Quarta-feira, Maio 31, 2006

Big Guns parte 2

witchbladeX2

Volto ao 'big guns', seguindo o rasto de um outro post e reflectindo um pouco o post sobre a série/filme Nana.

Witchblade é um dos maiores fenómenos de 'transmissão de personalidade' dos fan boys, na esmagadora maioria homens, para uma heroína com armas letais e curvas de carne a desafiarem a gravidade. Tal como Lara (ver o post Big Guns 1), o culto da série de comics (e os seus inúmeros spin-offs) na série de TV (americana) é esmagador, tendo-se como certo que, depois das curvas peitorais de Lara, são estas as curvas mais conhecidas e reconhecidas no universo virtual das fantasias dos 'agarrados do simulado'.

Agora acabadinha de estrear, a já polémica série Anime, com uma heroína diferente mas com as mesmas 'características', gerou uma mini-polémica devido a esta produção da Gonzo para o mercado japonês (e mundial por 'acrescento'). Segundo parece os fans (sobretudo americanos) ficaram um bocado chateados com a 'japanização' da série, acusando-a de uma comercialização e adaptação para que a poderosa e impulsiva heroína seja conhecida para além do underground da cultura pop, passando para a esfera do conhecimento do público em geral.

Não entendo esta tomada de posição. Depois de inúmeros spin-offs, séries de TV e milhentos produtos de promoção, com o único propósito de divulgação comercial feroz, vêem-se agora invocar esta adaptação como 'não oficial' para o fandom da Witchblade, depois de centenas de séries e filmes japoneses terem sido 'adaptados' à mediocridade comercial americana. Claro que a personagem mudou drasticamente, e que os backgrounds (sobretudo respeitantes à carga violenta e sexual das graphic novels) foram amaciados, mas como série, Witchblade funciona perfeitamente bem, mesmo para aqueles que sabem que isto é apenas mais um produto comercial.

No reino da reciclagem rápida que é a cultura pop, parece-me que casos especiais como este, as questões têm que ser encaradas como são encaradas as curvas desta(s) personagem(s): More is Better!

Terça-feira, Maio 30, 2006

Simpatia pelo Diabo (2)

Lordi

E pronto... como muito bem assinalado pelo Nuno 'Piu piu' Barros, lá se fez mais uma vez o festival da canção, com as opiniões próprias sobre os vencedores por parte do veterano Eládio Clímaco (Hilário Climax para os amigos) a provar que o evento ainda tem pernas para andar e que, segundo diz que viu, foi um dos melhores de sempre.

Se não tenho memória de nenhuma edição deste fabuloso concurso é sobretudo porque aquele que gostava de ter visto (o de '65 quando ganhou a France Gall, um dos meus ídolos de estimação) 'deu' quando ainda não era nascido e os outros foram-me perfeitamente indiferentes. Mas desde já declaro que este pagava para ver, mesmo que exibido num qualquer daqueles canais podres que a TV Cabo tenta 'enfiar pela goela' a todos aqueles que sem grande escolha lá têm que gramar toda a trampa que esta empresa fez o favor de reunir nos seus magníficos serviços de TV por cabo.

Os Lordi lá ganharam, batendo todos os recordes de sempre do festival (melhor pontuação, melhor guarda roupa, melhor prestação ao vivo e maior despreso pelo apresentador português do 'certame' mais sonolento da tv portuguesa). Segundo ouvi dizer nem sequer os mais velhinhos espectadores adormeceram, excitados (ou ultrajados) com uma ode ao diabo cantado por uns gajos com um guarda roupa que faria inveja aos Gwar e que faz os Cradle of Filth parecer uma banda a sério.

Se já existiam indícios que os nossos visinhos nórdicos andavam a gastar mais dinheiro em guarda-roupas 'decentes' (basta lembrar os concorrentes suecos ano passado) estes Lordi (parece nome de cão) arrebentaram a escala, parecendo ter sido um dos momentos mais memoráveis da TV portuguesa desde que o Marco mandou um patarrão na Sónia durante o primeiro e inocente Big Brother português.

Desde já deixo aqui o voto de que outros veteranos programas de televisão criem estes nichos de satânicos, de forma a podermos ver programa com mais interesse. E que tal convidar os Moonspell para o próximo Natal dos Hospitais?

Segunda-feira, Maio 29, 2006

Um Pais à Beira Mar Distraído

distracções

Ando algo perplexo com alguns sinais aparentes de distracção que vou notando em Portugal, através das minhas audições curtas da TSF. Esta rádio, que de resto acho excelente (não estou a usar de ironia aqui), consegue em certos momentos pequenos mostrar o que de pior se faz no actual jornalismo português, muito devido a certas distracções dos seus jornalistas (como aquele que relatou 30 mortes não-sei-aonde, mas que logo a seguir acrescentou um "mas" que fazia entender que como nenhum era português, o acontecimento era normal e portanto trival, mesmo tratando-se de mortes de seres humanos).

Vou até mais longe, achando pessoalmente que esta rádio é algumas vezes um reflexo triste do que são os portugueses, um povo constantemente distraído e indiferente mesmo quando lhes retiram os direitos mais elementares de cidadania. Apenas em dois dias notei dois sinais na emissão da TSF que me revelam tal coisa.

O primeiro sinal foi claramente notado quando um feliz e sorridente jornalista, dizia aliviado que a Sport TV e a Associação dos Municípios teriam chegado a um acordo sobre a transmissão em sinal aberto nos jogos da selecção nacional portuguesa em eventos públicos (organizados por câmaras munícipais). Tal notícia, que mostra de uma forma tão interessante como a Sport TV é 'amiga dos portugueses', dando uma preciosa esmola a uma nação que precisa, esconde uma interrogação. Quererá isto dizer que os jogos da Selecção Portuguesa não serão exibidos na RTP, e portanto em sinal aberto para todos, como seria de esperar num pais civilizado?

Estou descansado em relação a isto, porque se assim fosse decerto que já teria recebido um daqueles e-mails com baixo-assinados a protestar o facto. É que a quantidade de e-mails que recebo com este tipo de acção cívica, e que normalmente servem para causas muito abstractas e que pouco me interessam, costuma ser frequente. Portanto decerto que este profundo desprezo de 10 milhões de portugueses que vêm como natural o facto de terem que pagar para ver uma acção desportiva de representação do seu pais não passará decerto de um delírio meu.

Estava já descansado em relação a este assunto, quando no ontem de manhã foi notíciado, de uma forma secretista e hermética, que as temperaturas em Portugal continental iriam subir um grau hoje (isto já depois do começo desta vaga de calor) e que esse calor que se sente por aí afinal não é uma vaga do dito, mas outra coisa qualquer que o jornalista não conseguiu explicar muito bem. A forma como foi dito tal facto fez-me lembrar aquelas transmissões em código que a BBC fazia através das transmissões de radio aos espiões aliados colocados em pontos estratégicos durante a Segunda Grande Guerra. Será que seria um código secreto referente ao tremor de terra sentido na Indonésia à 3 dias atrás, que faz as headlines em todos os jornais, rádios e televisões do mundo, tendo sido apenas ignorado de forma terrivelmente cega pela TSF?

