertenimento.

A dictomia entre a Bettie 'pecadora', rainha do bondage e a Bettie 'good girl' frequentadora da igreja no Tennessee é claramente marcada no filme (parece mesmo querer salientar qualquer coisa?) é demasiado romanceada e evidenciada, caindo-se no terreno do bio-pic de TV, moralista e aparentemente a querer salientar algo de forma duvidosa.

De resto, 'The Notorious...' claramente é um filme de alguém habituado ao formato televisivo, com cadências narrativas próprias deste formato e que por vezes tornam o filme com blocos narrativos muito diferentes na sua sequência e com pouca ligação. Se os pontos altos do filme, sobretudo Gretchen Mol a "dar o corpo ao manifesto" de uma forma magnífica e credível e a recriação de alguns momentos-chave do trabalho da modelo com Irving e Paula Klaw, conseguem convencer, já o todo do filme, embora revelando apurado trabalho e muita dedicação, fica muito além da espectativa.

Mesmo dizendo isto, 'The Notorious...' é mais uma daquelas peças recomendáveis aos fans de Bettie, agora de volta ao Business com o magnífico site com loja e tudo (e que faz todo o sentido já que muitos foram e são muitos os oportunistas que meteram dinheiro ao bolso a vender merch não autorizado), sendo também um bom in-site sobre a história do entertenimento versus os valores morais nos EU. E claro, os fans de Gretchen Mol decerto que ficaram muitoooo satisfeitos.

Sexta-feira, Agosto 25, 2006

A Arte dos Roubos Ridículos

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Continuando a ver (e rever) algumas das obras do actual (e fascínante) cinema espanhol, descobri mais uma das 'obras de arte' da actual comédia espanhola. Para não destoar, o guião de El Robo más Grande Jamás Contado , fruto da colaboração entre Daniel Monzón (o realizador) e Jorge Guerricaechevarría (um dos maiores guionistas do actual cinema espanhol, conhecido pelos guiões para Alex de la Iglésia e Almódovar) contém uma daquelas histórias tão disparatadas como eficientes a que o actual cinema espanhol já nos habitou:

Um ladrão falhado, que escolheu tal 'carreira' apenas pela possibilidade de algum dia ser famoso, recruta na prisão um hacker que gerou um 'apagão' em Madrid, um pintor iludido e desiludido (representado pelo grande Manuel Manquiña) e um anão acrobata de circo, preso por ter sido apanhado a roubar malas no porão de um avião em pleno voo (!), para fazerem finalmente o roubo que lhe dará a fama eterna. O alvo é, pasme-se, A Guernica do Picasso e para tal o gang tem que ultrapassar todas as medidas de segurança e as próprias limitações mentais de todos os membros. El Santo (o cabecilha), Zorba "El Greco" (o pintor) Jacobo "Windows" (o hacker) e Pinito (o anão acrobata), com a ajuda da sexy mulher do Santo (Neus Asensi) conseguem arranjar o plano perfeito, que se revela muito pouco apurado rapidamente e durante o roubo improvisam um dos maiores roubos de sempre, que de certo deixaria o Tom Cruise invejoso, apenas para depois falharem, parcialmente, o objectivo.

Robo más Grande Jamás Contado é um daqueles filmes-colectânea, que tenta rever o género do cinema de 'missões impossíveis', um pouco como Naked Gun fez com o polícial. Mas ao contrário da(s) obra(s) de David Zucker, o filme de Monzón consegue encontrar um rumo para o que de profundamente ridículo cada uma das personagens representa, dando uma dimensão ao filme absolutamente 'anárquica' e subversiva, evitando ser apenas um conjunto de gags que vai aguentando a narrativa. As cenas hilariantes quer do próprio roubo, como da 'preparação' são magníficas e frenéticas e o final, quase todo passado no Aeroporto de Madrid a abarrotar com pessoas que esperar e desesperam nas filas de espera para partirem de férias, é decerto uma das sequências mais politicamente incorrectas do actual cinema europeu, numa era de medidas de segurança e ameaças constantes de terrorismo.

Não sendo uma 'obra prima' como o fruto do roubo que dá nome ao filme, El Robo más Grande Jamás Contado é uma das comédias mais hilariantemente recomendadas para aqueles que querem ver liberdade criativa em Cinema, mostrando situações que são vistas como de 'mau gosto' num mundo em que a obra de Picasso ou a segurança nos aeroportos são algo com que não se brinca.

