Segunda-feira, Abril 17, 2006

Descer em Espirais

uzumaki

Depois deste boom no ocidente do já chamado Novo Cinema de Terror japonês, devido sobretudo aos milhentos remakes Made in Hollywood, (que tenta desesperadamente salvar um género que nos grandes estúdios parece já condenado à mais de 20 anos) e através de chorudos acordos de distribuição, nota-se cada vez mais um afluente de produtos 'fora do prazo', de forma a tentar fazer uns easy bucks a conta da rapaziada que anda ainda com a cabeça às voltas com o The Ring e excressências semelhantes. Agora com o filão aparentemente a chegar ao fim (embora grande êxitos da bilheteira nipónica com a série Tommie ou outros filmes teen horror ainda não tenham chegado cá), lá chegou via States Uzumaki (2000), o filme estreia do estranho Higuchinsky, realizador do satírico e trashy Tokyo Eleven (que dá para entender ser um spoof do filme dos outros '11' que assaltaram uns cofres em Las Vegas). Pelos vistos, Higuchinsky jurava entregar aos espectadores o 'céu e o inferno' com um trailer cheio de efeitos especiais faíscantes e uma história cheia de espirais 'timburtianas' envolvidas em delírios muito semelhantes aos constantemente invocados pela literatura de PH Lovecraft.

Mas quem muito jura pouco cumpre, Uzumaki, uma adaptação de um manga (que desconheço completamente), parece ter sido escrito algo à pressa, revelando alguma megalomania que foi sendo deitada fora de forma a conseguir acabar um projecto onde essa mesma megalomania ficaria muito bem se cumprida, e realizado com muito sono e alguma pressa de ir para casa jantar. Por um lado o filme tenta seduzir os espectadores com algumas imagens surreais recheadas de efeitos especiais até certo ponto catitas, mas infelizmente que geram sempre um amargo sentimento de que 'já vi isto em algum lado', resgatando uns clichés quer do cinema local quer do que se andou a fazer de novo no cinema independente europeu do género, tudo bem triturado numa linguagem videoclip que, como já se notou, usada da forma 'errada', deixa-nos extasiados visualmente mas com frustações narrativas insuportáveis.

Com uma história relativamente 'normal' para um produto destes (a constante 'pequena cidade amaldiçoada onde toda a gente começa a ficar louca, excepto uns quantos que têm que se tentar salvar sem cairem em tentação'), Uzumaki consegue muito bem manipular os sentidos dos espectadores, dando-nos até certo ponto um relato carregado das influências oníricas e 'malvadas' de HP Lovecraft nos estranhos acontecimentos passados ao longo da primeira parte do filme, mostrando as obsessões (neste caso por todo o tipo de objectos com espirais) de uma forma magnífica.

O problema aqui é que a expectativa gerada começa a cair mais depressa do que a forma como algumas personagens secundárias, que poderiam ser preciosas 'chaves' narrativas, desaparecem para dar lugar a vazios na história que aparentemente não deveriam existir. E claro está o final do filme reflecte esse pouco cuidado, quando muito ainda poderia ser revelado numa narrativa cheia de potenciais surpresas, e que infelizmente não acontecem, caindo-se naquele limbo cinematográfico irritante de tentar rematar o filme com uns stills que duram uns 2 minutos, para contar algo que poderia ser revelado em 20 minutos que poderiam salvar o filme da miséria.

Não quero de forma alguma afirmar com isto que Uzumaki é um desperdício de fita e que não deve ser visto. De facto o filme consegue deixar entender que existe vida para além do gore intenso ou de personagens descabeladas com caras torcidas no cinema fantástico nipónico (algo que de resto também é de certa forma usado neste singular filme), podendo ser visto quase como uma experiência que poderá indicar novos valores no actual panorama do cinema fantástico.