Entendo que exista ainda um certo rancor pela Indonésia devido a Timor-Leste. Mas ignorar ou até mesmo obliterar uma notícia, tal como se fazia 'noutros tempos' às notícias de temperaturas baixas extremas em Moscovo, de forma á população portuguesa não sentir pena dos perigosos comunistas residentes nessa cidade, parece-me ser algo triste, sobretudo quando agora o nível de notícias 'de palha' nesta estação de rádio parece ter aumentado, fruto do Europeu de sub 21 e do tão esperado mundial.

Claro que já resolvi estas questões, ignorando-as de uma forma alegre. As informações sobre o tremor de terra vou acompanhando através de outros meios de comunicação não-portugueses. Os jogos da selecção nacional portuguesa irei assistir, caso se repita a acção da BBC durante o Europeu em Portugal que teve por lei os direitos de transmissão de todos os jogos desse evento (mesmo aqueles sem a selecção inglesa), de graça, apoiando a 'equipa de todos nós' na já citada televisão estrangeira.

Como diria o 'outro', acontece!

Sexta-feira, Maio 26, 2006

A Ciência de Zumbi

Da Lama ao Caos - CSNZ

Um pouco por culpa dos recentes motins em São Paulo resolvi um destes dias 'desenterrar' a minha cópia de "Da Lama ao Caos"do Chico Science e a Nação Zumbi, de forma a reflectir um pouco sobre o estado da 'coisa'. Não cheguei a conclusões mais profundas do que as que já tinha presentes na cabeça, mas ouvir este album passado tantos anos fez-me delirar novamente com o génio dos 9 pés descalços que um dia assinaram o manifesto artístico "Caranguejos com Cérebro", originando uma das coisas mais originais a sair da América Latina nos anos 90, o Mangue Beat.

Pessoalmente considero "Da Lama ao Caos" uma das melhores primeiras obras de sempre e um dos mais brilhantes albuns a sair do Brasil (de facto da America Latina), um raro tesouro no meio das exportações musicais brasileiras que costumam chegar à Europa, na maior parte muito fracas e de um pendor comercial que ainda tenta mastigar o passado.

A fusão furiosa de Hip Hop, Funk, os ritmos do maracatu e guitarras perigosamente punk/metalicas, que consegue ultrapassar a mesma fusão expressa em "The Uplift Mofo Party Plan" dos actualmente boçais Red Hot Chili Peppers, atira para a velocidade de dois por segundo os arrepios na espinha quando se ouve algo assim.

Desde o segundo inicial, quando são louvados os revolucionários que a Nação Zumbi representa na sua 'bandeira' (entre outros Zapata, os Black Panthers, Lampião e claro Zumbi) até ao segundo final, este album é imaculadamente perfeito na sua crúa forma de celebrar a vida, o amor e expressar a revolta pelas já sabidas injustiças sociais.

Mesmo dizendo isto não existe aqui um único cliché de estilo, tudo é reciclado para criar de novo. Chico Science, um dos mais brilhantes animais de palco do rock dos 90s (há quem diga que a sua presença em palco era tão extraordinária como a de Jimi Hendrix!), usa devoção, amor, alegria, fúria e por vezes sarcasmo e ironia para conseguir de forma crua e mitas vezes de forma asperamente pouco melódica, fazer passar a mensagem de um Mundo Livre num dos mais espantosos albuns de sempre.

Não existe aqui 'aquele' Brasil turístico, idealizado pelo gringo que ouve muzak com tons de Bossa Nova enquanto bebe o seu cocktail pela palhinha. Chico Science apenas nos dá uma realidade altamente visual (e com uns lyrics geniais) do quotidiano de Pernambuco, por entre 'Rios, Pontes e Overdrives e impressionantes esculturas em lama' dos mangues da região, onde os caranguejos são seres místicos e as pessoas nascem, vivem e morrem sempre a pensar como escapar à fome e injustiça.

Este magnífico registo 'primário', onde cada frase é um statement e cada pedaço de som é uma forma nova de representar vida, foi o início de uma brilhante mas muito curta carreira (devido à injusta morte de Science em 1997 com apenas 30 anos), que deu ao mundo (finalmente) a verdadeira face de um 'Brasil real', sem corantes nem conservantes, recorrendo a uma verdadeira multitude sonora e verbal para alcançar uma definição do que é um Mundo Livre e original.

Altamente recomendado aqueles que ainda procuram pérolas de genialidade e originalidade no meio da cada vez mais confusa música actual.

Quinta-feira, Maio 25, 2006

2 Nanas Para 1 Só História

nanamovie

Ai Yazawa é um daqueles favs das pitas japonesas que parece estar constantemente na berra desde que Paradise Kiss se tornou uma das referências máximas das novas vertentes dos comics e animação japonesa, de há dois anos para cá. Se o meloso (e bastante interessante diga-se) ParaKiss ainda anda a rodar por aí em todos os fansubs como um dos exemplos máximos de que os tempos das animações comerciais a que os ocidentais normalmente associam ao Anime (aquelas com colegiais de mini-saias provocantes ou de heróis artilhados com as mais disparatadas armas techy a combaterem uns mostros mais absurdos da galáxia, ou algo ainda pior), são épocas passadas, nota-se também que a obra de Yazawa está a ser reciclada para produtos vendidos como novos, como os recentemente estreados Nana (o filme) e Nana (a série de Anime).

Há uns meses atrás tive o privilégio de ver (pela primeira vez) Nana, uma longa-metragem de Kentaro Otani que tenta re-contar a história da graphic novel, contando a história de duas Nanas, uma punk-rocker e uma 'betinha', que se encontram por acaso num comboio a caminho de Tóquio e que ficam amigas devido às imensas voltas do destino que se molda na capital nipónica.

A obra original (o manga), pelo que percebi, fica marcada pelo uso do costumeiro lencinho cor-de-rosa para limpar a ranhoca e a lágrima fácil originada pelas desventuras amorosas das duas personagens, algo comum ao género, mas esta versão cinematográfica, sendo um produto interessante visualmente, onde por vezes se vê alguns pózinhos de génio comercial e um padrão imagético muito elevado para tão linear conteúdo, consegue ultrapassar todo este 'sindroma', para se apresentar um produto independente do universo deste criador.

Podendo-se (de certa forma) engaveta-lo pertinho do outro êxito de bilheteira a oriente que foi Suicide Girls, Nana (o filme) consegue ser relativamente interessante sobretudo na forma como são mostradas as duas Nanas que dão nome ao filme/manga/série de anime, conseguindo ultrapassar o rótulo de 'obra para raparigas adolescentes' que a obra original vinca de uma forma absoluta.