Quinta-feira, Agosto 24, 2006

Quotidianos

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Kiriko Nananan, Blue


Durante décadas, qualquer 'fanático dos quadradinhos' via na Banda Desenhada de expressão francesa (de França e da Belgica entenda-se), uma das mais inventivas formas de expressão gráfica na Europa, com muitos dos 'universos alternativos' gerados por essa fabulosa geração dos 70s e 80s a influenciarem muito do que se fez posteriormente no cinema e artes gráficas, basta apenas pensar na obra de Mœbius ou Bilal.

Claramente, essa importância começou a entrar em declínio, com muitos dos autores a ficarem algo rotulados e presos aos 'universos alternativos' que pareciam datados às gerações que começaram a ler Banda Desenhada europeia nos 90s, caindo em fáceis estereotipos.

Em finais dos anos 90, Frédéric Boilet, o criador de Rayon Vert, imigrou para o Japão onde começou um fase nova na carreira, decidindo assumir como príncipal fonte de inspiração o quotidiano, tal como a Nouvelle Vague quando trouxe o dia-a-dia para o cinema europeu. Dai até ser criado o rótulo de Nouvelle Manga, foi um pequeno passo, com Boilet a depressa adoptar o termo e a incentivar uma nova geração de criadores francófonos e japoneses a começarem a procurar em terrenos neo-neo-realistas um playground para purgarem das suas obras o sofisticado desenho (muitas vezes a roçar o luxuoso) que foi imagem de marca da geração francofona de mestre da Banda Desenhada e a darem importância sobretudo à história que é suposto contarem, algo que no Japão é uma das regras máximas de qualquer mangaka.

Com a actual expansão do mercado de banda desenhada japonesa pelo mundo inteiro, o Nouvelle Manga está actualmente a ter um reconhecimento mundial, sobretudo através do famoso Blue de Kiriko Nananan, estando já criado um hype em redor de alguns dos autores 'aderentes'.

Espero apenas que este entusiasmo, que cresce constantemente nos últimos meses, traga uma clara renovação ou até o nascimento de um género e que não seja apenas uma 'aventura' registada num manifesto (escrito por Boilet). Para já obras como The Building Opposite, de Vanyda e o já citado Blue de Kiriko Nananan ou Mariko Parade, uma parceria de Boilet com Kan Takahama, parecem prever o melhor.

Quarta-feira, Agosto 23, 2006

Provocações(1)

pixies
A maior banda de sempre.

Sábado, Agosto 19, 2006

New York, 1978-1982

basquiat

This was before irony and Giuliani — two forces destructive to creativity — reigned
(Kristina Feliciano, OffOffOff.com)

00: Intro
É certo para a geração a que pertenço, que Nova Iorque foi em dias já passados, a capital da vanguarda mundial, um centro inesgotável, com o seu exército de artistas de vanguarda mal nutridos (alguns!) e com a cabeça cheia de ideias que negavam qualquer reflexão aos ideais 'bem pensados' por anteriores gerações de artistas americanos, remodelaram numa cidade fisicamente decadente e suja o conceito de 'artista urbano', ampliando ainda mais a liberdade criativa sentida 'dentro de portas' desde o início dos anos 60.

De uma lista imensa, tão longa que faria inveja a um rolo da Scottex, sempre me pareceu que Jean-Michel Basquiat seria a 'face' visível dessa NY, tal como tinha sido a do seu 'padrinho' Andy Warhol na década anterior. Como diria Kristina Feliciano, colaboradora do OffOffOff.com num artigo sobre Downtown 81, Basquiat foi um exemplo de potencial nunca realizado plenamente, quer devido à morte prematura do artista, mas também devido à atitude go-with-the-flow que Basquiat, tal como muitas das personagens que povoavam 'essa' cidade, parecia usar como regra básica de vida.

tvparty

01: TV Party
Nos anos pré-MTV (que fez, segundo parece, à poucas semanas 25 anos), existia em alguns estados americanos o conceito de 'televisão comunitária' (o célebre public access television, que tanta inveja gerou na Europa), onde teoricamente qualquer zé-da-esquina poderia ter um projecto televisivo a ser exibido para os seus co-cidadãos, usando de equipamento e estúdios destinados a tal e transmitindo-o através da rede de cabo. Um bando de desordeiros encabeçados pelo neo-beat Glenn O'Brien decidiram tomar conta (de vez em quando) das instalações designadas para tal 'exercício de cidadania' e realizaram entre 1978 e 1982 um dos programas mais anárquicos que há memória na televisão americana.

No ano passado a Brick films lançou o documentário TV Party de Danny Vinik, uma amostra dessa insanidade que reinava algumas horas por semana na televisão por cabo de NY, com muitos dos intervenientes, agora já com alguns cabelos cinzentos, a relatarem de forma contagiante a loucura de fazer uma bestialidade destas.

