
Depois deste boom no ocidente do já chamado Novo Cinema de Terror japonês, devido sobretudo aos milhentos remakes Made in Hollywood, (que tenta desesperadamente salvar um género que nos grandes estúdios parece já condenado à mais de 20 anos) e através de chorudos acordos de distribuição, nota-se cada vez mais um afluente de produtos 'fora do prazo', de forma a tentar fazer uns easy bucks a conta da rapaziada que anda ainda com a cabeça às voltas com o The Ring e excressências semelhantes. Agora com o filão aparentemente a chegar ao fim (embora grande êxitos da bilheteira nipónica com a série Tommie ou outros filmes teen horror ainda não tenham chegado cá), lá chegou via States Uzumaki (2000), o filme estreia do estranho Higuchinsky, realizador do satírico e trashy Tokyo Eleven (que dá para entender ser um spoof do filme dos outros '11' que assaltaram uns cofres em Las Vegas). Pelos vistos, Higuchinsky jurava entregar aos espectadores o 'céu e o inferno' com um trailer cheio de efeitos especiais faíscantes e uma história cheia de espirais 'timburtianas' envolvidas em delírios muito semelhantes aos constantemente invocados pela literatura de PH Lovecraft.
Mas quem muito jura pouco cumpre, Uzumaki, uma adaptação de um manga (que desconheço completamente), parece ter sido escrito algo à pressa, revelando alguma megalomania que foi sendo deitada fora de forma a conseguir acabar um projecto onde essa mesma megalomania ficaria muito bem se cumprida, e realizado com muito sono e alguma pressa de ir para casa jantar. Por um lado o filme tenta seduzir os espectadores com algumas imagens surreais recheadas de efeitos especiais até certo ponto catitas, mas infelizmente que geram sempre um amargo sentimento de que 'já vi isto em algum lado', resgatando uns clichés quer do cinema local quer do que se andou a fazer de novo no cinema independente europeu do género, tudo bem triturado numa linguagem videoclip que, como já se notou, usada da forma 'errada', deixa-nos extasiados visualmente mas com frustações narrativas insuportáveis.
Com uma história relativamente 'normal' para um produto destes (a constante 'pequena cidade amaldiçoada onde toda a gente começa a ficar louca, excepto uns quantos que têm que se tentar salvar sem cairem em tentação'), Uzumaki consegue muito bem manipular os sentidos dos espectadores, dando-nos até certo ponto um relato carregado das influências oníricas e 'malvadas' de HP Lovecraft nos estranhos acontecimentos passados ao longo da primeira parte do filme, mostrando as obsessões (neste caso por todo o tipo de objectos com espirais) de uma forma magnífica.
O problema aqui é que a expectativa gerada começa a cair mais depressa do que a forma como algumas personagens secundárias, que poderiam ser preciosas 'chaves' narrativas, desaparecem para dar lugar a vazios na história que aparentemente não deveriam existir. E claro está o final do filme reflecte esse pouco cuidado, quando muito ainda poderia ser revelado numa narrativa cheia de potenciais surpresas, e que infelizmente não acontecem, caindo-se naquele limbo cinematográfico irritante de tentar rematar o filme com uns stills que duram uns 2 minutos, para contar algo que poderia ser revelado em 20 minutos que poderiam salvar o filme da miséria.
Não quero de forma alguma afirmar com isto que Uzumaki é um desperdício de fita e que não deve ser visto. De facto o filme consegue deixar entender que existe vida para além do gore intenso ou de personagens descabeladas com caras torcidas no cinema fantástico nipónico (algo que de resto também é de certa forma usado neste singular filme), podendo ser visto quase como uma experiência que poderá indicar novos valores no actual panorama do cinema fantástico.
Claro que apenas o tempo dirá se Uzumaki será o primeiro filme de algum novo emergente sub-género, sobretudo no uso de recursos semelhantes à anime e na imagética neo-gótica reciclada que parece querer apelar. Resta apenas esperar por produtos semelhantes, mas que consigam reflectir de forma concretizada algumas das novas ideias que Uzumaki parece ir buscar, mas que não consegue concretizar, de forma a existir alguma renovação no género.