O mesmo já não se pode dizer da melosa e chata série de animação com o mesmo nome, que comecei a ver apenas à 3 semanas atrás. Aqui a história é quase a mesma, embora os flashbacks sejam mais exactos, mas tudo transpira drama barato adolescente, onde até as cenas aparentemente 'enfiadas' para dar mais profundidade às personagens conseguem ser hilariantemente disparatadas.

Este Nana vs. Nana é de facto um dos fenômenos mais interessantes dos media nipónicos actualmente. Ambos o filme e a série estão a ser um esmagador sucesso (o filme conseguiu bater os recordes de bilheteira do campeão Pokemon), e definem muita das fashions trends que se observam nas ruas das grandes cidades japonesas. Mas o exercício de ver ambas (em qualquer ordem cronológica) torna-se ainda mais fascinante, conseguindo-se entender com uma claridade quase divina, como é que se trabalha o público de forma a gerar um sucesso de vendas.

Este exercício (o visionamente de ambas a séire e o filme) é recomendado a profissionais dos media e aqueles que trabalhem em reciclagem de conteúdos, um bicho profissional infelizmente cada vez mais frequente, como neste exemplo no Meu Piu Piu, e que veio para ficar.

Entretanto para os menos curiosos, fica a qui o resultado do duelo: Nana (filme) 1, Nana (série) 0.

Segunda-feira, Maio 22, 2006

Multitude Versus o Império

negri

À menos de duas semanas quando o moralmente rigoroso Giorgio Napolitano foi nomeado para presidente da República pelo parlamento italiano, o mundo notíciava o facto de Napolitano ter sido um predominante comunista quase toda a sua vida, e que isso poderia até marcar as relações da Itália com países como os EUA. Claro está que tudo isto não passou de um certo exagero da imprensa, e entretanto o caso lá 'morreu' (aparentemente) e todas as 'nações capitalistas' já dormem descansadas sonhando em outras coisas mais prosaicas.

Durante os anos 70 e 80 chamar 'Comunista' a alguém nas ruas de qualquer cidade italiana (e de certa forma em qualquer ponto da 'Latina Europa'') era uma ofensa brutal. Um dos culpados disso foi António Negri. Negri é sobretudo conhecido por duas coisas completamente díspares e que marcam o seu percurso pessoal e 'histórico':
Uma será a co-autoria com Michael Hardt do 'manifesto' Empire, uma apurada e certeira revisão, sendo considerado actualmente um dos textos marxistas mais importantes para o Século XIX. A outra coisa porque Negri é conhecido é a de ser considerado um dos 'mentores morais' dos anarquícos 10 anos de confronto e contestação ao patronato e sistema político italiano então vigente, por parte de inúmeros grupos de extrema esquerda, que depressa se tornaram violentos, devido sobretudo à violencia da polícia e de grupos de extrema-direita organizados para descredibilizar as constantes greves.

Negri foi acusado de pertencer às tristemente célebres 'Brigadas Vermelhas', que levaram essa luta a consequências violentas, terminando no rapto e assassinato de Aldo Moro do partido democrata-cristão italiano em 1978 e num julgamento onde Negri, crucificado pela imprensa, ficou marcado como um 'imoral' devido a usar a sua visão política na sua vida académica, considerando-se que teria 'lavado o cérebro' a centenas de alunos de famílias burguesas, que aderiram aos vários movimentos de esquerda da altura.

São sobretudo estes dois momentos que Antonio Negri - a revolt that never ends mostra com particular empenho. Alexandra Weltz and Andreas Pichler juntaram imagens de arquivo com uma recente entrevista de Negri para tentar explicar o percurso fascínante de um teórico que decidiu agir e que muitas vezes, e acredito que até injustamente, pagou caro com prisão desprezo e exílio anos de luta sem tréguas contra o 'Império' capitalista nas mais suas variadas (e subtís) formas, propondo às diversas gerações a quem ensinou (Em Itália nos 50/60 e 70, em França durante o exílio nos 80s e na última década no resto do mundo) aderírem à multitude, unindo todas as diferenças de variados movimentos num uniforme protesto de forma a tentar conseguir alcançar algo de positivo num mundo cada vez mais em estilhaços.

'Antonio Negri - a revolt that never ends' é um documentário com licença de Creative Commons e pode ser feito o seu download em qualquer obscuro site com ligações à anti-globalização (como este). Aconselhado a todos aqueles com qualquer inclinação política e aqueles sem nenhuma, mas com perpectivas de aprender a perceber um possível futuro no planeta.

Description: The two directors of the film, Alexandra Weltz and Andreas Pichler, explore the background of Antonio Negri. They research for biographical, theoretical and historical points of decision makings and portray an unusual life between philosophy and revolt. In meetings with Negri and its political fellows and friends the film shows continuities and breaks from the 60's to today.

Sábado, Maio 20, 2006

Underground Going Overground


Não será novidade para aqueles mais atentos que actualmente os brinquedos para 'crianças crescidas' como o tipo que edita este blog conquistaram o mundo e que desde o início da década presente estamos cada vez mais a viver uma era de consumo entusiasta deste tipo de objectos perfeitamente superfulos.

Este campo de actividade, antigamente chamado de hobby de forma a não assustar os colegas de trabalho e amigos, já não é apenas uma forma de coleccionismo mas uma 'aglutinação' de arte gráfica que evoluiu de práticas como a ilustração (incluindo a graffiti), o character design ou o design gráfico, estando praticamente presente em todo o lado na actual sociedade ocidental, depois de uma 'gestação' sólida no extremo oriente.

Como coleccionador (e designer amador de fim de semana de algumas figures) recomendo para os que ainda não se aventuraram a desgraçar a vida (e sobretudo o orçamento familiar) com hobbies destes que dêem uma vista de olhos pelo Toys : MTV Overground #3, de edição recente, que acabei de adquirir a algumas horas atrás de forma a me vingar da frustração de não encontrar nada mais útil que fazer com o meu dinheiro durante os saldos frénicos de Notts.

Editado pelos fanáticos da STRANGEco (a quem também pertence a tentadora Kid Robot), este (algo) pequeno compêndio de brinquedos reúne praticamente todos as mais brilhante cabeças pensantes do que já é considerado um movimento (ou vários sub-movimentos) global que une criadores e consumidores no amor pelas action figures ou outro nome-qualquer-que-se-queira-dar.

Entre os campeões de popularidades dos EUA, Hong Kong ou Japão, Jim Crawford e Gregory Blum encontraram ainda espaço para dar relevo a outros menos conhecidos designers (como Sam Flores dos EUA ou o estúdio Doma da Argentina), numa parafrenária estilistica que está já a conquistar uma volumosa fatia do mercado de entretenimento mundial.