Claramente TV Party (o programa) era apenas um pretexto para um grupo de misfits terem um sítio para fazer festas com os amigos, onde 'substâncias ilegais' eram consumidas em directo e onde se poderia fazer qualquer loucura sem praticamente qualquer censura notada, revelando-se um exercício com frutos extremamente criativos (muita da 'televisão radical' como hoje a conhecemos passa por este programa) e simultaneamente ridiculamente disparatados, tudo embrulhado numa orgia irresistivel de pura televisão sem rede que ainda hoje consegue espantar a geração MTV, levando o do it yourself a propoções por vezes a roçar o génio.

O'Brien, que substituiu a clássica mug de café que ainda hoje os grandes host de talk-shows usam, por valentes e gordos charros fumados à velocidade da luz, fazia desfilar um circo de freaks que conseguiam ser tão ridículos como geniais, mostrando alguns dos nomes quer se tornaram significativos na No Wave como os Lounge Lizards, Plastics, Talking Heads ou os DNA e a creme de la creme da vanguarda artística de NY.

Downtown81.DVD
02: Downtown 81
Lançado com um atraso de 20 anos (!) Downtown 81, o célebre filme de Edo Bertoglio, um 'activo observador' da cena artística da altura, não poderia ser mais revelador ao mostrar uma scene que estava prestes a morrer. Percorrendo alguns dos 'cenários' desencantados também revelados nas primeiras obras de Jarmusch e Ferrara, Bertoglio mostra-nos um dia na vida de Basquiat, percorrendo as ruas de NY com o pretexto de tentar encontrar dinheiro para pagar a renda, deambulando sem sentido (um pouco como o filme até) até encontrar uma fada (Debbie Harry) que lhe concede um desejo, que leva Basquiat a sair da cidade rumo ao 'futuro'.

O final é claramente o anunciar de que a No Wave estava nos dias finais e que o que se tinha passado nos últimos 5 anos tinha agora que evoluir com outros intervenientes. Nasceu o conceito de Yuppie que 'encheu' as ruas da cidade e estava agora aberto o caminho para os próximos contestatários tomarem conta da cidade com as massas sonoras dos Sonic Youth e a provocação levada aos extremos do cinema of transgression de Zedd e Kern.

Wicked Men!

wickermen

E pronto! parece-me que vou ter que repetir aquele velhinho mantra de já por aqui escrevi em alguns posts e alguns comentários em fellow blogs, de que o cinema dito de "terror" ou "fantástico" está morto em Hollywood, que os tipos atiram cá para fora uns remakes atrozes que não lembram nem às alminhas mais inocentes, revestindo ainda estas 'obras' com aqueles comentários a puxar para o caridoso, quando dizem que estão a fazer um favor ao público ao refazerem obras tão espantosas e coisas assim.

Não quero soar um fanático, e confesso que estou-me a borrifar para opiniões algo extremas que encontrei on-line, que confessavam que se podessem boicotavam este deplorável (já tornado) género que são os remakes, mas concordo plenamente com Ingrid Pitt, uma das actrizes do original Wicker Man, que refazer este filme é um crime e consigo perceber e ter simpatia por Anthony Shaffer, o realizador do original, em processar os remakers para ver se não era associado a esta nódoa.

Wicker Man, o original bem entendido, é uma das obras mais notáveis que alguma vez saiu do Reino Unido. A sua mistura de terror, musical, paganismo mostrado em tons quase documentais e a sua forma como renova um género já batido na altura, o Exploitation, é simplesmente perfeito, conseguindo conter um cast imaculado, uma banda sonora das mais espantosas que ouvi (Paul Giovanni ainda hoje é um tipo abençoado com um profundo culto aqui pelo RU), e uma história com um flow magnético que faz de resto, sobresair um background que ainda hoje pode ser encontrado em algumas zonas mais rurais do Reino Unido.

Embora muitas vezes amputado, criticado, proibido e censurado, Wicker Man consegui quase instantaneamente gerar um culto que passou muito além dos adeptos de Wicca e fans do 'gótico Hammer', sendo ainda hoje uma das grandes referências culturais do Reino Unido, ao lado dos guardas de serviço no palácio de Buckingham e os velhinhos filmes do Michael Cain.