Claro que apenas o tempo dirá se Uzumaki será o primeiro filme de algum novo emergente sub-género, sobretudo no uso de recursos semelhantes à anime e na imagética neo-gótica reciclada que parece querer apelar. Resta apenas esperar por produtos semelhantes, mas que consigam reflectir de forma concretizada algumas das novas ideias que Uzumaki parece ir buscar, mas que não consegue concretizar, de forma a existir alguma renovação no género.

Quarta-feira, Abril 05, 2006

Witness The Pitness!


O meu networking profissional por vezes surpreende-me na forma em que muitas coisas extra-trabalho me são reveladas. Ando à já alguns anos a ouvir falar num estranho personagem chamado MC Pitman, que segundo parece foi criado por um insider da cena hip hop britanica e que segundo consta mora algures nos subúrbios de Nottingham.

Há algumas semanas, como já disse através de contactos profissionais, fizeram-me chegar às mãos a primeira obra deste crítico feroz do actual estado da cena hip hop, que se mascara por detrás da personagem fictícia de um ex-mineiro rústico com um pendor hilariantemente desbocado para dizer mal do ambiente geral que se vive na Grã-Bretanha, usando fórmulas da então recentemente criada chav culture (que Pitman também não poupa, embora de certa forma lhe vá tirando o chapéu constantemente), tão celebrizada mundialmente pelo posterior sucesso de Little Britain.

MC Pitman poderia quase ser definido como uma espécie de Manuel João Vieira do hip hop britânico se este último fosse uma personagem fictícia (o que de certa forma até é), reciclando o que de mais verdadeiro existe na cultura popular inglesa para depois fazer uma crítica profunda, 'olhando as vistas' através da janela do humor porco e surreal.

Debitando rimas com um cerrado sotaque das midlands inglesas sobrepostas a beats e harmonias que têm tanto de sarcástico como de engenhoso na forma como reciclam os estereotipos do hip hop actual e inaltecem a old school americana, MC Pitman consegue criar um saudável e hilariante exercicio de britishness em It Takes a Nation of Tossers (2003), é uma das maiores cuspidelas na sopa do hip-hop britânico, ridicularizando de uma forma incondicional o muito (e na esmagadora maioria mau) hip-hop feito no Reino Unido, mais interessando em rebuscar clichés vomitados com pronúncia dos States em vez de criar algo realmente 'local'.

É óbvio que desde a edição em 2003 de "It Takes..." muita coisa mudou no género e desde essa altura apareceram muitos nichos interessante do hip hop britânico, com Skinny Man à cabeça e algumas aventuras 'inter-etnicas' que conseguiram (finalmente) recriar o hip hip para consumo interno, abordando o género com uma britishness que tem vindo a ser pedida de forma clara pelos fans mais interessados e aversos a devaneios comerciais. Mas mesmo assim este album ainda hoje revela algum do estado algo deprimente do género, basta pensar nos 'burgueses-a-fingir-que-são-gajos-interessados pelas questões actuais e que são conhecedores de fundo do hip hop' como Mike Skinner (AKA The Streets), que agora tem um album acabadinho de sair.

E se MC Pitman não poupa nas suas rimas hilariantes e pseudo-parolas muitos dos actuais protagonistas da cultura pop, os seus beats elogiam a Old School, parecendo adivinhar uma atitude interessante (no meu ponto de vista pessoal, está claro) de achar que o hip hip actual é caca se comparado com o que fizeram os Run DMC (que foram uma clara influência para "It Takes...") ou os Public Enemy (o título deste album é um claro trocadilho a "It Takes a Nation of Millions to Hold Us Back", mas revelando que existem tossers a mais a fazer lixo no reino de sua majestade).

It Takes a Nation of Tossers é claramente um album recomendado aqueles que gostam de hip hop e que possam estar interessados em tentar encontrar pista sobre o que é que poderá ser algo genuíno, mesmo que este produto seja claramente uma brincadeira, e verdadeiro no hip hip made in Britain. Avisa-se desde já que é necessário algum conhecimento da cultura pop inglesa para serem arrancadas umas valentes gargalhadas.