Tele Visões

bedazzledpodcast

O Bedazzled, o blog 'audiovisual retro' mais interessante do planeta, começou a realizar uns brilhantes podcasts de video com algumas das bizarrias retro que povoam as suas páginas.

Estão já disponíveis aqui e aqui as emissões 1 e 2 (respectivamente) com cerca de 15 minutos cada onde estão compilados scopitones, anúncios, videoclips musicais e outros momentos televisivos onde reina o kitsch retro de forma hilariante. A não perder!

Memorias do Camp#2: The Honeycombs

TheHoneycombs

Os Honeycombs foram um dos meteoritos do som beat inglês dos 60s (a chamada British Invasion) que com o tempo, e injustamente, ganhou um rótulo de ser uma banda camp, sobretudo pelas letras ridiculamente melosas (e por vezes melodramaticas) cantadas pelo frontman Dennis D'Ell, num estilo marcadamente piroso e facialmente expressivo e hilariante. E claro que aqueles salpicos de 'orgão mágico' pré-psicadélicos (claramente um input de Joe Meek) também ajudam à festa, tornando o som dos Honeycombs, agora passados mais de 40 anos um daqueles produtos algo difícil de classificar dentro do então panorama musical britânico.

Mas diga-se em defesa dos 'combs que, para além do principal gimmick da banda, a fabulosa baterista Honey Lantree (muito melhor tecnicamente que a maior parte dos seus colegas masculinos na altura, começando logo pelo inapto Ringo Starr), a banda tinha realmente um som contagiante, com um beat magnífico (Honey outra vez) um par de guitarras que anunciavam já uma estridência de final da década e sobretudo uma originalidade sonora (Meek outra vez) que os distanciava claramente de outras bandas enfiadas no pacote da British Invasion. E já agora quem nunca bateu o pé ao som de "Have I The Right?" (um dos melhores number 1 do top britânico nos 60s), não pode ser um ser humano normal.

Com uma vida (demasiado) curta e algum azar e erros de promoção à mistura (uma 'eterna' digressão australiana algo inútil que os afastou dos olhares dos fans que lhes deram vários nºs 1 nos tops europeus), os Honeycombs desapareceram da ribalta poucos anos (3 ou 4) depois de lá terem subido.

Algumas das ondas revivalistas dos últimos anos ajudaram ao reconhecimento da banda para lá do declarado 'piroso' pelo mainstream e mesmo por fans de outras bandas da altura, mas claramente ainda está para entender qual a real influência que os 'combs tiveram na música popular, sobretudo no indie pop, para além desta rotulagem mais depreciativa. Os mais curiosos (e sortudos também) podem tentar perceber isso, se conseguirem 'meter os ouvidos' no mítico (e raro) 1º album (intitulado simplesmente "The Honeycombs") e ouvirem atentamente a um dos albuns de Primavera/Verão mais brilhantes e luminosos dos 60s britânicos.

Sexta-feira, Maio 19, 2006

Memorias do Camp#1: Joi Lansing

JoiLansing


Normalmente quando se fala em camp na indústria cinematográfica americana de meados do século XX, dois nomes contantemente vêem à baila como sendo as incarnações puras deste 'estado de espírito artístico', um é Mamie Van Doren e o outro Jayne Mansfield. De facto existem incontáveis blonde bombshells na Hollywood desta altura, mas normalmente, e se tirarmos da lista Miss Monroe, que ultrapassou este estatuto, conseguindo ganhar algum respeito artístico, o público (sobretudo masculino) apenas terá estes dois nomes presentes naquela parte do cérebro guardada apenas para as 'rainhas louras (facção retro) no cinema'.

Isto é uma pena, porque realmente a rainha do camp americano no cinema é de facto a eterna esquecida Joi Lansing, que teve uma carreira menos preenchida que as outras louras acima citadas, restando apenas no palmarés de obras relevantes a série The Beverly Hillbillies, mas que ultrapassava qualquer limite de magnetismo kitsch no grande ecrã (ja para não falar nas medidas tão grandes ou maiores que as restantes louras citadas).

A relevância de Lansing parece ser o facto de que estilisticamente este é o 'elo perdido' entre as pin-ups louras dos 50s e 60s e as 'rainhas do camp' dos 80s e 90s, Anna Nicole Smith e Victoria Silvstedt respectivamente, sendo a sua presença no ecrã extremamente 'contemporânea' na forma de 'preencher espaço' como um 'objecto' ornamental, antecipando alguns clichés apenas usados a partir dos anos 80, muito diferentes da abordagem cheeky constante até aos anos 60, uma herança do chamado 'cheesecake' dos 50s, que Miss Van Doren e Miss Mansfield faziam de uma forma magistral.

Joi (belo nome artístico) parece ser uma daquelas criações satânicas apenas feitas para fazer cair em tentação, que tem hoje em dia algum culto 'relevante' no meio dos connosseurs de pin-ups americanas, sobretudo devido a alguns dos scopitones que fez, que são considerados obras primas do camp norte-americano. De facto foi neste formato que Lansing conseguiu o seu maior hit, The Web of Love, um videoclip tórrido e simultaneamente hilariante, que pode ser visto aqui, cortesia do scopitones.blogs.com. Recomendado.

Pose vs. Substância

declinewesternciv

Um dos filmes que mais vezes vi durante a adolescência foi Suburbia de Penelope Spheeris. Ficou-me dessa altura a ideia que alguém que se tenha dado ao trabalho de fazer um filme assim, sem grandes pretenções mas conseguindo extrair alguma substância (nem sempre uma constante dos filmes de Teenagers) só poderia ser um insider, alguma punk ou ex-punk que entretanto começou a realizar filmes sobre adolescentes de uma forma realmente muito diferente da que estava habituado a ver.

Spheeris filma este conto urbano vulgar e singelo de uma forma extraordinária, relatando algo tão pouco vísivel (e muito pouco trendy na altura, diga-se) e com uma linguagem realmente juvenil (Spheeris tenha na altura 39 anos) um formato que na época a indústria cinematográfica mainstream tentou fazer mas que quase sempre resultou em resultados risíveis.

Desconheço se Spheeris seria uma punk ou qualquer membro de outra tribo urbana, mas nota-se claramente o fascínio da realizadora pela 'música de transgressão' (desculpem o termo algo pomposo), continuando a realizadora a relatar os seus contos urbanos, peculiares e muitas vezes cinzentos, ao longo da carreira, sobretudo na série de documentários The Decline Of Western Civilization.