O filme, que quase não sobreviveu até aos dias de hoje (e cuja a história dava um filme sobre o filme), é o apogeu de um género que logo a seguir praticamente morreu no Reino Unido, com o declínio da Hammer, que na altura já mostrava sinais de ter esgotado os vários sub-géneros de cinema "fantástico" que ajudou a consolidar a nível mundial e a versatibilidade de uma geração de novos realizadores americanos, espanhóis e Italianos (e alguns franceses, claro) que geraram muitos dos clássicos que têm vindo a ser agora maltratados por uma indústria que está realmente decadente e que não consegue manter o passo com as actuais alternativas oferecidas aos cinéfilos deste(s) género(s).

Confesso que esperava uma valente banhada politicamente correcta, feita por Neil LaBute, que lamento dizer, considero um realizador de serviço (ao contrário de muitos, que acham a obra do homem 'com valor') e com a presença de um actor canastrão (Nicholas Cage), que durante tantos anos de carreira apenas conseguiu fazer 4 ou 5 filmes decentes. De resto os elementos 'moralmente dúbios' que Shaffer incluiu no original decerto não têm lugar num país dominado pela censura instigada pelo cada vez mais omnipresente fanatismo neo-puritano-cristão-evangélico que faz apodrecer o milk and honey de um país sempre abençoado com o melhor (e o pior) que se fez na cultura popular.

O que não consigo entender são as arbitrárias mudanças (e aqui nao me apetece muito entrar em detalhes para não gerar algum spoiler) no script do filme, que revela muito pouco profissionalismo e competência, julgando que o público deverá ter algum bloqueio mental (e se calhar...). Este remake apenas consegue gerar algum interesse pelo acto que é, indirectamente, uma triste descrição do país que o produziu, mostrando nos seus 106 minutos, o que a propaganda instituida pelas agências governamentais americanas poderá fazer às inocentes cabeças de quem levar alguma vez este 'produto' a sério: uma das mais simples mas eficazes lavagens cerebrais morais que à memória desde o final da Guerra Fria.

Agora que já se fala em remakes para outros clássicos como The Last House on the Left e de Suspiria, começo a tentar mentalizar-me que afinal, isto são só filmes, tentando invocar o It's only a movie que por vezes os estúdios americanos inseriam, com voz paternal e tranquilizadora, no final de alguns daqueles filmes assustadores assistidos durante a infância. Mas a conclusão é obvia, mesmo sem ser acompanhada pelas infames pipocas: Wicker Man só há um, o original e mais nenhum!

Food for Thought

Babette
Babettes gæstebud (Babette's Feast)- Gabriel Axel (1987)

Mais:
Artigo sobre Babette's Feast no London Food Film Fiesta

Sexta-feira, Agosto 18, 2006

Cinema (O)Culto

Earth-vs.-the-Flying-Saucer

Existirão poucos realizadores em todo o cinema B americano (lembre-se que este B não é um selo de pouca qualidade, mas de 'importância' nas sessões das salas de cinema), que consigam ter um número tão interessante de filmes de culto no curriculum como Fred F. Sears.

Sears é uma daquelas figuras que sempre foi esquecida na história do cinema de culto, com apenas o clássico dos drive-ins "Earth vs. the Flying Saucers" a ser relembrando com alguma frequência. Se Ed Wood (por exemplo) conseguiu, através de outras 'qualidades' ser uma presença da cultura popular desde final dos anos 80 até à data, Sears ficou 'pelo caminho', sendo normalmente visto como um daqueles realizadores de 'cinema a metro' para encher as sessões secundárias.

É mais que óbvio que a carreira de Sears está povoada de filmes que têm tanto de reverente como de disparatado (basta pensar em títulos como The Giant Claw ou The Night the World Exploded). Mas haverá alguém que negue a importância que o primeiro Rock and Roll film Rock Around the Clock (1956), teve no mundo ocidental, provocando distúrbios em salas de cinemas nos dois lados do Atlântico, quando a exuberância dos teenagers que dançavam ao som de Bill Haley e os seus Comets gerava a ira dos 'adultos' e provocava a intervenção da polícia? E será que as audiências que viram Earth vs. the Flying Saucers em 1956, conseguiram ficar indiferentes aos efeitos especiais de Ray Harryhausen, já que estes reflectiam também os medos da Guerra Fria?

Mesmo excluindo estes dois títulos de culto, a obra de Sears necessita de uma revisão urgente e sobretudo de muitas edições em DVD. Basta pensar em alguns dos Noir que realizou que tiveram alguma influência no género e que actualmente estão sem qualquer edição, como o considerado clássico (e extremamente violento para a época), Cell 2455 Death Row, completamente esquecido ou os seus filmes sobre adolescentes (Teen-Age Crime Wave, o já citado Rock Around the Clock, ou Calypso Heat Wave), que poderão ser considerados um ensaio da onda de cinema americano dos 80s, com os mesmos adolescentes como figuras centrais e bandas sonoras recheadas com as 'bandas da moda'.