A parte 2 desta série, The Metal Years (1988), é um daqueles documentos de uma época que apenas a insider Spheeris conseguiria obter. Através de várias entrevistas a bandas de Heavy Metal (facção glam e poser, com muita laca na tola e pouco cérebro dentro dessa), sobretudo de LA, a realizadora consegue dar um retrato hilariante do chamado glam-rock/metal dos 80s (não confundir com o britânico dos 70s), onde a pose, o alcoolismo, o machismo e sobretudo a ilusão de algum dia conseguir ascender ao estrelato do Rock and Roll fazem o dia-a-dia de uma multidão de músicos wannabe e alguns que já conseguiram lá chegar, capazes de conseguir transformar os Spinal Tap numa banda séria e coerente, tal é a proporção dos disparates ditos da boca para fora durante as entrevistas.

Mas muito ao contrário da parte 1 da série (um soberbo documentário sobre a scene punk rock americana na califórnia donde nasceu o já citado Suburbia), aqui Spheeris consegue apenas mostrar o rídiculo deste segmento do hard rock/heavy metal que contou com alguma popularidade mesmo junto do público mainstream (lembram-se dos Guns and Roses ou dos Mötley Crüe ...) de uma forma confusa e sem grande estrutura.

Vai entrevistando falhados sem rumo e de muito pouco talento que parecem ter a ilusão de que se usarem sempre todos os mesmos clichés conseguirão algum dia assinar um contrato discográfico ou vender mais discos, contraponto estes com depoimentos de alguns veteranos (Ozzy Osborne, Alice Cooper, Aerosmith...), que se muitas vezes também não parecem fazer sentido, pelo menos conseguem transparecer uma perpectiva de vida um pouco mais interessante.

A partir do meio do documentário entende-se que The Decline Of WC Part II está condenado à confusão, associando headbangers e satanismo ao 'poser rock', mostrado stage divings filmados durante concertos de bandas Thrash californianas (algo que é encaixado entre as entrevistas com uns mentecaptos com lipstick e hairdos, que não têm nada a ver com a scene Thrash) e tentando englobar depoimentos de diferentes fans na adoração ao Heavy Metal, quando de facto muitos deles estão a falar de coisas completamente opostas.

O momento relativamente limpo de ambiguidades e de delírios de atrasados mentais parecem ser os 10 minutos finais, o momento em que os Megadeth tentam marcar a barreira entre a babilónia do poser rock e a continuação do verdadeiro espírito punk americano (descrito na parte 1 desta série de documentários) que foi o thrash metal californiano, sendo de facto um momento neutro e sério, depois de uma hora e tal de hilariantes risos.

The Decline Of Western Civilization Part II - The Metal Years é altamente recomendado apenas a fans da scene ou aqueles que têm um especial carinho pelo mockumentary This is Spinal Tap , e que não acreditam que a realidade muitas vezes ultrapassa a ficção no que esta tem mais de rídiculo e exagerado.

Quarta-feira, Maio 17, 2006

A Verdade na Mentira

alternative3

Durante o ano de 1977 a TV regional East Anglia (de Norwich) apresentou uma série de populares documentários científicos englobados sob o nome de Science Report. O último programa desta série, no início pensado para ser um documentário sobre o "Brain Drain" que o Reino Unido estava a sofrer devido a uma suposta massiva 'fuga de cérebros' para as duas superpotências da época, acabou por se transformar num dos mais hilariantes momentos da televisão europeia.

Segundo o que é mostrado em Alternative 3, o nome deste último documentário da série, uma secreta colaboração entre os EUA e a URSS, devido a uma esperada catástrofe ambiental que poderia destruir o planeta em 10 anos, deu origem ao rapto metódico das mais reputadas individualidades mundiais no maior número de campos de conhecimento humano possível de forma a povoar uma suposta colónia em Marte com estes super-cérebros. Através dos depoimentos de diversos 'insiders' e até de um astronauta americano que viu uma base americano-sovietica na Lua, os habituais apresentadores da série conseguiram provocar o pânico quando o público que, completamente espantado com tais revelações, cheirou logo uma conspiração governamental (haverá algo mais juicy que isso na actual política mundial?) e que contemplava apenas a salvação de uns 'Eleitos'.

Claro que tudo isto não passou de uma partida de 1º de Abril. O facto da produção ter demorado mais do que esperado (o que atirou a exibição do documentário para Junho), tirou algum do impacto à coisa, mas a mentira ficou de tal forma latente numa sociedade (na altura) paranóica que ainda hoje existe quem acredite em alguns dos factos desta aparentemente inocente partida.

Tudo em Alternative 3 transpira mentira de uma forma hilariante, com os actores a não conseguirem agir com aquela naturalidade não-encenada que hoje é uma constante na televisão, evidenciando-se no grupo Richard Marner (internacionalmente conhecido como o Coronel Kurt von Strohm de "'Allo 'Allo!" ou do The Boys from Brazil) como sendo o mais psicótico dos cientistas que teve acesso a 'factos' que poderão mudar o curso da vida do Homem na Terra. O estilo sci-fi (actual na altura, deliciosamente retro actualmente) e a banda sonora 'espacial' de Brian Eno (que parece-me está em parte editada no Music for Films) completam um banquete televisivo algo ultrapassado, mas de interesse fundamental para saudosistas gráficos e fans de histórias de conspiração.

Mas o mais interessante de tudo, a cereja no topo deste magnífico bolo televisivo é de facto entender-se que após umas valentes gargalhadas ficamos com uma 'estranha sensação de pânico', ao entender que muitas das anomalias climáticas descritas em Alternative3, como podendo originar o tal 'fim do planeta', são uma brincadeira de crianças perto das que estão de facto actualmente a bater-nos à porta.

Para os mais corajosos aqui fica um link (algo manhoso) onde (penso eu) pode ser possível ver Alternative 3 com alguma qualidade. Divirtam-se!

Segunda-feira, Maio 15, 2006

Agit Pop

ronenglish

Existem inúmeros 'artistas' ditos subversivos que apenas usam de forma exclusiva as artes gráficas para chatear alguma multinacional ou governo, 'espetando' as suas obras nos outdoors sempre ocupados com a poluição sonora com que as companhias nos flagelam. Não tenho, claro, qualquer coisa contra isso (falo dos 'subversivos' está claro) e parece-me até que alguns deles lideram desde os anos 90 as 'vanguardas de rua' que foram plágiadas desde então pelas grandes multinacionais, de forma a atrairem mais clientes, algo que me alegra bastante.

Mas existe um caso neste grande saco de indivíduos e pequenos colectivos (quase irmandades por vezes) que se salienta devido ao seu desprendimento e carácter obsessivo como lida com este tipo. O nome de Ron English não dizia muito ao 'público generalista' (acho este termo deliciosamente subversivo) até Supersize Me de Morgan Spurlock, se ter estreado 'algures num cinema perto de si' por volta de 2004. Os mais atentos decerto que se lembram do Ron MacDonalds obeso e de ar (ainda mais) doentio e satanicamente soberbo que fazia as alegrias do pessoal anti globalização, ao dar a perspectiva real do que a multinacional faz aos seus clientes.