Se Earth vs. the Flying Saucers, teve já direito a várias edições 'próprias' em DVD, alguns dos outros títulos de Fred F. Sears terão que ser também re-editados nesse formato (de preferência na região 2) com a pompa que é devida a uma dos mestre do 'cinema de culto', percebendo-se que se tal não acontecer algums dos filmes mais interessantes da cultura popular dos anos 50 americanos poderão dentro de pouco tempo ficar esquecidos.

Rir-se da Miséria

muertosrisa
imagens cortesia de ZonaDVD.com

Existirão poucas comédias que consigam traduzir a essência do tipo de comédia negra criada por Peter Sellers (um dos magos da comédia no cinema) como Muertos De Risa (1999) de Álex de la Iglesia. O filme, pouco visto fora de Espanha e um dos menos favoritos dos fanáticos da obra do realizador, é simplesmente uma "tese" sobre como, usando um gag batido em comédia, se pode fazer rir um espectador que foi desde logo avisado que não deveria achar piada a esse mesmo gag, transformando a audiência em cães de Pavlov, sempre à espera do próxima gargalhada.

Basicamente a história anda à volta de dois desgraçados (e pouco inteligentes) campónios com algumas aspirações no show business (os actores Santiago Segura, num dos seus melhores papéis, e El Gran Wyoming) que quase sem querer se encontram com um dúbio manager (Álex Angulo) em Madrid e que conseguem encontrar a fama absoluta na comédia espanhola, ao perceberem que o número do "gajo magro e inteligente a bater no gajo gordo e estúpido" consegue levar as pessoas a chorar a rir em poucos segundos.

Daqui para a frente, a dupla Nino y Bruno (o gordo e o magro) através de diferentes nuances de "estaladas na cara" que vão adaptando durante várias décadas de "trabalho artístico", vão mostrando a evolução da comédia espanhola (que teve também alguma influência em Portugal, sobretudo no teatro de revista) , desde os anos 60 até aos dias de hoje, exagerando cada vez mais no número, quando ambos estão já fartos um do outro (e portanto começam cada vez mais a usar de brutalidade como forma de se vingarem).

Se existe quase uma caricaturização 'humana' de ambas as personagens até meados do filme, com Álex de la Iglesia a habituar o espectador cada vez mais a querer rir do cruel gag, a história começa a ficar cada vez mais negra e miserável até ao apogeu final, mas quando ambos os públicos (o dos comediantes e o espectadores deste filme) começam a rir cada vez mais com a crueldade de ambos os comediantes, a afundarem-se na paranoia e na crueldade absoluta, até às últimas consequências e sempre sob os olhares de uma audiência estupidificada e que pensa estar a rir nos 'momentos certos'. De facto esta cadência narrativa demonstra de uma forma brilhante todas as mudanças do formato (comédia) e como o público se foi adaptando a essas mesmas mudanças.

Muertos De Risa torna-nos também membros desta mesma audiência, brincando com o nosso sentido crítico e ajudando-nos a voluntariamente rir da crueldade da vida dos dois 'palhaços de serviço', uma tendência, que de resto, é actualmente uma das pedras basilares da televisão (basta pensar no formato reality show). Álex de la Iglesia parece querer mostrar durante todo o filme que rir é universar e que o mesmo gag, ou seja a mesma 'estalada no gordo', poderá ter leituras completamente diferentes, quando adicionadas diferentes detalhes à narrativa, construindo assim uma das comédias espanholas mais interessantes e perspicazes que me consigo lembrar.

Os Irmãos Distantes

Farewell-Good-Brothers

É impressionante pensar na importância omnipresente e quase avassaladora que os aliens têm na cultura popular terrestre desde meados do século XX, invocando sempre aquelas imagens de seres com cabeças desproporcionais e dedos a piscarem luzes, tipos com cortes de cabelo e fatos 'estranho', seres verdes de olhar angular a espreitarem nas trevas, fotos desfocadas de discos voadores...

Farewell Good Brothers, um fantástico documentário de 1992 realizado por Robert Stone consegue dar exactamente o outro lado desse fenómeno, originado nos anos 50 nos EUA e que mudou a face da cultura pop.