English durante 20 e tal anos andou a alegrar (e por vezes chatear) multidões de transeuntes em várias cidades americanas não por ideais de anti-consumismo ou anti-capitalista o seja lá o que for, mas porque se chateava com forma como o marketing lhe tenta (nos tenta) impingir coisas. Daí até começar a fazer isso de uma forma obsessiva foi um passo curto, mantendo este hobby durante 20 anos e que quase lhe custou o casamento e tudo o que rodeava a sua vida 'normal'.

É esse percurso que POPaganda: The Art & Crimes of Ron English, estreado no mês passado, tenta contar aos espectadores mais distraídos, de uma forma divertida e despretenciosa. Claramente, o filme de Pedro Carvajal (segundo parece, um dos assistentes de Ron nos seus inúmeros crimes) tenta evitar o fácil rótulo de 'documentário subversivo', para dar um retrato amigável e activo de um tipo que um dia se chateou com uma campanha da Camel e que sem dar por isso se tornou obsessivamente um dos portas-estandartes do culture jamming. Claro que estão lá as parcerias desenvolvidas com o colectivo ArtFux, conhecidos por uma agenda política subversiva ou com Shepard 'Obey' Fairey, uma das faces da geração No Logo, mas este documentário 'lima as arestas' destes ideário para apresentar um tipo sem pretenções (será?) artísticas e que se 'curou' e que faz actualmente (e de forma merecida) o seu ganha-pão a pintar algumas das mais engraçadas e plásticas telas pop actuais.

Já agora fica a dica para quem quiser comprar o documentário ou uma figure do Ron MacDonald gordo, basta fazer uma visita ao site de Ron English e tentar ainda adquirir uma das poucas cópias disponíveis. Eu cá vou tentar.

Terça-feira, Maio 09, 2006

Nottingham02: Th' Legendary Shack*Shakers

LSS
imagem cortesia de troutsoup.com

Consegui convencer uns amigos a assistir, a uma segunda à noite e a um preço escandaloso (£10, um preço excessivamente caro, mesmo para uma banda não-britânica), ao concerto dos Legendary Shack Shackers. Tinha já louvado por aqui as virtudes da banda em disco e agora não poderia deixar de perder a oportunidade de ver finalmente a banda de quem toda a gente fala nos states, como sendo um dos acts mais frenéticos da actualidade, aproveitando também para converter mais uns cépticos em relação aos LSS.

Claro está que nem tudo são rosas e muita coisa cheirava já a algo já fora do prazo: uma organização feita ás cegas, sem qualquer promoção, uma banda (rockabilly) suporte local com ar de ter sido 'pescada' em qualquer baile da terrinha (e que tocou apenas covers!), um som merdoso como um pântano e uma sala pequena que nem sequer estava metade cheia de público. Depois de uma semana numa expectativa cega de ver o 'um dos melhores concerto de sempre' o cenário que via através de uma pint de lager murcha servida em copo de plástico não podia ser mais deprimente.

Mas de repente com a entrada (finalmente) em palco dos LSS tudo mudou. O facto de a sala estar vazia e de o som estar podre não demoveu a banda, especialmente o insano frontman, de darem um baile à concorrência que tocava na porta ao lado (os previsíveis Me First and the Gimme Gimmes) ao agirem como possessos. J.D. Wilkes é de facto, como proclamou a uns tempos Jello Biafra, the last great Rock and Roll frontman, e provou que desde que o 'Jello Marmelo' se reformou dos Dead Kennedys que nunca existiu ninguém a fazer actos de pantomima de uma forma tão bestial, com a diferença que nada nos Shack Shackers é encenado, conseguindo a banda comunicar com o público de uma forma quase mágica.

Wilkes não se poupa a impressionar e chamar atenção, tocando a harmónica como um louco e tão naturalmente como fala, a empoleirar-se no equipamento de som, a arrancar pintelhos aos mãos cheias (!) enquanto representa os mais caricatos personagens no Deep South e sobretudo, tentando manter o eye contact de uma forma bastante divertida com os mais corajosos que conseguiram estar perto da boca de cena, tentando gerar uma cúmplicidade e aproximação ao público.

Após cerca de uma hora e meia de selvajaria hillbilly punk, sem nunca ceder a clichés e revelando que toda a magia crúa do Rock 'n' Roll não está morta, ainda existiu a ocasião para uma conversa animada com J.D. Wilkes, enquanto acabavamos a última bebida antes do regresso (penoso) a casa, onde o homem lá nos foi revelando como era viver realmente do sul, no seio de uma comunidade cristã onde ver a MTV era taboo e onde o rei ainda é Jerry Lee Lewis.

Engraçado que Wilkes, que nos revelou que os LSS foram muito bem recebidos no resto da Europa (muitos concertos em Itália e Espanha estavam esgotados, para espanto da banda), rematou a conversa com o desencanto que foi se terem apercebido que afinal no RU, onde 'teoricamente' se fala a mesma língua da banda, o público recebeu-os com o mesmo desprezo que costumam sentir quando tocam na face atlântica do país natal, onde será mais fácil aplaudir uma banda boçal a reconhecer algum valor a uma das bandas americanas mais brilhantes dos últimos 10 anos.

Mesmo dizendo isto, e somando todos os factores negativos listados acima, este foi um dos concertos mais inesquecíveis que posso por os olhos e os ouvidos em cima, realizado por uma banda que mostra de uma forma expontânea e com uma humildade desarmante o que é pura e primal comunicação humana na música pop... e que me conseguiu rebentar os tímpanos.
Viva o Rock and Roll!

Domingo, Maio 07, 2006

O Diabo e o Mr. Johnston

daniel johnston


Agora que o muito aguardado The Devil and Daniel Johnston finalmente vai estreando um pouco por todo o mundo, o 'personagem principal' deste documentário ganha subitamente um papel central em toda a música independente americana e o (merecido) reconhecimento de ser um dos mais viscerais e 'verdadeiros' song-writers americanos.

Se aqueles mais atentos à obra de Beck, dos Violent Femmes, dos Sonic Youth ou dos Butthole Surfers já decerto 'tropeçaram' no nome de Daniel Johnston algumas vezes, é agora com o documentário de Jeff Feuerzeig que o nome saí do anonimato para o 'público generalista' na Europa, isto após algumas 'tentativas' por parte de Kurt Cobain, que o costumava elogiar o song-writer e artista plástico com o título de 'maior song-writer americano vivo' em entrevistas sem conta.

A imensidão de personalidade deste bipolar (o actual termo para o 'desactualizado' maniaco-depressivo), obcecado com a influência que o Diabo possa ter nos seus actos mais prosaicos ou nos seus pensamentos mais banais, decerto que não caberá num documentário, nem claro será fácil mostrar como e porquê Johnston 'despeja' de uma forma impressionante a alma nas suas canções compostas durante 30 anos na cave da casa onde mora.