Stone conseguiu entrar em contacto com muitos dos veteranos, ou 'contactados' como ficaram conhecidos, que avistaram e supostamente contactaram seres superiores, que de resto logo se afastaram assim que perceberam que o planeta Terra está dominado com uma das raças mais estúpidas e inracionais que à memória no vasto universo, e que deram origem ao célebre pânico das invasões extra-terrestres durante a guerra fria. Muitas destes personagens (refiro-me aos humanos do documentário), como Connie e Howard Metzger ou Daniel Fry (que faleceu pouco depois da entrevista no documentário) são de resto figuras conhecidas dos fans e estudiosos do 'fenómeno', que sempre conseguiram divulgar evidências por vezes perturbantes, que sempre foram desacreditadas pelas agências governamentais americanas.

Claramente ao vermos este documentário caimos desde logo nos terrenos das teorias de conspiração, e claro existem alguns momentos hilariantes que parecem ser mais conduzidos por uma vontade egocêntrica de alguns dos intervenientes de dar nas vistas e chamar a atenção para causas que parecem pouco consistentes.

Mas Farewell Good Brothers vai muito além dos normais apologistas desta causa, revelando seres humanos com uma dose aparente de sinceridade muito grande, relatando de uma forma descontraida as experiências que viveram quando supostamente se relacionaram com seres de outros planetas e como se organizaram de forma a poderem partilhar essas experiências, para lá de qualquer hype que muitos dos actuais movimentos pro-aliens ou anti-aliens têm vindo a divulgar em inúmeros e disparatados livros, filmes e documentários, revelando-se um produto original na forma como mostra um dos fenómenos mais fascínantes e desacreditados das actuais teorias da conspiração.

Para lá de alguns momentos hilariantes e desconfortáveis, sobretudo nos momentos que mostram a actividades de uma qualquer seita que resolveu 'fundir' o Cristianismo com teorias extraterrestes (algo frequente nos EUA), ficam momentos bastante humano e até mentalmente equilibrados de gente que acredita em algo que é aparentemente inofensivo. Este documentário deixa de resto uma aura de inocência na forma como este grupo de pessoas conseguiu ignorar supostas pressões e o medo do ridículo, para poderem falar sobre (e com) umas criaturas extraterrestes sem qualquer interferência governamental e sobretudo terem uma boa desculpa para tentarem ser melhores seres humanos. Altamente recomendado.

via Gpod.

Cowboys no Espaço?

firefly

De uma série de sci-fi da TV americana com um dos maiores cultos 'underground' desde Star Trek, a série Firefly passou a ser um fenómeno mundial, com largos milhares de browncoats (como de auto-intitulam os fans) on-line e um fanatismo que preenche muitas das conversas de pubs e transportes públicos. A criação de Joss Whedon, que depois de 2 meses de airplay foi rejeitada pela Fox, criou uma onda de solidariedade junto dos fans da série original, que fez tremer a multinacional, e originou o filme Serenity.

A epopeia de Firefly é contada em Done the Impossible, um pomposo documentário que vem ainda mais ampliar o hype à volta da série e do filme, com alguns pontos altos de "lágrima no canto do olho" por partes dos intervenientes na série e dos inúmeros fans.

Pessoalmente vejo todo este hype sobre este fenómeno, e desde já desculpas aos possíveis fans que alguma vez venham a ler estas linhas, como uma das coisas mais disparatadas que me consigo lembrar na actual história da cultura pop. Confesso que nunca vi mais de 30 segundos de Firefly e decerto que nunca espero (never say never!) ver o filme. E toda essa coisa de cowboys in space apenas me gera uma vontade de rir intensa, e mais uma vez peço desculpa aos fans, parecendo-me tudo isto um cruzamento entre o Galática (ou qualquer outra dquelas séries manhosas dos 80s) e a Casa na Pradaria.

Mas ver este documentário gerou cá por casa um choque na forma como é possível alguém se levar a sério ao ponto de gerar esta peça de propaganda, que faz dos coach potatoes viciados no Big Brother parecerem pessoas interessantes.

O download de Done de Impossible pode ser feito, de graça e legalmente aqui! Fica o aviso que algumas cenas de tão hilariantes poderão causar alguma azia devido ao volume humanamente excessivo de gargalhadas provocadas em alguns espectadores.

Domingo, Agosto 13, 2006

As Belas Artes (2)

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Keiko Abe: Marimba Fantasy

As Belas Artes (1)

Nemo

Winsor McCay: Little Nemo in Slumberland

Domingo, Agosto 06, 2006

25 Anos

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IBM Corporation today announced its smallest, lowest-priced computer system - the IBM Personal Computer,' ran the press release 25 years ago this week. 'Designed for business, school and home, the easy-to-use system sells for as little as $1,565. It offers many advanced features and, with optional software, may use hundreds of popular application programs.

Alguém consegue sequer imaginar o que seria viver em 2006 sem o computador pessoal?
Ler o resto do artigo.

Sábado, Agosto 05, 2006

Who is this man so filled with soul?

arthurlee

Depois de na semana passada ter sido anunciada a morte de Syd Barrett, a notícia da morte de Arthur Lee, a mítica voz (e guitarra) dos Love desmancha por completo triângulo genial do psicadelismo na música do século XX.

Embora o hype sempre tenha estado num outro triângulo (Jimi/Jim/Janis, pois claro), é em Barrett, Lee e Roky Ericson, o auto-proclamado inventor do rock psicadélico (segundo diz meses antes dos Reis do psicadelismo, os Grateful Dead) que o verdadeiro explendor da revolução psicadélica (falo aqui de formalidades musicais) ganha todo o seu significado, sem quaisquer disparates ou idealismos. E se Ericson tem de facto uma importância vital para a música pop dos anos 60, são os dois desaparecidos personagens nas últimas semanas que conseguiram deixar na sua obra, e falo aqui apenas de escrita musical, traços de uma genialidade poucas vezes alcançada de então para cá.

Ficam as memórias de Forever Changes (o primeiro albúm dos Love que ouvi à uns valentes anos) e dos relatos de um amigo que viu Lee ao vivo em Londres à cerca de dois anos e que o classificou esse concerto e o de Brian Wilson (também na tour de há dois anos) como os melhores que alguma vez assitiu... e já agora, ficam os votos que a música e a importância dos Love seja um pouco mais relembrada.

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Arthur Lee
March 7, 1945 - August 3, 2006

Who is this man so filled with soul?
What are the words he sings to those who search for hope?
He is the slender man with a bulging heart.
Whose fingers enjoy a love affair with notes and measures.

His eyes have seen places that fill the mind with delight.
His lungs have tasted the air of a thousand different corners.
Watch him dance in step with the rhythms that reach the spirit.
The poetic gift that links generations and transcends class.

A voice of many styles sings to those who do not dine together.
The man whose black hat rides atop the tightly tied scarf
Knows the highs and lows that burst forth upon the living.
The craftsman who finds breath using the tools of his trade.

A man of faith who knows of powers beyond his own.
Believes in the beauty and value of love.
Never withheld a gift that was not his to imprison.
Finds life in bestowing presents made of chords and codas.

Knows the love of a woman known for three decades and more.
Trusted in the possibilities that come with each new day.
Dreams of the refrain yet written and the songs yet recorded.
Gracious host to those who live an unusual time table.


by Mike Revord, a hospital Chaplin who came to know Arthur over the last few months. in Arthur Lee love

Reveries (2)

candacehilligoss
Candace Hilligoss, Carnival of Souls (1962)

Reveries (1)

dementia

Adrienne Barrett, Dementia (Aka Daughter of Horror), (1955)

The Gamin (Adrienne Barrett) wakens on a dark night in a city of the Damned. Dressed like a beat chick from pre- rock'n roll days (except for an attention-getting medallion), she takes a switchblade from her dresser and starts out on the town.

She witnesses an arrest for wife-beating, sees some winos and is accosted by a midget newsboy (Angelo Rossito) who hawks a paper with a prophetic headline about a murder. A pimp finally gets the Gamin's attention and sets her up with a porcine Rich Man (Bruno ve Sota) in a chaufeurred black car. He takes her to a series of nightclubs, and then to his highrise apartment in a building with an enormous staircase.

There she watches him eat a greasy meal of chicken. When he makes advances, the Gamin defends herself ... or is she attacking? This is no ordinary night, for from this moment on events and perceptions no longer have even the pretense of reality ... as the Gamin enters a nightmare of murder and mutilation.

Sexta-feira, Agosto 04, 2006

Vermelho e Verde (2)

vertigo

Vermelho e Verde (1)

CityOfLChildren

Tell Your Children!

DwainEsper

Sempre achei injusto e pouco exacto a forma como muita gente ainda pensa que Ed Wood Jr. o pior realizador de sempre. Poderia agora aqui fazer uma análise comparativa para chegar à conclusão que cinematograficamente, um filme como Plan 9 poderá ser superior a Independence Day. E uma lista dos 'piores realizadores de sempre' de forma a provar as virtudes artísticas de Wood Jr seria também útil para essa análise.