Decerto que também o documentário de Feuerzeig não consegue evitar tropeçar 'naqueles' episódios da vida do song-writer que lhe deram alguma notariedade, como aquele ocorrido quando ao viajar numa pequena avioneta com o pai, e já a uma considerável altitude, tirou a chave da ignição e mandou-a janela fora, ou mesmo da célebre reunião de 11 horas com os directores artísticos da Elektra/WEA, que tentaram assinar um favorável contrato discográfico com o artísta, e que foi arruinado quando este percebeu que esta editora tinha no seu catálogo os Metallica, banda que Johnston considera representar o príncipe das trevas na Terra.

Mas mesmo dizendo isto, espera-se aqui pelo RU que a estreia deste comovente documentário (que aconteceu na sexta-feira passada, se não me engano) não para ver estes extremos, de resto pessoais e sem grande reflexo na música do autor, mas para resolver quaisquer dúvidas que possam ainda existir no mainstream em relação à legitimidade da obra (e aqui não só musical mas também como artísta plástico) de Johnston e à sua importância para uma valente fatia da actual música independente (não só americana).

Se este Rei do lo-fi é já um nome que 'rola' facilmente nos media especializados (e não só), resta agora que na Europa Johnston tenha finalmente o reconhecimento merecido, que decerto se concretizar-se-á (a uma pequena escala é certo) através deste The Devil and Daniel Johnston e de um anunciado 'best of' que poderá finalmente proclamar o ano de 2006 como o 'Ano Daniel Johnston' na música pop independente.

Sábado, Maio 06, 2006

...Then and Now

vertigoThenandNow

Não é grande mistério que um dos filmes que mais vezes revejo com teimoso prazer é Vertigo. Sempre foi o meu filme favorito do Hitch para ver incessantemente, combinando todos os factores que procuro sempre em quase todo o Cinema 'clássico' (aqui cuidado com a interpretação da palavra): o cenário apropriado para a narrativa apresentada, combinada com um estilo implacável e um cast exemplar na forma como veste as personagens e claro, uma banda sonora que transmita de forma espantosa as pulsões do filme, deitando para o lixo qualquer racionalidade.

E gosto sobretudo a forma como Hitch nos faz sentir a todos um 'Scottie' (e existe sempre um 'Scottie' dentro de qualquer homem) desamparado na "cidade-gémea" (desculpem algum exagero aqui) de Lisboa, a bela e europeia San Francisco, o palco perfeito para mostrar as metamorfoses de um homem que faz o papel de caçador e acaba por ser caçado (não seria sempre esse o papel desde o início do filme?). Se esta atracção filmica que tenho por San Francisco (algo platónica é certo) ajuda a gostar deste filme de uma forma tão total (algo que sinto também por outros filmes como DOA, só para citar um exemplo, outro dos favoritos de sempre muito devido ao seu cenário).

Tal como o filme, ouço com alguma regularidade a edição em CD de 1996 da banda sonora e costumo rever, e aqui entro finalmente no assunto deste post, a magnífica recolha feita pelo nativo da cidade que se dá a conhecer pelo nome de Basic Hip, e que mantém uma magnífica (e infelizmente algo pequena) galeria comparativa de stills do filme de 1958 com fotos tiradas exactamente nos mesmos locais em 2003, usando os mesmos ângulos que Hitchcock usou no filme.

Desde já recomendada, a galeria Vertigo Then and Now, faz-me abençoar as actividades independentes de 'espíritos' que apenas mantêm páginas destas por teimosia e prazer, as mesmas qualidades que me levam a ver este filme vezes sem conta. Desde já fica aqui a sugestão aos fans do filme para fazerem visitas regulares a esta pequena/grande página como forma de agradecerem o esforço.

Segunda-feira, Maio 01, 2006

Amor e Dignidade

failan

Agora que muito do cinema asiático se apressa a ganhar terreno comercialmente a ocidente, mesmo caindo nas tentações menos recomendáveis do mainstream (casos concretos de muita da cinematografia exportada da China e Japão), o cinema da Coreia do Sul parece estar imparável na sua ascenção de conquistar as art houses e cinemas independentes. Se o aclamado Old Boy deu a conhecer a nova vaga de cinema a sair da Coreia do Sul, foi com Failan, do realizador Hae-sung Song, um sucesso de bilheteira em França, que tudo começou.

A magnífica montagem narrativa, apanha-nos num turbilhão ao relatar o dia-a-dia de duas personagens antagónicas e que nunca se conhecerão mas que estão ligadas entre si devido a um casamento arranjado para que Failan (interpretada por Cecilia Cheung, uma das maiores divas do cinema de Hong Kong, e que não necessita de muitas introduções) fugir às contigências das leis de imigração coreanas, e para Kang-jae (interpretado por Min-sik Choi, o magnífico actor revelado ao público ocidental no já citado Old Boy) conseguir mais uns trocos, já que a sua actividade profissional (a de yakuza) já conheceu melhores dias, depois de uma curta estadia na prisão.

A narrativa de Failan poderia facilmente cair no dramatismo lacrimejante e na condenação de vários problemas sociais, mas a única coisa que o filme faz é relatar com fria e contida precisão a evolução desta possível história de amor, onde uma das personagens gera uma devoção absoluta e uma gratidão imensa por outra que quase nem sabe da existência desta, revelando um trabalho de realização muito seguro e duas interpretações aparentemente contidas, mas que conseguem transmitir algumas das mais primais emoções humanas ao espectador sem cairem na lamechice, algo nem sempre fácil em Cinema.

Failan deixa facilmente desarmado qualquer espectador com a ambiguidade de uma história de amor que deu dignidade a uma das suas personagens e uma redenção (embora tardia) a um dos mais interessantes anti-heróis da cinematografia oriental, agora que Kitano se parece ter 'reformado' das suas personagens existencialistas.

Recorrendo a uma moleta linguística odiosa, parece-me que Failan não deixará ninguém indiferente.

A Vendedora de Desejos

Yuuko Ichihara

Os mais atentos ao universo manga/anime decerto que já entenderam que o CLAMP, um dos mais singulares estúdios de comics japoneses, estão aos poucos-e-poucos a redefinir alguns do ícones populares nesta área através de sucessívos exitos editoriais, com Chobits (um dos mangas mais conhecidos na Europa) à cabeça. Desde logo a pegar culto com fogo na palha, a série xxxHolic (lê-se Holic), que foi antecedida pela série de livros e um longa metragem, está a aumentar (numerosamente) a legião de fans, muito devido à magnífica 'composição gráfica' de uma das personagens príncipais da série, a caprichosa Yūko Ichihara (ou Yuuko Ichihara), a nova heroína do universo anime, que parece já ter destronado uma das favoritas de sempre (refiro-me a Faye Valentine da série Cowboy Bebop) ou até Talho na mais recente Eureka 7.