Nunca fiz essa lista, mas decerto que se algum dia a fizesse, no topo dos 'infames' maus realizadores de cinema estaria o (também produtor) Dwain Esper, numa posição bem mais acima que Ed Wood Jr. Esper foi o realizador de alguns dos filmes mais bizarramente chocantes dos anos 30 americanos. Clássicos como (Sex) Maniac ou Sex Madness, ambos dos anos 30, geram ainda hoje espanto a novas audiências, que perguntam como é que numa era dominada pelas rigorosas regras impostas ao cinema pelo hays code, Esper conseguia mostrar nudez ou violência (por vezes sexual) de uma forma tão declarada e descarada.

Sendo um dos pioneiros do Exploitation, Espers cedo aprendeu o truques de como evitar a censura, assumindo-se como uma espécie de 'documentarista' dos 'vícios e doenças morais da sociedade', fazendo o pessoal das várias associações religiosas e cívicas apoiarem tal ajuda moral. De tal forma que os semi-documentários de Esper tanto serviam para serem mostrados aos miúdos das high schools americanas como nas salas de Cinema para Adultos, muitas vezes, pelo que parece, simultaneamente!

Esper possuia um estilo muito próprio, algo imitado sobretudo durante o boom dos chamados 'mondo films' em meados dos 60s, que misturava claras imagens chocantes e sensacionalistas (incluidas de uma forma quase subliminar) com cenas representadas por actores (muito) amadores, a fonte de um hilariante camp (que fez dos filmes de Esper obras de culto) e a forma exageradamente expressionista com que as cenas, por exemplo de loucura, são mostradas ao espectador, algo que se entende também devido à então proximidade do cinema mudo que marcou a forma teatral como os actores representavam.

A tudo isto Esper juntava o factor 'educativo' (Tell your children! seria uma das frases de advertência para os moralistas pais que viam o cinema 'educativo' de Esper), rematando o filme com entretítulos onde podiam ser lidas algumas citações de autores científicos, que justificavam mostrar o sexo e violência então proibidos a qualquer outro tipo de cinema a época.

Das obras de Esper, que ainda hoje são levadas a sério por muitos dos conservadores americanos (basta ver esta página), Reefer Madness será a 'obra-prima' do homem. Originalmente um verdadeiro filme eductivo, realizado por Louis Gasnier para uma qualquer organização religiosa americana (com o eloquente título de Tell Your Children!), Reefer Madness foi comprado por Esper, que o 'remisturou' com as suas já costumeiras imagens de sexo e violência e o redistribuiu para ambos os mercados de cinema educativo e para as joints de cinema adulto, mostrando a depravação que a nova droga das ruas, a"marihuana" trazia aos teenagers americanos.

É discutível o peso que Esper tem realmente neste filme (é apenas creditado como produtor, algo que parece ser justo), mas todos os ingredientes do cinema de Esper estão condensados nesta magnífica obra do camp, esquecido até aos anos 70, e depois redescoberta e usada pelos defensores da legalização do cannabis para provar a abordagem naïf dos defensores da proibição dessa droga e os desacreditar aos olhos dos milhares de consumidores nos campus universitários americanos durante a época de furor hippie.

Infelizmente algo esquecidas, estas três obras que fariam o cinema considerado mau tornarem-se obras de primor cinematográfico, têm actualmente o estatuto de Creative Commons, podendo ser vistas ou ser feito o seu download no magnífico Internet Archive (Sex Madness aqui, Reefer Madness aqui e Maniac aqui). A obra deste pioneiro do Exploitation decerto que merece uma visão/revisão, trazendo à luz uma das figuras mais interessantes do camp (involuntário) do cinema americano.

Quarta-feira, Agosto 02, 2006

Feio, Porco e Mau

torrente

José Luis Torrente é uma daquelas personagens que só poderia ser ibérica. Usa camisas com os botões desabotoados a mostrar o peito viril, bebe e come como um animal, tem a unha do mindinho bem crescida, usa uma daquelas pulseiras que magníficas que o António Sala vendia nos 80s (que parece que curava uma dose valente de doenças físicas e espirituais) e um corte de cabelo que permite tapar a careca. Claro que como um macho ibérico que se prese, Torrente é um machista, racista, fascista, amante do seu clube de futebol e costuma andar armado, já que pretende ser polícia, de forma a poder abusar dos desgraçados que precisa de explorar.

Faz uma vida relativamente fácil, sobretudo porque aproveita a deficiência do velhinho pai para receber uma pensão. E como se não bastasse ainda coloca o velhote à porta do metro de forma a poder receber o dinheiro das esmolas que os caridosos peões lhe dão. A virilidade de Torrente é discutível (percebem-se alguns recalcamentos sexuais algo contraditórios), mas para este especimen ibérico a pila é a rainha e senhora (uma senhora pequenina, mas pronto) da sua vida.... presumivelmente...