Claro está que a série em si caí algumas vezes nos clichés normais do género onde se insere (a costumeira comédia para adolescentes com magia-negra-algo-pop e personagens de formas prodigiosas), mas o facto do grafismo da série 'repescar' algumas influências da Art Nouveau europeia e uma atitude 'Decadente' (o movimento artístico, não o substantivo) combinando-as com o grafismo do período Edo, muito reflectidas na composição desta personagem, não deixará de certo de espantar aqueles que ainda têm algumas das lições de História da Arte (secção primeira parte do século XX) na cabeça.

Yūko Ichihara, uma decadente (novamente do movimento artístico, não o substantivo) vamp feiticeira, dona de uma loja de desejos (!) que fez seu trabalhador em part-time um desgraçado adolescente que costuma ver diariamente fantasmas e outras excressências do 'mundo sobrenatural', costuma com regularidade apresentar-se vestida com um dos guarda roupas mais extraordinariamente retro-exóticos, reminiscências dos já citados movimentos artísticos europeus, alternado-os com os mais 'tradicionais' Kimonos, desenhados de uma forma magnificamente erótica, dando relevo exactamente às curvas que nunca são evidenciadas pelos kimonos reais, mas que estranhamente não deixa esta opção 'estética' cair naqueles clichés (infelizmente) populares no ocidente de gueixas de peitos generosos e kimonos 'descompostos'.

No seu todo XXXHolic parece estar já a anunciar o recente adicionar de novos estilos estéticos aos agora já banalizados pelo 'movimento' Gothic Lolita, redefinindo toda a 'fantasmagória' lançada nos últimos tempos nas artes gráficas (que já é notado estarem a aproximar-se a um revivalismo dos movimentos artísticos mais 'luciféricos' do século XX) e claro que a personagem de Yuuko Ichihara está já a revelar-se uma figura popular, não só entre adolescentes tarados e cosplayers, mas também a sólidos apreciadores das artes gráficas japonesas actuais.

Nottingham01: Polysics

polysics

O meu primeiro acto de cidadania aqui em Nottingham foi assistir ao concerto dos Polysics na quinta-feira à noite. Nunca me tinha dado conta que a banda tinha um culto tão vincadamente fanático por aqui até ao subirem pequenino palco do pequenino Stealth, um club pouco maior que o saudoso Johnny Guitar, para serem saudados como deuses do rock num gigantesco estádio de futebol.

A banda deixa de lado qualquer convenção cénica, que se esperava para uma banda que nasceu apenas para 'imitar' os Devo (embora uma das guitarras ainda tivesse escrita discretamente o nome da banda americana), e desanca com uma energia contagiante os cerca de 600 sortudos que estavam atentos o suficiente para conseguirem entrar. Com um inglês primitivo o front-man, que se mexeu com tal fúria que faria um esquizofrénico durante um ataque parecer quieto (e que nunca perdeu os óculos de 'soldador'), declarou logo que queria ver o Stealth a arder com o ardor dos fans, lá bebeu uma pint de um só golo em 20 segundos e ainda arriscou um stage diving que o fez ficar preso de pernas para o ar (mas sempre a tentar tocar) durante 2 minutos.

Macacadas á parte a banda consegue tirar um som ainda mais cativante ao vivo do que nos registos gravados (algo que me surpreendeu bastante) com uma secção ritmica por vezes a roçar o grind-core e uma guitarra selvagem (ainda sofro alguns efeitos secundários nos tímpanos) extremamente bem casada com os samples e sons pré-gravados, quando simultaneamente consegue cometer algumas proesas vocais e seguirem uma coreografia corporal por vezes estudada previamente, mas quase sempre selvagem.

Mas o mais impressionante neste concerto, para além da bela peça de merchandising que comprei, foi entender que (ainda) existem bandas que conseguem dar um concerto magnífico e ainda agradecem em palco o preço (mesmo que modesto como foi o caso) que toda a gente pagou para os poder ver. E com isto parece que não há mais nada a dizer

Introspecções e (Poucas) Mudanças

robinwood

Como os poucos leitores habituais poderão ter notado o BitL andou parado por umas semanas, fruto de uma (ou várias) mudança(s) e de uma 'introspecção técnica' e avaliação de objectivos. Tudo isto para decidir que este blog continua a existir, continuando a revelar as visões, audições e leituras, mas agora editado do centro de Nottingham, terra do Robin Wood e do Jon Burgerman, e de clubes, cinemas e lojas que são uma tentação aos sentidos e uma doença para os bolsos.

Na altura em que escrevo, ainda limitado pela espera que a instalação de broadband na nova casa se concretize finalmente, a cidade está a ser palco de uma das mais importantes mostras de Arte britânica, os clubes estão cheios de miudagem que vai ver finalmente as bandas que antigamente não passavam por aqui, devido as escolhas dos tour managers que preferiam conduzir as bandas para cidades como Glasglow ou Manchester logo após os concertos em Londres e de uma cena música local que pelo que percebi está agora a renascer depois de duas décadas de 'palha sonora' sem grandes consequencias. Simultaneamente consolida-se finalmente uma vibrante art scene, fortemente enraizada nas ruas, que está a levar o design gráfico e disciplinas associadas a novos horizontes e a gerar pequenos micro-cosmos de artistas que parecem não perder tempo à procura de apoios exteriores e que tentam à custa deles próprios realizarem as suas obras, algumas já com consagração ou em vias disso.

Claro que também existem as constantes sondagens que alertam para uma cada vez maior violência de rua e do aumentar do fosso entre os townies e uma grande parte da população que vive nos estates situados na períferia da cidade, isto tudo a acontecer simultaneamente com um maior número de imigrantes e estudantes estrangeiros que escolherem Nottigham para viverem permanentemente ou temporariamente. Perante tudo isto a cidade fervilha de actividade e os sentidos não têm descansado ao descobrir ou redescobrir o que é ser um habitante de Nottigham a tempo inteiro, tentando entender as vantagens e desvantagens de tal escolha.

Mas voltando ao assunto, e tentando concluir o que está no paragrafo anterior, o BitL poderá cair na tentação de se voltar cada vez mais para o físico em vez de se manter sentadinho calmamente no reino do virtual mundo imenso dos bits e bytes que servem de veiculo às obras relatadas por aqui. Talvez algo mude no BitL, tentando agora reflectir alguma da Street Scene de Notts, mas a essência será sempre a mesma, relatando as descobertas que vou fazendo devido ao fascínio pela cultura popular, seja ela Pop, Unpop, Retro ou Pomopop, com laivos de pretenção ou essência simplista, fútil e vulgar ou fundamental e urgente.
Divirtam-se!